A Comunicação está imbricada aos processos mobilizadores; esse binômio nos oferece uma perspectiva ampliada do conceito de mobilização social, já que toda e qualquer ação mobilizadora pressupõe uma ação comunicativa. Não se quer, com isso, submeter um
conceito ao outro, condicionando-os. Entretanto, fenomenologicamente, mobilizar e comunicar ocorrem em conjunto; assim como Dédalo vive e se projeta em Minos, que lhe oferece o desafio de construir o labirinto insondável que a ambos imortalizou. Se, em grande medida, os movimentos e projetos de mobilização buscam primordialmente a adesão, a permanência, o engajamento, a participação, em síntese, a vinculação de sujeitos em prol de uma causa, quanto mais forte for o vínculo do cidadão com a proposta, mais comunicativo-comunicante tal relação será.
Nesse contexto, a interação é condição sine qua non para a mobilização.Partimos da premissa de que a condução de um diálogo entre atores, públicos, coletivos, grupos ou mesmo indivíduos se dá com base nos mecanismos comunicativos que aprendemos desde a infância a dominar, no bojo na vida social. Por meio do diálogo, seus atos de escuta e fala, forjamos o que somos como sujeitos e inscrevemos nossa relação com o meio, a partir de conexões reticulares recursivas e auto-geradoras (CAPRA, 2005).
Atravessa-nos um espécie de fio condutor compartilhado, resultado da cultura e suas produções coletivas, que se movem entre crenças, valores, discursos e ações da vida cotidiana.
As múltiplas vozes, em particular nas democracias, são conectadas por uma espécie de consciência coletiva nos faz pertencer a uma dada realidade e, reconhecendo-nos a nós mesmos, agir em unidades de sentido comum, as comunidades. Isso é a base do que entendemos sobre vinculação, conforme discorreremos adiante.
No entanto, sendo a Comunicação para mobilização social uma prática que procura gerar nos próprios geradores dos movimentos sociais a capacidade de inserir suas mensagens nos contextos globais de informação, consequentemente são criados – e fortalecidos – vínculos entre aqueles e os projetos, movimentos, organizações.
A comunicação para mobilização, tendo este caráter dialógico, é também libertadora, já que não tenta invadir ou manipular o outro, reduzindo-o a mero objeto ou recipiente, mas tenta com o outro, problematizar um conhecimento sobre uma realidade, explicá-la e transformá-la. (HENRIQUES et al., 2004, p.27).
Para que isso ocorra, podem ser utilizadas estratégias de comunicação que permitam a livre participação, apontando para mudança de valores e comportamentos. Ainda Henriques et al. (2004) destacam a manutenção da motivação e o interesse dos envolvidos no movimento social no sentido de gerar e preservar vínculos desses com a causa do projeto. Nisso se reconhece, claramente, a função vinculatória da Comunicação.
Já no que tange à função coletivizadora da Comunicação, Henriques (2010, p. 97 a 99) aponta como principais condições de coletivização para a formação e manutenção de um grupo mobilizado: (1) concretude: os públicos reconhecem afetação direta em suas vidas por problemática que, concreta, pode ser claramente identificada no cotidiano; (2) caráter público: onde reside a pedra angular da coletivização, já que os sujeitos compreendem a questão como não particularizada, mas por sua convergência sobre muitos; observam que o problema de um é, na verdade, problema de todos; (3) viabilidade: por meio desta condição os públicos compreendem que há possibilidade de mudança da situação para melhor, apesar das dificuldades ou do tempo que se exija; (4) sentido amplo: há o debate de visões e discursos múltiplos a respeito do problema em comum, constituindo um exercício democrático que aponta para valores mais amplos e para o compartilhamento de um imaginário que ―se torna fundamental para convocar outros sujeitos a participar da mobilização e manter a motivação dos grupos em torno da causa‖, e que facilita a viabilidade de acordos.
Segundo Toro e Werneck (2004, p. 13), ―mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados‖. Todavia, partindo de uma visão mais plural, parece-nos mais adequado dizer que mobilização se constrói na busca de propósitos comuns, sob interpretações e sentidos compartilhados.
Henriques et tal. (2004, p. 36) partem desse conceito e o ampliam ao conceituar a mobilização como ―a reunião de sujeitos que definem objetivos e compartilham sentimentos, conhecimentos e responsabilidades para a transformação de uma dada realidade, movidos por um acordo em relação a determinada causa de interesse público.‖ Nessa definição está evidente o protagonismo da questão do interesse público, o que reforça uma perspectiva democrática para o conceito; dele também é possível depreender que, por seu foco na relação, a mobilização seja compreendida como um processo ou fenômeno essencialmente comunicativo.
Com isso a Comunicação contribui para a convocação das vontades e para o compartilhamento de sentidos e interpretações. Além disso, ela permite ―dinamizar a mobilização e potencializar os movimentos para que não se tornem simples sequências de ações e reações desarticuladas de pouca representatividade‖ (CASTELLS, 1999, p. 2). O sentido implicado de Comunicação segundo esse entendimento, portanto, é o que permite compreender porque os sujeitos se engajam em interações e como estratégias de Comunicação
são criadas, transacionadas, incorporadas em repertórios comunicativos que ganham vida no cotidiano dos movimentos sociais, entre os sujeitos neles envolvidos.
Por outro lado, a mobilização está situada na antessala do debate público do sistema deliberativo, pois contribui para a formação de públicos e para o engajamento cívico em torno de questões de interesse público. Em processos democráticos fortes, comumente se reconhece a mobilização por meio da circulação de informações, sentimentos e ações entre sujeitos. Esses passam a melhor contribuir na geração de debates qualificados e/ou representativos, promovendo participação e fortalecimento de vínculos para com a causa que professam.
Mais que a busca por um ―ativismo cívico‖, pautado por ―boas maneiras sociais‖, essa mobilização deve visar a implantação de uma política democrática e de justiça social. Como alerta Maia (2011, p. 59), ―o desafio das democracias atuais pressupõe desenhos institucionais e a configuração de práticas que possam se estender sobre essas esferas, perpassando-as‖.
Perseguindo a metáfora do fio condutor, que alinhava os públicos em torno de uma causa de interesse público, é importante que destaquemos os enquadramentos estabelecidos coletivamente, conectores dialógicos da própria ação coletiva. Gamson (2011, p. 28, 29) destaca os enquadramentos de ação coletiva que contribuem para a ―desatomização‖ do cidadão que passa a integrar redes e, com isso, caminha do individual para o coletivo, quais sejam: injustiça, ação e identidade. Eles atuam como impulsores de ação dos públicos no processo de coletivização.
Injustiça se refere à criação de uma consciência política dos sujeitos envolvidos pelo movimento mobilizador, motivada por uma indignação moral, não apenas pautada pelo entendimento racional do que seja justo, mas também pela hot cognition20, que abarca a emoção resultante de experiências de opressão e de sofrimento. Já a ação (agency component) se dá pelo empoderamento dos públicos rumo à mudança de sua realidade, perante suas próprias histórias. Muito mais que fazer algo a partir de atitude individual, é possível que nós façamos juntos. Finalmente, a identidade contribui paraa tomada de consciência dos públicos sobre si; ao partilharem a experiência de um nós, delineiam um alvo comum – fome, pobreza, epidemia – a ser enfrentado coletivamente.
Nesse sentido, entendemos o conceito de engajamento cívico sob o prisma do envolvimento político e da mudança social, face às diversas definições possíveis para o termo.
20
Hot cognition: termo utilizado pelos cognitivistas para designar processos de aprendizagem que se baseiam em aspectos emocionais, como o desejo, os sentimentos, as emoções e impulsos, sem privilegiar a crítica racional excessiva.
Esse engajamento se caracteriza pelo exercício dos cidadãos nas atividades essencialmente sociais, em sua maioria de caráter voluntário, vivenciadas em comunidades online e/ou
offline, considerando-se fortemente os contextos comunicacionais e mobilizadores dessas. Tais atividades podem apresentar diferentes graus de politização (FIORINA, 2001), de maneira que muitas delas podem ou não estar associadas a políticas públicas empreendidas pelo Estado Democrático.
Entretanto, o engajamento cívico não pode ser compreendido, necessariamente, como sinônimo de fortalecimento da democracia. Por vezes, o alto envolvimento dos cidadãos com a política pode se dar por meio de sentimentos de ódio, desespero, ou outras motivações de caráter violento e autoritário, fundamentalmente ―anti-democráticas‖, corroborando para situações, por exemplo, em que minorias são massacradas e os direitos humanos desrespeitados.
Importante destacar, ainda, que tal engajamento cívico vale-se do tripé de sustentação da ação coletiva composto por agencies, repertoires e targets, conforme propõe Norris (2002); são elementos responsáveis pelo desenvolvimento de uma cultura mobilizadora que se faz favorável aos novos movimentos sociais, notoriamente diversificados para além dos processos das eleições, dos partidos e da vinculação a grupos de interesses influentes que refletem o mainstream político. Para a autora,
Como resultado deste processo, os governos enfrentam novos desafios no equilíbrio e agregação de demandas mais complexas a partir de vários canais, mas na perspectiva dos cidadãos isso proporciona diversificação de oportunidades para o engajamento, o que pode ser salutar para a democracia representativa.21 (NORRIS, 2002, p. 212, tradução nossa).
O papelquea Comunicação assume nesses cenários é capital, sendo a articuladora entre esses três elementos (agencies, repertories, targets), a saber: nela e por meio dela se dão o exercício da linguagem, das práticas de negociação de sentidos entre públicos e as centralidades formadas por eles (agencies), o compartilhamento de valores e visões, a construção das relações intersubjetivas e dos discursos e ações transacionados entre os atores que tomam parte na questão ou causa pública (repertories); e, finalmente, a conformação de redes sociais cuja capilaridade catalisam a atuação coletiva, direcionada a objetivos em comum vinculados ao ―bem comum‖ (targets).
Naquilo que tomamos a liberdade de chamar de ―condutividade do interesse público‖, promovida pela Comunicação que, sob este viés, passa a compor o próprio fio do
21 ―As result of this process, governments face new challenges in balancing and aggregating more complex demands from multiple channels, but from the perspective of citizens this provides more diverse opportunities for engagement, wich may well be healthy for representative democracy.‖
coletivo, assumirá funções de forma a garantir não apenas a divulgação de um projeto coletivo, mas uma adesão significativa à proposta, com uma participação continuada. Henriques et al. (2004) destacam as seguintes funções: (1) convocação e identificação; (2)
motivação e animação (3) fomento do debate público.
Na primeira há o predomínio de interações para o chamamento à causa, onde os elementos simbólicos e de identificação visual, tradutores dos objetivos almejados pelo coletivo procuram conferir materialidade à mobilização. A segunda função abarca interações que fazem circular informações sobre as ações desenvolvidas coletivamente, oferecendo visibilidade aos avanços do movimento social; almejam o reconhecimento público delas e também dispõem de uma ritualística que valoriza as situações de encontro e de construção coletiva. Já a terceira e última função se dá nas interações que trazem subsídios ao debate público, como informações qualificadas sobre os temas relacionados à causa. Por vezes técnicas, essas interações contribuem para ampliação do entendimento, da percepção e da compreensão dos públicos sobre a problemática enfrentada, favorecendo a participação deles na criação de soluções. Essas categorias, somadas a outras, servirão de base para a construção do modelo de análise desse trabalho.
Cerzindo metaforicamente esses conceitos ao mito político que narramos: premido pelo sentimento de injustiça e afetado pelos sacrifícios (e aprendizados) que a figura despótica de Minos se lhe impunha, ultrajando-lhe as identidades, o povo ateniense envia a Creta, entre os jovens a servirem de pasto ao Minotauro, Teseu, filho do rei Egeu, figura arquetípica do herói a quem caberia liquidar o mostro e libertar Atenas do jugo cruel.
Sobre Teseu, discorreremos adiante. Cabe-nos destacar, por ora, que por ele se apaixonará Ariadne, filha do rei Minos, e quem, astutamente, sugerirá ao herói que se utilize de um fio de um novelo para conduzi-lo pelo labirinto; fio que, atado a ela e ao herói, garantirá seu retorno ao mundo externo...
Como (in)certa Ariadne que suporta o fio condutor de Teseu complexidade adentro, a Comunicação é o que, de maneira muitas vezes (in)certa, suporta uma consciência coletiva dos públicos em interação, para que esses não se percam na obscuridade dos interesses privatistas, retornando sempre para o referencial do interesse público, que se posta à entrada do labirinto social, estabelecendo a um só tempo o constrangimento ético a questões alheias ao movimento mobilizador e também garantias de que as ações encampadas estejam conectadas a valores mais amplos. Ariadne materializa o interesse público que direciona o engajamento cívico nos meandros, nem sempre tão racionais, do espaço público.