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2 O CONSTRUTIVISMO E A ESCOLA DE COPENHAGUE

2.1 A evolução dos estudos de segurança internacional: uma perspectiva histórica

2.2.2 Friedrich Kratochwil: regras, normas e decisões

Kratochwil (1989) direciona sua crítica às teorias racionalistas por oferecer uma concepção limitada das práticas humanas, propondo assim uma objeção que abrangesse tópicos de prescrições ontológicas e metodológicas. Se as teorias mainstream respaldam seus argumentos em fatores antecedentes, em contrapartida Kratochwil (1989) sublinha a linguagem e as normas como fatores instrutores da conduta dos indivíduos. Seu diagrama teórico abarca a

filosofia da linguagem, mormente a teoria dos atos de fala, do mesmo modo que a filosofia aplicada e princípios da jurisprudência. Assim, a política internacional deve ser observada em um quadro regido por normas exemplarmente elucidadas no jogo de linguagem de Wittgeinstein10 (ZEHFUSS, 2004). Apesar que, para Kratochwil (1989), alguns cenários sociais

não são análogos a um jogo de xadrez e cabe aos autores chegarem a um senso comum para a aplicação de um conjunto de regras. Diferente de um jogo, as inconveniências não são solucionadas no âmbito da moral.

Os tratos políticos decorrem em um recinto compartilhado de percepções que orientam e auxiliam tanto os autores como os observadores em um local de análise. Qualquer investimento em suprimir dados no sentido de tornar uma análise proporcionalmente objetiva acarreta em uma imprecisão conceitual, visto que os indivíduos utilizam os preceitos morais como filtros de interpretação (KRATOCHWIL, 1984). Como Klabbers (2015) ilustra, Kratochwil estabelece uma correspondência entre a racionalidade e a compreensão do senso comum. Seguindo as asserções da teoria da ação comunicativa, proposta por Jurgen Habermas, o autor construtivista classifica como racionais as atitudes que produzem sentidos, ou seja, “chamar algo de racional significa endossá-lo em termos de alguma norma ou sentimento moral que permita isso” (KRATOCHWIL, 1989, p. 311, tradução nossa).

A imersão política de Kratochwil reside em coadunar a ação política a uma dinâmica de significados do que meramente instrumental. Embasado nas contribuições de Max Weber, Kratochwil postula que a ação só apresenta significado se estiver localizada em um campo compartilhado intersubjetivamente. Igual acontecimento se põe em cena baseado e mediado por regras e normas (KUBÁLKOVÁ, 2001). As regras modelam as decisões e fornecem significado às ações munindo os indivíduos de um instrumento por meio do qual eles se comunicam. As regras são propriamente os atos de falas que serão efetivas dependendo da recepção do interlocutor, ou seja, o seu sucesso reside em alcançar o objetivo almejado em relação ao remetente, estabelecendo um jogo de interdependência entre os dois pontos. De acordo com Kratochwil, as regras se configuram como instrumentos que mitigam os constrangimentos do palco social, contextualizado em uma rede de escolhas. As regras

10Para Wittgenstein (2000), a linguagem é uma dinâmica norteada por regras. Similarmente a um jogo, a linguagem apresenta uma lógica de estruturação, denominadamente as regras gramaticais. Iguais regras gramaticais não nos advertem qual proferimento fara sentido na cadeia da fala, assim definindo o jogo da linguagem. A atividade significativa de uma palavra é marcada pelas regras que circundam sua função, ou seja, articulamos o plano de conteúdo das palavras quando as utilizamos tal igual em um jogo de xadrez em que aprendemos a jogá-lo não pela correspondência entre as peças e os objetos, e sim pela atenção as prováveis movimentações no tabuleiro. Qualquer manifestação (não) verbal se caracteriza como um lance no jogo de linguagem, que só apresenta sentido dentro desse jogo.

localizam e identificam as contingências, e assim, direcionam a tomada de decisões que policiam essa rede de escolhas (KLABBERS, 2015).

Consoante aos preceitos do linguista John Austin, Kratochwil (1989) pontua que tais regras são performáticas e que especificam em quais situações cada ato é legitimado como válido. Zehfuss (2004) argumenta que as regras e normas são indubitavelmente pertinentes para o comportamento humano, no entanto, elas não são determinantes. Como os impasses sociais são fluídos e não requerem soluções majoritariamente lógicas, o enfoque analítico deve circundar seus esforços na observação de como as regras são validadas através de discursos:

Neste contexto, surge a questão de como uma decisão baseada em regras e normas, embora não seja logicamente convincente, pode mobilizar apoio. Meu argumento abaixo é que regras e normas que são usadas para chegar a uma decisão não funcionam neste processo de escolha como termos ou causas lógicas, mas como razões persuasivas (KRATOCHWIL, 1989, p. 36, tradução nossa).

De acordo com Kratochwil (1989), a razão adaptada na performance dos autores é concebida por sua qualidade moral. Portanto, o seguimento das regras não obedece a razão instrumental, e sim, uma razão moral demarcada por um afeto em detrimento a outro dentro de uma composição intersubjetiva em que as práticas sociais são significadas e articuladas. Segundo Zehfuss (2004), torna-se capital apurar as razões que são justificáveis no seguimento de uma regra em uma dada circunstância. Kratochwil (1989) aponta que somente a eventualidade de um ponto de vista moral pode nos conduzir a uma consideração. As normas viabilizam um encadeamento racional no qual as transgressões das regras são elencadas ou não como veniais. Este processo de classificação, em que uma atividade recebe apoio ou é refutada, depende de uma identificação com a relevância de premissas.

Como iguais razões são instrumentalizadas nos exercícios dos atos e resoluções, a predileção por um tipo de narrativa é primordial, pois o aparato discursivo localiza o debate entre a compreensão comum e a argumentação (KRATOCHWIL, 1989). Consequentemente, os indivíduos ao fazerem uma escolha do discurso optam simultaneamente por uma posição parcial. Os mecanismos racionais não garantem resoluções plausíveis, mesmo se alguns argumentos demonstram ser relativamente mais pertinentes que outros. Nesse caso, decretos autoritários são favoráveis e não abreviam a intervenção de normas e intersubjetividades, uma vez que os julgamentos imperativos podem demonstrar razões admissíveis em comparação àquelas provindas da arbitrariedade. Nessa acepção, Kratochwil (2011) recusa o pressuposto de que as normas exercem as causas da ação, como postulado na teoria de regimes. Para o autor,

igual hipótese não é uma maneira crível de apreender a influência das normas na dinâmica humana, dado que a explicação de uma ação é esboçada pelo viés moral.

Como foi previamente exposto, o pretexto das escolhas dos atores está embasado nas razões bem como nas justificativas legitimadas nos códigos morais vigentes no campo do intersubjetivo. Todavia, uma elucidação cabível das ações sociais requer o acesso aos parâmetros da moralidade no sentido de compreender como eles atuam na interface da intersubjetividade (KRATOCHWIL, 1996, 2008). Kratochwil também argumenta que os elementos da identidade e cultura são substâncias para a compreensão do aspecto intersubjetivo. O autor construtivista infere que a cultura se estabelece como um arranjo de significações que funda as trocas de subjetividades, e que igual categoria deveria ser instrumentalizada por um tratamento teórico adequado às questões da cultura.