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A fragilidade é a experiência do não saber. Uma impossibilidade de ver e de dizer porque não se sabe quem vê ou diz, nem ao menos o que se vê ou diz:

A vida desprende-se, Porque sei que não estou aqui.

Não sei por onde ir. Chego. Padeço. Não ando só. Trago comigo os tremores:

A estranheza, A desconfiança,

A incerteza.

E pouca coisa ou quase nada Posso lhe contar. Do desassossego vivido, Da solidão experimentada, Do esgotamento assumido, Da morte doída. Verdades incendiadas, Impossibilidade sentida.

O que pode a experiência da fragilidade no espaço de formação? Começo a tocar no teclado sem controle. Deleto. Volto e digito mais uma vez algo sem sentido. Deleto. Tento relembrar o que escrevi, tocando na tecla desfazer, como se lá houvesse algo importante que foi ignorado, como se no movimento de voltar pudesse encontrar algo. Leio e rapidamente, me desinteresso. Toco na tecla desfazer. Algo escapou. Digito, leio, deleto. Desfaço-me. Digito, leio, deleto. Desfaço-me. Digito, leio, deleto. Desfaço-me. Digito, leio, deleto. Desfaço-me. Digito, leio, deleto. Desfaço-me. Movimento que cava pela escrita o vazio. Folha em branco que resiste em ser preenchida, que não se assujeita porque a formação não aceita mais ser vista com olhos razoáveis, não quer mais uma roupa fabricada, nem mesmo ser dita por todos ou mesmo tornar-se visível aos que urram e falam por ela nos espaços inventados nos quais se produzem discursos anunciando seu ideal de competência e profissionalização.

Escrever de mãos vazias. Apenas uma folha em branco e a impossibilidade a me escutar, já que “a dor não pode mais que a surpresa” (ROSA, 1994, p. 546). Folha em branco que faz sentir a morte morrendo dentro de mim. A nudez delicada da fragilidade denuncia a intimidade do corpo exposto, espalhando-se. Dilatada, a dor acontece como um vendaval que

se enrola em sua própria fúria. Tiro certeiro. Atravessa, deixando-me só. Passo um tempo ca- lada, sem nada dizer, não por querer, mas por não poder. Não é indiferença, mas um afetamento que se vive diante das perplexidades quando se pensa em formação de profissionais, quando se vive a impotência de não ter a solução, de se perceber fracassando.

Apostar na presença, no movimento da vida, no ensaio que ensaia a si próprio como o céu que se carrega de água até não aguentar mais e cair, serenando, como se fosse a primeira vez. Cria novas paisagens, trazendo novas possibilidades de inaugurar algo novo. Afinal, o que mais se pode fazer?

A fragilidade não se explica, nem se ensina. Reverbera, vaza pelos poros, como as lavas de um vulcão. Queimando... encena. Ela não é mapa, já que o fim não está traçado. Não precisa de respostas; seu viver está nas perguntas. Dispensa as explicações; sua casa é o deserto. Caminha de costas, sem olhar para o futuro. Quando se prova seu sabor, parece insuportável responder a qualquer pergunta utilitária que se faça pela formação.

Isso, no entanto, não é indiferença. É como se as convenções que indicam o cami- nho se esvaecessem diante da página, como se os discursos que a referenciavam perdessem a força de se fazer ouvir sobre o processo formativo dos profissionais que atuam na educação. Na folha em branco, apagam-se as verdades e a chance de reproduzi-las, sem esquecê-las:

A cor e a história retornam ao branco pela espessura do branco e neste adensar de névoas o apagamento torna toda reconstrução possível – não é isso o que sonhamos para o mundo? Uma página em que a cor retorna à luz que a manifesta e onde a narrativa volta ao zero sem esquecer o que já narrou (VICENTINI, 2006, p. 115).

Folha em branco acolhe as palavras em suspensão, trazendo a sensação de estra- nhamento, de dúvida, impondo a condição de seguir perguntando-se, já que não há mais evi- dências para rastrear; apenas a presença da escrita, sempre suspeita. Uma sensação de vazio que permanece mesmo em movimento, de modo a interromper a continuidade e a frustrar qualquer tentativa de estabilidade, de seguridade, de proteção.

Não se busca a resposta, porque o se na experiência da fragilidade é abandonado. O tempo da revelação é subtraído, e não se pode oferecer cor ao mistério. Uma escrita em cinza, já que o se é apenas uma partícula de realce:

Que tudo fique escuro, que tudo fique claro, que tudo permaneça cinza, é o cinza que se impõe, para começar, sendo o que é, podendo o que pode, fingir de claro e de escuro, podendo se esvaziar deste, daquele, para não ser mais um que o outro. Mas talvez eu teça sobre o cinza, no cinza, ilusões (BECKETT, 2009, p. 41).

A impossibilidade é um vazio que atravessa o corpo fazendo barulho. Escrevo? Sim, escrevo. Escreve? Sim, escrevo. Ouço o toque das teclas que lançam letras e me dizem que estou aprendendo. Uma alegria que se encanta, nem tanto pelo que se escreve, nem mesmo pelo que se tenta escrever, sem conseguir, mas por escrever. Devolvo o silêncio à folha em branco, dando-lhe alguma explicação, causando certo ruído. Ela se volta para mim, retirando meu contentamento. Talvez queira me lembrar de que a explicação é apenas uma forma de socorrer a capacidade de compreender, como nos lembra Rancière (2002, p. 23).

O que pode a formação hoje sem a voz daqueles que as pronunciam? O que pode a formação sem os grandes holofotes que a fazem ser vista como redentora? O que pode a forma- ção hoje, impossibilitada que está de ser representada? O que posso escrever se já caminho às cegas? Ou, nas palavras de Beckett (2001, p. 175): “A expressão de que não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar”.

Uma sensação de finitude põe em movimento a escrita. Talvez isso aconteça porque a formação, ao contrário do que falam os urradores sobre seguridade, sucesso, eficiência, efi- cácia e qualidade, é como uma tenda: fina, frágil, feita de papel, na qual a única possibilidade de se proteger é continuar, como nos diz Atwood (2006) em seu conto “A tenda”:

Você está numa tenda. Do lado de fora, é uma grande imensidão gelada. É uma desolação urrante. Há pedras, gelo e areia, e pântanos profundos onde você poderia afundar sem deixar vestígios. Há ruínas também, muitas ruínas; dentro e ao redor das ruínas, há instrumentos musicais quebrados, banheiras velhas, ossos de mamíferos terrestres extintos, sa- patos sem pés, pedaços de automóvel. Há arbustos espinhosos, árvores retorcidas, muito vento. Mas você tem uma pequena vela em sua tenda. Você pode se manter aquecido.

Muitas coisas estão urrando lá fora, na desolação urrante. Muitas pes- soas estão urrando. Algumas urram de dor porque aqueles a quem ama- vam morreram ou foram mortos, outras urram em triunfo porque cau- saram a morte dos seres amados dos seus inimigos. Algumasurram por socorro, outras por vingança, outras por sangue. O barulho é ensurde- cedor.

Também é assustador. Os urros estão se aproximando de você, de sua tenda, onde você está agachado em silêncio, torcendo para não ser visto. Você está assustado por si mesmo, mas especialmente por aqueles que ama. Você quer protegê-los. Quer juntá-los dentro de sua tenda, como medida de proteção.

O problema é que a sua tenda é feita de papel. O papel não irá impedir a entrada de nada. Você sabe que precisa escrever nas paredes, nas pa- redes de papel, na parte interior da tenda. Você precisa escrever de baixo para cima e de trás para frente, precisa cobrir todo o espaço dis- ponível no papel. Parte da escrita tem de descrever os urros que soam do lado de fora, noite e dia, no meio das dunas de areia e dos pedaços de gelo e das ruínas e ossos e assim por diante; ela deve contar a verdade sobre os urros, mas isso é difícil porque você não consegue ver através das paredes de papel e, portanto, não pode ser exato acerca da verdade sobre os urros, mas isso é difícil porque não consegue ver através das redes de papel e, portanto, não pode ser exato acerca da verdade, e não quer ir lá fora, no meio da desolação, para ver por si mesmo. Parte da escrita tem de ser sobre as pessoas que você ama e a necessidade que sente de protegê-las, e isso é difícil também porque nem todas elas con- seguem ouvir os urros do mesmo jeito que você, alguns acham que eles soam como um piquenique acontecendo na floresta, como uma banda de música, como uma festa na praia, elas não querem ficar presas num espaço tão apertado com você e sua pequena vela e seu medo e sua irritante obsessão com caligrafia, uma obsessão que não faz sentido para elas, e ficam tentando escapar por baixo das paredes da tenda.

Isso não o impede de escrever. Você escreve como sua vida dependesse disso, a sua vida e a vida delas. Você imprime em taquigrafia suas per- sonalidades, suas feições, seus hábitos, suas histórias; você muda os nomes, é claro, porque não quer criar evidências, não quer atrair o tipo errado de atenção para essas pessoas que você ama, algumas das quais – você está descobrindo agora – não são pessoas, e sim cidades e paisa- gens, lagos e roupas que você costumava usar e cafés da vizinhança e cães há muito perdidos. Você não quer atrair os urradores, mas eles são atraídos assim mesmo, como que pelo faro: as paredes da tenda de papel são tão finas que eles podem ver a luz da sua vida, podem ver a sua silhueta e, naturalmente, ficam curiosos porque você pode ser uma presa, pode ser algo que eles podem matar e soltar urros em comemo- ração e depois comer, de um jeito ou de outro. Você é muito visível, você se fez visível, você se traiu. Eles estão se aproximando, se jun- tando; estão dando um tempo aos seus urros para espiar, para farejar. Por que você acha que essa sua escrita, essa grafomania numa caverna frágil, esses rabiscos de um lado a outro e de cima a baixo das paredes do que está começando a parecer uma prisão, é capaz de proteger al- guém? Inclusive você mesmo. Isso é uma ilusão, a crença de que essa sua garatuja é uma espécie de amuleto, porque ninguém sabe melhor do que você, quão frágil a sua tenda é na realidade. Já se ouve o barulho de pés forrados de couro, de rastejos e arranhões, de uma respiração estridente. O vento entra, a sua vela cai e lança uma labareda, e uma aba solta da tenda se incendeia, e pela abertura enegrecida você pode ver os olhos dos urradores, vermelhos e brilhantes à luz do seu abrigo de papel

em chamas, mas você continua escrevendo porque o que mais você pode fazer?

Talvez isso aconteça porque a experiência da fragilidade não tem nada a ver com a produção de dogmas dos quais vivem os urradores que se alimentam da pedagogia e a engor- dam. Urradores que farejam a mesmice, revestindo-a com outras roupas, formando uma legião de seguidores famintos.

A experiência da fragilidade tem mais relação com deixar as mãos vazias, uma vez que “o homem experimentado é o homem que sabe da finitude de toda a experiência, de sua relatividade, de sua contingência, o que sabe que cada um tem que fazer sua própria experiên- cia” (LARROSA, 2015, p. 41).

Afinal, o saber da experiência é tomar para si a própria vida – não a vida do outro, a vida daqueles, nem tampouco a vida deles –, pois o saber da experiência sublinha “sua quali- dade existencial” (LARROSA, 2015, p. 33) e é sem (pre)ocupação:

Não nos faz melhores, ao menos no sentido da moral dogmática, não nos faz mais sábios, ao menos no sentido do saber científico e, sobre- tudo, não nos faz mais ricos, ao menos a partir desse enriquecimento que prometeria o atual mercado de experiência que entende o sujeito como consumidor. A última será uma frase metódica é que, quando não estou trabalhando penso às vezes que sei algo, mas quando estou traba- lhando está bem claro que não sei nada (BATAILLE apud LARROSA, 2015, p. 14).

Não é indiferença, e sim paixão. Não se vive o mundo fora da caverna, porém em presença, aprisionado, quando se vive o desapoderamento. Sim. Embalei-me naqueles pares de olhos que me esperavam, como se quisesse lutar contra minha tristeza, ouvir histórias que me fizessem adormecer novamente, até que um deles pudesse me socorrer. Passei não sei quanto tempo em estranhamento de mim mesma. Voltei ao Acre outras vezes, mas nunca mais as coisas foram como antes, mas sim um pouco diferentes.

Experimentar a impossibilidade com a responsabilidade de continuar, pois se ama. Seguir sem a ambição de preencher o vazio, sem a pretensão de se encher de informações. Viver a gratuidade dos acontecimentos, sentir as perplexidades sem decifrá-las. Deixar exteriorizar o que não se pode, o que não se sabe; ouvir o que não se fala, o que não se sabe falar; experimentar

o que não se sente. Estranhar-se a si próprio, colocar-se fora de si mesmo, aproximando-se do mundo. Deixar ser como não se é. Preferir a tenda frágil à caverna de Platão, habitada por quem aspira o mundo verdadeiro, que busca apreender a ideia de transcendência, alicerçando seus movimentos no conhecimento. Ao contrário da tenda, na qual se permanece prisioneiro, fa- zendo teatro de sombras, habitando um espaço inquietante, ou, ao modo de Deleuze e Parnet (1998), no qual se pode ser Pantera Cor-de-Rosa e viver amores como a vespa e a orquídea, o gato e o babuíno, experimentando a subjetividade pelo encontro:

Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir, ou núpcias [...] En- contram-se pessoas [...] mas também movimentos, ideias, acontecimen- tos, entidades. Todas essas coisas têm nomes próprios, mas o nome pró- prio não designa de modo algum uma pessoa ou um sujeito. Ele designa um efeito, um ziguezague, algo que se passa ou que se não passa entre dois, sob uma diferença potencial. [...] Dizíamos a mesma coisa para os devires: não é um termo que se torna outro, mas cada um encontra o outro único, devir que não é comum aos dois, já que eles não têm nada a ver um com o outro, mas está entre os dois, que têm sua própria dire- ção, um bloco de devir, uma evolução a-paralela [...] núpcias sempre “fora” e “entre” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 14).

Quando isso ocorre, a formação torna-se o espaço do indivisível, do desvio, sensível aos efeitos; adentra-se nela pelo ensaio. Um percurso sem regras, indisciplinado, ao contrário dos mapas, que desenham um mundo ordenado, imóvel, com fronteiras imperceptíveis.

Pelo ensaio, perdem-se as referências. Não é mais o mundo fabricado que habita em mim, mas antes “um modo de habitar o mundo de um ser que existe, de um ser que não tem outro ser, outra essência além de sua própria existência corporal, finita, encarnada, no tempo e no espaço” (LARROSA, 2015, p. 43).

A fragilidade reside na pele e não carece de nada. Exposta em seu mais profundo, vive os efeitos, invade os acontecimentos, subjetivação que se dá no contato (in)tenso com os corpos, já que “os acontecimentos concernem tanto mais os corpos, cortam-nos e mortificam- nos tanto mais quanto percorrem toda a sua extensão sem profundidade” (DELEUZE, 1998, p. 11). Lá não há mistura, apenas exposição de outras intimidades desterritorializando o exterior. Isso se dá porque a experiência é da dimensão da vida, e a formação que se experi- menta é para cada um singular e inseparável do sujeito que a vive. O saber que se produz pela experiência não resulta em um certificado no qual se autoriza a tomar a vida do outro ou a

própria vida para prescrever-lhe ensinamentos, já que o saber da experiência sublinha “sua qua- lidade existencial” (LARROSA, 2015, p. 33).

Porque a formação, assim como a linguagem, é desobedecida, uma vez que ao to- mar a palavra:

Desobedecem-na as crianças, os velhos, as mulheres, os artistas, os fi- lósofos. Desobedecem-na a conversa, a leitura, a escrita, a inscrição nas paredes irregulares, os presos, os dementes, os autistas, os bêbados, os que escrevem poemas, os que preferem não fazê-los, desobedecem-na os gagos, os jogos, as incógnitas e as madrugadas. Desobedecem-na o tempo sereno, a calma despojada, as paixões, os sons sem palavras. De- sobedecem-na o instante que o desconhecido continua sendo um jogo de adivinhação irremediável, o momento em que uma mão se estica a outra mão, a hora em que um gesto se rebela contra a infâmia (SKLIAR, 2014, p. 16-17).

Assim, desbebendo a mim, uso o ensaio para ensaiar a formação, ao modo como a pesquisa também foi se fazendo – ensaiando-se. Experimentei a fragilidade ensaiando uma es- crita que viveu em mim, atravessando-me. Utilizo como pretexto o artigo de Larrosa (2004, p. 34): “A operação ensaio: sobre o ensaiar e o ensaiar-se no pensamento, na escrita e na vida”. Nesse texto, o autor ensaia seu próprio pensamento enquanto escreve perfilando Foucault sob o aspecto de ensaísta, descrevendo sua maneira particular de inaugurá-lo. Um ensaísta que, para Larrosa (2004), se conecta com o presente em um tempo consciente de sua finitude, sabendo que suas ideias, suas palavras, como a si próprio, são mortais.

Ler um ensaio para ensaiar esta escrita, sentindo as linhas de fuga, a singularidade da fragilidade para pensar a formação enquanto se força a escrever sobre a formação: uma tenda frágil, provisória, contingente, com uma pele fina e delicada que a faz ouvir o que não se sabe, o que não se pode, o que não se pensa, nem ao menos o que se deseja.

Escrever um ensaio acerca da formação retirando sua condição de herói, de imortal. Devemos despi-la de seu discurso salvacionista, na companhia de Xerazade em As mil e uma noites, que vive adiando sua morte. Escrever um ensaio para abandonar o ensino e a sua pre- tensão. Ficar somente com o aprender, vivendo, em primeira pessoa: “Não em sua força ou em seu orgulho, mas em sua precariedade, em sua contingência” (LARROSA, 2004, p. 36).

Ler um ensaio para pensar a formação não fundamentado na experiência da fragili- dade, nem tampouco para formar algum conceito no qual se possa utilizá-la para pensar a for- mação ou produzir alguma verdade para validar algum discurso a respeito da formação, mas talvez para viver o verdadeiro em uma formação, para sentir o que escapa ao saber, o que se pode ver e ouvir com base no acontecimento:

A verdade não é tanto a qualidade de uma proposição, quanto o aconte- cimento que se dá no próprio instante em que nossas verdades se mos- tram para nós como mentiras. Desse ponto de vista, a verdade não é adequação epistêmica, mas imperativo moral (LARROSA, 2006, p. 195).

Escrever um ensaio, ensaiando. Escrever um ensaio afetada pela experiência da fra- gilidade que impossibilita pensar a formação. Escrever um ensaio quanto à formação sem pro- teção, já que o ponto de partida de um ensaísta é o impossível, e a fragilidade não se apreende nem pelo poder, tampouco pelo saber. Formação atravessada por gestos. Palavras que se esca- pam durante a conversa, silêncios que interrompem o discurso, causando estranhamentos.

Para Larrosa (2004, p. 32), o ensaio é mais que um gênero da escrita. É antes uma atitude existencial, um modo de lidar com o mundo, pela experiência do presente, ou, como nos descreve Atwood (2006), o que mais se pode fazer quando se vive a desolação? O estranha- mento de si mesmo abre a possibilidade de atualizar o presente, já que se situa no próprio tempo, vivendo sua finitude, desnaturalizando a invenção de um tempo de convenções. De experimen- tar um passado sem autoridade, sem submissão; um futuro no qual já não é possível projetar- se, e um presente que só pode ser tomado como uma morada contingente e provisória (LAR- ROSA, 2004).

Uma formação que se interroga, ensaiando-se a si mesma. Um espaço em que só se pode voltar-se para si, não em ato de isolamento, mas como uma relação íntima com o mundo, em primeira pessoa do singular, renunciando ao ideal de certeza, escutando os urros produzidos, vivendo a desolação por si mesmo, pondo-se à prova, experimentando-se.

Santos (2013) relembra a crítica que Beckett (1984) faz à pintura clássica, ou figu- rativa. Ele afirma que a arte deveria assumir o fracasso da representação do objeto. Embora a arte moderna reconhecesse seus limites, para Beckett (1984), muitos artistas, especialmente os surrealistas, mantiveram a dicotomia entre o observador e o observado sem percebê-la. Ou seja,

eles ampliaram as possibilidades de representação, no entanto não questionaram o próprio do-

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