5 NÓS FOMOS NOS ORGANIZANDO EM UM COLETIVO!
5.3 Nada sobre Nós, sem Nós: O Lema de Uma Trajetória Emancipatória
5.3.3 Força e Conquistas na Mudança da Realidade
“Eu sei que a rural ainda está engatinhando, mas visto o cenário que era em 2013 e hoje 2016 eu me orgulho. Entende? Porque Eu consegui juntar os meus pares... Não é uma briga pra rachar a universidade no meio. Nosso discurso sempre foi de união, nosso discurso sempre foi de buscar soluções criativas e tirar essa mancha do nome da rural que aqui só tem alunos controvertidos, bagunceiros, Não. Aqui tem muita gente boa, muito aluno sério. Este movimento vem muito de encontro disso... Dar valor a instituição que para aqui fazer o meu melhor... Se algum dia eu vier a ter alguma mudança de parâmetro social, graças a essa casa que abraçou a ideia do grupo”. (ROBERTO).
Os participantes da pesquisa evidenciam a tendência de realizações ações por outras pessoas no lugar deles. Ou seja, a verificação de ações pensadas por alguém que não possui nenhuma deficiência, para pessoas com deficiência permanente ou temporária. Ações por vezes descritas, previstas em projetos, documentos, manuais ou planejamentos, mas bem distantes de acontecerem na realidade. Ou quando acontecem, nem sempre atendem as necessidades e demandas da realidade. Nesse contexto, evidenciam não concordar com a maioria e decidem divergir, assumindo também a condição de desviante da maioria. “O desvio implica, para o indivíduo ou grupo, uma carência de meios psicológicos ou sociais que permitem perceber ou reconhecer a norma ou a resposta dominante e, de o outro, uma rejeição da norma ou resposta dominante em razão da existência de uma alternativa”. (MOSCOVICI, 2011, 81).
A motivação inicial que os reuniu coletivamente foi o isolamento, no entanto, não é só um isolamento de quem deseja conviver com outras pessoas e dialogar cotidianamente assuntos desse cotidiano, mas é um isolamento de quem tem algo a dizer e que tem a sua palavra castrada. É a voz de quem não tem eco. De quem o dito evapora e não chega até aos ouvidos de um possível interlocutor. Tem destinatário, mas este não está pronto a ouvir. É o vazio de quem tem o que dizer e não é ouvido: “Como uma só pessoa vai ser ouvida?”. (João, 2016). Sendo reforçada essa questão quando Moscovici, (2011, p. 75) também aponta:
“a questão é agora saber por que e como um agente social, sobretudo em posição minoritária, é capaz de exercer influência”.
Os universitários com deficiência ao se darem conta da realidade em que vivenciavam junto a outros estudantes, descobriram-se enquanto minoria. Ressignificaram os conflitos enfrentados no processo de aprendizagem ao longo da metade da vida acadêmica no curso Superior em IFES, descobrem que a partir da constituição do Coletivo PNE, podem ir conquistando novos espaços e melhores condições para a jornada na vida acadêmica.
Frente às exigências sociais e acadêmicas instauradas por conta da formação acadêmica que demanda inúmeros movimentos de estudos, exercícios e práticas inerentes formação em estão envolvidos, torna-se possível verificar o descuido enfrentado pelo estudante com deficiência, evidenciado através das narrativas desses estudantes sobre as dificuldades encontradas para realizar os estudos de forma regular dentro da IFES, tanto nos deslocamentos, na comunicação, nos recursos materiais e pedagógicos, bem como nas dificuldades de aprendizagem que enfrentam em confronto com as próprias limitações e potencialidades. “A existência de um conflito interior, ou discrepância entre os graus de adesão às normas e às opiniões, cria uma predisposição para a mudança e um potencial de mudança”. (MOSCOVICI, 2011, p.75).
Nesse intento, impulsionados pelo enfrentamento, experienciaram bater em diferentes portas nos setores da instituição, em busca de ajuda, experimentando dissabores, esperanças malogradas, mas também um grupo de professores que, entendendo a ótica da educação na perspectiva inclusiva, conseguem realizar ações isoladas (e não institucionalizadas) em prol dos estudantes com deficiência.
Em dado momento, sendo estes estudantes também reanimados através do encontro com outros estudantes em situação similar. Passaram a dialogar com mais frequência entre si, com alguns professores que entendiam a causa, estudaram a legislação educacional, passaram a tomar consciência das necessidades educacionais específicas existentes em si e outras similares existentes no outro. Foram assim entendendo que a falta de apoio para a superação da condição em que se encontravam intensificavam cada vez mais o estado que provoca dificuldades na caminhada acadêmica, tendo como consequência baixo rendimento. Também, na prática dialógica passaram a comparar as condições que recebem enquanto pessoas com deficiência, com as de outros acadêmicos sem deficiência. Começaram a perceber que entre acadêmicos com deficiência estava sendo estabelecido um movimento de aproximação, identificação e até mesmo influência, visto que o apoio dado e recebido de uns aos outros, se tornava um diferencial que os permitia questionar as normas estabelecida, consultar outras normas, observar outras realidades e assim ir, aos poucos construindo novo sentido, concordando com Bruner (1996, p. 40) quando pronuncia que “a construção da realidade é fruto da produção de significado moldados por tradições e pelo conjunto de ferramentas de uma cultura nos seus modos de pensamento”. Sobre a interação, destaca também que: a transmissão de conhecimento e de capacidade, como qualquer intercambio humano, implica uma subcomunidade em interação. Concordando com Moscovici, (1996, p.111) quando expõe que “o conflito é uma condição necessária da influência, é o ponto de partida e o meio para mudar os outros, para estabelecer novas relações ou consolidar as antigas”. Desse modo, acabaram assim por constituir-se em um grupo de discussão e análise das necessidades educacionais específicas, dos direitos legais, e assim se conscientizaram de que haveria a probabilidade de estabelecer um artifício, com a lente legal, de busca por atendimento dos direitos, organizando-se em um Coletivo PNE, de forma que a instituição, por indicação ou força legal (BRASIL, 2011), deveria passar a viabilizar as condições necessárias para tornar o percurso acadêmico das pessoas com
deficiência mais promissor e com melhores condições de mobilidade e acessibilidade, através de recursos e meios que favoreçam uma melhor qualidade de vida acadêmica.
Nas narrativas percebemos que, falando por si só, durante vários períodos letivos os acadêmicos não eram ouvidos. No entanto, ao falar pelo Coletivo ou através dele são ouvidos. Eles se organizam e falam, não apenas por si, mas carregam um efetivo que comungam das mesmas questões – pessoas com deficiência e/ou com NEE, precisando de AEE. Falam dos mesmos anseios e se dão o direito de dizer, de se expressar na certeza de que serão ouvidos. Pois sendo um só, um anônimo, eles mesmos garantem que não haverá que possa ouvir e afirma: “Vai ser só mais um... Só que não incomoda ninguém... Um só não
faz força!” (JOÃO). Nesse caso, acreditamos ter sido necessário “considerar todas as coisas
no contexto da interação”. (MOSCOVICI, 2011, p.111). Tendo decidido pela organização de um coletivo tinham a condição de se aproximarem, com a lente do direito, para que obtivessem a oportunidade de serem ouvido e assim, até mesmo passarem a obter influencia nas decisões dos possíveis encaminhamentos para o atendimento das necessidades educacionais específicas. “Na medida em que se sustentou que a influencia era questão de redução da incerteza, ou da ambiguidade, a outra pessoa, a fonte de influência, tinha o papel de mediadora dos fatos em relação ao meio ambiente”. (MOSCOVICI, 2011, p.112). É provável que nem tivessem noção da dimensão que estariam assumindo enquanto grupo. Deixando o status de minoria comum, para minoria ativa.
“Hoje conseguimos formar um grupo. Como grupo, o coletivo, conseguimos falar e passamos a conhecer os setores, fomos fazendo contato nos setores da universidade. Fomos nos organizando. Ficou mais fácil ser reconhecidos. Temos uma pauta... Não somos mais uma pessoa em si, somos como que uma pessoa jurídica. O coletivo está reconhecido, está atuante... Hoje somos mais do que um universitário... Somos como se diz... Pessoa jurídica”. (JOÃO).
Moscovici (2011, p. 48-49) aponta a questão do “desvio e da inovação” e afirma: “O estado de desvio, o fato de ser diferente, é considerado como uma situação incomoda, com conotação puramente negativa. O fato de ser diferente traz consigo problemas e tensões”. Para os participantes ser diferente os colocou em situação de minoria e os fez desviar em busca de inovação para superar a situação de conflito. Sendo que, à medida que foram se fortalecendo, iniciaram o diálogo de Fundação do Coletivo PNE, o que se deu em Março 2016. “De certo modo, é preciso ser mais forte e mais firme para superar a concepções convencionais e enfrentar a maioria, do que para seguir opiniões do grupo e se amparar atrás da maioria”. (MOSCOVICI, 2011, p. 49). E para que realizassem esse enfrentamento afirmaram que:
“Fomos aos setores... Hoje fomos atendidos em alguma coisa já... Tem alguma coisa que vem acontecendo. Dessa forma nós podemos nos representar Podemos ter voz..., por esse motivo nos formamos o coletivo... Ganhar forças pra gente e para quem possa”. (JOÃO).
Enquanto Coletivo PNE, afirma lutar em prol dos acadêmicos com deficiência que permanecem, mas também em prol dos que irão ingressar na universidade futuramente, acreditando que o cenário que estes encontrarão será um cenário organizado para todos, onde a pessoa com deficiência terá acessibilidade para transitar, dialogar, aprender e terá os recursos necessários para vencer as necessidades educacionais específicas que por ventura surgirem por conta da situação de deficiência em confronto com as práticas pedagógicas que terá que desenvolver.