P RIMEIRA PARTE
G EOGRAFIA : UMA PROPOSTA ECLÉTICA
M e s m o q u e n o s P C N ’ s t e n h a-se buscado instituir uma orientaç ão humanista para o ensino de Geografia, a análise dessa proposta curricular sugere tendências claras de indefiniç ão teórico -metodológica, apontadas por vários geógrafos preocupados com os rumos do ensino de
Geografia em nosso país. Esse fato pode ser elucidado a partir de uma análise dos conteúdos, itens e temas de estudo propostos para cada eixo temático.23
Essa indefiniç ão teórico -metodológica é destacada por Spósito (1999, p.31) ao afirmar que “os autores adotaram a posiç ã o d e u m a pluralidade conceitual que, se está presente nos PCN’s, não se enuncia através de uma distin ç ão entre os diferentes paradigmas teórico -metodológicos que a sustentam”.
Isso se verifica, por exemplo, no rol de itens de estudo propostos em vários dos eixos temáticos. Assim, enquanto alguns desses itens sugerem o uso de categorias voltadas para uma abordagem humanista, tais como experiência de vida, imaginário social, espaç o vivido e representaç ões da vida cotidiana (Anexo A), outros itens propõem o uso das categorias de análise marxistas como as de trabalho, rela ç ões sociais de produç ão e processo de produç ão (Anexo B).
Essa utilizaç ão indiscriminada de categorias de análise próprias de cada corrente de pensamento também foi salientada por Pontuschka (1999a, p.16), ao afirmar que:
[...] embora tenha havido a preocupaç ã o , s e g u n d o o s a u t o r e s , d e r e a l i z a r u m a p r o p o s t a p l u r a l , e l a s e t o r n o u e c l é t i c a , c o m m o m e n t o s e m q u e s e p e r c e b e u m d i r e c i o n a m e n t o h i s t o r i c i s t a e , e m o u t r o s , u m d i r e c i o n a m e n t o f e n o m e n o l ó g i c o . [ . . . ] O t e x t o , p o r v e z e s r e p e t i t i v o , t o r n a - s e e c l é t i c o , a o i n c l u i r a u t o r e s e a s s e s s o r e s c o m p e n s a m e n t o s geográficos diferenciados. 23
Ao discorrer sobre os Conteúdos de Geografia: critérios de seleção e organização, nos PCN’s está ressaltada a necessidade de se “[...] entender esta proposta de conteúdos como um conjunto de eixos temáticos que sirvam como parâmetros norteadores, nos quais os professores poderão encontrar algumas diretrizes que lhes permitam a seleção e a organização de conteúdos para escolha flexível daqueles que possam compor seus próprios programas de curso [...] Cada eixo temático guarda em si uma multiplicidade de temas que permitirão ao professor ampla reflexão sobre os diferentes enfoques que poderão ser feitos pela Geografia na busca da explicação e compreensão dos lugares do mundo. Os temas, por sua vez, abrem para rol de itens de estudo que são sugeridos, mas que não têm intenção de abranger todo o universo de possibilidades” (BRASIL, 1998b, p.37).
O direcionamento historicista é destacado de maneira explícita no eixo temático O campo e a cidade como formações socioespaciais , proposto para o Terceiro Cic lo (Anexo C). Ao discorrer sobre essa temática, nos PCN’s encontramos que “a abordagem do tema campo e cidade deverá ser realizada como parte integrante de uma realidade historicamente definida pela divisão técnica e social do trabalho” (BRASIL, 1998b, p.65). Esse viés historicista também está presente no eixo temático Modernização, modos de vida e a problemática ambiental , proposto para o Quarto Ciclo (Anexo D), sobretudo ao abordar os temas sobre o processo técnico -econômico, no qual sugere que:
[...] as tecnologias desenvolvidas pela sociedade foram historicamente sendo criadas dentro de contextos que devem ser compreendidos como um processo que sempre foi espacialmente d e s i g u a l [ p r o p o n d o ] u m a l e i t u r a e s p a c i a l d o p r o c e s s o d e desenvolvimento das técnicas [...] (BRASIL, 1998b, p.115).
Ao tratar o tema Ambiente urbano, indústria e modo de vida, (Anexo E) propõe-se, novamente, uma abordagem historicista, visto que:
[ . . . ] o e s t u d o d a s r e l a ç ões entre o ambiente urbano, o modo de vida e o p r o c e s s o d e i n d u s t r i a l i z aç ão poderá ser realizado a partir da análise de como foi, historicamente, definida a divisão técnica e s o c i a l d o t r a b a l h o e c o m o a i n d ú s t r i a m a r c o u p r o f u n d a m e n t e o espaç o u r b a n o ( B R A S I L , 1 9 9 8 b , p . 1 1 7 ) .
A análise de outros eixos temáticos também revela o d irecionamento fenomenológico apontado por Pontuschka (1999a). O eixo temático A Geografia como uma possibilidade de leitura e compreensão do mundo, proposto para o Terceiro Ciclo (Anexo A), por exemplo, sugere o e s t u d o d o t e m a A conquista do lugar como con quista da cidadania, cujos
itens apontam para uma abordagem humanista, ao priorizar a subjetividade humana do mundo, o mundo vivido e o imaginário social.
No decorrer desse tema propõe-se, por exemplo, que o professor desenvolva a noç ão de lugar podendo “trabalhar o cotidiano do aluno com toda a carga de afetividade e do seu imaginário, que nasce com a vivência dos lugares” (BRASIL, 1998b, p.59).
N o e s t u d o d o t e m a A cultura e o consumo: uma nova interação entre o campo e a cidade, proposto para o Terceiro Ciclo, aborda- se a rela ç ão entre o imaginário social, a mídia e os movimentos migratórios c a m p o -cidade. Nesse caso, nos PCN’s ressaltam -se “as crescentes influências das formas de viver na cidade no imaginário social do campo [pelos] valores mostrados nas telenovelas, telejornais, propagandas” (BRASIL, 1998b, p.75).
Além das abordagens historicista e humanista, outros conteúdos também estão permeados pelo enfoque da perspectiva marxista. Os conteúdos relativos ao tema campo e cidade, por exemplo, (Anexo C) p r o p õ e m a o professor a utilizaç ão da categoria de análise formaç ão socioespacial para explicar como as atuais configuraç ões territoriais do rural e do urbano vêm sendo definidas (BRASIL, 1998b, p.65), ou ainda, para “compreender o papel da indústria na pais agem urbana como uma heran ç a de processos históricos” (p.117), como se propõe no tema Ambiente urbano, indústria e modo de v i d a, no eixo temático Modernização e a problemática ambiental no Quarto Ciclo, (Anexo D).
Nesse caso, observamos mais um grave equívoco teórico - metodológico, pois mesmo se propondo a realizar uma abordagem humanista,
utilizou-se da categoria de análise formaç ão socioespacial, introduzida nos debates da Geografia Crítica, a partir das reflexões realizadas por Santos em meados da década de 1970.24 Para Santos (1982, p.10), o espaç o possui historicidade, pois “a História não se escreve fora do espaç o e não há sociedade a-espacial. O espaç o, ele mesmo é social”. A categoria analítica f o r m aç ão socioespacial seria capaz de permitir uma análise d o e s p aç o a partir de sua historicidade:
E s t a c a t e g o r i a d i z r e s p e i t o à e v o l u ç ão diferencial das sociedades, n o s e u q u a d r o p r ó p r i o e e m r e l a ç ã o c o m a s f o r ç as externas de onde mais freqüentemente lhes provém o impulso. A base mesma da explicaç ão é a produ ç ão , i s t o é , o t r a b a l h o d o h o m e m p a r a transformar, segundo leis historicamente determinadas, o espaç o c o m o q u a l o g r u p o s e c o n f r o n t a ( S A N T O S , 1 9 8 2 , p . 1 0 ) .
Ao discorrer sobre o conceito de espaç o nas diferentes correntes do pensamento geográfico, Corrêa (1995, p.26-27) reconheceu que o mérito do conceito de formaç ão socioespacial:
[...] reside no fato de se explicitar teoricamente que uma sociedade só se torna concreta através de seu espaç o, do espaç o q u e e l a p r o d u z e , p o r o u t r o l a d o , o e s p a ç o s ó é i n t e l i g í v e l através da sociedade. Não há, assim, por que falar em sociedade e espaç o c o m o s e f o s s e m c o i s a s s e p a r a d a s q u e n ó s r e u n i r í a m o s a p o s t e r i o r i , mas sim de formaç ã o s ó c i o - espacial.
Ainda em rela ç ão ao eixo temático em questão, os conteúdos propostos para a discussão dos diversos itens de estudo foram estabelecidos a partir de noç ões e conceitos que fazem parte do repertório teórico marxista, tais como: divisão técnica e social do trabalho; rela ç ões sociais de trabalho; classes sociais; re1aç ões capitalistas de p r o d u ç ão; capitalismo; modo de
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A noção formação socioespacial foi primeiramente apresentada por Santos (1977) num artigo publicado pelo Boletim Paulista de Geografia, n. 54, com o título de Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como
p r o d u ç ão; rela ç õ e s d e p r o d u ç ão; acumula ç ão capitalista; modernizaç ão capitalista; rela ç ões de trabalho; processo de concentraç ão do capital; rela ç ões entre o Estado e as classes sociais; e rela ç ões de poder das classes sociais dominantes (BRASIL, 1998b, p.65-72).
Outro tema de estudo proposto na perspectiva marxista encontra-se no eixo temático Um só mundo e muitos cenários geográficos, no Quarto Ciclo (Anexo F). Nesse caso, propõe-se que as desigualdades socioeconômicas existentes entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, assim como a pobreza de grande parte da popula ç ão mundial seja explicada a partir da evolu ç ão histórica do capitalismo reconhecendo que:
[as] profundas diferenç as que separavam os países ricos e pobres, em que a relaç ão de dominaç ã o / s u b o r d i n a ç ão representava a origem dessas desigualdades, sendo que os séculos de dominaç ã o c o l o n i a l e sua conseqüente descendência estavam nas raízes da pobreza de m a i s d e 2 / 3 d a p o p u l a ç ã o m u n d i a l ( B R A S I L , 1 9 9 8 b , p . 1 0 5 ) .
C o m o foi possível observarmos, vários dos conteúdos presentes nos eixos temáticos estão calcados numa abordagem marxista, à mesma abordagem que nos PCN’s tecem -se críticas contundentes, a ponto, inclusive, de colocar em dúvida a própria validade do método empregado por essa corrente de pensamento.
Se o marxismo possibilita compreender a maneira como a sociedade se organiza em torno das atividades básicas da produ ç ã o e reprodu ç ão da vida material e mesmo de aspectos não - m a t e r i a i s como a linguagem, as crenç a s , a e s t r u t u r a d a s r e l a ç õ e s s o c i a i s e a s i n s t i t u i ç õ e s , e l e s e t o r n a i n s u f i c i e n t e c o m o m é t o d o q u a n d o s e procura compreender o mundo simbólico e das representaç õ e s q u e orientam, também, as relaç õ e s c o m o m u n d o ( B R A S I L , 1 9 9 8 b , p . 2 3 ) .
Além de incorporar o marxismo em vários de seus conteúdos e, ao mesmo tempo, tecer críticas sobre o método utilizado por essa corrente de
pensamento, os autores dos PCN’s acabaram por reconhecer a importância da perspectiva marxista para a compreensão da realidade, o que reforç a ainda mais o caráter contraditório e ambíguo dos fundamentos teórico - metodológicos dessa proposta curricular.
É inegável a contribuiç ão do marxismo para o aluno compreender e explicar o processo de produ ç ão do espaç o . É p o r m e i o d e l e q u e s e poderá chegar a compreender as desigualdades na distribuiç ão da renda e da riqueza que se manifestam no espaç o pelas contradi ç õ e s entre o espaç o produzido pelo trabalhador e aquele de que ele se apropria, tanto no campo como na cidade. Nesse sentido, categorias do marxismo co m o r e l a ç ões sociais de produ ç ã o , m e i o s d e produ ç ã o , f o r ç a s p r o d u t i v a s , f o r m a ç ã o s o c i a l , s ã o f u n d a m e n t a i s para revelar ao aluno condi ç õ e s c o n c r e t a s d o s e u c o t i d i a n o n a sociedade (BRASIL, 1998b, p.22).
Além desses equívocos teórico -metodológicos, convém salientarmos, ainda, o tratamento, condenável segundo Oliveira (1999, p.48), da compartimentaç ão dos estudos da natureza como se pode observar nos itens descritos no eixo temático O estudo da natureza e sua importância para o homem, no Terceiro Ciclo (Anexo G). Ao analisar os conteúdos desse eixo temático, Vieira (2000, p.96) assinalou que a abordagem proposta:
[...] não se avanç a no sentido de superar a dicotomia sociedade- natureza na análise do espaç o. Apesar de os autores lanç arem críticas à Geografia Tradici o n a l n o t o c a n t e à d i c o t o m i a e n t r e a Geografia Física e a Geografia Humana, não conseguiram superar esse problema.
Ao se referir à maneira estanque e fragmentada como esses estudos da natureza estão propostos, Oliveira (1999, p.49) afirma que eles f o r m a m “concep ç ões compartimentadas da realidade, baseadas no positivismo clássico”.
Diante da análise que realizamos, podemos assegurar que a proposta curricular que os PCN’s propuseram para a área de Geografia não possui uma fundamentaç ão teórico -metodológica co erente, pois “os autores optaram por n ã o deixar claramente explicitada a concep ç ão de geografia que têm [permitindo] múltiplas possibilidades de interpretaç ões” (OLIVEIRA, 1999, p.48). Sendo assim, “os PCN’s de geografia têm uma concep ç ão eclética, queiram ou não os seus autores”.
2. 3 DISSONÂNCIA E SUPERFICIALIDADE CONCEITUAIS APONTAM PARA A
FRAGILIDADE DOS FUNDAMENTOS TEÓRICO-M E T O D O L Ó G I C O S D O S PCN’S