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PARTE I – FORMAÇÃO, SUPERVISÃO DE PRÁTICAS

5. O HOSPITAL E AS DINÂMICAS DE QUALIDADE: ATITUDES E PRÁTICAS

5.2. OS ENFERMEIROS FACE AO PROCESSO DE MUDANÇA

Como já foi referido, segundo os actores, o processo de mudança inerente às dinâmicas de acreditação trouxe alterações substanciais à realidade e às práticas dos

mesmos. Estas mudanças fizeram-se sentir especialmente a nível das estratégias de supervisão, da qualidade e segurança dos cuidados praticados e na relação escola serviço.

A realidade actual obriga-nos a adoptar estratégias globais e integradas de desenvolvimento da qualidade na prestação de cuidados de saúde, as quais terão que passar pela melhoria da qualidade dos cuidados oferecidos aos cidadãos.

Perante isto, a estratégia que algumas das nossas organizações de saúde estão a adoptar, no sentido de dar resposta a este desafio, passa pela já referida implementação de programas de melhoria da qualidade organizacional, o que, à luz da opinião dos actores tem conduzido a desenvolvimentos positivos, inclusivamente no que concerne às suas práticas. Pois, ainda que estes possam não se verificar directamente relacionados com a prestação de cuidados ao utente, indirectamente, estes reflectem-se numa melhoria da qualidade dos mesmos.

Neste âmbito, eles consideram que os desenvolvimentos que se fizeram verificar no HPH, com a implementação do programa da qualidade, tiveram reflexo das práticas de supervisão, como se pode verificar pela análise do discurso:

“A mudança acaba por favorecer as pessoas que vêem de novo e os alunos.

E, para quem orienta alunos ou mesmo para quem está dentro de uma equipa, pode dizer-se que agora temos algumas linhas de orientação. Mas é preciso melhorar...” (CQS) EA

“Em relação à orientação dos colegas, penso que melhorou. Porque é assim,

começaram-nos a dizer, “vocês têm que orientar neste sentido, deixá-los trabalhar naquele e implementar novos métodos de trabalho.”” (CQS) EG

“Antes de haver o programa da qualidade a orientação fazia-se um pouco

avulso, … agora já há mais orientações.” (CQS) EH

“As reuniões de preparação dos estágios, promovidas aqui pelo centro de

formação, terão a ver com o processo de acreditação.

Penso que o programa de qualidade também trouxe alguns contributos neste sentido. A própria dinâmica que a acreditação gerou nos serviços fez com que as pessoas estivessem atentas e alerta para determinados princípios e normas de procedimento. Um aluno que venha fazer estágio para esta instituição, nunca vai para o serviço directamente, sem antes passar pelo centro de formação, no sentido de fazer um acolhimento à instituição, …”

O facto de haver uma melhor organização a nível interno, do próprio trabalho dos ER, bem como a criação de linhas de orientação relativamente à integração e consequente orientação de alunos e profissionais, parecem-nos factores que, só por si, constituem reflexo da mudança e condicionantes das práticas de supervisão. Por outro lado, a definição de procedimentos, contribuiu para a mudança de estratégias supervisivas, enquanto factor facilitador da supervisão, tal como é referido, seguidamente, pelos actores.

O processo de mudança terá contribuído para que as práticas de alguns supervisores tenham sofrido nuances, na medida em que criou novas dinâmicas na relação escolas- serviços que, no entanto, ao longo da discussão, se verificou que deve melhorar:

“Com o programa de acreditação a escola melhorou a comunicação com os

serviços através da reunião e comunicação com os profissionais orientadores dos alunos. Agora, ultimamente, penso que a escola se reúne com elementos do Centro de Formação e dos próprios serviços, apresenta os objectivos e mesmo os próprios alunos são apresentado, o que é gratificante para quem está a orientar. Também há uma reunião marcada com os monitores da escola e com os orientadores do serviço e é dado o conhecimento sobre o estágio, em si. Isto facilita-nos um pouco mais a orientação dos alunos. Mas, mesmo assim, tem que se melhorar!” (CQS)

EH

Face à relação profissional que mantemos com o HPH, enquanto docentes de uma escola de enfermagem, constatamos que se registaram evoluções neste sentido, fundamentalmente por intermédio do Centro de Formação, o qual desenvolveu um conjunto de projectos neste domínio. As exigências que são feitas às escolas que têm alunos em ensino clínico no HPH têm progredido no sentido do estreitamento desta relação. Verificamos uma crescente participação da organização, na preparação, organização e desenvolvimento do ensino clínico dos alunos de enfermagem.

Segundo os actores, o processo conduziu, também, à melhoria da qualidade e segurança dos cuidados oferecidos aos utentes:

“Tudo isto se veio a reflectir, obviamente, numa qualificação de cuidados

um bocado melhor. Porque ao obedecer a determinadas normas, é sempre no sentido de parâmetros de qualidade melhorados... Todos os alunos ou enfermeiros fazerem o procedimento da mesma maneira contribui para a qualidade de cuidados, quer no aspecto de não deixar uma mãe tão ansiosa

porque um enfermeiro prepara e administra a medicação de uma forma e o outro de outra.” (CQS) EA

“O programa de acreditação contribui para a diminuição dos erros dos

profissionais, pois têm meios de suporte e informação, formalmente escritos.” (CQS) ED

“O programa da qualidade trouxe uma maior responsabilização dos

profissionais. A nível da formação nós somos responsabilizados.” (CQS)

EH

“A nível de prestação directa de cuidados, penso que prestaram mais

atenção à qualidade dos cuidados e há uma maior preocupação. Se calhar anteriormente faziam-se as coisas sem não haver tanto aquela preocupação de cumprir normas da excelência…” (CQS) EL

“Mas, de qualquer maneira, acho que melhorou bastante. As pessoas foram

forçadas a saber o que era a qualidade e, se agora não o fazem, se calhar, pode ser por desleixo. Agora, que eu noto, quando atendo os doentes, é que as pessoas realmente tentam esforçar-se por fazer melhor.” (CQS) EM

A ideia fundamental que presidiu à actividade do IQS, ao estabelecer o protocolo com o KFHQS é a de que “…para se obter mais e melhores cuidados de saúde é

necessária maior compreensão, colaboração e cooperação entre todos os agentes envolvidos na prestação de cuidados de saúde” (Pisco, 2000: 1). Neste sentido, o mesmo

autor refere que o presente programa de qualidade, permitiu realizar uma verdadeira revolução organizacional, serena e silenciosa, centrada na satisfação das necessidades e expectativas dos utentes internos e externos, reduzindo os custos da não qualidade.

Segundo França (2000), o grande benefício da utilização deste programa reside no facto de, antes de mais, criar uma cultura de qualidade interna à organização, promover o trabalho de equipa, a normalização de acções e procedimentos, a promoção de atitudes de planeamento e a promoção da responsabilização profissional.