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CAPÍTULO II VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: DE QUESTÃO

3.2. O feminismo e a violência contra a mulher

Um dos méritos do feminismo, enquanto movimento social, foi a tipificação da violência contra a mulher como um problema social. Com efeito, foi graças às reivindicações feministas e ao movimento das mulheres que a partir da década de 1960, a violência contra a mulher começou a passar de um tabu e de uma questão privada a um problema social.

Todo esse processo permitiu redescobrir, redefinir e requalificar o fenómeno da violência contra a mulher como um ato perpetrada pelo homem sobre a mulher em decorrência do patriarcado e das desigualdades de género, que são socialmente construídas a favor do homem.

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Desde logo, o feminismo argumenta que as desigualdades de género, a divisão de papéis de género sob o modelo de socialização patriarcal e a preocupação masculina pelo exercício do poder e pelo controlo sobre a mulher são as principais causas da vitimização da mulher e da sua perpetuação na relação violenta (Dobash & Dobash, 1979; Gelles, 1993a; Yllö, 1993). Tal significa que a violência contra a mulher dimana de um modelo de organização social, no qual os homens dominam e controlam as mulheres (Dobash & Dobash, 1979; McCall & Shields, 1986).

Por seu turno, a dominação patriarcal serve de justificação do uso da força, da hierarquização da relação conjugal, e leva a mulher a se conformar com uma moralidade que a silencia, a submete a um tratamento que a culpabiliza da sua vitimização (Dobash & Dobash, 1979). Com efeito, a prática de culpabilização da mulher concorre para a tolerância da violência pela própria mulher que, em virtude da submissão ao silêncio e ao conformismo com que se debate, interioriza a violência como um ato legítima.

Em alusão a diferentes variantes do feminismo, Steinmetz (1987) centra-se no feminismo radical e no feminismo socialista/marxista. No fundo, considera que estas variantes do feminismo são as que vão ao encontro da realidade que caracteriza a vitimização quotidiana das mulheres. Assim, segundo esta autora, “o feminismo radical explica que a violência contra a mulher é um exemplo de vitimização de uma classe, que é oprimida por motivos de género e que o marido violento é um produto expectável dessa sociedade” (p. 749).

Num outro momento, Steinmetz (1987) associa o feminismo socialista/marxista à teorização sobre a violência contra a mulher. Nesse sentido, “a violência contra a mulher é um ato político que resulta da dominação da sociedade patriarcal capitalista sobre as mulheres” (p. 749). Desde logo, as mulheres, enquanto afastadas do controlo do capital e do poder na sociedade, se tornam vítimas de violência masculina, e sendo o género a base do exercício e da delegação do poder, ficam criadas as condições para a perpetuação dessa violência. Assim, todas estas constatações evidenciam o caráter sexista que estrutura a nossa sociedade, uma sociedade que transforma as mulheres em vítimas da superioridade masculina.

Como consequência desse processo, McCall & Shields (1986) afirmam que os homens apropriam-se da violência em virtude do poder, da autoridade e do estatuto que detêm na sociedade, enquanto as mulheres são transformadas em propriedades dos homens, o que quer dizer que o fundamento da autoridade masculina são a dominação e

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a hierarquia favoráveis aos próprios homens, bem como as desigualdades de género naturalizadas através da coerção implicada nas relações dos homens e das mulheres.

Os efeitos imediatos destas práticas são as diferenças no acesso às vantagens e benefícios da sociedade. Pagelow (1984) realça que as mulheres enfrentam desvantagens económicas que contribuem para a violência que, com frequência, as vitimiza. No entanto, “as mulheres continuam a viver com homens que as violam, ou que batem nos seus filhos porque estão numa condição económica, que lhes é desfavorável, tornando-as mais expostas à violência” (p. 467).

Assim, o recurso à violência para controlar a mulher é perpetuado não apenas pelas normas relativas aos direitos masculinos sobre a mulher, mas sobretudo por causa da contínua dependência económica das mulheres, que faz com que lhes seja difícil abandonar a relação violenta (Kurz, 1993). Deste modo, na visão desta autora, “a dependência das mulheres é agudizada pela falta de formação, que as habilitasse a um emprego com o qual se pudessem sustentar” (p. 91).

Entretanto, quer Bersani & Chen (1988), quer Yllö (1983) advogam que para as pessoas que são socializadas segundo o modelo patriarcal, a ideia de igualdade de género constitui uma transgressão da ordem natural, porquanto o estatuto da mulher não pode ser orientado senão para o casamento e a maternidade. Por conseguinte, sendo a dominação e a subordinação a essência do patriarcado, as atividades dos membros da família circunscrevem-se a esta relação que, grosso modo¸ socializa as mulheres para a subserviência, a obediência e a dependência, o que favorece o assentamento da violência contra a mulher na estrutura de poder androcêntrico (Yllö, 1993) e na dominação masculina (Bourdieu, 1999).

Não obstante a natureza heurística dos contributos feministas no ativismo e na teorização da violência contra a mulher, o feminismo tem sido alvo de contestações, sendo uma delas provenientes de O´Leary (1993), para quem “ainda que o modelo patriarcal seja um instrumento crítico e necessário para a compreensão da supremacia masculina e da violência contra a mulher, não é um fator de risco suficiente” (p. 23). Este autor defende a necessidade de não nos limitarmos exclusivamente ao modelo feminista, mas de o conjugarmos com outros modelos explicativos da violência masculina.

Independentemente desta crítica, Gelles (1993a) admite a existência de dois méritos que se devem atribuir ao feminismo e ao movimento feminista, em geral: “o primeiro é a visão sobre a vitimização das mulheres como um problema social de que resultam

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danos psicológicos e físicos em virtude da coerção e do controlo dos homens sobre as mulheres; e o segundo é a explicação da violência contra as mulheres pelas desigualdades de género” (p. 41).

De qualquer forma, Gelles (1993a) nota que a teoria feminista centra-se unicamente na variável patriarcal para explicar a violência conta a mulher. Considera que esta variável não é suficiente para explicar a complexidade da violência conta a mulher num mundo multivariável. Adicionalmente, admite que a teoria feminista se centra apenas na explicação da violência contra as mulheres e descura a análise da violência que vitimiza as crianças e os idosos.

A despeito destas considerações, Yllö (1993) argumenta que as limitações do feminismo podem ser atribuídas ao facto de nenhuma perspetiva teórica ser por si só auto-suficiente. Consequentemente, acrescenta que “a teoria feminista é uma perspetiva de análise […] sem a qual quaisquer outras perspetivas analíticas seriam imperfeitas” (pp. 47-48).

Ainda que reconhecendo algumas virtudes do feminismo, que levantou as questões da desigualdade de género e da superioridade masculina no contexto do patriarcado, Yllö (1983) considera que do ponto de vista metodológico “o feminismo carece de evidências empíricas relativas ao impacto das desigualdades de género, nomeadamente carece de dados quantitativos que sustentem a existência dessas desigualdades” (p. 277).

Não obstante a persistência de críticas relativamente ao feminismo, um dos seus contributos mais preciosos foi o facto de ter demonstrado o modo como várias instituições da sociedade perdoam, aprovam e reforçam a violência contra a mulher no quotidiano, assim como o facto de o feminismo ter contribuído para a compreensão do ajustamento das relações de género ao exercício do poder nas relações heterossexuais (Kurz, 1993).

Importa realçar que desde a década de 1960, o feminismo tem trabalhado no sentido de desenvolver uma perspetiva crítica da sociedade com vista a gerar um mundo melhor e mais justo. Sob este prisma, reconhece-se que se deveu ao movimento feminista a politização de todos os aspetos da vida das mulheres, designadamente das mulheres enquanto classe, do seu acesso ao emprego remunerado, da educação, das suas opções reprodutivas e de outros aspetos tradicionalmente controlados pelos homens (Bart, 1993). Este autor refere que as reivindicações pela igualdade de género foram institucionalizadas graças à pressão do movimentos das mulheres e do feminismo,

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tendo permitido “ […] humanizar a condição feminina através da denúncia da violência masculina, do assédio sexual, da pornografia e do uso da mulher como um mero objeto sexual” (Bart, 1993, p. 149).

Todos estes esforços têm aberto caminhos para a determinação de soluções sociais e políticas que permitem contribuir para a mudança de atitudes e valores associados aos papéis de género (Monteiro, 1999). Por conseguinte, na esfera pública tem-se assistido a um relativo aumento de vontade política de intervir e melhorar os procedimentos legais que permitem que a violência contra a mulher encontre espaço de discussão e de debate mais além da espera da intimidade do lar.

3.3. Síntese

Neste capítulo, objetivámos problematizar sobre o contributo feminista enquanto alternativa ao continuum da violência contra a mulher. Partimos das origens históricas do feminismo enquanto movimento social e chegámos à teorização da violência contra a mulher, que é entendida como fruto de uma cultura patriarcal, cuja erradicação deve passar por uma reestruturação da natureza das relações de poder entre homens e mulheres.

A cultura patriarcal, segundo o legado feminista, induz à subserviência e à subjugação das mulheres e causa um padrão histórico de violência contra elas; está consubstanciada nas desigualdades socialmente construídas e alicerçadas numa ordem económica, política e cultural, que é desfavorável às mulheres.

Em suma, o legado feminista tem sido particularmente revelador da sua proeminência para sociologia da família, e de modo especial na explicação da violência contra a mulher.

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SEGUNDA PARTE - PERCURSOS DA INVESTIGAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Nesse dia, eu estava no meu local de trabalho. De repente, ele apareceu com o bebé a chorar. Humm… disse que eu era uma mãe irresponsável, que abdicava a família a favor do trabalho. Nesse instante, começou a me gritar e a me espancar na presença dos meus colegas. Humm… foi muito constrangedor! Num outro dia, vínhamos da praia e chegados à casa, ele queria fazer sexo. Então, chamou-me à casa de banho onde ele já se encontrava, mas como eu estava a fazer outras coisas, demorei-me a ir ao seu encontro. Quando foi à casa de banho, ele estava desesperado e agrediu-me sob a acusação de desprezo e falta de respeito.

Judite, pseudónimo de uma participante no estudo.

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CAPÍTULO IV - ESTRATÉGIA DE PESQUISA, OPÇÕES TEÓRICAS E