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Força da televisão nos processos eleitorais

Para quem nasceu depois dos anos 50, é fato que nas sociedades atuais, a televisão é o grande fio que nos conecta ao mundo, à aldeia global. É sempre adequado reforçar que o objetivo do sistema de informação midiática é abrir os horizontes de cada um, dando a conhecer diferentes pontos de vista e oferecendo diversos esclarecimentos. As questões relativas às atividades sociais são oferecidas em blocos de saber disponíveis para a maioria, através de uma infinidade de canais de informação. Nesse quadro, a televisão ocupa um lugar de destaque no universo simbólico do cidadão comum, tornando-se “uma forma de laço social, na medida em que, ao assistir um programa, eu sei que os outros também estão assistindo e eles mesmos sabem que eu o estou olhando". (WOLTON, 1996, p.138).

Para Wolton, a televisão, embora lhe falte prestígio, desfruta de inegável sucesso popular, pois ela desempenha um papel essencial no espaço público contemporâneo: o de

"laço social". Não se trata de negar a centralidade da imagem, mas de recusar uma visão da televisão como sendo "manipuladora de consciência". Wolton mostra que o sucesso da televisão reside em outros fatores que não só a transmissão de imagens, mas principalmente na relação singular que ela estabelece, a partir da programação, com o "grande público".

Assim, se, temos uma variada oferta de imagens; por outro lado, temos um telespectador ativo e inteligente que sabe que nela encontrará informação, igualdade e diversão e que, por isso, articula recursos na seleção e interpretação dessas imagens. Como apontou Wolton, as características desse processo de comunicação encerram inúmeras contradições e apresentam grandes limitações: o que importa, de tudo isso, é resgatar a possibilidade de sua dimensão democrática.

Dentro desse panorama, queremos destacar que a forma como a televisão relaciona-se com a política nos processos eleitorais, não está dada a priori; ou seja, ela não é necessariamente negativa nem positiva, e essa relação poderá ser mais ou menos democrática, dependendo do contexto político do país naquele momento.

Com base em uma ampla gama de estudos nacionais (tais como STRAUBHAAR, et.al, 1991; AVELAR, 1992; PORTO, 1996; VIDAL, 1998) e internacionais (tais como SKIDMORE, 1993; WOLTON, 1996), podemos considerar a televisão como uma das

principais fontes de informação política na contemporaneidade. "A dominância da televisão enquanto fonte de informação política dentre os meios de massa foi confirmada por um survey com amostra nacional de 2680 entrevistados, realizado em outubro de 1989 pelo IBOPE"

(STRAUBHAAR, et. al., 1991, p.50). A pesquisa “Cultura política e consolidação democrática”, realizada pelo Cedec/DataFolha/USP em 1994, verificou que 86% (1989) e 89% (1990) dos entrevistados declaravam tomar ciência dos acontecimentos políticos pela televisão. (BALBACHEVSKY, E.; HOLZHACKER, D.O., online)

Com base nesses estudos, podemos dizer que a televisão passou a ocupar uma função mediadora importante por se configurar num dos principais lócus da disputa política, sendo nos dias de hoje o mais abrangente meio eletrônico de comunicação de massa. Ela ganhou centralidade na campanha em relação às ruas, e também passou a ser um espaço social (ainda que eletrônico) de produção de fatos político-eleitorais essenciais para a campanha e autonomizados frente aos acontecimentos de rua. Pesquisas realizadas em 1989 e 1990, com amostragem nacional, já indicavam que 86% a 89% dos entrevistados, respectivamente, tomavam conhecimento dos acontecimentos políticos pela televisão.

A televisão, através de seu noticiário e outros programas de grande audiência, como as telenovelas, agendou temas que se tornaram centrais em varias eleições, como aqueles referentes à desqualificação dos políticos, do Estado e dos servidores públicos, emblematicamente simbolizadas na tematização dos “marajás”. E podemos citar também intervenções mais sérias dentro desse processo eleitoral específico, como o seqüestro do empresário Abílio Diniz, em que os seqüestradores foram mostrados na TV vestindo camisetas da campanha de Lula, e a edição realizada pelo Jornal Nacional do último debate entre Collor e Lula. Tais intervenções da mídia colocaram a conformação de uma situação de idade mídia no Brasil capaz de alterar o rumo das disputas, e de constituir novas condições e circunstâncias de embate eleitoral. Além disso, caracterizaram a participação da mídia como um ator político com ampliada potência política no seu poder de publicizar e de silenciar, e seu intenso impacto em uma sociabilidade envolvida pela mídia.

Com a retomada das eleições diretas no Brasil, a partir de 1982, as pesquisas sobre o papel e a importância da televisão na política, em especial na determinação das preferências dos eleitores pelos candidatos, apresentaram variadas formas de abordagem, desde as que consideram a mídia mera coadjuvante do processo eleitoral, até as que atribuem a ela o papel de participante ativa na construção dos cenários eleitorais. Para o desenvolvimento desta discussão foram fundamentais os conceitos que demonstram como a mídia, através dos processos de construção de significação de suas mensagens, tem desempenhado um

significativo papel eleitoral em um país subdesenvolvido, que já se encontra estruturado em rede e vivendo uma situação de sociedade midiacentrada.

Nos últimos 50 anos, a televisão privada brasileira desempenhou um papel inegavelmente compensatório em relação à instituição estatal, e à sociedade civil. Esse papel compensatório, progressivamente, transformou-se em papel central, amplamente legitimado histórico e culturalmente por todos os segmentos sociais. Hoje, a instancia midiática televisiva ocupa um lugar de 'intelectual orgânico' na sociedade brasileira, não deixando de ter certa relação com a crise real de outros intelectuais coletivos. As pesquisas de audiência nos autorizam a afirmar que a televisão se constitui, desde os anos 70, na principal mídia no Brasil. Em 1980, já existiam, no Brasil, 235 emissoras de televisão, 25 milhões de aparelhos, cinco emissoras nacionais e 94% da população já era potencialmente por ela atingida5. As pesquisas feitas no período de julho/setembro de 1989, nas seis principais regiões metropolitanas do país, indicaram que a Rede Globo mantinha uma participação média na audiência superior a 59% em qualquer horário e 84% no horário entre 20 e 22 horas, o chamado “horário nobre”. (Imprensa, n 26).

Em se tratando de campanhas eleitorais, podemos dizer que, de forma ampla, elas representam momentos de grande aumento da circulação de informações políticas que, tornadas públicas, podem ser levadas em consideração pelo eleitor no processo de decisão do seu voto (HOLBROOK, 1996). Já foi comprovado que o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE)6, veiculado em emissoras de rádio e televisão durante as campanhas eleitorais, “é o dispositivo informacional onde boa parte do eleitorado toma conhecimento dos candidatos e decide em quem votar. Dentro da realidade brasileira, a intervenção da mídia nos pleitos presidenciais tem deixado marcas profundas em nosso imaginário social e demonstrado como a televisão desempenha um significativo papel político e eleitoral, em especial depois do período pós-ditadura.

Dentre os tantos fatores explicativos que evidenciam a interface processo eleitoral / influência midiática, cabe ressaltar algumas situações em que o comportamento da mídia se tornou mais explícito. Na última eleição para presidente, em 2002, Duda Mendonça consagrou-se como um dos “marketeiros” mais renomados, sobretudo depois do sucesso alcançado por ele e seu candidato. Seis meses antes das eleições, em um seminário promovido

5 Dados retirados de: NICOLAU, JAIRO MARCONI. (2000), “DISCIPLINA PARTIDÁRIA E BASE PARLAMENTAR NA CÂMARA DOS DEPUTADOS NO PRIMEIRO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (1995-1998)”. DADOS, VOL. 43, N. 4, P. 709-735.

pela PUC-RS, ele enfatizou diversas vezes que a principal preocupação na disputa eleitoral seria o comportamento da mídia, e essa atenção à mídia como ator importante na disputa eleitoral não era de modo algum desmotivada.

Todos sabem o quanto as atuações da mídia têm sido marcantes, e com certeza ainda devem lembrar a emblemática e explícita intervenção da Rede Globo em favor do candidato Collor de Melo e das acintosas manipulações na eleição de 1989. É fácil recordar também o alinhamento da quase totalidade da mídia brasileira no pleito de 1994, ao assumir e fazer a propaganda, gratuita e paga, do Plano Real, passaporte de Fernando Henrique Cardoso (FHC) para a vitória presidencial; e mesmo o silenciamento deliberado da eleição de 1998, quando FHC reelegeu-se em uma disputa que quase não existiu, inclusive na mídia, deixando exposta uma convergência de interesses entre o governo e as empresas de comunicação midiática.

(RUBIM, 1999).

Mais recentemente, a candidatura do “tucano” José Serra em 2002, do partido do ex-presidente FHC, não recebeu o apoio de boa parte da base de sustentação do governo tucano.

E o PT, assessorado pelo publicitário Duda Mendonça, passou por significativas mudanças depois de 1998, o que levou o candidato Luiz Inácio Lula da Silva à vitória em 2002. Ainda que não tenhamos achado uma pesquisa mais substantiva, pareceu-nos que a cobertura jornalística não se concentrou nos programas dos candidatos, na sua trajetória político-partidária, nas suas realizações ou no perfil das coligações, mas sim naquilo que os candidatos não gostariam de expor. Ou seja, a superexposição transformou-se rapidamente em escândalos que buscavam persistentemente indícios de imoralidade dos atores, mostrando uma política destituída de virtude quase como uma extensão moral.

Ao analisarmos todos esses exemplos, concluímos que por não ser considerada, propriamente, protagonista da realidade, a mídia, e nela a televisão, pode atuar de acordo com suas próprias regras, no comando do jogo de construção da realidade social7. Como instância mediadora entre produção e recepção, circunscrita, é claro, num contexto físico, histórico e cultural, ela assume a função de um aparelho de produção de bens simbólicos que, segundo Bourdieu, "constituem realidades com dupla face - mercadorias e significações" (1999, p.102). A informação como um bem simbólico permite tratar como troca simbólica a relação entre enunciadores e enunciatários, em que o espaço da subjetividade é que lhe dá sentido e que a conecta a uma realidade. Esse espaço constitui-se naquilo que diversos autores chamam

7 Em sua obra Making News, Gaye Tuchman aponta uma ideologia dominante que faz com que certas ocorrências pareçam no campo da informação, enquanto outras são afastadas do mesmo campo. Segundo ele, uma moldura arbitrária é aplicada sobre a realidade.

de "pacto entre produção e recepção", lugar em que desejos e expectativas são compartilhados entre produtores e telespectadores e em que se estabelecem relações, segundo regras que regem esse encontro e finalidades a serem aí buscadas (CAPPARELLI; LIMA, 2004, p. 97).

Esse pacto, também chamado de contrato, não deve ser entendido como local neutro, de igualdade de forças, mas, ao contrário, como local em que a manipulação e a postulação de valores se efetivam.

Logo, entendemos que entre a televiso e seus espectadores existe um círculo de interação, e que o resultado dessas interações é a junção dos variados discursos, que estão baseados nas construções simbólicas da realidade oferecidas pela mídia, e que compõe o discurso social. E no perídio em questão para essa pesquisa, as construções simbólicas oferecidas pela televisão sobre o campo político influenciam de forma definitiva na formação da opinião pública, sugerindo interpretações sobre os temas ligados ao processo eleitoral eminente.

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