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Formulação do problema, objetivos do estudo e opções teóricas

CAPÍTULO IV ESTRATÉGIA DE PESQUISA, OPÇÕES TEÓRICAS E

4.1. Formulação do problema, objetivos do estudo e opções teóricas

Na presente investigação, a nossa questão de partida, os percursos da própria investigação e os respetivos objetivos influenciaram as opções teóricas e metodológicas que acabámos por fazer. A violência contra a mulher é um fenómeno que até há bem poucas décadas era considerado inexistente, insignificante ou anormal. Com efeito, os primeiros investigadores da violência contra a mulher consideravam-na um fenómeno que decorria de patologias sociais ou individuais (Gelles & Straus, 1979). No entanto, estes autores admitem agora a violência contra a mulher como um fenómeno comum, uma vez que “ […] é estatisticamente frequente, culturalmente aprovado e especialmente aprovado pelo seu perpetrador” (p. 549). Trata-se de um fenómeno que se caracteriza por ser essencialmente protagonizado por seres humanos como membros de uma sociedade concreta, sendo, ele próprio, condicionado por fatores interrelacionados entre si, designadamente as desigualdades sexuais, simbólicas, socioculturais e de poder.

Embora de muita atualidade, a questão da violência contra a mulher é uma temática que carece de estudos sistematizados em Moçambique. Cremos, por isso, que a abordagem desta temática possa contribuir para o desenvolvimento de estudos teóricos e empíricos ulteriores no contexto das realidades histórico-culturais desse país. Assim, o planeamento da presente investigação está alicerçado na seguinte questão de partida:

Em que medida é que as formas de conjugalidade [e.g., a poligamia e o lovolo] existentes nas cidades de Maxixe e de Nampula são mais ou menos permeáveis à prática de violência contra as mulheres?

Os estudos empíricos da violência contra a mulher encontram-se desenvolvidos a partir da década de 1970 (Gelles & Straus, 1979; Dobash & Dobash, 1979; Pagelow, 1984; Gelles, 1987a; Steinmetz, 1987; Loseke, 1992; Gelles, 1993b; Dias, 2010) e, grosso modo, fundamentam-se em teorias feministas. Estas advogam essencialmente que a violência contra as mulheres é o produto de um sistema de desigualdades de género, em virtude das quais os homens exercem coerção e controlo sobre as mulheres (Gelles, 1993a). Desde então, têm sido desenvolvidos outros estudos que contribuem

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para o debate público e a visibilidade da violência contra a mulher, que até esse momento tenha permanecido oculta.

Paralelamente a estes estudos, têm sido publicados artigos em revistas internacionais de ciências sociais entre as quais se encontram a Annual Review of Sociology, a Journal of Marriage and the Family, a The Sociological Quarterly, entre outras, que alertam para os problemas que no interior das famílias degradam a vida das mulheres, designadamente os maus-tratos perpetrados pelos seus parceiros íntimos.

A nossa análise alicerça-se em diferentes posturas assumidas nas famílias e entre os seus membros, em que subsistem relações de poder, de autoritarismo e de subordinação e pretende problematizar sobre os contornos subjacentes à violência contra as mulheres a fim de contribuir para a visibilidade dos seus efeitos nas famílias de Maxixe e de Nampula e na sociedade moçambicana, em geral.

Assim, as discussões acerca desta problemática orientaram-nos para a delimitação da nossa investigação em objetivos gerais e específicos:

Objetivos gerais:

 Analisar as representações e as manifestações de violência contra a mulher nas cidades de Maxixe e de Nampula.

 Examinar os contornos subjacentes à lei sobre a violência doméstica praticada contra a mulher.

Objetivos específicos:

 Discriminar os tipos de violência mais frequentes nas famílias das cidades de Maxixe e de Nampula;

 Identificar elementos comparativos de usos culturais suscetíveis de gerar, reforçar e legitimar práticas de violência contra as mulheres nas famílias das cidades de Maxixe e de Nampula;

 Indicar as diferentes representações sociais acerca da violência contra as mulheres;

 Perceber o maior ou menor grau de tolerância face à violência contra as mulheres em função das características da população estudada;

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 Aferir o grau de cultura jurídica e de conhecimento da legislação atinente à violência praticada contra a mulher, por parte dos indivíduos submetidos a esta investigação.

 Identificar as adversidades que se colocam às instituições de apoio às vítimas face à aplicação da lei sobre a violência doméstica praticada contra a mulher e aos apoios prestados.

O debate à volta da questão de partida, que se centra predominantemente nas estratégias assumidas para o reforço, a legitimação e a tolerância da violência contra a mulher remeteu-nos a um exercício que implicou a perscrutação e a análise da principal literatura que, a respeito desta problemática, nos foi acessível. Ao analisarmos tal literatura, apropriámo-nos de elaborações concetuais e metodológicas, que permitiram reformular e reconstruir as nossas convicções científicas, servindo de diretrizes basilares da nossa investigação. No fundo, a análise da literatura possibilitou um diálogo com os autores apresentados e significou mais clareza na formulação do problema de investigação, bem como das respetivas hipóteses. Neste sentido, este capítulo pretende assumir-se como uma ponte de união e de sínteses entre as opções teóricas feitas nos capítulos anteriores e o trabalho empírico que se seguiu.

Assim, sendo necessário operacionalizar as nossas opções teóricas face aos percursos desta investigação fomos buscar a Bourdieu (1999) a noção de violência simbólica, que se traduz na legitimação da dominação masculina e que faz com que os dominados apliquem “[…] aos dominantes esquemas que são o produto da dominação, fazendo que os seus pensamentos e as sua percepções se estruturem em conformidade com as próprias estruturas da relação de dominação que lhes é imposta, conhecendo e reconhecendo a submissão como acto legítimo” (p. 12).

Pela centralidade deste pensamento, pareceu-nos fundamental relacioná-lo com a prática de violência contra a mulher e com o modo como ela é consentida, tolerada justificada e até encorajada. Também, julgámos crucial perceber como a lógica subjacente à violência simbólica, enquanto instrumento de legitimação da violência contra a mulher, permite que os homens violentos neguem os seus atos, minorem os seus resultados e intenções e projetem a culpa sobre as suas vítimas (Pagelow, 1984).

O prosseguimento da análise da literatura acarretou um debate sobre as desigualdades de género e as suas incidências nos comportamentos passíveis de gerar a violência contra a mulher. Tal permitiu-nos associar as desigualdades de género ao

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poder que os homens detêm no contexto das relações conjugais, que, à partida, constituem um sistema de trocas desiguais que perpetuam a predominância masculina tanto na família como na sociedade (Barrett & McIntosh, 1991).

Da problematização sobre as desigualdades de género também retivemos a ideia de que para além das desigualdades entre homens e mulheres resultantes da divisão do trabalho, há diferenças biológicas e anatómicas interiorizadas como pressupostos de dominação dos homens sobre as mulheres encaradas como legitimadoras naturais das desigualdades socialmente construídas entre homens e mulheres (Bourdieu, 1999). A ideia da legitimação das desigualdades assumiu, assim, um papel particularmente essencial para se compreender, na população estudada, o modo como algumas mulheres se posicionam face à violência de que são vítimas. Trata-se de um contexto em que determinados tipos de violência são aceites com alguma naturalidade pelas mulheres, designadamente a violação conjugal.

O percurso da nossa investigação levou-nos, igualmente, a prestar atenção à noção de privatização da vida familiar, entendida como um mecanismo que gera entraves à intervenção de outras instituições em prol da família. Tal significa que a própria família se tornou semelhante a uma fortaleza fechada ao mundo exterior, que aparentemente vive sob a crença na harmonia e na felicidade e julga desnecessária a ideia da intervenção externa nos seus assuntos íntimos (Dobash & Dobash, 1979). Por conseguinte, tal representação impede que as mulheres vítimas de violência conjugal possam solicitar apoio além dos limites da vida familiar.

Neste sentido, alguns autores (Pagelow, 1984; Blackman, 1989) subscrevem a ideia de que a privatização ou sacralização do espaço familiar dificulta que a violência contra a mulher seja alvo da atenção reservada às vítimas de outras formas de violência interpessoal.

Assim, no âmbito da população estudada, a noção de privatização da vida familiar esteve na origem das fracas expectativas, que as mulheres tinham, de intervenção por parte dos seus vizinhos ou das autoridades perante os abusos por elas sofridos, já que as normas costumeiras desincentivam a denúncia em benefício da proteção da honra e do bom nome das famílias.

Pela pertinência dos seus pressupostos teóricos e pela necessidade de consolidação do modelo analítico que orienta a nossa investigação, centrámo-nos nas teorias feministas no âmbito das quais extraímos o conceito de papéis de género. Apesar das inúmeras críticas dirigidas às teorias feministas, apropriámo-nos de algumas das suas

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premissas, designadamente o facto de não imputarem a culpa da vitimização à própria vítima e de considerarem que a violência extravasa o espaço de privacidade familiar, abrindo caminhos para a determinação de soluções sociais e políticas, que permitem contribuir para a mudança de atitudes e valores associados aos papéis de género (Monteiro, 1999).

Também, das teorias feministas foi extraído o conceito de patriarcado que “ […] induz à subordinação e à opressão das mulheres e causa um padrão histórico de violência sistemática contra as esposas” (Gelles, 1993b, p. 13). Esta definição reintroduz duas dimensões já analisadas neste capítulo, nomeadamente o poder e a desigualdade de género. Com efeito, “ […] a causa da violência contra a mulher é o sistema social hierarquizado patriarcalmente, em que os homens dominam as mulheres e estas últimas se tornam submissas àqueles” (Dobash & Dobash, 1979, p. 7). Esta dominação tem como substrato a desigualdade de poder enquanto recurso de manutenção da violência que, no contexto das relações conjugais, vitimiza maioritariamente as mulheres.

Foi ainda pertinente acionar o conceito de papel social. Este permitiu-nos uma aferição dos comportamentos violentos associados ao desempenho de papéis de género, os quais são distribuídos a favor dos homens, reforçando o poder que estes exercem no contexto na vida conjugal, e permitindo-lhes dominar as mulheres. Neste sentido, adotámos as premissas desenvolvidas por Gelles (1993a), que dão conta que a violência contra as mulheres se funda nas desigualdades de poder entre homens e mulheres e nos papéis des género associados a essas desigualdades.

As terias feministas tiveram assim uma utilidade capital na nossa investigação na medida em que nos alertaram para uma distribuição segregada de papéis de género entre os nossos entrevistados.

Metodologicamente, as teorias feministas centraram-se na análise qualitativa e intensiva da violência contra a mulher. Subscrevendo Yllö (1993), “a sua concetualização como um controlo coercivo não podia ser deduzida de um modelo teórico abstrato e quantitativo, mas indutivamente do quotidiano das mulheres batidas ou das ativistas, que se esforçavam para visualizar a sua vitimização” (p. 54). Este pressuposto inspirou particularmente o percurso que nortearia a nossa investigação. De facto, ele alertou-nos para a necessidade de enveredarmos pela metodologia qualitativa, que implica “ […] estudar a realidade na sua forma natural para encontrar o seu sentido

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ou interpretar os fenómenos em termo dos significados que as pessoas atribuem a esses fenómenos” (Diniz & Lincoln, 1994a, p. 2).

O recurso a metodologias e técnicas qualitativas de recolha e de análise dos dados apresentou-se como a maneira mais adequada de reduzirmos a complexidade da problemática que nos propusemos estudar. Com efeito, alicerçando-nos nestas metodologias, percebemos que o estudo de caso ou a análise intensiva seria o método que melhor responderia aos objetivos propostos tendo em conta que ele “[…] implica um estudo profundo e exaustivo, que permite o conhecimento amplo e um melhor entendimento do caso escolhido” (Stake, 1994, p. 236). Assim, a opção pelo estudo de caso explica-se pela possibilidade de investigar a violência contra a mulher dentro do contexto em que se inscreve, permitindo explorar experiências e vivências da vida real no contexto do estudo, e possibilitando a análise dos casos escolhidos a fim de mobilizar conhecimentos orientados para o seu aprofundamento.

Dado que o estudo decorreu em duas diferentes cidades e envolveu várias pessoas, foi considerado o método comparativo, visando-se averiguar similaridades e explorar eventuais dissemelhanças entre os comportamentos relativos à violência contra a mulher nas duas cidades. A apropriação deste método resultou do facto de ser um mecanismo poderoso que “[…] se centra nos atributos que se comparam para inferir o sentido das eventuais diferenças” (Stake, 1994, p. 242).

Assim, as metodologias que adotámos muniram-nos de um olhar peculiar sobre os dados coletados e requereram o acionamento de novos conceitos, designadamente o de lovolo56 e o de poligamia, entendidos como trocas e práticas conjugais desiguais. Também, acionámos o conceito de violência contra a mulher. O acionamento e a discussão sobre estes conceitos, bem como dos outros conceitos que advieram da revisão da literatura ampliaram, subsequentemente, o nosso espectro relativamente ao esboço das nossas hipóteses e da configuração dos percursos desta investigação.

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As populações indígenas de Moçambique geralmente pronunciam a palavra lovolo com um tom de “b” e vulgarmente grafam-na “lobolo”. Também, importa referir que José Gonçalves Cota (1944) em “Mitologia e direito consuetudinário dos indígenas de Moçambique: estudo de etnografia” subscreve esta grafia. Entretanto, para os efeitos desta investigação, preterimos a grafia “lobolo” e optámos por entrar em linha com a obra “Usos e costumes dos bantu” de Henri A. Junod (1996), onde a palavra é grafada “lovolo”.

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