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III. ABORDAGEM SUBSTANTIVA

III.5 Mobile Banking

III.5.3 Finanças Inclusivas e Mobile Banking

O conceito de finanças inclusivas está intimamente relacionado ao de microfinanças: são os serviços financeiros que visam a atender pessoas geralmente pobres e excluídas dos sistemas financeiros tradicionais e formais existentes nas regiões em que vivem. “Financial services for poor people have proven to be a powerful instrument for reducing poverty, enabling them to build assets, increase incomes, and reduce their vulnerability to economic stress.” (CGAP, 2010).

Microfinance offers poor people access to basic financial services such as loans, savings, money transfer services and microinsurance. People living in poverty, like everyone else, need a diverse range of financial services to run their businesses, build assets, smooth consumption, and manage risks. [..]Traditionally, banks have not considered poor people to be a viable market. (CGAP, 2010).

Diversas são as formas e iniciativas para promoção de inclusão financeira e/ou bancária no mundo. No contexto específico deste trabalho, destaca-se a pertinência do uso de tecnologias e serviços de mobilidade digital para a promoção dessas

iniciativas que levem a uma maior inclusão digital, financeira, bancária, social e/ou econômica, em um conceito atualmente denominado “mobile banking inclusivo”. Alguns serviços de cunho bancário podem ser oferecidos via canais móveis para populações não bancarizadas, conforme comentado anteriormente, dentre os quais se poderia destacar: remessas de dinheiro (inclusive internacionais), micro-crédito, micro-seguros, poupança, pagamentos móveis e/ou remotos, aquisição de créditos de telefonia celular (air time), recebimento de salário (remuneração pelo trabalho, mesmo que informal), entre outros.

Remittances and money transfers are used by many poor people as a safe way to send money home. Banking through mobile phones (mobile banking) makes financial services even more convenient, and safer, and enables greater outreach to more people living in isolated areas. (CGAP, 2010).

Existe atualmente uma ampla rede de instituições, organizações, pesquisadores, analistas e empreendedores que fomenta conhecimentos, políticas e ações práticas em prol da redução da pobreza mundial através das finanças inclusivas. Destacam- se algumas organizações e iniciativas supranacionais que de alguma forma também contribuem para a promoção do fenômeno de Mobile Banking inclusivo: o Consultative Group to Assist the Poor (CGAP), o Information for Development Program (infoDev), o Banco Interamericano de Desarrollo (BID), o próprio Banco Mundial, a Fundação Bill & Melinda Gates, a Fundação Ford, entre diversas outras. Tais organizações, assim como outras de cunho governamental, foram importantes fontes de informação para a realização deste trabalho.

Enríquez et alii (2009), em um estudo sobre as oportunidades e barreiras para o desenvolvimento dos serviços financeiros através de tecnologias móveis na América Latina, discutem os elementos mais importantes para o estabelecimento e o desenvolvimento de sistemas financeiros móveis (SFM) sustentáveis, conforme sintetizado na Figura 36 a seguir.

Em tal estudo, os autores avaliam detalhadamente os condicionantes regulatórios, técnicos, de mercado (oferta e demanda) e também as especificidades de alguns países da América Latina e Caribe, a saber: Bolívia, Brasil, Equador, México, Peru e República Dominicana.

Figura 36 - Ecossistema para desenvolvimento de sistemas financeiros móveis Fonte: ENRÍQUEZ et alii, 2009, pág. 12.

Concluem que, em função do baixo nível de acesso a serviços financeiros formais, conforme se pode verificar na Figura 37 a seguir, associado à alta penetração, capilaridade e densidade das tecnologias e serviços móveis, os países da região oferecem pré-condições propícias para o surgimento e o desenvolvimento de iniciativas e Mobile Banking inclusivo.

Figura 37 - População com acesso a serviços financeiros formais na América Latina Fonte: ENRÍQUEZ et alii, 2009, pág. 13.

Segundo as estimativas do Fórum Econômico Mundial, no Brasil a economia informal alcançaria um nível próximo de 42%, que seria similar aos 43% verificado na Colômbia e estaria acima da média latino-americana, estimada em 38%. (ENRÍQUEZ et alii, 2009, p. 24).

Alba et alii (2009) distinguem duas dimensões classificatórias mais relevantes para se entender os distintos tipos de serviços financeiros móveis, bem como suas implicações regulatórias e de mercado: o poder de transformação (modelos aditivos ou transformacionais) e a estrutura da conta (modelos baseados em contas bancárias ou em outros repositórios de valor).

Figura 38 - Exemplos tipificados de serviços financeiros móveis Fonte: ALBA et alii, 2009, pág. 13.

A Figura 38 tipifica e relaciona algumas iniciativas de sucesso relacionadas a serviços de Mobile Banking inclusivos, considerando estas duas dimensões classificatórias.

Los modelos aditivos incorporan el teléfono móvil como un canal añadido a la oferta de distribución de las entidades financieras (oficinas, cajeros automáticos, banca online, etc.) y están diseñados para ofrecer mayor conveniencia a clientes de la banca tradicional,pero no para atraer a nuevos usuarios de la base de la pirámide [...]. El enfoque de los modelos transformacionales es diferente, ya que tratan de aprovechar la gran penetración y alcance del teléfono móvil para ofrecer productos financieros a población previamente no atendida. De cara a la inclusión financiera, los modelos más interesantes son, por lo tanto, los transformacionales. (ENRÍQUEZ et alii, 2009, pág. 08).

Apesar da grande pertinência dos serviços financeiros móveis para a promoção do desenvolvimento econômico e social, verificou-se que, no Brasil, as iniciativas de

Mobile Banking e de correspondentes bancários estavam bastante focadas no modelo aditivo, com algumas exceções. Os principais bancos nacionais de varejo já oferecem tais serviços financeiros móveis, contudo tendo-se em vista a emergência de “mais um canal” para relacionamento bancário.

Aunque en Brasil operan varias entidades con esquemas de corresponsales no bancarios para atender a población sin acceso a servicios financieros formales, la mayor parte de las iniciativas que emplean el teléfono celular para prestar servicios financieros están dirigidas a los actuales clientes de las entidades bancarias. Los principales bancos del país ya ofrecen este tipo de servicios [...] En Brasil el teléfono móvil puede ser una herramienta muy poderosa para extender el acceso a los servicios financieros, y su complementariedad con los esquemas de banca sin sucursales (a través de CNB) es muy positiva. (ENRÍQUEZ et alii, 2009, pág. 28-29).

Por outro lado, começa-se a verificar na sociedade algumas movimentações no sentido de empregar tais canais bancários móveis para fins transformacionais, como é o caso de recentes estudos do Ministério do Desenvolvimento Social18 para a utilização de serviços de telecomunicações móveis para pagamento de benefícios governamentais às populações de baixa renda.

Conceitos, modelos e práticas advindos das finanças inclusivas, em particular aqueles relacionados ao fenômeno de Mobile Banking e a casos de sucesso documentados em outros países, foram especialmente articulados neste trabalho quando da elaboração dos “cenários alternativos de referência”, conforme apresentado e discutido nas abordagens conceitual e metodológica. Alguns destes casos de sucesso serão relacionados e detalhados a seguir.