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4 POLÍTICA E PSICANÁLISE: DE UM OUTRO AO OUTRO

4.3 O conceito de sujeito

4.3.1 O estádio do espelho

O conceito de sujeito na Psicanálise é ancorado a partir dos textos de Jacques Lacan. Não há, explicitamente, este termo tratado pelas obras de Freud. Todavia, Lacan (1998) se valeu dos insumos freudianos bem como suas experiências clínicas, para a formulação desta conceituação. Para a Psicanálise, o sujeito é analisado por intermédio do estatuto do inconsciente, cujo conceito demarca a pertinente divergência entre os construtos da Psicologia dos da Psicanálise. Enquanto a Psicologia abrange as produções da consciência, isto é, do “eu”, a Psicanálise ocupa-se das instâncias do inconsciente. Segundo Askofaré (2009), Lacan indaga o sujeito anistórico, a partir da sua estrutura envolvida em um contexto histórico. Ferreira- Lemos (2011, p. 89) acrescenta que “a historicidade do sujeito não é o Norte na Psicanálise, mas os significantes são marcados pela história e compõem o inconsciente que é estrutural”.

Até então, na filosofia convencional, o sujeito é configurado a partir da sua consciência, representado preeminentemente pelo cogito cartesiano “Penso, logo existo” cuja formulação aponta um indivíduo com consciência de suas performances. Desta maneira, o sujeito cartesiano é denotado como “eu”, destacando uma realidade objetiva e irredutível, e de acordo com Descartes, sua existência não poderia ser colocada em panos dúbios, posto que a própria ação de gerar dúvidas revela que há um sujeito. No campo linguístico, caracteriza-se o sujeito como uma unidade de uma oração, que sintaticamente, compreende predicados. Isso significa que o sujeito é uma entidade sobre qual pontuamos aquilo que é ou não é, funcionando como o mecanismo de causa e consequência como relatado previamente.

Em “Subversão do sujeito e dialética o desejo”, Lacan (1998) nos revela um sujeito que excede o espectro consciente, pontuado a partir das reflexões do inconsciente e seu revestimento nas estruturas de linguagem. No sentido de externar o conceito do sujeito

lacaniano, se faz necessário explorar os registros imaginário e simbólico, pois tais dimensões são basilares no suporte desta teoria. Assim, primeiramente discorreremos a instância imaginária, de como sujeito interpreta e se implica especularmente ao outro23, e em seguida,

elucidaremos como este espelhamento é mergulhado no campo do simbólico, ou seja, como eu referencio a mim mesmo e ao Outro através da cadeia de signifcantes.

As releituras dos textos freudianos é o palco originário para a edificação teórica lacaniana no que concerne o imaginário. A partir da sua tese em psiquiatria “Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade (1932)”, Lacan expõe o conceito “estádio do espelho” no XIV Congresso Psicanalítico Internacional em Marienbad, então cidade da Tchecoslováquia. Tal formulação é, indubitavelmente, a mais exíminia sobre o registro imaginário. Por conseguinte, Lacan (1997) prossegue com o “complexo de intrusão”, cenário em que residem os conflitos intersubjetivos. Em denominado complexo, a hostilidade de um irmão no nascimento do outro é fonte de desconsolo e agonia para o primogênito, pois este se indaga referente ao lugar que o bebê possa vir preencher no desejo materno, a dizer, no desejo do Outro. Não obstante, denota-se uma ambivalência de sentimentos, pois este irmão mais velho também se identifica no lugar do irmão mais novo, o seu semelhante, o outro. Tal vínculo afetivo é tão forte que Freud (1996) o especifica como uma das três maiores fontes de angustia que interpelam o sujeito.

Em um período subsecutivo, as considerações acerca do estádio de espelho são, mais uma vez, expostas em uma conferência ministrada em Zurique, na Suíça, originando O estádio do espelho como formador da função do eu (1998). O estágio do espelho nos revela a situação em que o infante, nas decorrências de seus seis e dezoito meses de vida, denota, de maneira inédita, sua imagem refletida no espelho, contemplando um corpo unificado de si ou do outro.

O estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipitasse da insuficiência para a antecipação – e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortopédica – e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental (LACAN, 1998, p. 100).

Este reconhecimento da imagem espelhada demarca o corte entre o mundo interno (Innenwelt) e o externo (Umwelt). A partir deste acontecimento, o mundo interno será

23O outro, grafado com minúsculo, nos remete ao nosso semelhante, a imagem especular. O Outro (ou grande Outro) é pontuado como o espaço da linguagem, o tesouro dos significantes.

conduzido por meio das identificações com o mundo externo, que lhe serão proporcionadas por aquele que preenche a instância do Outro, este Outro no qual deparo com a minha figura representativa. Neste cenário, se faz essencial que o bebê seja intermediado pelo desejo do Outro, visto que é o Outro que o dirige a palavra “você é este no espelho”. O sujeito se reconhece na dinâmica de espelhamento por intermédio do Outro, inaugurando o eu, de caráter narcísico, e tal imagem reproduzida, o eu ideal, é o alicerce fundamental para as identificações que escoltarão o sujeito em sua existência (FINK, 1998). Ademais:

É essa imagem que se fixa, eu ideal, desde o ponto em que o sujeito se detém como ideal do eu. O eu, a partir daí, é função de domínio, jogo de imponência, rivalidade constituída. Na captura que sofre de sua natureza imaginária, ele mascara sua duplicidade, qual seja, que a consciência com que ele garante a si mesmo uma existência incontestável (ingenuidade que se espraia pela meditação de um Fénelon) não lhe é de modo algum imanente, mas transcendente, uma vez que apoia no traço unário do ideal do eu (o que o cogito cartesiano não desconhece). Desde o próprio ego transcendental se vê relativizado, implicado como está no desconhecimento em que se inauguram as identificações do eu (LACAN, 1998, p. 823).

O bebê se identificará com tal objeto fixo, cuja imagem possui um aspecto de completude em analogia aos seus progenitores que aparentam ser habilidosos, potentes e mais sistematizados que a criança. É neste contexto que o discurso do Outro parental, compreendido por falas que qualificam a criança como “menino lindo”, “filha comportada” é assimilado. A figura espelhada que ecoa o discurso do Outro, sendo essa estruturada na linguagem, constitui o que bebê reconhece como seu self (eu). O “eu” é integrado por imagens que conjuram plenitude, perfeição e integralidade e, decerto, outras imagens lhe serão anexadas no decorrer de sua existência (FINK, 1998).

Em seu artigo Observação sobre o relatório de Daniel Lagache, Lacan (1998) a partir da ilusão do buquê invertido de Henri Bouasse (figura 7), nos expõe a vinculação do eu com o outro e a ocorrência do imaginário e simbólico.

Figura 7 – Esquema óptico

Fonte: (Lacan, 1998).

No esquema do buquê invertido, um espelho esférico reflete uma imagem real, considerando que cada ponto de feixe luminoso irá simetrizar, difundido de qualquer ponto de um objeto posto à certa distância, igual plano devido a convergência dos feixes espelhados sobre a esfera. Tal mecanismo atribui ao objeto uma representação supostamente real. Na figura 6, o buquê é abrigado no interior de uma caixa oca, ao mesmo tempo que o vaso se encontra sobre a caixa. Quando as imagens são projetadas na superfície esférica, conseguimos enxergar o formato da imagem real, ou seja, do buquê colocado internamente no vaso. De fato, o buquê imaginário nos dá a impressão daquilo que é real e, de semelhante forma, o “eu” é arquitetado a partir da imagem refletida no espelho (OGILVIE, 1991).

As imagens ópticas apresentam diversidades singulares – algumas são puramente subjetivas, são as que se chamam virtuais, enquanto outras são reais, a saber, sob certos prismas, se comportam como objetos e podem ser tomadas como tais. Muito mais singular ainda – esses objetos que as imagens reais são, podemos dar as suas imagens virtuais. Nesse caso, o objeto que é a imagem real toma, e devidamente, o nome de objeto virtual (LACAN, 1986, p. 93)

A respeito deste espelhamento imagético e formação do eu, Quinet (2004) recuperando as pontuações lacanianas, argumenta que o olhar da criança e o olhar do Outro cruzam em um só olhar. O espelho no qual o bebê se confronta é o Outro e os reflexos desse

Outro, ideal do eu, formam o eu ideal24. Desta maneira, ao captar o Outro como lugar de

direcionamento, temos a dicotomia da pulsão escópica: aquele que sente prazer em ver (voyeurista) e aquele que se regojiza em ser visto (exibicionista).

A percepção do imaginário em Lacan (1985a) é oposta quanto aos escritos clássicos filósoficos, exemplarmente Platão e Spinoza, que frisavam o imaginário como uma instância enganosa bem como o campo sociológico que o classifica como uma ordem do coletivo, parte integrante de toda cultura. Lacan (1985a) correlaciona o registro imaginário ao ímago, a gestalt pois esta fase é determinante na formação do primeiro rascunho do ego. Assim, a criança reconhece na imagem do seu outro semelhante ou na sua própria imagem espelhada, uma forma (Gestalt) que prognostica uma unidade corporal que falta a criança. A primeira fase lacaniana do imaginário é reformulada quando a instância simbólica se torna pertinente em seus escritos, especificamente, a partir da Conferência de 1953.