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Mito de Ifigênia

No documento Edevilson de Godoy.pdf (páginas 38-41)

Para compreendemos melhor a tese girardiana, vejamos o mito de Ifigênia. Trata-se do assassinato da filha praticado pela autoridade, que é ao mesmo tempo, rei grego e pai de Ifigênia. Ela é filha de Agamemnão, rei grego, e de sua esposa Clitemnestra. Agamemnão é

39 GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004. p. 34. 40 Ibidem. p. 35.

comandante do exército grego, que se reuniu em Áulide para a conquista de Tróia. Não obstante, produziu-se uma calmaria tão grande que o exército não podia partir. Ao consultar os deuses sobre aquela situação, a deusa Minerva (ou Diana) orientou que somente o sacrifício de Ifigênia, poderia apaziguar sua fúria. Agamemnão, escondido de sua esposa Clitemnestra, conduz a filha à Áulide, onde a sacrifica como oferenda a deusa Minerva. Realizado o sacrifício, o vento volta, o exército parte para a guerra e conquista Tróia. O sacrifício de Ifigênia interpreta o lugar que ocupa o sacrifício humano na tradição greco- romana e em toda a cultura ocidental. Em A “Orestíade” de Esquilo a mais antiga das tragédias sobre, Ifigênia, esse sacrifício é apresentado como um assassinato violento. Ifigênia grita como um animal que é conduzido ao matadouro:

Invocando aos deuses, e o próprio pai aos ministros manda que, em sua túnica envolta, sobre o altar, como uma cabritinha, a donzela desfalecida de terror, levante, e que nos belos lábios da virgem com a forte prisão de uma mordaça, maldição que vão lançar detenham [...] Mas ela na terra o purpurino véu deixa cair, e de seus olhos ferve dardo de compaixão a seus verdugos 42.

Trata-se de uma cena extremamente violenta, onde os sacrificadores são carniceiros verdugos e Ifigênia uma inocente que rechaça a morte de todas as formas que pode. Ésquilo retrata também a situação de Agamemnão, enquanto destino trágico de um pai que tem que sacrificar sua filha, sem nenhuma outra saída. Para Ésquilo, Agamemnão não é criminoso, mas um herói trágico que não tem outra saída senão a do sacrifício. O mito vai se desenvolvendo ao longo do tempo, pouco a pouco Ifigênia vai se transformando, de selvagem e furiosa que maldiz seus verdugos, numa vítima civilizada, até que em Goethe torna-se uma sacerdotisa redentora do mundo que aceita pacificamente sua morte sacrifical.

Os gregos querem conquistar Tróia e Agamemnão é o comandante; devem renunciar à conquista e à destruição de Tróia para não sacrificar Ifigênia? O bem comum não está acima do interesse pessoal. Ésquilo argumenta que se os homens se matam no campo de batalha, qual o problema de sacrificar uma mulher no altar para fazer a vontade divina (deusa Diana) 43.

Mãe escuta-me: vejo que te indignas em vão contra teu esposo [...] mas tu deves evitar as acusações do exército [...] minha morte está resolvida, e quero que seja gloriosa despojada de toda ignóbil fraqueza [...] a Grécia inteira tem os olhos voltados para mim, e em minhas mãos está; que naveguem os navios e seja destruída a cidade dos frígios [...] Tudo remediará minha morte, e minha glória será imaculada, por ter liberado a Grécia. Nem devo amar demais a vida que me deste para o bem de todos, não só para o teu. Muitos armados de escudo, muitos

42 ÉSQUILO. La orestiada. Buenos Aires-México: Espasa, 1951. pp. 15-16.

43 Cf. HINKELAMMERT, Franz J. Sacrifícios humanos e sociedade ocidental: Lúcifer e a Besta. São Paulo:

remadores vingadores da ofensa feita à sua pátria farão memoráveis façanhas contra seus inimigos, e morrerão por ela. E só eu vou me opor? Acaso é justo? Podemos resistir-lhe? Um só homem é mais digno de ver a luz do que infinitas mulheres. E se Diana pede a minha vida, me oporei, simples mortal, aos desejos de uma deusa? Não pode ser. Dou, pois, a minha vida nos altares da Grécia. Matai-me, pois, e devastai Tróia. Eis o monumento que me recordará por longo tempo esses meus filhos, essas minhas bodas, toda essa minha glória. Mãe, os gregos hão de dominar os bárbaros, e não os bárbaros os gregos, pois uns são escravos e outros livres 44.

Na Ifigênia de Eurípides, é a mãe Clitemnestra, a intolerante raivosa, que amaldiçoa os sacrificadores. Aqui, Ifigênia quer ser sacrificada e enfrenta a mãe. Agora o inimigo não é o pai como em Ésquilo, mas a mãe que não aceita o sacrifício. Eurípedes a vê como louca, egoísta e viciada, incapaz de entender o sentido do sacrifício. Depois do regresso de Agamemnão de Tróia, ela o mata para vingar a morte da filha. Ela própria afirma que encontrou um amante para vingar-se do marido. Agamemnão é um herói trágico que entregou a própria filha para atender ao pedido da deusa Minerva e conquistar Tróia. Após o sacrifício da filha não lhe resta outra possibilidade senão a conquista de Tróia. Se não vencer a guerra morrerá, se regressar derrotado será um mero assassino de crianças. Para que o sacrifício de Ifigênia tenha sentido, precisa vencer. Agamemnão não lutava apenas pela vitória contra Tróia, mas fundamentalmente pelo sentido do sacrifício de sua filha; transforma a guerra da conquista numa questão de sentido, a vitória comprova que sua morte foi verdadeiramente sacrifício e não assassinato e que a deusa Minerva existe.

Eurípedes termina sua tragédia Ifigênia em Áulide com uma suposição: Minerva sequestra Ifigênia sem que Agamemnão perceba e coloca no seu lugar um animal para ser sacrificado. Para a deusa era necessária a disposição do pai em sacrificar a própria filha para atender seu pedido. Minerva leva Ifigênia para uma ilha selvagem dos tauros, onde será sacerdotisa de Minerva. Sua função como sacerdotisa era sacrificar a Minerva todos os estrangeiros e, particularmente os gregos, que naufragam na costa do país. No final sacrifica os gregos que a sacrificaram e condena a atitude do próprio pai que lhe deu em sacrifício.

Ocorre o naufrágio de seu irmão Orestes, que assassinou sua mãe Clitemnestra para vingar o assassinato do pai. Depois que os irmãos se reconhecem, Orestes pede ajuda a Ifigênia. Novamente, ela manifesta sua disposição de sacrificar-se a si mesma: “Mas de nada

fugirei para salvar-te, nem sequer à morte. Muita falta faz para a família o homem que morre; mas a mulher vale pouco” 45. Foge para o barco da irmã, uma tempestade impede a saída, o rei dos tauros aparece para aprisioná-los e sacrificá-los. Novamente Ifigênia é vítima

44 EURÍPEDES. Ifigenia en Aulide. In: Obras Dramáticas de Eurípedes. Madrid: Librería de los Sucessores de

Hernando, 1909. pp. 276-277.

diante do sacrificador, outra vez, aparece Minerva para salvá-la. A deusa obriga o rei permitir sua partida e proíbe o sacrifício humano na Grécia 46.

Notamos no mito de Ifigênia, o longo processo de descoberta e superação da mentalidade sacrifical. A Ifigênia primitiva é violenta e agressiva, enquanto a Ifigênia moderna dá a vida pelo bem comum. Essa perspectiva que René Girard chama atenção: há na história do mundo um caminho de superação da violência coletiva contra uma vítima inocente. Cristo, no evento da cruz, desmascarou completamente a perversidade dessa lógica demoníaca que focaliza a violência de todos contra um inocente. Entretanto, no mundo contemporâneo, nas relações humanas da pós-modernidade, a mentalidade sacrifical permanece como que um gato de sete fôlegos, encalacrada no coração dos homens e mulheres do nosso tempo. Na maioria das vezes, descarregamos nossa violência sobre o próximo, escondendo-nos atrás de Deus, ou seja, perseguimos vítimas inocentes afirmando estar fazendo a vontade de Deus.

No documento Edevilson de Godoy.pdf (páginas 38-41)