A ESTRUTURA LEGAL DA GESTÃO COLETIVA DE DIREITOS AUTORAIS
2.4. O SISTEMA ECAD E SEU FUNCIONAMENTO ANTES DA L EI 12.853/13 O ECAD nada mais é do que uma associação das associações de titula-
2.4.2. Funcionamento do ECAD autônomo sob a Lei 9.610/
O “Capítulo 4” desta obra trata, profundamente, do funcionamento do ECAD, trazendo ainda valiosas entrevistas e percepções de pessoas envolvi- das na área. Não obstante, para completar a exposição da estrutura legal do sistema de gestão coletiva no Brasil cabe agora apresentar breves noções dos principais aspectos de funcionamento do sistema ECAD. Ressalta-se que se trata de uma exposição sob a égide da Lei 9.610/98 com algumas referências à reforma da gestão coletiva pela Lei 12.853/13, quando pertinente.
A LDA manteve o ECAD em seu art. 99, de teor quase idêntico ao artigo anterior, mas eliminando as referências que aquele fazia ao CNDA69. Em seu parágrafo primeiro, ela manteve que o ECAD não tem finalidade de lu- cro, e no parágrafo segundo estabelece que ele será dirigido e administrado
69 Lei 9.610/98, modificada pela Lei 12.853/2013: “A arrecadação e distribuição dos di- reitos relativos à execução pública de obras musicais e literomusicais e de fonogramas será feita por meio das associações de gestão coletiva criadas para este fim por seus titulares, as quais deverão unificar a cobrança em um único escritório central para arrecadação e distribuição, que funcionará como ente arrecadador com personalidade jurídica própria e observará os §§ 1º a 12 do art. 98 e os arts. 98-A, 98-B, 98-C, 99-B, 100, 100-A e 100-B”.
ECAD, DIREITO AUTORAL E MÚSICA NO BRASIL
pelas associações que o integrem70. Além disso, foi estabelecida a legitimi- dade de atuação processual do ECAD em nome próprio como substituto dos autores (§2º), que o recolhimento de valores só se dará por depósito bancário (§3º) e que o ECAD pode manter fiscais, que não poderão receber dos usuários quaisquer valores, sob pena de inabilitação para o exercício da função (§§ 5º e 6º).
O ECAD não era obrigado por lei a cumprir com obrigações de trans- parência, como por exemplo divulgar seu estatuto, quais os valores arreca- dados e o quando cada associação recebe. Apenas a partir de 2004 o ECAD passou a divulgar seu balanço patrimonial em seu site. Foi apenas com a Lei 12.853/2013 que a transparência passou a ser um princípio que deve orientar as atividades do escritório e das associações de gestão coletiva.
A cada ano, a arrecadação ECAD foi aumentando. Nota-se que os va- lores são altos: em 2009, foram arrecadados R$ 374 milhões; em 2010, R$ 432 milhões; em 2011, R$ 540 milhões; em 2012, R$ 624 milhões; em 2013, houve um salto na arrecadação, de R$ 1.190 milhões; e em 2014, R$ 1.219.931.315,0071.
Do total do valor arrecadado, 75,5% era distribuído entre os titulares de direitos autorais, e o restante, 24,5%, era retido como taxa administra- tiva, para cobrir os gastos com a atividade e a manutenção do órgão e das associações, com 17% ficando com o ECAD e 7,5% com as associações72. A nova lei estabeleceu o valor mínimo de 77,5% de distribuição para os titulares, diminuindo a parcela que pode ser retida pela administração. Esse mínimo será aumentando progressivamente, até que em quatro anos atinja a marca de 85%73.
70 Lei 9.610/98, modificada pela Lei 12.853/2013, art. 99: “§ 1º O ente arrecadador orga- nizado na forma prevista no caput não terá finalidade de lucro e será dirigido e administra- do por meio do voto unitário de cada associação que o integra.
§ 2º O ente arrecadador e as associações a que se refere este Título atuarão em juízo e fora dele em seus próprios nomes como substitutos processuais dos titulares a eles vinculados”. 71 Fonte: Site do ECAD, disponível em: <http://bit.ly/1xZwonz>. Acesso em: 28/01/2016. 72 Dados sobre o percentual retido pelo ECAD e as associações retirado de. p. 59, e de CADE – Processo Administrativo nº 08012.003745/2010-83, o caso “ECAD x ABTA”, Voto do Conselheiro Relator Elvino de Carvalho Mendonça, p. 85-86.
73 Lei 9610/98, modificada pela Lei 12.853/2013, art. 99: “§ 4º A parcela destinada à dis- tribuição aos autores e demais titulares de direitos não poderá, em um ano da data de publicação desta Lei, ser inferior a 77,5% (setenta e sete inteiros e cinco décimos por cento) dos valores arrecadados, aumentando-se tal parcela à razão de 2,5% a.a. (dois inteiros e cinco décimos por cento ao ano), até que, em 4 (quatro) anos da data de publicação desta Lei, ela não seja inferior a 85% (oitenta e cinco por cento) dos valores arrecadados”.
DA RÁDIO AO STREAMING:
Sem a atuação do CNDA, e antes da reforma, coube ao ECAD se auto- -organizar e estabelecer sua forma de funcionamento. Assim, este órgão edita por meio de sua Assembleia Geral três documentos fundamentais: seu estatuto; o regulamento de arrecadação e o regulamento de distribui-
ção. Todos os três são formulados e alterados pela Assembleia Geral do ECAD (que, além disso, também tem a capacidade de eleger a diretoria do órgão).
O estatuto do ECAD estabelece as regras de funcionamento, votação e administração do órgão. Sua primeira versão entrou em vigor após a edição da Lei 9.618, aprovado em junho de 1998, e que se manteve em vigor até pouco tempo depois da reforma legislativa da gestão coleti- va em 201374. Ele possuía 31 artigos, divididos em oito capítulos. Para a compreensão de como o sistema funcionava, cabe ressaltar três aspectos principais, estruturantes da forma como o ECAD era gerido e da forma de distribuição de votos entre as associações. São eles: a distinção entre as- sociações efetivas e administradas, os requisitos de entrada de uma nova associação no ECAD e a forma de distribuição do poder de voto na Assem- bleia Geral do órgão.
Primeiro, o art. 7º do estatuto distingue as associações de gestão coletiva membras do ECAD em dois grupos: as efetivas, com direito a voto na Assem- bleia Geral, e as administrativas, sem direito de voto. Ou seja, apenas as efeti- vas participavam do processo decisão do órgão, detendo capacidade política e de direção, havendo assim um grau hierárquico superior das efetivas em re- lação às administradas. A diferenciação entre elas, conforme exposto abaixo, é basicamente de tamanho e valor de seu repertório (obras protegidas admi- nistradas pela associação) e número de artistas/titulares associados.
Segundo, os arts. 8º e 9º do estatuto eram os que estabeleciam os requi- sitos de entrada de uma nova associação. Para entrar no ECAD na condição de administrada, era necessário que a postulante possuísse titularidade igual ou superior a 10% da média de obras administradas pelas associações já membras (repertório igual ao superior a 10% repertório médio das asso- ciações), além de aprovação na Assembleia Geral por 2/3 dos votos socais, Já para passar à condição de associação efetiva, era necessário deter um re-
74 Este estatuto estava disponível no website do ECAD até aproximadamente o final do segundo semestre de 2013. Depois, no ano de 2014, quando o autor procurou consultá-lo novamente online, ele havia sido retirado. O novo estatuto, agora disponível, foi aprovado em julho de 2015.
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pertório de obras igual ou superior a 20% do repertório médios detido pelas outras associações e também comprovar possuir um quadro social igual ou superior a 20% da média de filiados das associações efetivas.
Tais requisitos dificultavam enormemente a entrada de novas asso- ciações no sistema ECAD. Uma vez que apenas associações membras do ECAD são abitadas a receber valores arrecadados nacionalmente por con- ta do direito de execução pública musical, ficava patente a extrema difi- culdade de que associações de gestão coletiva fora do ECAD conseguis- sem um repertório do tamanho necessário para seu ingresso, visto que seus associados não recebem os valores oriundos da execução pública de suas músicas.
Terceiro, a votação na Assembleia Geral se dava com base na arreca- dação do último ano: a divisão de votos era proporcional ao valor da últi- ma arrecadação anual de cada associação conforme o art. 17 do estatuto. Percebe-se com isso que a administração do escritório central segue uma lógica monetária simples: as associações cujo repertório gera maior arre- cadação possuía maior poder de gestão e direção. Essa correlação entre arrecadação e poder político ajudou a criar uma certa dominância de de- terminadas associações no ECAD.
Enquanto o estatuto cuida das regras de funcionamento básicas do ECAD, o regulamento de arrecadação deve tratar da cobrança do valor de- vido pela execução pública de obras musicais, estabelecendo os critérios e modos. Este documento foi diversas vezes modificado, e sempre apresen- tou grau considerável de complexidade, não cabendo aqui uma exposição a fundo. Cabe também ressaltar que o regulamento de arrecadação (assim como o de distribuição) era objeto corriqueiro de disputas, principalmen- te entre titulares e usuários (enquanto no de distribuição as disputas eram mais entre associações e titulares, entre si ou uns com os outros).
Por ora, basta saber que seu resultado final é basicamente a formação de uma tabela de preço única, que divide os usuários em 4 grandes grupos: permanentes, eventuais, rádio/TV e serviços digitais. A tabela está dispo- nível online no site do ECAD75, e estabelece critérios de cobrança baseados em valor fixo por tamanho do espaço musicado (por m2), percentual do to- tal de Receita Bruta do usuário (como em TVs abertas e por assinatura), percentual do valor arrecadado com o evento ou de seu orçamento. O novo 75 Tabela de preços do ECAD disponível em: <http://bit.ly/1uKp514>. Acesso em: 28/01/2016.
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estatuto do ECAD, em concordância com a Lei 12.853/2013, também esta- beleceu como a possibilidade de arrecadar com base em valores negocia- dos a serem pagos mensalmente pelo usuário.
Já o regulamento de distribuição estabelece a forma pela qual os valo- res arrecadados chegam aos artistas. Faz-se novamente as ressalvas sobre suas constantes mudanças, a complexidade do assunto. Em síntese, ele es- tabelece duas formas principais de distribuição: a direta e a indireta. Na indireta, a aferição das músicas tocadas se dá por amostragem estatística feita pelo ECAD, enquanto que na direta a relação de todas as músicas exe- cutadas é mandada pelo usuário (como no caso de shows, em que organizar deve elaborar e enviar uma lista das músicas tocadas ao ECAD).
Os valores sobre os quais não se consegue identificar os titulares dos di- reitos autorais recolhidos ficam sob a rubrica “créditos retidos”, à espera de identificação. Passados até cinco anos sem que ela seja feita, os valores se- rão distribuídos arrecadaram-na rubrica de origem e, caso esta tenha sido extinta, na rubrica que a substitua.