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PARTE I – FORMAÇÃO, SUPERVISÃO DE PRÁTICAS

4. O SUPERVISOR CLÍNICO NO QUADRO INSTITUCIONAL

4.1. FUNÇÕES E PAPEL SOCIAL

Actualmente já é considerável a produção científica em torno do supervisor clínico, as suas funções, competências e características que este deve possuir. Desde Donald Schön nas obras “The reflective Practitioner” (1983) e “Educating the Reflective Practitioner” (1987), Bernard e Goodyear (1998), Sloan (1998), May (2003), Abreu (2003), entre outros, referem-se aos atributos, competências e papel do supervisor.

A análise das narrativas deixou-nos bem claro que os actores desenvolvem funções que estão inerentes às práticas de supervisão. Porém, estes evidenciam grandes dificuldades no desenrolar dessas funções, devido à indefinição das mesmas. Neste sentido

referem que a implementação de uma política de SCE organizacional deva contribuir para clarificar essas funções:

“Não existem responsabilidades formalmente escritas relativamente à

supervisão. Agora, tenho responsabilidades inerentes àquilo que eu faço. Oriento os alunos em estágio e os colegas do serviço. Os colegas chamam- me para avaliar, para ver, para discutir... Neste aspecto tenho essa responsabilidade. Acabamos por fazer uma supervisão, embora não seja nada estruturada, bem delineada, mas acabamos por a fazer.” (SU) EC

“Às vezes não sabemos bem se algumas coisas fazem parte das nossas

funções, ou não, até onde podemos ou não ir. Se calhar nós, não digo todos os meses, mas de x em x tempo, devíamos reunirmo-nos todos, e pensarmos bem o que é o enfermeiro de referência e o supervisor... começarmos a dizer “o enfermeiro de referência é isto, deve fazer aquilo e tem que ser assim em todos os serviços!”. Isto, moldando a supervisão a cada pessoa, pois cada uma tem uma maneira de trabalhar diferente.” (SU) EG

“Também era preciso ter critérios bem definidos do que é que será essa

supervisão e o que é que era exigido nessa supervisão e qual é o nosso papel enquanto supervisores.” (SU) EA

Estas narrativas mostram-nos o olhar crítico dos actores face à indefinição das suas funções e do seu próprio papel, não sendo claros os contornos nem os limites do seu desempenho enquanto supervisores dos alunos e colegas.

No decurso da discussão já tivemos oportunidade de analisar algumas das actividades que os nossos actores desenvolvem no âmbito da actividade supervisiva. Consideramos que entre as mais relevantes se encontram o ajudar os supervisandos a integrar a teoria e a prática, ajudar a reflectir sobre a realidade e a desenvolver competências profissionais, orientá-los e colaborar nas suas práticas, disponibilizar-lhes apoio e suporte emocional, assegurar a segurança e qualidade de cuidados e contribuir para a organização do trabalho. Porém, não obstante o desempenho destas funções, eles consideram que não o fazem de forma bem estruturada, deixando perceber que não têm bem determinadas linhas orientadoras da sua acção que lhes permitam conhecer bem os contornos e limites da mesma, referindo mesmo que não sabem bem o que se espera de si em relação às práticas supervisivas, sentindo necessidade de uma política que lhes clarifique o domínio da actividade supervisiva.

Face ao conhecimento do contexto em estudo e até à partilha de alguns destes problemas com alguns dos enfermeiros do HPH, gostaríamos de evidenciar o facto de no domínio da SCE, a indefinição de funções poder também ser acentuada pela sobreposição da actividade supervisiva com outras responsabilidades, das quais destacamos as administrativas e de gestão (Landmark et al, 2003). Embora os actores tenham referido a sobreposição de funções, não se referiram explicitamente à coexistência em conflito das mesmas, no entanto, nos longos períodos de contacto com alguns serviços deste Hospital, constatámos que estes exercem algumas actividades de natureza administrativa.

Tradicionalmente, os papéis e responsabilidades asseguradas pelos supervisores têm sido descritos como administrativos ou clínicos. Embora quase sempre exista alguma sobreposição dos deveres clínicos e administrativos dos supervisores, deve-se evitar ao máximo que tal aconteça, pois tem vindo a ser mencionado como um dos entraves ao adequado desenvolvimento da SCE (Bernard e Goodyear, 1998).

As funções do supervisor devem ser diferenciadas e indicadas pela política organizacional. Bond e Holland (1998) sublinham que, na sua opinião, os supervisores clínicos não deverão ser gestores de carreira, havendo necessidade de diferenciar bem as funções de um e de outro, pois consideram que a supervisão clínica, conduzida de forma administrativa, pode tornar-se num prática bastante restritiva em vez de reflexiva e de desenvolvimento.

O supervisor administrativo, pela própria necessidade profissional, precisa analisar aspectos dentro do contexto organizacional (Falvey, 1987 cit. por Bernard e Goodyear, 1998). O supervisor clínico, numa perspectiva ecológica, detém-se na singularidade de casos com que se confronta, ou seja, no desenvolvimento da aprendizagem dos supervisandos que tem sob sua responsabilidade. Neste sentido, ainda que de forma pouco definida, consideramos que as funções dos nossos actores face à actividade supervisiva, são congruentes com algumas das funções do supervisor clínico em enfermagem as quais consistem na “…dinamização das equipes de enfermagem, desenvolvendo práticas de

formação centradas em problemas; integrar-se nos projectos de desenvolvimento da instituição de saúde, participando activamente nos processos de auto-avaliação e nos projectos de melhoria de qualidade organizacional” (Abreu, 2003: 60) e ainda aceitar

aprendizagem e de desenvolvimento de competências mobilizando os recursos locais no sentido de facilitar a mesma, facultar-lhes uma integração humana e cientificamente consistente, que lhe permitam atingir cada vez maior qualidade no cuidar (Cottrel, 2000a; Abreu, 2003).

Sintetizando, na política de SCE as funções e papel do supervisor formam o modo através do qual supervisor e supervisando trabalham juntos e se influenciam um ao outro. Os outros aspectos têm relação com o teatro da supervisão (instituição, utentes, supervisor e supervisando) e a relação supervisiva. O reconhecimento da importância de factores contextuais é extremamente útil, particularmente para a enfermagem, dado que muito poucos enfermeiros trabalham isoladamente, fazendo-o normalmente inseridos em equipas. Ou seja, o modo como estão organizadas as práticas afecta o modo como se desenvolve a supervisão. Por exemplo, a sobrecarga de trabalho e sobreposição de tarefas podem produzir fadiga e desgaste, fazendo com que o enfermeiro em vez de olhar as pessoas na sua individualidade, passe a vê-los como objectos de trabalho (Jackson et al, 1986 cit. por Van Ooijen, 2000).