2 MODELO PROSÓDICO DA FONOLOGIA DA LÍNGUA DE SINAIS
2.1 INTRODUÇÃO ÀS ESTRUTURAS DOS SINAIS
2.1.1 Formas monomórficas: sinais simples com 1 mão
Todos os sinais monomórficos apresentam um determinado tipo de movimento: ou um movimento com trajetória (path movement) ou um movimento local (local movement). A maioria deles possui um local de articulação principal, conforme pode-se observar nos sinais da ASL abaixo ilustrados.
Figura 48 – Sinal ‘UNDERSTAND’ (‘ENTENDER’).
Figura 49 – Sinal ‘SIT’ (‘SENTAR’).
Figura 50 – Sinal ‘THROW’ (‘ARREMESSAR’). Fonte: BRENTARI, 1998, p. 5.
Na Figura 48, observa-se que o sinal UNDERSTAND tem duas especificações para o traço abertura (o grau de abertura ou fechamento da mão): ambas estão localizadas na testa (o local de articulação), mas a primeira configuração da mão é fechada e a segunda, aberta. No caso dos sinais SIT (Fig. 49) e THROW (Fig. 50), o local de articulação refere-se ao espaço neutro (a área em frente ao sinalizados no nível do tronco), mas cada um é articulado em plano diferente no domínio do espaço neutro. Enquanto o sinal SIT articula-se no plano horizontal, o sinal THROW é articulado no plano sagital mediano.
No Modelo Prosódico, os conceitos para os tipos de movimento são:
(1) Os movimentos com trajetória são aqueles que primariamente são realizados pelos cotovelos ou pelos ombros. Formalmente, um movimento com trajetória pode ser especificado tanto como um traço do movimento (p. ex.: a forma da trajetória ou a característica da direção do movimento) quanto como uma mudança no setting (p. ex.: mudança na especificação do traço, tal como ipsilateral/contralateral, superior/inferior, proximal/distal); (2) Os movimentos locais são aqueles feitos pelo pulso, juntas ou articulações
dos dedos. Formalmente, eles são expressados como uma mudança em um ou mais traços especificados no ramo articulador da estrutura.
Há uma tendência nas palavras (sinais) da ASL de serem constituídas de um único movimento, especialmente as formas monomórficas. Este fenômeno tem sido referenciado como monossilabicidade (cf. COUTLER, 1982; WILBUR, 1987, 1990).
Quanto aos critérios para contagem das sílabas40 nos sinais, Brentari (1994) considera que:
(a) O número de unidades fonológicas dinâmicas sequenciais de uma cadeia equivale ao número de sílabas daquela cadeia.
i. Quando diversas unidades dinâmicas curtas coocorrerem com um elemento dinâmico único de longa duração, a unidade mais longa é aquela para a qual a sílaba se refere.
ii. Quando duas ou mais unidades dinâmicas forem coetâneas, elas são contadas como uma sílaba.
(b) Se uma estrutura constituir-se de uma sílaba bem-formada como uma palavra independente, ela deve ser contada como uma sílaba de dentro da palavra (syllable word-internally).
(BRENTARI, 1994 apud BRENTARI, 1998, p. 6)
Os critérios acima delineados apresentam implicações práticas para a contagem de sílabas. No primeiro caso (a), há a exclusão dos movimentos fonéticos ou redundantes da contagem silábica, abarcando os casos nos quais os movimentos vibratórios (trilled
movement)41 estão dispostos coetaneamente com um movimento local ou de trajetória. Nesses casos, em virtude de coocorrência do movimento local e do movimento de trajetória, conta-se apenas uma sílaba. No segundo caso (b), qualquer ponto de articulação que coocorrer com um movimento vibratório deve ser contado como uma sílaba, independentemente dela ser dentro ou no final da palavra.
A questão da existência de uma entidade silábica nas línguas de sinais ainda não é pacificamente aceitável. Determinados pesquisadores consideram que o conceito de sílaba utilizado pelos pesquisadores das línguas sinalizadas é tomado de empréstimo das áreas de fonética e fonologia das línguas orais. Nesse aspecto, MacNeilage (2008) assevera que:
[...] do ponto de vista da perspectiva da cognição corporal subjacente à minha proposta, não há porque acreditar que a organização detalhada dos
40 A autora se baseia nos trabalhos de: Chinchor (1978), Coutler (1982), Wilbur (1987, 1990), Brentari
(1990(b)), Perlmutter (1992) e Sandler (1993a).
componentes fonológicos da fala e da língua de sinais sejam comparáveis em termos linguísticos. Por exemplo, eu tenho proposto que a evolução da fala envolveu o aproveitamento de uma ciclicidade pré-existente (da mandíbula) e o aumento da sua complexidade para aumentar a capacidade de transmissão da mensagem. Não existe como imaginar que este método tivesse ocorrido pelo canal viso-manual. Basta olhar a organização de uma língua de sinais para verificar que isso não ocorre. Portanto, de meu ponto de vista, a organização básica dos componentes fonológicos da fala e da língua de sinais são específicos a cada modalidade, e praticamente nenhum traço comum amodal entre as duas transmissões foi claramente observado (MACNEILAGE, 2008, p. 273, tradução de Elizabeth Reis Teixeira).42 Ante ao exposto, pode-se perceber que o autor citado não discorda do fato da existência do nível fonológico para as línguas de sinais. No entanto, ele expõe que existem conceitos ou termos que são equivocadamente utilizados nas pesquisas em línguas de sinais.
Embora algumas línguas da Ásia Ocidental suportem os morfemas monossilábicos, pode-se seguramente dizer que a maioria dos morfemas lexicais (em oposição aos gramaticais) da maioria das línguas faladas é polissilábica. Contudo, se associarmos o número de sílabas de uma cadeia da ASL ao número de movimentos sequenciais, há de se concordar que, geralmente, a maioria das ‘palavras’ ou ‘sinais’ da ASL é monossilábico, e isso é verdadeiro em relação às ‘palavras’ monomórficas (BRENTARI, 1998, p. 6, 70, 304). Além disso, dos poucos itens lexicais da ASL que são monomórficos e também polissilábicos, a maioria deles são relacionados, etimologicamente, aos empréstimos da Língua Inglesa falada expressados por meio da datilologia (BRENTARI, 1995, p. 632), e todos são maximamente dissilábicos (BRENTARI, 1998, p. 208-211). Eu não sei se a ASL é uma língua de sinais típica nesse sentido, mas, se esse for o caso, então a tendência a monossilabicidade das línguas de sinais se constitui de maneira diferente em relação às línguas orais, e, por essa razão, é um grande equívoco pensar que as sílabas desempenham, essencialmente, o mesmo papel nas gramáticas dos dois tipos de modalidade linguística (CARSTAIRS-MCCARTHY, 2001, p. 346, tradução nossa).43
42 Texto de partida: “[…] from the embodiment perspective that lies behind my approach there is no reason to
believe that the detailed organization os the phonological components of speech and sign language would be comparable for linguistic reasons. For instance, I have argued that the evolution of speech involved taking advantage of a single pre-existing cyclicity (of the mandible) and increasing its complexity to increase message- transmission capability. There is no reason to believe that this method would havehad to be adapted by the visual-manual channel in order for it to transmit language. And in fact one only needs to take a glanceat the organization of sign language to see that it hasn’t. thus, in my view, the basic organization of the phonological components of spoken and sign language are modality-specific, and almost no clear amodal commonalities of the two transmission systems have been identified.”
43 Texto de partida: “Although some East Asian languages favor monosyllabic morphemes, one can safely say
that most lexical (as opposed to grammatical) morphemes in most spoken languages are polysyllabic. However, if we equate the number of syllables in an ASL string with the number of sequential movements, it seems to be generally agreed that most ‘words’ or ‘signs’ in ASL are monosyllabic, and this is particularly true of monomorphemic ‘words’ (Brentari 1998:6, 70, 304). Moreover, of the few lexical items in ASL that are monomorphemic and yet polysyllabic, most are etymologically related to English borrowings expressed in fingerspelling (Brentari 1995:632), and all are maximally disyllabic (Brentari 1998:208–11). I do not know whether ASL is a typical sign language in this respect, but, ifit is, then the monosyllabic bias of sign languages constitutes a big difference between them and spoken languages, and hence a big embarrassment for the view that syllables play essentially the same role in the grammars of the two kinds of language.”
Uma outra restrição que merece ser considerada refere-se à questão dos dedos selecionados (selected fingers). Nesse tipo de restrição, o conjunto de dedos selecionados é admitido num determinado domínio mínimo. Esse domínio mínimo pode compreender: o próprio sinal (cf. MANDEL, 1981), o morfema (cf. SANDLER, 1987(b)) ou a sílaba (cf. BRENTARI, 1990(a); PERLMUTTER, 1992). No tópico 2.4.1, a questão de dedos selecionados será retomada, visando a representação dos traços intrínsecos a esse nó.