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CAPÍTULO II VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: DE QUESTÃO

3.1. Origem e definição do conceito de feminismo

As origens do feminismo remontam aos finais do século XIX e princípios do século XX, aquando da perceção de que as mulheres viviam cada vez mais uma relação de dominação androcêntrica e patriarcal, que as excluía dos benefícios de cidadania. Segundo Tavares (2008), “o termo feminismo nasceu em França, entre os anos 1870- 1880 e prolongou-se a outros países no virar do século XIX-XX” (p. 10).

Até essa data, tendo permanecido historicamente invisíveis na vida política, científica e pública, as mulheres tinham visto os seus direitos à cidadania vedados. De facto, foi contra essa condição que se insurgiu o movimento feminista da primeira vaga, para o qual o direito feminino à educação, ao trabalho remunerado e ao voto eram inalienáveis à cidadania (Pinto, 2010).

Assim, o feminismo, enquanto um movimento reivindicativo das mulheres, surgiu sob “ […] as preocupações em tornar visíveis as mulheres na história, reflectir sobre as suas experiências, […] fazer ouvir as suas vozes, recuperar memórias silenciadas” (Tavares, 2008, p. 17).

Do ponto de vista cronológico e teórico-metodológico, o feminismo conheceu algumas fases de evolução histórica, aqui designadas por vagas. Ainda que autores como (Tavares, 2008) subdividam a história do feminismo segundo outros critérios teórico-metodológicos, nesta investigação optámos por utilizar a designação vagas do feminismo e centrámo-nos, nomeadamente no feminismo da primeira vaga e no da segunda vaga.

O feminismo da primeira vaga nasceu no século XIX e prologou-se até à primeira metade do século XX, e tal como referem Motta et al. (2011), tinha como preocupação a luta pelas reformas legais que favorecessem a igualdade formal entre homens e mulheres na esfera pública. Trata-se do feminismo liberal, um feminismo que emergiu num contexto em que a própria cidadania estava vedada às mulheres.

Já o feminismo da segunda vaga [décadas de 1960 e 1970], sob o cunho de feminismo radical, realçava o patriarcado como o fundamento do poder masculino do qual derivam todas as injustiças (Motta et al., 2011). Segundo estas autoras, o

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feminismo radical revela, de forma frontal, as diferenças entre homens e mulheres como o resultado das desigualdades de género de que os homens beneficiam.

As reflexões teóricas subjacentes à segunda vaga permitiram reelaborar o conceito de género, o qual passou a ser percebido como uma construção social das desigualdades sexuais (Lima da Conceição, 2009). E, como escreve Tavares (2008), na segunda vaga do feminismo emergiam ações radicais de mulheres que questionavam a tradição sufragista patriarcal. Nesta aceção, o feminismo radical “ […] rasga o véu do determinismo biológico e explica que as mulheres não têm que estar amarradas a nada, a não ser a elas próprias como sujeitos autónomos e senhoras do direito de decidir sobre as suas vidas” (p. 49).

No fundo, esse processo confluiu na desconstrução da crença nas diferenças entre os géneros como diferenças naturais. Com efeito, isso significou que as diferenças ou as desigualdades de género deixavam de ser vistas como desigualdades biológicas e passavam a ser encaradas como desigualdades socialmente construídas a desfavor das mulheres. Por conseguinte, o determinismo biológico então legitimador dessas desigualdades entrava na extemporaneidade.

Do ponto de vista de Motta et al. (2011), o feminismo radical esteve intrinsecamente associado ao feminismo marxista e ao feminismo negro. Para as autoras em alusão, ao feminismo marxista atribui-se o pressuposto de que as desigualdades de género são o reflexo das desigualdades prevalecentes na sociedade capitalista.

Em conformidade com essa perspetiva, os diferentes níveis de acesso ao dinheiro, ao poder, à riqueza, ao conhecimento, que estão subjacentes ao próprio capitalismo impactam sobre as desigualdades de género. Assim, a aliança entre o movimento das mulheres e a classe operária seria o meio mais adequado para a luta contra o patriarcado e o capitalismo, enquanto sistemas essencialmente opressores.

Porém, a incompatibilidade de alguns dos postulados marxistas com as teorizações feministas deu origem àquilo a que (Tavares, 2008) chama de “casamento mal sucedido” (p. 44), resultante do dogmatismo marxista, que diluía a contradição entre o trabalho e o capital nas contradições entre os géneros, as etnias, as orientações sexuais e via esquematicamente a emancipação da mulher como um efeito da eliminação da propriedade privada (Tavares, 2008).

Por último, o feminismo negro mistura o racismo com o patriarcado e o capitalismo. O debate do feminismo negro, no entanto, desloca-se mais além das questões de género

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e de classe e centra-se na raça, que passa então a ser fulcral no debate feminista, e tal como diz Lima da Conceição (2009), a partir da postura do feminismo negro, o género “ […] começa a ser pensado como um dos elementos constitutivos das relações sociais, que se articula com outras categorias importantes: classe, raça, etnia, idade, dentre outras” (p. 742).

Assim, apesar da diversidade de abordagens, o feminismo pode ser definido como “uma teoria e/ou movimento centrados no avanço da posição das mulheres através da garantia de direitos políticos, legais e económicos iguais aos dos homens” (Offen, 1988, p. 123). Trata-se de um movimento que, desde os seus primórdios, assentou na crítica das desigualdades sexuais, orientando-se para a promoção dos direitos das mulheres, e sendo a sua premissa basilar o pressuposto de que a sociedade está estruturada de forma patriarcal e desfavorável às mulheres.

A perspetiva atual do feminismo desdobra-se à volta de temas como “ […] direitos reprodutivos, posição da mulher como objeto [essencialmente sexual], violência sexual e doméstica, licença pós-parto, igualdade salarial, discriminação no local de trabalho, pornografia e patriarcalismo” (Bispo dos Santos, 2011, p. 85).

Reportando-nos à visão de Lima da Conceição (2009), importa salientar que “o feminismo não é uma guerra de mulheres para mulheres” (p. 755), nem deve ser visto como uma guerra de mulheres contra homens, mas um movimento que se sobrepõe à feminilidade e à masculinidade e se empenha na pessoa humana, enquanto ser dotado de direitos e de deveres para com a cidadania.