O ECAD E SUA ESTRUTURA
3.3. Gravadoras e editoras
3.3.2. O papel das editoras
A LDA, em seu art. 99, estabelece que haverá um único escritório cen- tral responsável pela arrecadação e distribuição por execução pública musical no Brasil. Às editoras caberia apenas o papel de divulgar a obra e permitir sua inclusão em obra audiovisual, a partir dos contratos estabe- lecidos com os autores.
No entanto, o mercado nacional de música estruturou-se de tal forma que as editoras passaram a ter um papel preponderante na negociação dos direitos de execução e sincronização. De modo geral, são responsáveis pela negociação e pelo estabelecimento dos valores das obras musicais que serão incluídas em fonogramas, peças publicitárias e outras produ- ções de audiovisual, peças teatrais, publicações gráficas e outros. Assim, atuam em um modelo de negócio diferente das gravadoras, na medida em que são responsáveis por editar obras de diversos autores, que podem ou não ter sido gravadas, e por gravadoras diferentes. Esta característica confere às editoras a chance de diversificar as fontes de seus rendimentos, bem como para os seus editados:
Por exemplo, eu posso ter um autor que ame a editora e que esteja brigando com sua sociedade de gestão. Isso não tem nada a ver com a editora. Porque o que eu pago pra ele é venda de CD e comerciais e propagandas. (Funcionária de editora)
Eu trabalho, especificamente, com direito autoral. Mais especificamente, com a administração do que chama- mos de catálogo nacional que são as músicas nacionais, de autores nacionais. Existe o que a gente chama de ca- tálogo internacional, que são contratos que você fecha
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de representação de autores internacionais, editoras in- ternacionais. Representação deles no nosso país. O que acontece? Como é trabalhar numa editora? Temos os autores. Eles compõem as músicas deles. E aí, vamos su- por, eles não entendem ou não querem trabalhar com a parte burocrática. Então eles assinam um contrato com uma editora. E a editora administra esses direitos pra eles. Elas negociam oportunidades de negócio, recebem o que ele tem que receber e repassam. A editora busca oportunidades e administra as músicas pra os autores, entendeu? Pras suas composições.
(Funcionária, editora e gravadora)
Onde nós, editor e autor, podemos ganhar mais dinheiro? Através das propagandas. Através dessa situação, né?! En- tão o que acontece? A gente já tem um grupo de agências de propaganda, de agências de jingle que nos conhecem. (Funcionária, editora)
Algumas editoras também atuam como representantes de artistas e editoras internacionais que desejam ter maior controle sobre sua obra em território nacional. Da mesma forma, as editoras celebram contratos in- ternacionais para que seus editados tenham representação no exterior. Normalmente, esses contratos envolvem a gestão dos direitos de sincro- nização e de execução pública:
Paga-se o direito autoral do mesmo jeito. Para música in- ternacional ou música nacional. O ECAD aqui,vai pagar lá fora. Vai pagar nos Estados Unidos, vai pagar na Europa, todos os países. Vai pagar em qualquer lugar. Pra você co- mercializar – usar a música comercialmente, para cam- panha, para campanhas políticas, o que for – é um pouco mais complicado, por causa da demora do direito autoral. Algumas músicas lá fora, por exemplo, são músicas pré- liberadas: “Ah, essa música está pré-liberada para isso, isso, isso e isso”. O mercado americano já é assim. O mer- cado da Inglaterra, Alemanha e alguns outros lugares já praticam esse tipo de processo, de músicas pré-liberadas.
DA RÁDIO AO STREAMING:
No Brasil ainda não é assim, é mais complicado. (Produtor musical, ex-diretor de gravadora).
Também existem aquelas editoras que já possuem contratos específi- cos com empresas de audiovisual, tais como agências de publicidade, para divulgar as obras dos seus artistas e representados estrangeiros. Outra es- tratégia das editoras é divulgar suas músicas para que sejam tocadas no carnaval, e, assim, aumentar o valor de arrecadação de direitos autorais de execução pública neste período – a distribuição de valores arrecadados no carnaval é separada das demais, como veremos no “Capítulo 4”.
Em resumo, mais do que administrar os direitos autorais dos seus autores, as editoras são responsáveis por tornar estes direitos rentáveis. Deste modo, buscam novas oportunidades de inserção das músicas e can- ções de seus “editados” em comerciais, filmes, novelas e outras produções audiovisuais84.
Em média, as editoras recebem 25% dos valores arrecadados pela obra administrada, tanto pelos direitos de execução pública quanto os direitos de sincronização e fonomecânico. Assim, elas também se incluem nas so- ciedades de gestão coletiva que compõem o ECAD.
A entidade associativa de gestão coletiva mais relevante no campo das editoras, excetuada a área de gestão coletiva, é, atualmente, a Ubem. A Ubem, além de definir os valores que serão usados como parâmetros para a negociação dos direitos de sincronização e outros tipos de licenciamen- to, também é responsável pela negociação de direitos com canais de venda de música na Internet, tais como os serviços de streaming. Nestes casos, a Ubem costuma fazer um único contrato de execução, que inclui todo o repertório das editoras associadas:
Porque a editora, ela também tem uma sociedade. A edi- tora também recebe através dessa sociedade. Porque é a sociedade que distribui. E a sociedade, cada artista e cada editor escolhe a sua. Existe a Ubem, que é a União Brasi- leira de Editores de Música. Que é isso? São todas as edi- toras de músicas. Qualquer uma. Todas elas estão juntas e unidas hoje. Antigamente existiam dois grupos. Que era 84 Esta forma de agir é comum às editoras. No entanto, o desconhecimento sobre as cláusulas e os termos incluídos nos contratos pode gerar conflitos entre editoras e autores.
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a Abem e a Aber. Então esses editores estavam divididos. Chegaram a conclusão de que com todos esses problemas de fraudes, o ideal era se juntar, porque seriam mais for- tes. Então houve a junção, há uns três anos, não sei bem, que é a Ubem.
(Funcionária de editora)
Tal como foi destacado no depoimento acima, a Ubem surgiu da fusão de duas antigas associações de editoras, a Associação Brasileira de Editoras de Música (Abem) e Associação Brasileira de Editores Reunidos (Aber). Mas o objetivo não era, ao menos não somente, evitar problemas de fraudes: a União foi criada com o objetivo de incentivar a abertura da loja virtual da Apple no Brasil, o iTunes. De acordo com depoimentos de vários repre- sentantes do campo musical, a Apple afirmava que só viria para o país se pudesse pagar aos artistas através de uma única instituição85. Os valores gerados pelos serviços que foram negociados junto à Ubem são posterior- mente repassados para as editoras que, deste modo, passam a ter uma par- ticipação também nas vendas dos fonogramas:
A Ubem, que é União Brasileira dos Editores Musicais, está fazendo uns acordos, por exemplo, diretamente com o iTunes. Só recebe direito digital, no Brasil, a editora que é filiada à Ubem. E pra você ser filiada a Ubem, tem que pagar uma taxa mensal, e, às vezes, não compensa. En- tão, por exemplo, eu fiquei sabendo outro dia, a editora do Edu Lobo não é filiada à Ubem. Porque ele não recebe o suficiente pra valer a pena pagar a taxa de mensalidade. Então uma música que seja Chico Buarque e Edu Lobo no iTunes, o Chico Buarque recebe e o Edu Lobo não. E isso é ilegal. Ele tem direito a receber. Mas só que a Ubem, que não é nada, é uma associação de editoras, fez o acordo direto com o iTunes. Por que o iTunes aceitou? Eu não sei. Mas é o acordo que o iTunes tem pra pagar direitos no
85
Este processo foi relatado em diversos meios de comunicação. Sugerimos ver a maté-
ria publicada pelo O Globo em 29/11/11, intitulada “Apple: negociações para iTunes avan- çam”, disponível em: <http://oglobo.globo.com/tecnologia/apple-negociacoes-para-lan- camento-da-itunes-avancam-3349959>.DA RÁDIO AO STREAMING:
Brasil. Direitos digitais no Brasil. (Autor, músico, intérprete)
3.3.3. Tendência de autores abrirem suas editoras
Ainda que os autores possam se associar diretamente às associações de gestão coletiva pertencentes ao ECAD, as editoras continuam sendo agen- tes fundamentais no funcionamento do sistema. Existe uma tendência atual na qual artistas mais estabelecidos no mercado começam a criar suas próprias editoras. Estas, por sua vez, podem ser administradas por eles pró- prios ou por uma editora maior.
Pesquisadora: Porque agora está tendo esse movimento dos autores abrirem suas editoras.
Entrevistada: É, os grandes nomes, os grandes artistas, [aqueles que têm] um pouco mais de cultura, conheci- mento. Todos eles já têm as suas próprias editoras há mui- to tempo. [...] O Roberto Carlos tem a Amigos, que, desde que eu me entendo por gente, é administrada pela Sony. O Nelson tem a Mix... O Ivan Lins tem a Oi Lua... O Caeta- no tem a Gapa...
Pesquisadora: Não são eles que administram suas pró- prias editoras?
Entrevistada: Não, eles criam a editora e botam suas mú- sicas. E alguém faz o trabalho pra eles, entendeu? Normal- mente através de alguma outra editora. Ou, por exemplo, no caso do Gilberto Gil, que é independente, ele tem uma funcionária, que é alguém que tem know-how e admi- nistra o catálogo dele. O Chico Buarque também. Gilber- to Gil, Chico Buarque e Gonzaguinha, todos eles têm as suas obras em editoras próprias, que são administradas de forma independente, ou seja, não tem nenhuma edito- ra grande administrando pra eles. É diferente da Amigos, por exemplo, que é administrada pela Sony. A editora do Caetano, a Gapa, é administrada pela Warner. Subadmi- nistrada. Nós somos os subeditores. Nós estamos repre- sentando uma outra editora.
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e para vocês?
Entrevistada: Para o autor, o benefício é ter alguém com
know-how, que está associado a uma série de convênios,
que vai favorecê-los. E eles não têm o trabalho burocráti- co, ficam só com o trabalho da criação. Então eles cedem um percentualzinho do que eles iriam arrecadar pra al- guém, digamos, fazer esse trabalho pra eles.
Pesquisadora: Que provavelmente deve ser menor que a proporção que a editora arrecadaria em cima de cada obra...
Entrevistada: Isso. Porque uma coisa é a editora fechar um trabalho, fechar um contrato direto com o autor, uma pes- soa física. Outra coisa é administrar uma editora. Nosso percentual é menor. Senão não compensa pra os autores. Pesquisadora: Seria 25%, né?
Entrevistada: Só quando é com o autor direto. Aí é 25%. Agora, para administrar uma editora de terceiros, varia. Já vi contratos de 10%, de 15%. E é uma pessoa jurídica, você não tem desconto de imposto de renda.
(Funcionária, editora e gravadora)
Nos casos em que o artista opta por administrar sua própria editora, não é incomum existir uma estrutura que seja capaz de administrar tam- bém a obra de terceiros. Conforme a entrevistada relatou, caso opte por ter uma subeditora, o artista pagará uma taxa menor e terá a vantagem de uma grande estrutura para lidar com a parte burocrática dos contratos.
Seja administrando sua própria editora, ou tendo seu repertório subad- ministrado por terceiros, as vantagens relatadas são a maior liberdade para administrar a obra, que pode ser liberada sem a necessidade de acordos ou mediações, e o maior retorno financeiro, na medida em que o valor a ser pago pode ser reduzido de 25% para 10% sobre os lucros gerados, caso o artista opte por ter uma editora subadministrada:
Só há um tempo que se começou esse movimento do autor pegar de volta a sua obra. O Gil conseguiu, ganhou uma ação contra a Warner. A LDA prega que não pode ser mais de cinco anos, esses contratos de cessão. Isso não
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interessa para essa estrutura que tá aí, por isso que batem tanto na LDA...
(Autor, intérprete, arranjador)
Entrevistado: Vários artistas têm sua própria editora. Mas é uma coisa que, de qualquer maneira, tem um custo. Se o cara não recebe muito, não adianta. Porque ele vai ter que pagar um contador todo mês... Se o cara recebe 100 reais por trimestre, ele não vai pagar 700 e pouco num conta- dor todo mês. Não compensa. Ele vai ter que ter uma edi- tora multinacional.
Pesquisadora: Você tem editora?
Entrevistado: Eu não tenho editora. Eu faço com a Warner Chappell, mas eu estou em processo de transferir tudo pra minha editora. Aí eu vou ter a minha editora. E aí, ao invés de pagar 25% eu vou pagar uma taxa de adminis- tração, que vai variar de 10 a 15%. Vou ter mais uns 10% a 15% sobrando nessa. Mas os direitos serão meus.
(Autor, músico, intérprete).
Entrevistado: É até por uma questão comercial. Nós te- mos nossa editora, mas não temos muito poder comer- cial, poder de alcance. De buscar oportunidades de sin- cronizar com um filme, com uma telenovela. Querendo ou não, algumas dessas mídias são muito importantes na promoção, na divulgação. Acho que o Lenine vai ao ponto certo quando ele fala que, talvez, a única forma atual e universal de divulgação de música seja a novela das nove. Pesquisadora: E aí as editoras grandes podem fazer esse canal?
Entrevistado: Podem fazer esse canal que a gente ainda não tem estrutura para. Principalmente nessa parte, de se associar com publicidade. No fim das contas, a gente acaba participando um pouco de uma ambivalência. No sentido de que, de alguma forma, temos o discurso co- mercial... Dos direitos autorais, de estar associado com propaganda, programa de TV, filme. Mas também temos a
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preocupação da liberdade no acesso à música. (Autor, produtor, empresário)
Em alguns casos, a editora do artista é também o espaço no qual todas as negociações e produções são realizadas. Neste sentido, ela perde a sua função original de registro e controle das obras e passa a ser também um CNPJ para produção de shows, eventos e gravação de fonogramas, cum- prindo o papel de produtora e gravadora:
Pesquisadora: Você tem então a editora, que na verdade é por onde, também, vocês fazem as produções?
Entrevistado: É, tem a empresa que é responsável por isso, que seria a gestão da banda. E, aí, além disso, tem a produção de alguns dos eventos que a gente faz. A cap- tação de recursos também é feita pela empresa, a capta- ção de turnês, por exemplo, de circulação. Algumas das produções audiovisuais. A venda dos produtos. É tudo dentro da editora. Tem também os serviços de produção e locação relacionadas à produção musical, seja sonori- zação, seja gravação. Então, hoje, a nossa empresa com- preende tudo isso.