Lista de Tabelas
Valor 3 – as duas opções são igualmente boas.
3.3. Interpretando os fatos
Conforme apontamos no início deste capítulo, considerando que a derivação sintática procede em termos de fases (Chomsky 2000, 2001), enviadas ciclicamente ao componente fonológico, argumentamos em Freitas (2014) que as diferenças morfofonológicas dos sufixos -ção e -mento são resultado de duas propriedades sintáticas: primeiro, o tipo de estrutura argumental da base verbal; e segundo; o ponto derivacional no qual a estrutura sintática é enviada à interface FF. Assim, as hipóteses teóricas que levaram à construção deste trabalho são seguintes:
(H1) Existe uma relação estreita entre os aspectos morfofonógicos dos nomes formados por -ção e -mento e a estrutura sintática na qual esses afixos são inseridos.
(H2) Diferentes tipos de estruturas argumentais do verbo base são responsáveis pelos traços de superfície dos sufixos nominalizadores.
(H3) É distinto o ponto derivacional no qual as raízes encaixadas são enviadas ao componente fonológico.
Essas hipóteses puderam ser corroboradas a partir da análise quantitativa dos dados lexicais e parecem também se sustentar se incluirmos na análise os resultados experimentais, conforme discutiremos nas próximas seções. Contudo, vamos antes recapitular os principais resultados discutidos até agora.
124 3.3.1. Sumário dos principais resultados
Os resultados experimentais apresentados indicaram, em geral, uma consonância com os resultados descritivos localizados por Freitas (2014). Houve, contudo, algumas divergências, conforme apresentamos no quadro sinóptico abaixo.
Tabela 19: Quadro sinóptico dos resultados quantitativos e experimentais
Como podemos observar na Tabela 19, com relação aos resultados acerca das classes temáticas, somente os verbos em –ir apresentaram diferenças significativas entre os resultados quantitativos e experimentais: na análise dos dados do dicionário, os verbos em –ir exibiram uma preferência pelo sufixo –ção, ao passo que, nos resultados experimentais, observamos uma preferência pelo sufixo –mento (embora no experimento 2 essa tendência não tenha sido tão forte quanto no experimento 1). Esse resultado parece revelar uma distinção entre um padrão lexical diacrônico, evidenciado pela tendência
Resultados Quantitativos
(Freitas 2014) Resultados Experimentais
Classes temáticas
Verbos em -ar Selecionam preferencialmente o sufixo -ção Selecionam preferencialmente o sufixo -ção
Verbos em -er Selecionam preferencialmente o sufixo -mento Selecionam preferencialmente o sufixo -mento
Verbos em -ir Selecionam preferencialmente o sufixo -ção Selecionam preferencialmente o sufixo -mento
Estrutura Argumental
Verbos Transitivos
Selecionam preferencialmente o sufixo -
ção Não apresentou tendência clara Verbos
Bitransitivos Não foi investigado
Selecionam preferencialmente o sufixo - ção
Verbos
Inergativos Selecionam preferencialmente o sufixo -ção Selecionam preferencialmente o sufixo -ção Verbos
Inacusativos
Selecionam preferencialmente o sufixo - mento
Selecionam preferencialmente o sufixo - mento
localizada nos dados do dicionário e uma reanálise sincrônica e possível mudança ainda em curso na língua, que neutraliza as classes II e III, tratando-as de maneira semelhante. Estas questões serão abordadas no Capítulo IV, quando discutiremos a questão da produtividade diacrônica dos sufixos –ção e –mento.
Ainda sobre as classes temáticas, são interessantes os resultados experimentais obtidos para a classe II dos verbos em –er. Assim como nos resultados quantitativos, localizamos, no experimento 1, uma clara tendência de preferência dos verbos em –er pelo sufixo –mento. Entretanto, esta tendência desaparece no experimento 2, quando alteramos o estímulo e retiramos o alteamento da vogal temática -e- para [i]. Usamos essa versão ‘patológica’ do experimento como estratégia para isolarmos os possíveis fatores que condicionariam a relação de preferência entre as variáveis analisadas. Essa estratégia se mostrou eficaz, porque averiguamos que a preferência dos verbos em -er pelo sufixo –
mento está condicionada ao alteamento da vogal temática. Quer dizer, no momento em
que a regra não se aplica, a tendência de preferência não é mais atestada.
Finalmente, considerando a classe temática não-marcada em -ar, notamos um comportamento bastante regular: tanto nos dados quantitativos como nos experimentos 1 e 2, os verbos em –ar demonstraram uma clara preferência pelo sufixo –ção.
Com relação aos resultados acerca da estrutura argumental dos verbos base, corroborando a nossa hipótese, atestamos que verbos inergativos selecionam preferencialmente o sufixo –ção e verbos inacusativos selecionam preferencialmente o sufixo –mento. Embora não tenhamos investigado a distribuição dos verbos bitransitivos na análise descritiva do léxico, os resultados experimentais indicam que esses verbos selecionam preferencialmente o sufixo –ção. O grupo dos verbos transitivos foi o único que não exibiu uma tendência clara, uma vez que as proporções de –ção e –mento são bastante equitativas.
Na próxima seção, discutiremos uma proposta teórica de interpretação para os resultados quantitativos e experimentais apresentados neste capítulo.
126 3.3.2. Proposta teórica
Como vimos na discussão dos resultados quantitativos e experimentais, existem ao menos dois tipos de fatores que condicionam a inserção dos sufixos –ção e –mento na formação de um dado nome deverbal: (i) fator sintático: o tipo de estrutura argumental do verbo base; (ii) fator fonológico: a classe temática do verbo base (a que se soma o alteamento da vogal temática /e/, neutralizando as classes II em –er e III em -ir).
Em um modelo derivacional de formação de palavra como o da MD, tanto os processos derivacionais de mudança categorial quanto processos flexionais acontecem na sintaxe e a atribuição de material fonológico é feita tardiamente, no componente pós- sintático. Ao assumirmos essa arquitetura de gramática, é preciso considerar que os processos derivacionais de formação de um nome deverbal acontecem na sintaxe por meio da concatenação cíclica de uma raiz a núcleos funcionais distintos.
Como discutimos no capítulo anterior, diversos trabalhos (Grimshaw 1990, Alexiadou e Renhart 2010, entre outros) mostram que nomes deverbais exibem uma estrutura complexa, que apresenta camadas verbais pertencentes ao verbo que integra a história derivacional desse nome. Sendo assim, o primeiro estágio derivacional, no processo de formação do nome, envolve a formação de um verbo. Isto significa que há a concatenação de uma raiz a um núcleo funcional cíclico v que verbaliza esta raiz. Contudo, como propusemos na seção 2.1. deste capítulo, determinadas raízes podem selecionar, por convergência, um DP como complemento. Essa proposta segue a abordagem de Hale e Keyser (2002) de que verbos transitivos e inergativos apresentam uma estrutura monádica, composta por um núcleo verbal e um argumento nominal (e.g.
make a fuss V[V DP]). Se assumirmos que o DP é uma fase (cf. Embick 2010), a sua
presença como complemento da raiz pode desencadear o spell-out da raiz no primeiro estágio derivacional, tão logo o núcleo cíclico v é concatenado à estrutura. Verbos inacusativos, por outro lado, que apresentam sujeitos derivados (gerados na posição de complemento), não exibiriam um DP complemento como requisito de convergência.
Assim, as estruturas formadas a partir desses verbos teriam suas raízes processadas fonologicamente em estágios derivacionais comparativamente mais tardios.
Nesse sentido, é possível argumentarmos que é nesse ponto que temos a influência do fator sintático na formação dos nomes em –ção e –mento: verbos que apresentam complementos internos (transitivos, bitransitivos e inergativo) preferencialmente formam nomes com o sufixo –ção, enquanto verbos inacusativos preferencialmente formam nomes com o sufixo –mento. Podemos aventar duas hipóteses de por que temos essa distribuição. A primeira delas se relaciona aos conceitos de marcação e de produtividade. Como vimos no Capítulo I, o –ção é o sufixo nominalizador mais produtivo em PB, exibindo larga vantagem em termos numéricos em relação ao sufixo –mento, que seria o segundo mais produtivo. Este fato já é em si um critério de explicação por que este sufixo é encontrado em maior número de contextos sintáticos. Além disso, sendo o sufixo –ção o mais usado e mais geral, é possível considerá-lo menos marcado do que o sufixo –mento, o que o permite figurar em mais ambientes, com menos restrições de ocorrência.
A segunda hipótese se relaciona a um aspecto semântico. Embora esses sufixos sejam tradicionalmente descritos como concorrentes sem bloqueio semântico (cf. Sandmann 1981, Rocha 1999) e, por vezes, semanticamente neutros (cf. Basílio 1996), podemos notar sutis diferenças entre eles. Como apontamos no Capítulo I desta tese, é possível perceber que os nomes em –ção favorecem uma leitura mais eventiva do que os nomes em –mento, que apresentam uma semântica mais resultativa. Em uma linha semelhante de análise, Oliveira (2007) também discute as diferenças sintático-semânticas entre os sufixos -ção e -mento a partir de considerações da MD. Segundo a autora, a diferença fundamental entre esses dois sufixos nominalizadores é que –ção é um morfema agentivo/causativo que se adjunge a sintagmas verbais que apresentam a propriedade de causação não-interna (ou a v-1 nos termos de Marantz 2007), ao passo que –mento é um morfema não-agentivo, que se concatena a sintagmas verbais que exibem a propriedade de causação interna, denotando mudança de estado.
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Parece interessante relacionar essa abordagem com a nossa proposta, no sentido que verbos que exibem a propriedade de causação não-interna implicam, necessariamente, a presença de um agente. Isto é capturado neste trabalho em termos de classes verbais, uma vez que verbos transitivos, bitransitivos e inergativos, que tendem a selecionar preferencialmente o sufixo –ção, implicam na projeção de uma posição especificador, muitas vezes ocupada por um sujeito cujo papel temático é o de agente. Por outro lado, verbos que apresentam a propriedade de causação interna e denotam mudança de estado são exatamente os verbos inacusativos, que é a única classe verbal considerada em que atestamos a preferência pela seleção do sufixo –mento.
Desse modo, parece que a nossa proposta parece se manter e retomamos aqui as estruturas propostas para a formação dos nomes em –ção e –mento, apresentada nos itens (69) e (70) deste capítulo e repetidas abaixo.
(88) Estrutura de -ção
28 However, as I have been discussing, there seems to be an important difference concerning the argument structure of the embedded verb. Our data has shown that there is a preference for the –mento suffix to occur with unaccusative verbs and for –ção suffix to occur with unergative and transitive verbs. Thus, we would have the following structures forming the two types of deverbal nouns:
(28) –mento structure nP V Spell-Out n AspP V Asp vP V v √P √𝑅𝑜𝑜𝑡 (29) –ção structure nP V Spell-Out n AspP V Asp vP V v √P Spell-Out V √𝑅𝑜𝑜𝑡 DP
I claim that these differences relating the forming syntactic structures in which –mento and –ção enter are responsible for the morphophonological behavior of the surface nouns, because they have their root processed in distinct points in the path leading to PF. The embedded unergative/transitive verb in (29) is firstly merged to its complement, i.e. to DP. As the DP is a phase, when the cyclic head v is merged to structure, the root and DP are spelled-out. By
(89) Estrutura de -mento
Nas estruturas propostas em (88) e (89), os nomes deverbais formados por -ção e -mento apresentam uma raiz concatenada a um núcleo cíclico v e a um núcleo não cíclico Asp, que fornece informações de ação, processo, resultado, etc. A hipótese é de que o núcleo Asp é o domínio local no qual os expoentes /-mento/ e /-ção/ são inseridos por meio da inserção vocabular, quando o núcleo cíclico n é concatenado à estrutura.
As diferenças entre essas estruturas se localizam no primeiro estágio derivacional, no ponto computacional em que a raiz é inserida na sintaxe, que pode requisitar ou não a presença de um DP complemento por convergência. Assim, raízes que exibem DPs complementos (como as dos verbos transitivos, bitransitivos33 e inergativos) são primeiramente concatenadas a seu complemento, como vemos em (88). O DP sendo uma fase (cf. Embick 2010), quando o núcleo cíclico v é concatenado à estrutura, a raiz e o DP são enviados à FF (spelled-out). Por outro lado, em verbos que não requerem a presença de um DP como complemento (como os inacusativos), a raiz, o núcleo v e o núcleo Asp serão enviados à interface (spelled out) somente quando o outro núcleo cíclico n é concatenado à estrutura, como vemos em (89).
Argumentamos que essa diferença no ponto derivacional em que a raiz desses verbos é enviada ao componente fonológico para ser processada é responsável pelo
33 Nessa abordagem, diferentemente de uma construção de objeto duplo que envolva a presença de uma
projeção aplicativa, assumimos aqui que a estrutura de um verbo bitransitivo inclui um sintagma preposicional (SP) que licencia a presença do objeto interno. Este SP não é, contudo, projetado na formação do nome deverbal.
28 However, as I have been discussing, there seems to be an important difference concerning the argument structure of the embedded verb. Our data has shown that there is a preference for the –mento suffix to occur with unaccusative verbs and for –ção suffix to occur with unergative and transitive verbs. Thus, we would have the following structures forming the two types of deverbal nouns:
(28) –mento structure nP V Spell-Out n AspP V Asp vP V v √P √𝑅𝑜𝑜𝑡 (29) –ção structure nP V Spell-Out n AspP V Asp vP V v √P Spell-Out V √𝑅𝑜𝑜𝑡 DP
I claim that these differences relating the forming syntactic structures in which –mento and –ção enter are responsible for the morphophonological behavior of the surface nouns, because they have their root processed in distinct points in the path leading to PF. The embedded unergative/transitive verb in (29) is firstly merged to its complement, i.e. to DP. As the DP is a phase, when the cyclic head v is merged to structure, the root and DP are spelled-out. By
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comportamento morfofonológico dos nomes em -ção e –mento em relação ao alteamento da vogal temática -e- (categórico nos nomes em –mento) e a alomorfia contextual condicionada pela raiz. Isto nos levaria ao segundo fator que condiciona a seleção dos sufixos nominalizadores em questão: o fator fonológico.
Contudo, antes de prosseguirmos, é preciso tecermos alguns comentários sobre a categoria dos verbos transitivos. Como discutimos, no experimento 3, este foi o único grupo que não exibiu uma tendência clara de preferência entre os sufixos -ção e –mento. Essa categoria é a mais volumosa em termos numéricos. Como mostramos na Tabela 06, 60.2% das bases verbais disponíveis em nossa base de dados são transitivos. Desse modo, essa é possivelmente a classe verbal menos marcada e que abarca, com menos requisitos, diferentes tipos de sufixos nominalizadores. Além disso, é possível aventarmos também que, no que se refere a esta classe, outros fatores condicionantes fonológicos e/ou semânticos podem atuar de maneira mais decisiva na seleção dos sufixos nominalizadores. Como no experimento 3, buscamos isolar essa variável sintática, faltaram aos participantes os subsídios necessários à seleção preferencial de um sufixo em detrimento do outro, resultando em uma distribuição equitativa dos sufixos -ção e –
mento dentro desse grupo.
Retomando a questão do fator fonológico que condiciona a escolha do sufixos nominalizadores aqui estudados, vimos que há uma correlação entre as classes temáticas em I, II e III e a escolha preferencial de –ção e –mento: atestamos experimentalmente que os verbos –ar selecionam prioritariamente o sufixo –ção e os verbos em –er e em –ir selecionam preferencialmente o sufixo –mento. Essa tendência divergiu parcialmente da distribuição encontrada no léxico, uma vez que os resultados quantitativos mostraram que os verbos em –ir ocorriam mais com o sufixo –ção. Somado a isso, averiguamos que, no que se refere aos verbos em –er, o alteamento da vogal temática –e- para [i] desempenha um papel fundamental na relação de preferência que esses verbos demonstram pelo sufixo –mento.
Em Freitas (2014), assumimos a proposta de Embick (2010) de que as vogais temáticas são morfemas dissociados, inseridos pós-sintaticamente como peças relevantes
para a boa formação morfológica. A ideia seria a de que raízes são especificadas com traços diacríticos relativos às diferentes classes temáticas. Adicionalmente, discutimos a questão da regra em PB que neutraliza as classes II e III das vogais temáticas verbais em virtude do alteamento da vogal temática –e- (e.g. formas dos particípios regulares em -
ado e –ido; morfemas adjetivais em –ável e -ível). Desse modo, mostramos que se o
paradigma verbal inclui três classes temáticas (sem considerarmos a vogal temática -o- bastante rara e residual), as formações deverbais preservam somente duas vogais temáticas: -a- e -i-.
Contudo, essa regra não se aplica aos nomes em -ção. Considerando a estrutura em (91), argumentamos que os nomes em -ção não seguem a regra de neutralização, em virtude do ponto derivacional no qual a raiz é enviada ao componente fonológico, i.e. no momento em que o núcleo v é concatenado à derivação. Assim, o traços diacríticos da raiz são fonologicamente processados em um estágio de FF ainda pertencente a um ambiente verbal. Dessa maneira, quando a posição TH é adicionada à estrutura, as vogais temáticas inseridas são aquelas relevantes aos verbos, i.e. as três classes diferenciadas: [+I], [+II], ou [+III]. Como consequência, a vogal temática se mostra imune à regra de neutralização.
Por outro lado, a regra de neutralização é plenamente aplicada aos nomes em –
mento. Em nossa proposta, este fato se deve à hipótese de que há somente um único
ponto derivacional em que a operação de spell-out é desencadeada na derivação sintática de -mento: tão logo o núcleo n é concatenado à estrutura. Assim, nesse caso, o morfema dissociado é adicionado como parte de um domínio que não é mais um ambiente verbal, mas uma estrutura mais complexa, pertencente a uma derivação nominalizada. Por isso, no momento em que a inserção vocabular acontece, a regra de neutralização é aplicada e as vogais temáticas inseridas são as aplicáveis aos contextos não verbais, i.e. –a- ou –i-.
Isto também esclarece parte dos resultados experimentais que indicaram que o alteamento da vogal temática -e- é condição sine qua non para a escolha preferencial do sufixo –mento: simplesmente porque no ambiente no qual o sufixo –mento é inserido só há disponível a vogal temática neutralizada [i]. Desse modo, quando alteramos o estímulo
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no experimento 2 e retiramos o alteamento da vogal, criamos um ambiente que já não mais favorecia a inserção do sufixo –mento.
Aqui, é possível também relacionarmos a questão do fator fonológico ao conceito de marcação. Como argumenta Oltra-Massuet (1999), nas diversas línguas românicas, as classes temáticas II e III são consideradas marcadas em oposição à classe temática I. Essa oposição é atestada por Tang e Nevins (2013) que evidenciam, em um estudo diacrônico de corpora, o crescimento lexical da primeira conjugação verbal em detrimento das demais conjugações em espanhol, italiano e português. Interessantemente, os autores mostram que esse crescimento acontece quase concomitantemente nas três línguas estudadas, principalmente a partir de 1750, período do início da Revolução Industrial.
Como mostramos na análise do léxico do PB, é de fato absolutamente desigual a distribuição dos verbos entre as conjugações, uma vez que quase 90% dos verbos atestados pelo dicionário Houaiss pertencem à primeira conjugação. Isto nos possibilita aventar a hipótese de que a relação de preferência dos verbos em –ar com o sufixo –ção e dos verbos em –er e –ir com o sufixo –mento também se vincule a um critério de marcação: o sufixo derivacional menos marcado é preferido pela conjugação verbal menos marcada, ao passo que o sufixo mais marcado é preferido pelas classes temáticas mais marcadas. Esta questão será discutida detalhadamente no próximo capítulo.
É interessante salientar aqui o comportamento dos verbos em –ir observado no experimento 2. Como apresentamos anteriormente, nesse experimento, alteramos o estímulo referente aos verbos –er, retirando, nas formas nominais, o alteamento da vogal temática –e-. Como esperado, houve uma alteração significativa nos resultados: desaparece a tendência de preferência desse grupo pelo sufixo –mento, observada no experimento 1. Contudo, houve ainda outra alteração interessante: no grupo dos verbos em –ir, averiguamos também uma diminuição na relação de preferência desta conjugação pelo sufixo –mento. A nossa hipótese é que esta alteração identificada no grupo dos verbos em –ir se relaciona a questão da neutralização das classes II e III. É tamanha a convergência dessas duas classes, que uma alteração em um dado processo morfológico em uma das classes pode ter repercussão na outra. Esse resultado parece indicar que essas
classes realmente compõem um grupo coeso, marcado, que se contrapõe a classe não- marcada em –ar.
Finalmente, diferenças das estruturas argumentais bases podem ser também apontadas como responsáveis pela alomorfia contextual condicionada pela raiz. Argumentamos, seguindo Embick (2010), que o núcleo cíclico v ao se concatenar a raiz tem acesso a ela. Assim, os formativos verbalizadores estão sujeitos à estrutura da raiz. O formativo –ec(er) em muitos casos se relaciona aos verbos inacusativos: escurecer,
amarelecer, adoecer, etc. Por outro lado, o formativo –iz(ar) em muitos casos forma
verbos agentivos (tanto transitivos como inergativos): gramaticalizar, hospitalizar, etc. Assim, a relação de preferencia entre -mento e -ecer, e entre -ção e -izar pode ser explicado pelo tipo de estrutura argumental que o núcleo Asp seleciona.
Somado a isso, podemos considerar que essa relação de preferência se circunscreve também no padrão geral de preferência que atestamos entre as classes temáticas e os nominalizadores –ção e –mento. Desse modo, embora possamos perceber uma semântica inacusativa no formativo –ec e uma semântica agentiva no formativo –iz, é preciso considerar também a vogal temática desses verbos: verbos com vogal temática –e- selecionam preferencialmente –mento e verbos com vogal temática –a- selecionam