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4 ANÁLISE DO CORPUS DE PESQUISA

4.1 O ETHOS POLICIAL

4.1.3 Foucault em Tropa de Elite

A construção do Ethos policial a partir do Tropa de Elite não podia ser dependente de um único personagem. Embora principal, o capitão Nascimento precisava de outros para corroborar essa construção participativa e nisso são construídos dois personagens secundários: o aspirante Matias e o aspirante Neto. Dois jovens oficiais em início de carreira, idealistas. No dizer do narrador, o personagem principal precisava da “inteligência de um e do coração do outro”. De um lado, o Aspirante Neto incorpora um policial que “era um cara impulsivo; que agia antes de pensar”; enquanto o Aspirante Matias “pensava demais antes de agir”. Nessa construção paralela, nos reportamos a uma cena que classificamos como didático-filosófica do filme pois imerge o expectador na sua concepção metafísica.

Trata-se de um trecho que extrapola os limites convencionais da realidade policial. Este ocorre nas salas de um curso de Direito em uma faculdade pública do Rio de Janeiro, durante uma aula de Sociologia. O professor propõe a divisão de alguns trabalhos para serem realizados entre os discentes em uma apresentação posterior. Dentre as obras a serem debatidas, vemos Vigiar e Punir - Foucault, Genealogia da Moral – Nietzche; capitalismo e esquizofrenia – Deleuze e A ética protestante e o espírito do capitalismo – Max Weber; O capital – Karl Max; A riqueza das nações – Adam Smith; Casa grande e senzala – Gilberto Freyre; Raça e História – Claudi Lévi-Straus; O mal estar na cultura – Sigmund Freud. Em meio à divisão dos trabalhos é que o personagem Matias surge entrando na sala e seu nome é inserido no grupo que irá trabalhar Vigiar e Punir, de Michel Foucault.

A própria construção discursiva que insere o policial de maneira forçosa em um debate acalorado já propõe uma construção separatista entre o Ethos policial e a construção sociológica da obra que a partir de então ganhará especial atenção na peça cinematográfica.

A partir de então o expetador é levado a conhecer o funcionamento de uma Organização Não Governamental no Rio de Janeiro. Entretanto, há nessa construção indícios evidentes de envolvimento político-eleitoreiro, com indicação de um patrocínio de um candidato. Em seguida, em uma roda de estudos, o grupo de

estudantes que participa da direção da ONG passa a compartilhar um cigarro de maconha, o que é reprovado de forma contundente pelo narrador.

Entre o desenvolvimento inicial dessa cena e seu desfecho, o roteiro demonstra a atuação de ONGs com permissão do tráfico, o consumo de entorpecentes por membros dessas ONGs e a retroalimentação do tráfico nas universidades públicas. Esses três cenários são retratados em contextos discursivos representados em cenas próprias.

Assim, o debate didático-filosófico retoma com uma amiga (Maria) do grupo do Aspirante Matias dizendo:

Quadro 13 – Cena Aula de Sociologia (Parte 01)

PROFESSOR: Concluímos que no Brasil a legislação penal funciona como uma rede que articula diversas instituições repressivas do Estado e que infelizmente no nosso país hoje a resultante dessas microrelações de poder que Foucault tanto fala acabam criando um estado que protege e pune quase que exclusivamente os pobres...

Em seguida, provocados pelo professor que conduz o debate, os alunos são desafiados a indicar uma instituição “perversa” que personifique as instituições propostas por Foucault, ao que rapidamente alguém saca “a polícia!”. Perguntado pelo professor, porque a polícia, outro aluno responde:

Quadro 14 – Cena Aula de Sociologia (Parte 02)

EDU: Ué professor!? Porque todo mundo sabe que na favela os cana chega batendo mesmo, sabe. Chegam dando porrada, esculachando geral.

PROFESSOR: O Edu tá certo: a polícia age contra os desprovidos, os bestializados e aqueles que por sua condição são compelidos a cometer delito.

ALUNA: Professor, eu queria falar aqui. Na verdade, eu até concordo com a opinião, em parte, mas eu acho que a polícia não age perversamente só com as classes menos favorecidas. Eu acho que nós, de classe média, de classe alta também, somos vítimas desse bando. Uma vez eu, a Maria e a Natália, a gente tava indo para Búzios, a gente foi parada naquela blitz, os cara foram totalmente agressivos.... (tumulto entre alunos)

EDU: Peraí, peraí, peraí... mas eles não bateram em vocês, neh? (tumulto entre alunos. Professor pedindo silêncio)

PROFESSOR: Gente, calma menos. (o professor aponta para um aluno da plateia e passa a palavra) Diga, diga...

ALUNO BRANCO: Meu pai é juiz. E ele falou que lá na baixada, tortura é pouco o que a polícia faz. Polícia entra lá e sai matando todo mundo. Tipo chacina da candelária.

EDU: Lógico de além de corruptos os caras são covardes, neh?

Durante todo esse debate, o aspirante Matias, jovem, negro, observa a todos com um semblante de observador-crítico. Figura ali um ser em julgamento público, sem direito de defesa e completamente acuado pela maioria esmagadora e opressora. Gesticulando negativamente, passa a falar:

Quadro 15 – Cena Aula de Sociologia (Parte 03)

MATIAS: Então, João, acho que a galera tá tendo uma visão muito superficial do que realmente é (tumulto na sala). Acredito que na Polícia tenha corrupção mas em sua grande maioria os policiais querem fazer um trabalho honesto

EDU: você é maluco irmão? Você tá doido? (novo tumulto)

MATIAS: Ocorre o seguinte. Tenho um grande amigo que é policial, tá? E o melhor amigo dele é policial também. Os dois são honestíssimos, tá? e com relação ao lance de Búzios, eu acho que tem que reprimir mesmo (novo tumulto)

MATIAS: Como que não cara? Você tava com um “bequizinho”, não tava? Você não tem a menor noção de quanta criança entra pro tráfico e morre por causa de maconha e de pó, tá? Do apartamentinho de vocês, daqui da zona sul, não dá pra ver esse tipo de coisa não, tá? Vocês tão muito mal informados. Tão muito mal influenciado por jornalzinho e televisão.