4.2. A Análise Multifocal aplicada à CFL-MCCE no FB
4.2.2 Fios Comunicativos
A correlação entre o predomínio do tipo de função comunicativa na mobilização social em cada uma das fases do movimento nos auxilia a compreender como e em que direção os públicos se movimentam comunicativamente para a consecução dos objetivos de campanha.
No Gráfico 3 (página anterior), estão representados os três ―fios comunicativos que costuram‖, de maneira ondulatória, as interações dos públicos de acordo com as funções típicas assumidas pela Comunicação em processos de mobilização social. Como pontuado anteriormente, especificamente para a classificação realizada sob o ponto de vista da função comunicativa, foram considerados 574 posts, sendo ignorados, portanto, 12 posts referentes a ―atividades recentes‖, uma espécie de alerta automático publicado na seção mural e que, em geral, remete ao uso interno da plataforma FB pelos membros. Funciona como uma espécie de
feed de notícias sobre o que tem sido feito pelas pessoas do MCCE na plataforma FB, em outros espaços como fóruns de discussão, externos à seção mural, de onde os 586 posts foram extraídos. Ver exemplo a seguir.
386. ATIVIDADE RECENTE
Michèlle Pereira discutiu o tópico SÓ PARA NÓS? no quadro de discussões de Campanha Ficha Limpa do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. .Michèlle Pereira discutiu o tópico Como acelerar a coleta de assinaturas no quadro de discussões de Campanha Ficha Limpa do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
A exclusão dos 12 posts para essa categoria não impacta nas análises, pelo numérico pouco expressivo de tais ―atividades recentes‖, bem como pela distribuição uniforme dos posts ao longo das fases de mobilização.
Nos primeiros meses da CFL-MCCE, a função de Convocação e Identificação (CI) está presente em mais da metade dos posts. Essa informação já era de se esperar, uma vez que se trata de uma fase de incentivo à adesão ao movimento, e não propriamente da construção do engajamento cívico por meio de laços sociais fortes. As petições e abaixo-assinados, como vimos, são importantes táticas do processo de primeira hora, em que muitos são ―recrutados‖ a participar, mesmo que a palavra recrutamento remeta a algo militar ou massivo.
As demais funções, Motivação e Animação (MA) e Fomento ao Debate Público (FD) aparecem em segundo e terceiro lugar no início da primeira fase, respectivamente. À
medida que o movimento avança, ambas passam a crescer; FD tem rápida ascensão, enquanto MA sobe mais lentamente. Na fase da Adesão Absoluta, CI e FD predominam, sendo que FD ultrapassa numericamente CI. Esse movimento espelha a menor necessidade de convocação dos públicos, enquanto proliferam entre os usuários questionamentos, depoimentos, perguntas, pequenos debates, enfim, problematizações típicas de movimentos emancipadores, o que alimenta as possibilidades de engajamento cívico.
Interessante perceber que, após o ápice numérico de participação em posts (mais de 250 posts em quatro meses), tem início o declínio de CI e FD, rumo à terceira fase, a dos Atos Públicos. Todavia, MA ascende continuamente e passa a predominar nesta nova fase, respondendo agora, como respondeu CI na primeira fase, por quase 50% dos posts. Nessa fase predominam comunicações estimuladoras e reforçadoras de iniciativas de mobilização, garantindo-lhes o passaporte da continuidade na vinculação dos públicos e com o movimento. Ganha força a dimensão offline da mobilização e das interações. Os participantes passam a buscar visibilidade nas ruas, em eventos presenciais. A plataforma FB, nessa fase, cumpre muito mais o papel de um meio de articulação híbrida, favorecendo interações face a face, que de discussão de ideias ou apresentação de novas ações. Com o arrefecimento numérico, os usuários também passam a postar menos, e a atualização torna-se menos frequente. Pode-se dizer, nesse ponto, que há certa acomodação dos membros ao ritmo da mobilização online. São contabilizados quatro meses desde o início da comunidade, ou seja, um terço do período analisado.
Adiante, o que se percebe é o forte declínio numérico das participações, o que leva à estabilização dos números de posts em torno de 25 por função e ao equilíbrio da presença das próprias funções comunicativas dentro da fase. Esta é a da ―vigília pública‖, em que o monitoramento do passo a passo do Projeto é mais chamativo que assinaturas, entrevistas, artigos, debates, já que o dever de casa (a ida às ruas, a ampla exposição pública) tomou corpo. Por isso, os públicos passam a utilizar o FB muito mais para vigiar os movimentos do Congresso, por exemplo, que para proposição de novas alternativas de ação ao movimento. Numericamente, há um ―empate técnico‖ entre as funções. A Vigília Pública termina onde se completam os dois terços do período investigado.
Após um ―hiato‖ do movimento, no qual MA atinge o seu menor volume de posts, o crescimento numérico é retomado. A fase da ―reproblematização‖ produz, no último mês, uma pequena elevação do FD e de MA, consolidando o primeiro ano de comunidade, seu primeiro grande ciclo de mobilização. Acreditamos que os fios comunicativos, após junho de 2010, ganharam fôlego, renovaram as construções simbólicas que favorecem a retomada das
bases de um movimento por parte dos cidadãos. Mas isso já fugiria do período de análise desse trabalho.
Em suma, o Gráfico 3 nos mostra que a movimentação de públicos na mobilização obedece a movimentos distribuídos por ondas comunicativas, onde o engajamento e a participação, ora maior, ora menor, seguem os pulsos sociais ligados à comunidade.
Quando a análise é feita sem tomar como referência as fases de mobilização, o cômputo geral dos posts distribuídos em todo o período compreendido entre os meses de junho dos anos de 2009 e 2010, revela o equilíbrio das três funções (ver Gráfico 4).
Gráfico 4 - Composição das funções comunicativas na CFL-MCCE no FB
Motivação e Animação; 179; 31% Convocação e Identificação; 198; 35% Fomento ao Debate; 197; 34% A leitura conjunta dos Gráficos 3 e 4 permite concluir que, a coletivização de uma causa, no contexto da CFL-MCCE na plataforma FB, vale-se do uso equilibrado das três funções comunicativas (CI, MA e FD), embora essas possam variar em intensidade, de acordo com a fase de mobilização e a onda comunicativa. Ao modo de um tripé, tais funções são interdependentes e não-excludentes; elas apenas preponderam umas sobre as outras, segundo o contexto de mobilização em foco.