CAPÍTULO VI: APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS 63
1.3. Formação do tradutor e intérprete de LIBRAS 71
No que concerne à formação do sujeito, a FD – “Formação do tradutor e intérprete de LIBRAS” articula os Excertos de Depoimentos – ED das entrevistas realizadas com o objetivo de levantar as possibilidades para uma preparação adequada para sua função, apontando cursos e níveis, sob o olhar dos mesmos.
No que se alude à formação do tradutor e intérprete de LIBRAS o capítulo V, que contempla os artigos 17 ao 21, do Decreto Nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, afirma que a atuação na referida função deve acontecer “por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras - Língua Portuguesa” (Art. 17). Contudo devido à emergência de contratação destes profissionais, o mesmo documento, estipula um prazo de dez anos e estabelece algumas concessões, enquanto são formados os profissionais da área. A primeira trata-se da formação em nível médio com “I - cursos de educação profissional; II - cursos de extensão universitária; e III - cursos de formação continuada promovidos por instituições de ensino superior e instituições credenciadas por secretarias de educação” (Inciso I, II e III, do Art. 18). A segunda refere-se ao certificado de aprovação no exame de proficiência em tradução e interpretação de Libras - Língua Portuguesa, promovido pelo Ministério da Educação, em nível médio ou superior (Art. 19 e 20).
Voltando o olhar para os sujeitos da pesquisa, nenhuma delas possui ainda a formação específica, nem mesmo estão contempladas nas concessões do decreto supracitado. Apesar disto, nos discursos coletados nas entrevistas, as tradutoras e intérpretes expõem a
necessidade de uma formação para atuação na sua função, apontando três maneiras, que são: nível médio, curso superior e através de formação continuada. Alguns dos sujeitos indicam mais de um tipo de formação, como pode ser visto nos recortes a seguir, caso por caso.
Em relação à formação em nível médio, os sujeitos da pesquisa indicaram dois tipos: curso técnico e cursos livres. No primeiro caso, três tradutoras e intérpretes abordaram esta opção, segue os fragmentos do discurso a fim de elucidar:
TIL Ia: Um curso técnico, uma formação em uma faculdade, como o Letras/LIBRAS [graduação em Letras com habilitação em LIBRAS];
TIL Ib: Formação em si, eu acho que um curso técnico seria suficiente; TIL VII: Eu já ouvi falar em cursos técnicos que tem duração mais ampla, é bom.
Quanto ao segundo caso da formação em nível médio, isto é, os cursos livres, também três sujeitos recomendaram esta formação para a função em questão, com percebe-se nos recortes do ED:
TIL V: a duração certa para a gente fazer o curso, para se formar mesmo, como intérprete é de um ano, um ano e pouco, dois anos, por aí;
TIL VI: O ideal seria de um ano a dois, porque os cursos geralmente são de uma ou duas vezes por semana;
TIL VII: Eu acho que teria duração de um ano e meio ou dois anos de curso.
No que se refere a formação em nível superior em Letras com habilitação em LIBRAS, três sujeitos (TIL Ia, TIL II e TIL IV) apontaram como sendo a formação ideal, e o sujeito TIL II aponta além do curso citado o curso de Pedagogia, como se pode constatar nos fragmentos do discurso que seguem:
TIL Ia: Um curso técnico, uma formação em uma faculdade, como o Letras/LIBRAS [graduação em Letras com habilitação em LIBRAS];
TIL II: Abriu o curso de Letras/LIBRAS, (...). O que eu sei desse curso é que é da área, (...), tem cadeiras [disciplinas] que falam sobre LIBRAS, todo momento tem sinais [e o mesmo sujeito também fala do curso de Pedagogia, como se vê:] precisa fazer pedagogia, curso de formação, doutorado, pós, tem que está a par [informado], com o avanço que o mundo está oferecendo; TIL IV: Estou fazendo especialização em LIBRAS, contudo eu vislumbro o curso de Letras/LIBRAS [graduação].
Além das formações citadas, em nível médio e superior, três (TIL Ib, TIL III e TIL VII) das tradutoras e intérpretes de LIBRAS entrevistadas indicaram a formação continuada como formação para a função, com exceção da TIL III que aponta apenas esta opção como formação, segue os trechos dos ED:
TIL Ib: e também uma formação continuada para o intérprete, também em relação a isto, porque a maioria dos intérpretes do município são pedagogos; TIL III: A formação teria que ser contínua;
TIL VII: neste caso a prefeitura, deveria tem mais um cuidado, uma preocupação em ter outros meios, como uma capacitação com informações.
Como foi visto, reforçamos a fala da TIL Ib “(...) e também uma formação continuada para o intérprete, também em relação a isto, porque a maioria dos intérprete do município são pedagogos”, pois os sujeitos que estão em atuação e não tiveram a oportunidade de uma formação específica, precisam ter o conhecimento mínimo para atender da melhor forma os alunos surdos que já estão em sala de aula, afim de minimizar as lacunas. Dessa forma, o contratante deveria fornecer capacitação continuada e com temática específica para os seus funcionários. Contudo, deve-se considerar que estas fragilidades no processo de contratação deveria ser uma questão provisória, a formação continuada não descarta a necessidade de uma formação básica. Diante do exposto, pode-se entender que:
A formação continuada assume então, a responsabilidade de “ensinar” o que não se “aprende” nos cursos de formação inicial, porém deveria ter como propósito o estudo e aprofundamento dos conhecimentos (teóricos e práticos) que vão se construindo ao longo do percurso profissional de forma contínua (ABREU, 2006, p. 9).
O objetivo da formação continuada seria contribuir para complementar a formação, ou reparar a ausência da formação específica que deveria ser obrigatória para o ingresso na função, como também discutir as especificidades do trabalho, detectados durante a atuação. Reafirmando o que fora dito, Candau (apud ABREU, 2006, p. 34) destaca sobre formação continuada como sendo um espaço para os “processos coletivos de reflexão e intervenção na prática pedagógica concreta. Parte-se das reais necessidades dos professores, dos problemas do seu dia-a-dia, favorecendo aos processos de pesquisa-ação”.
Esta capacitação continuada poderia ferramentar os sujeitos com competências, afim de que os mesmos realizem o exame de proficiência em LIBRAS, que reconhece o tradutor e intérprete de LIBRAS, que já atua na área e não teve a oportunidade de fazer uma formação básica específica.