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Lista de Tabelas

4. A syntactic account

4.2. Francês: Martin (2010)

Martin (2010) discute a distribuição dos nomes deverbais em francês formados a partir dos sufixos –age, -ment, e –ion. A hipótese explorada pela autora é a de que esses

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sufixos apresentam um valor semântico abstrato, que esclarece: (i) porque verbos selecionam diferentes sufixos na operação de nominalização, dada a premissa de que a semântica da raiz verbal e do sufixo devem combinar; (ii) a interpretação de nomes deverbais eventivos, incluindo as diferenças semânticas de duplos; (iii) a aceitabilidade de neologismos.

A autora mostra que alguns diagnósticos de eventividade usados por Grimshaw (1990), como a pluralização do nome deverbal e o uso de modificadores fréquent ou

constant, não se aplicam ao francês porque não permitem diferenciar as leituras eventivas

das estativas. Assim, a autora usa como diagnóstico de eventividade o predicado assister

à ‘assistir a, testemunhar’, em que o nome deverbal denota o evento a ser assistido.

Analisando ocorrências dos sufixos deverbais na internet, Martin (2010) investiga se (a)telicidade do verbo tem influência na escolha do sufixo. Os resultados mostram que não há uma correlação entre a escolha dos sufixos e esse valor aspectual da base verbal. Contudo, a autora afirma que outros valores aspectuais estão envolvidos na distribuição desses afixos. Para isso, propõe uma análise em termos de multi-traços, considerando cinco propriedades: (P1) a extensão da cadeia eventiva; (P2) o grau de agentividade do

sujeito; (P3) a relação incremental entre o evento e o tema; (P4) o domínio ontológico da cadeia eventiva; (P5) descontinuidade.

4.2.1. -ment vs. -age

• Propriedade P1 – Extensão da cadeia eventiva

A propriedade P1 está ativa nas bases verbais que apresentam um certo tipo de subespecificação semântica8, podendo denotar cadeias eventivas longas ou curtas. Assim, com essas bases verbais, -age seleciona a leitura mais longa e –ment seleciona a leitura mais curta. Em bases verbais causativo-incoativas, os nomes deverbais em –age denotam                                                                                                                

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Piñon (2001a apud Martin 2010) propõe que as versões transitivas e intransitivas de verbos causativo- incoativos são derivadas de uma mesma base subespecificada, que se deriva de um adjetivo.

causação plena e os nomes correspondentes em –ment denotam mudança de estado do objeto (Martin 2010, p.118-119):

(25) Pierre a assisté au gonflage des ballons. ‘Pierre witnessed the inflating of the balloons.’ ‘Pierre assistiu ao enchimento dos balões’ Ø Pierre assiste à causação completa.

(26) Pierre a assisté au gonflement des ballons. ‘Pierre witnessed the inflation of the balloons.’ ‘Pierre assistiu ao enchimento dos balões’ Ø Pierre assiste à mudança de estado apenas.

A autora aponta que os nomes em –ment podem ser usados com um sintagma par

X, que denota o agente responsável pela interpretação de causa do evento.

(27) Pierre a assisté au gonflement des ballons par X. ‘Pierre witnessed the inflation of the balloons by X.’ ‘Pierre assistiu ao enchimento dos balões por X’ Ø Pierre assiste à causação completa.

Em bases verbais com leitura iterativa, -age seleciona a leitura mais longa (iterativa), enquanto –ment seleciona a leitura mais curta (um único evento). Por exemplo, com os verbos intransitivos miauler ‘miar’ e secouer ‘tremer’, os nomes deverbais miaulement e secouement denotam uma única produção de som/movimento, enquanto miaulage e secouage implicam em iteração.

Em bases verbais que não exibem a relevante subespecificação (não exibem leitura longa ou curta), como pousser ‘empurrar’ ou tirer ‘tirar’, a propriedade P1 é neutralizada e os nomes deverbais em –ment e em –age denotam o mesmo tipo de evento.

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• Propriedade P2 – Grau de agentividade do sujeito

Em geral, os nomes em -age são mais agentivos do que os nomes em –ment. A proposta da autora é que a leitura dos nomes em -age deve ser agentiva, enquanto os nomes em –ment podem tolerar essa leitura, sem a implicar necessariamente. Assim, a cadeia eventiva denotada pelo nome em –age deve começar com uma ação ou deve ser desencadeada por uma ação (intencional). Por exemplo, com o verbo pousser ‘empurrar; crescer’, poussage é normalmente usado para descrever uma técnica que intrinsicamente implica em um agente dotado com intenção, enquanto poussement é preferido quando o processo não é intencional.

(28) La dent pousse. > le poussement/#poussage de la dent. ‘The tooth is growing.’ > ‘the growing of the tooth.’ ‘O dente está crescendo.’ > ‘o crescimento do dente.

• Propriedade P3 – Relação incremental entre o evento e o tema

A propriedade P3 se refere a uma relação entre o evento denotado e o seu tema. Observe os exemplos.

(29) Marie a intentionnellement plissé sa jupe. > Le plissement / -age de la jupe. ‘Marie intentionally pleated her skirt.’ ‘The pleating of the skirt.’ ‘Marie intencionalmente plissou sua saia.’ ‘O plissado da saia.’

(30) Marie a intentionnellement plissé les yeux. > Le plissement / #plissage des yeux. ‘Marie intentionally squinted her eyes.’ ‘The squinting of the eyes.’

A hipótese é de que para -age ser aceitável, deve haver uma relação incremental entre o evento e e o tema x: for every (relevant) proper part y of the Theme x, y stands in

the relation θ denoted by the verb to some proper part e’ of e (Martin 2010, p. 125).

Esta relação pode ser satisfeita em (29), onde toda parte relevante da saia pode ser tema do evento de plissar/preguear; mas não em (30), porque não faz sentido dizer que toda parte relevante dos olhos é tema do evento de fechar/piscar os olhos.

P3 também esclarece o fato de que, algumas vezes, os nomes em -age são melhores com temas plurais. De fato, temas formados por uma pluralidade de entidades é uma maneira alternativa de satisfazer uma relação incremental que não pode ser satisfeita por uma única entidade.

• Propriedade P4 – Domínio ontológico da cadeia eventiva

A propriedade P4 que atua na competição entre os sufixos –ment e –age se refere ao domínio ontológico ao qual pertence a cadeia eventiva. A hipótese é de que –age é marcada por um domínio específico (físico), e –ment é ontologicamente não-marcado.

Assim, a primeira predição dessa hipótese é de que –age não será selecionado por verbos que não têm uma leitura física, como os verbos psicológicos (e.g. penser ‘pensar’, préoccuper ‘preocupar’, effrayer ‘assustar’, imaginer ‘imaginar’). A segunda predição é que quando a base for subespecificada em relação ao domínio ontológico do evento denotado, -age seleciona a leitura física e –ment as demais.

(31) Le gonflement des prix/le gonflage du ballon.

‘The inflating of the prices [abstract Theme] / the inflating of the balloon.’ [physical Theme]

  36   4.2.2. -ment vs. –ion

Segundo a autora, a competição entre esses dois sufixos representa uma área mais difícil do que a anterior, uma vez que –ion e –ment são tidos como improdutivos no francês moderno, diferentemente do sufixo -age. Assim, para esse par, são investigadas três propriedades: (P1) duração da cadeia eventiva; (P4) domínios ontológicos; e (P5) descontinuidade.

• Propriedade P1 – Duração da cadeia eventiva

Em relação a essa propriedade, -ion se assemelha a –age, na maneira em que competem com –ment. Com bases causativo-incoativas, os nomes em –ion tendem a ser subespecificados, podendo denotar tanto a causação completa quanto mudança de estado; enquanto –ment denota apenas a mudança de estado.

(32) L’isolement de la maison. ‘The house’s isolation.’ i. o estado isolado da casa. ii. #a ação de isolar a casa.

(33) L’isolation de la maison. ‘The house’s isolation.’ i. o estado isolado da casa. ii. a ação de isolar a casa.

Com algumas bases, contudo, os nomes em –ion acessam apenas a leitura longa. Isso indica que –ion é orientado para a ‘causação’ e –ment é orientado ao ‘resultado’. A autora nota que o sufixo latino –tio era mais causativo que o sufixo –men(tum).

Com relação aos verbos intransitivos que denotam iteração, P1 parece não desempenhar nenhum papel na competição de –ment e –ion, uma vez que nenhuma tendência clara é encontrada.

• Propriedade P4 – Domínios Ontológicos

Com relação aos domínios ontológicos, a autora aponta que existe, em geral, uma correspondência entre os nomes em –ment e em –ion. Contudo, a especificação trazida por –ion pode desencadear uma mudança no domínio ontológico, transferindo o evento denotado a um domínio mais abstrato do que os nomes correspondentes em –ment.

• Propriedade P5 - Descontinuidade

Outra intuição sobre a diferença entre esses sufixos é a de que –ion é mais prototipicamente télico do que –ment. Com verbos que denotam evento e mudança de estado, -ion parece requerer que o evento seja concebido como realizado em diferentes passos, enquanto –ment parece preferencialmente selecionar bases que denotam um evento que acontece, por default, sem interrupção.

(34) a. J’ai éclaté le ballon #en plusieurs étapes. ‘I exploded the balloon in several steps.’ ‘Eu eclodi o balão em diversas etapas. b. éclatement/*éclatation

(35) a. Samira a alphabétisé Pierre en plusieurs étapes.

‘Samira alphabetized Pierre in several steps.’ ‘Samira alfabetizou Pierre em várias etapas’ b. alphabétisation/*alphabétisement

  38   4.2.3. -age vs. –ion

Esses sufixos denotam eventos de domínios ontológicos diferentes, quando concatenados à mesma base.

(36) a. un cassage de doigt, #une cassation de doigt. (evento físico)

‘A breaking of a finger.’ ‘A quebra de um dedo.’

b. la cassation d’une décision juridique, #le cassage d’une décision juridique. (evento jurídico)

‘The canceling of a juridical decision.’ ‘O cancelamento de uma decisão judicial’

(37) a. le fixage d’un tableau. (não metafórico)

‘The fastening of a painting.’ ‘A fixação de um quadro’

b. le fixage des prix (metafórico) vs la fixation des prix. (não metafórico)

‘The setting of the prices.’ ‘A fixação dos preços.’

Outra diferença é que –age implica a presença de uma ação (cf. P2), enquanto -

ion pode denotar mudanças de estado.

(38) a. La tribu s’est fixée dans cette région.

‘The tribe settled in this region.’ ‘A tribo está fixada nesta região’

b. La fixation de la tribu/#le fixage de la tribu.

‘A fixação da tribo.’

Uma última predição é que -ion é preferido em relação a -age quando há uma relação incremental entre o evento e o tema (cf. P3).

(39) Le codifiage d’un texte / ?d’un nombre. ‘The codifying of a text / of a number.’ ‘A codificação de um texto/de um número.’

(40) La codification d’un texte / d’un nombre. ‘The codification of a text / a number.’ ‘A codificação de um texto/de um número.’

Para concluir, a autora apresenta a seguinte tabela que resume as diferenças entre os três sufixos analisados.

Tabela 01: Diferenças semânticas/aspectuais entre os sufixos estudados

age ment ion

preferência pelo domínio abstrato

[−DESCONTINUIDADE] [+DESCONTINUIDADE] P4

P5

domínio físico todos os domínios P3

leitura longa com bases subespecificadas

leitura curta com bases subespecificadas

leitura longa ou curta com bases subespecificadas P1

P2 [+AGENTIVO] [±AGENTIVO] [±AGENTIVO]

incrementalidade entre

evento e tema não-marcado não-marcado

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É interessante salientar que as propriedades semânticas descritas por Martin (2010) para os sufixos –ion e –ment se assemelham às diferenças entre as leituras eventiva vs. resultativas que identificamos nos sufixos –ção e –mento em PB. A diferença relevante entre as duas línguas se relaciona à produtividade desses sufixos, já que em francês esses nominalizadores não são sincronicamente produtivos, diferentemente do PB.

No próximo capítulo, discutiremos os pressupostos teóricos que serão fundamentais para análise que iremos desenvolver nessa tese. Tendo em vista que essa trabalho trata de sufixos nominalizadores em PB, será fundamental discutirmos conceitos relativos aos processos de formação de palavras no quadro teórico da Morfologia Distribuída, além de noções acerca do tratamento que Grimshaw (1992) e Hale e Keyser (2002) desenvolvem sobre estrutura argumental e, no caso da primeira autora especificamente, o tratamento dado às nominalizações.

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APÍTULO

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