121. Como Galaaz e Boorz viram a besta ladradora. Os cavaleiros que diante do rei estavam, quando ouviram a ordem de seu senhor, desarmaram-se logo. Então amanhecia já. Galaaz e Boorz, quando viram que já raiava o dia, disseram ao rei:
- Senhor, se vos apraz, fazei-nos dar nossos cavalos, porque temos tanto de fazer, que não podemos aqui ficar.
E o rei lhos mandou logo dar. E eles se despediram e entraram logo em seu caminho e disseram que bem lhes acontecera afinal, segundo o começo, que fora mau. E quando se partiram do castelo onde encontraram quem lhes fizera muita honra e muito pesar pela donzela que cuidaram que mataram, cavalgaram juntos até a hora de meio-dia. Então lhes aconteceu que viram sair de um vale a besta ladradora, e vinha só, mas muito cansada por parecer que muito correram atrás dela naquele dia. Galaaz, tão longe como a viu, reconheceu-a e mostrou-a a Boorz e disse-lhe:
- Boorz, vedes aqui uma aventura maravilhosa.
Então lhe contou o que vira com Ivã, o bastardo, que fora atrás dela. - Parece-me, disse ele, que a deixou.
- Senhor, disse Boorz, esta coisa é tão maravilhosa, que sei bem que não é outorgado sabê-la a qualquer pessoa. E bem cuido que nunca em verdade seja conhecida, a não ser por vós, porque, certamente, esta aventura não é senão para vós.
- Não sei, disse ele, mas isto bem queria que Deus me outorgasse, que é coisa que de muito bom grado queria saber.
Enquanto eles isto diziam, iam em direção dela diretamente; mas assim que o ela ouviu, virou a cabeça do outro lado e começou a ir tão depressa, que não há besta no mundo que a alcançar pudesse. E em pouco tempo, afastou-se tanto deles que não souberam dela o rumo. E Galaaz disse:
- Agora tenho medo de que a tenhamos perdido.
- Por perdida a devemos ter, disse Boorz, porque não há nada no mundo tão veloz, nem tão ligeiro, que a alcançar pudesse; e por quanto eu vejo, a louco preito se entregam quantos se esforçam em buscá-la. E por isso, quanto da minha parte é, nunca me esforçarei por segui-Ia, a menos que ande convosco e se quiserdes ir a ela.
- Não vos espanteis, disse Galaaz, porque, se Deus quiser, pelo esforço que nisso fazemos, saberemos a respeito dela a verdade, em muito pouco tempo.
122. Como Galaaz e Boorz encontraram Palamades, o da besta ladradora. Eles nisto falando, eis que em direção deles vem um cavaleiro armado de umas armas negras, aquele que derribara Ivã, o bastardo, e Gilfrete. E vinha sobre um cavalo muito bom e trazia mais de trinta cães e, assim que chegou a eles, perguntou-lhes, sem saudá-los:
- Senhores, vistes por aqui passar a besta ladradora? - Sim, disse Boorz. Mas por que o perguntais?
- Porque é minha caça, disse ele, e vou atrás dela e irei até que a sorte queira que a ache.
- Pois, disse Boorz, agora podeis ir junto conosco, porque assim começamos nós ir atrás dela e não desistiremos dela até que saibamos de onde estas vozes vêm, que dela saem.
- Isto é loucura, disse o cavaleiro, que vós tal demanda começastes, porque a não mereceis. Nesta terra, por acaso, há um tal cavaleiro que, se souber que vós atrás dela quereis ir, vo-lo fará desistir por vossa desonra, porque tanto andou atrás dela, que não quereria que outra pessoa fosse atrás dela.
Boorz começou a rir então e disse:
- Eu não conheço cavaleiro no mundo para o qual a deixasse, se da mesa redonda não fosse.
- Certamente, disse o cavaleiro, nunca ele foi da mesa redonda, embora muitas vezes tenha ido à casa de rei Artur. Digo-vos que não há tão bom cavaleiro na Grã-Bretanha, que ele não cuidasse vencer, antes que o dia saísse.
- Se eu cuidasse, disse Boorz; cuidaria de grande loucura, porque certamente, na casa de rei Artur há melhores cavaleiros que esse, e por isto que me dizeis,prometo a Deus, diante de dom Galaaz que aqui está, que manterei esta demanda para ver se aquele cavaleiro de quem me vós falastes, é tão louco que mo queira proibir.
- Ora, aparecerá, disse o outro, o que a respeito fareis, porque bem vos digo que, se quiserdes fazer como dizeis, mal vos acontecerá por isso, ainda que não houvesse outro cavaleiro no mundo, fora vós e ele. Depois que isto disse, começou a ir o mais rápido que pôde, para onde cuidou que a besta estava. O mesmo fizeram Galaaz e Boorz, e andaram todo aquele dia, até hora de vésperas. Então lhes aconteceu que acharam um cavaleiro velho, que cavalgava desarmado, exceto de espada, e saudaram-no e o cavaleiro a eles, e perguntou-lhes de onde eram. E eles disseram que eram da casa de rei Artur.
- E sois vós, disse ele, da távola redonda? - Sim, disseram eles.
- Pois sede bem-vindos, disse ele, porque por vossa vinda estou muito alegre, e mais, porque é hora de albergar, de hoje em diante me fareis companhia, à vossa mercê, e ficareis comigo em uma fortaleza minha, que fica muito perto daqui, onde sereis albergados e satisfeitos à vossa vontade, e rogo-vos que me outorgueis ir lá.
E eles lho outorgaram, porque entenderam que já era hora de albergarem-se.
123. Como Galaaz e Boorz foram hóspedes de Esclabor, o não conhecido. Então partiram e foram com ele, e quando chegaram à fortaleza, foram muito bem recebidos, naquela tarde; e depois que comeram, levou-os o cavaleiro a um prado para descansarem e perguntou-lhes o que andavam buscando por aquela terra. E Boorz que era maior e de mais palavra, respondeu ao anfitrião:
E revelou-lhe qual era. Quando o cavaleiro isto ouviu, começou a pensar e, pensando, chorar muito; se antes estava alegre, ficou muito triste e disse:
- Ai, Deus! Maldita seja a hora em que aquela besta nasceu, porque por ela perdi, que eu saiba, o melhor cavaleiro que alguma vez trouxe armas da Grã-Bretanha.
E depois que isto disse, tornou a seu pensar e chorar como antes, e os cavaleiros não lhe falaram, com medo de lhe pesar. E depois que pensou muito tempo, esforçou-se para fazer-lhes melhor atitude, e disse: - Senhores, por Deus, não mo leveis a mal, porque vos pareço triste, porque não posso mais; porque as novas desta besta que agora dissestes, me confundem, cada vez que as ouço e me lembram dela. E vos direi como é, e o terei por grande maravilha e não vo-lo digo para me ajudardes nisso, porque não poderíeis.
124. Como Esclabor contou seus jeitos a Galaaz e a Boorz. Verdade é e Deus e os homens o sabem que sou natural da Galiléia e fui pagão e sou cavaleiro assaz bom, e para ver as proezas da távola redonda e para provar a cavalaria, cuja tão grande fama corria pela terra e pelo mundo, vim aqui pouco antes que rei Artur fosse coroado. Um dia vim à corte de rei Artur, quando ele começava a reinar, com um cavaleiro que foi meu companheiro de armas mais de três anos, e cuidava que eu era cristão, mas não o era, e rei Artur e muitos homens bons que me conheciam, que me tinham por bom cavaleiro, todos cuidavam que eu era cristão. Naquele dia que vos digo, aconteceu que trouxeram cavaleiros à corte uma muito formosa donzela, filha de um gigante, que naquele dia mataram numa montanha, e quando a deram ao rei, perguntaram-lhe se queria ser cristã, e lhe dariam terra rica e bom cavaleiro por marido. E ela disse que antes queria morrer de qualquer morte, a ser cristã. E por isso não houve cavaleiro que a quisesse pedir ao rei, senão eu, que não era cristão. E, quando a pedi, o rei me disse:
- Que fareis dela, pois que cristã não quer ser?
- Senhor, disse eu, mais me agrada ser assim do que cristã, porque bem sabeis que sou pagão como ela, e por isso vo-la peço.
E o rei, que bem me conhecia, porque muitas vezes me vira em muitos torneios, disse: - Como? Não és cristão?
- Não, senhor, disse eu.
- Por Deus, disse ele, mal te conheci. E por isso posso dizer que tens nome Esclabor, o não conhecido. Assim como me o rei então chamou, assim sempre tive nome a partir daí. E porque pedi a donzela, deu-ma, e disse-me:
- Agora seja tua, pois ambos sois de uma lei, mas muito vos amara mais, se fôsseis cristãos.
E depois que tive a donzela, parti muito feliz da corte e vivi com aquela donzela doze anos e tive dela doze filhos, que vi depois todos cavaleiros grandes e fortes e muito ousados, tanto que não conheceria ninguém na Grã-Bretanha, cavaleiros de tal fama. Assim me fizera Deus bem de tal companhia, que vos digo, visto que todos sabiam que eram pagãos e eram muito honrados onde quer que chegassem, como se fossem seus filhos todos, de rei Artur.
125. Como Esclabor contou a Galaaz e a Boorz como perdera seus onze filhos. Um dia aconteceu que eu estava com minha mulher e com meus filhos num castelo que me dera o rei Artur, pouco havia. E depois que
comêramos, era hora de meio-dia, então nos chegaram as novas da besta ladradora, que nos disse um nosso escudeiro, que então passava diante da porta de meu castelo. Então pegamos nossas armas, e todos os nossos filhos foram conosco, menos um que estava doente. E depois que cavalgamos, fomos atrás dela e assim que a alcançamos num lago onde entrara para beber - o lago não era muito largo - cercamo-la de todos os lados, assim que não podia sair, a não ser por um de nós. Quando se viu cercada, parou e fez de modo que não queria mover, e disse então a um de nossos filhos que a ferisse, e ele feriu-a assim que o ferro da lança apareceu do outro lado da coxa. E ela deu um grito tão dolorido e tão espantoso, que não há no mundo cavaleiro que a ouvisse, que dela não tivesse grande pavor. Que vos direi? A voz tão estranha e tão esquiva, que não houve um de nós que se pudesse manter em sela, e caímos todos em terra desmaiados.
126. Como Esclabor louvava Palamades, seu filho. Quando acordei, achei-me ferido de uma lançada por meio do corpo, de tal modo que cuidei logo morrer. E quando olhei ao redor de mim, cuidei ter ajuda de meus filhos, e achei-os todos os onze mortos. Que vos direi? Isto foi sabido por toda a terra, e tiveram todos muito grande pesar. E eu que não estava ferido de morte, subi em meu cavalo, mandei buscar meus filhos e os fiz enterrar. Aquele meu filho que ficou no castelo era o maior. E quando viu como nos acontecera, teve tão grande pesar que jurou que nunca mais deixaria de aquela besta seguir, até que a matasse ou ela a ele. Deste modo começou meu filho aquela caça que a manteve até aqui, e ainda a mantém.
- E que armas traz? disse Boorz. E ele lho disse.
- Por boa fé, disse Boorz, nós o vimos hoje.
- Ora, sabei, disse ele, que vistes um bom cavaleiro, quando o vistes. E se não fosse meu filho e o conhecesse como conheço, eu diria que era o melhor cavaleiro que alguma vez houve na GrãBretanha; mas somente lhe falta ser cristão.
- Como? disse Boorz, e vós sois já cristão?
- Sim, disse ele, por uma das formosas aventuras que alguma vez aconteceu a pecador, e vos direi qual.
127. Como Esclabor contou de que modo se tornou cristão. Aconteceu-me um dia, agora há seis anos, que ia por uma floresta e seis cavaleiros pagãos comigo, muito bons cavaleiros de armas e muito afamados nesta terra; e era tarde, tanto que nos anoiteceu na floresta e tivemos de lá ficar e paramos num prado que ficava perto do caminho e pousamos numa choça que achamos, e começou então fazer um tempo tão forte e tão feio como se o mundo todo se houvesse de afundar, e durou até meia-noite. Então caiu um raio do céu e matou quantos cavaleiros comigo andavam, e eu fiquei desmaiado, mas outro mal me não fez nenhum, e fiquei assim até de manhã.
128. Como falavam no feito da besta ladradora. Enquanto assim estava desmaiado, veio uma voz sobre mim que me disse:
- Homem infeliz e pobre de juízo, já te livrei duas vezes de perigo da morte e nunca me deste galardão. Eu deitarei sobre ti minha vingança, se te não reconheceres culpado diante de mim, e a vingança será tão maravilhosa, que em todo o mundo será sabida.
Isto me disse a voz e não mais. E sabei que fui logo tão convertido, porque sabia que dizia a verdade, que neste dia fui batizado com toda minha companhia. Meu filho, sem falha, este que anda seguindo a besta, não se quis batizar, antes me disse que jamais seria cristão por nada, até que acontecesse que soubesse a verdade da besta. Assim me aconteceu como vos conto da besta maldita, que perdi por ela meus filhos e estou por isso tão triste, que cada vez que ouço dela falar, não posso por muito tempo manter atitude formosa.
- Certamente, isto não é grande maravilha, disseram eles, porque foi muito grande a vossa perda. Mas como quer que a perda seja grande, convém que a sigamos nós, visto que a começamos. Porque, se a deixarmos, tomá-lo-iam por nosso mal.
- Deus vos dê nisso conselho e mande que vos advenha melhor do que a mim. Certamente, nunca alguém se esforçou nisto que não se achasse mal no fim.
Depois que isto disseram, foram deitar e, de manhã, quando se levantaram, armaram-se e despediram-se do anfitrião e partiram.
XVII
Ivã de Cenel
129. Mas ora deixa o conto a falar de Galaaz e torna a Galvão. Conta a estória que Galvão, depois que foi curado do ferimento que lhe fizera Galaaz e sentiu que poderia cavalgar, cavalgou de novo e seguiu o seu caminho e, andando assim por duas jornadas, aconteceu um dia que encontrou Ivã de Cenel, bom cavaleiro e valente, que era da mesa redonda, e saudou-o assim que a ele chegou, e o outro também a ele, mas não se reconheciam, porque tinham as armas trocadas. E indo pelo caminho deram início a perguntas. E depois que se reconheceram, ficaram muito alegres e, por fim, concordaram que se não separassem, visto que Deus os ajuntara, até que a ventura os fizesse separar.
130. Como Galvão voltou e Ivã foi ao castelo. Aquele dia, cavalgaram juntos, falando de muitas coisas; e, no outro dia, chegaram a um castelo bem forte e bem formoso, que ficava sobre uma ribeira. Mas pareceu-lhe que era já ermo. E quando chegaram à porta, acharam sobre uma pedra, um letreiro escrito na pedra, que dizia: "Aqui jaz Lamorante, aquele que por traição matou Galvão, o sobrinho do rei Artur."
Depois, novamente acharam outro letreiro que dizia: "Isto ordenam os do castelo: que ninguém da linhagem de rei Artur seja ousado entrar; porque se sozinho entrar e ficar só, todo o mundo não o livrará de morte."
Depois que leram os letreiros, Galvão, que bem sabia como era, tornou a rédea ao cavalo, e disse: - Voltemo-nos daqui, dom Ivã, porque se lá entrarmos, estamos mortos.
E aquele, que tão valente era que não temeria a morte, se a visse chegar, disse:
- Por Deus, isto não me acontecerá, se Deus quiser, que eu por medo de morte volte, porque mo teriam por maldade e covardia.
- Tenham, disse ele, porque voltar quero eu, pois simplesmente vejo minha morte, se adiante vou. - Pois, disse Ivã, encomendo-vos a Deus, porque eu quero entrar, como quer que me advenha.
131. Como o donzel disse a Ivã que mal lhe devia acontecer, pois era da linhagem de rei Artur. Então se separavam um do outro, e Galvão foi por outro caminho. E Ivã, que tão valente era e tão bom cavaleiro que poucos havia no mundo melhores, entrou no castelo. E assim que passou a porta do castelo, deixou-se cair a porta levadiça.
E logo entendeu que não poderia voltar por ali, mas não se espantou, porque a muito grande valentia que tinha o confortava. Logo depois disto, ouviu tocar um corno. Então veio a ele um escudeiro e disse-lhe:
- Cavaleiro, dizei-me quem sois. Não me mintais, pela fé que deveis a todos os cavaleiros do mundo. Ele respondeu:
- Vós me conjurastes tanto, que por nada vos mentirei: eu hei nome Ivã de Cenel e sou da casa de rei Artur e de sua linhagem.
- Certamente, disse o escudeiro, hoje ainda vos acontecerá muito pesar, porque, por causa daquela linhagem, recebereis morte dolorosa.
- Não sei, disse ele, o que será, mas se a morte me convém, defenderei meu corpo quanto puder.
132. Como Ivã de Cenel foi preso no castelo. Então se separaram ambos e o escudeiro foi depressa ao alcácer e daí a pouco viu Ivã de Cenel virem contra si dez cavaleiros armados, que disseram todos a uma voz:
- Agora, a ele.
E então se deixaram correr a ele e mataram-lhe o cavalo, e cercaram-no de todos os lados. E quando o viram a pé, porque ele se defendia muito bem a maravilha, prenderam-no, porque todos eram muito bons cavaleiros, e desarmaram-no e acharam nele dez feridas tão grandes, que outro homem cuidaria morrer da menor. Depois perguntaram-lhe que nome tinha e ele disse que tinha nome Ivã de Cenel.
- E sabei que muito mal vos acontecerá por minha morte assim que rei Artur souber, porque por minha morte sereis destruídos todos.
- Não nos importa, disseram eles, contanto que víssemos vingada a morte de Lamorante, que vosso coirmão dom Galvão matou, e matou-o muito sem modos e muito traiçoeiramente.
133. Como Ivã de Cenel foi queimado. Depois disto, pegaram Ivã de Cenel e levaram-no o mais vilmente que puderam até o alcácer. Ali havia uma capela muito formosa e muito rica, onde jazia Lamorante e fora feita por ele, em honra de Santa Maria, para que Santa Maria rogasse por ele e seu Filho bendito. E sabei que a
sepultura de Lamorante era rica e tão formosa que dificilmente poderia alguém achar melhor no mundo. Quando entraram diante da capela, mandaram fazer uma cova funda de sete pés, e feita a cova, pegaram Ivã de Cenel e mostraram-lhe a sepultura de Lamorante e disseram-lhe:
- Ivã, aqui jaz Lamorante, que Galvão, teu parente, matou a muito grande traição. E todos lhe deviam por isso mal fazer. Ele nos matou e confundiu e meteu em pobreza. E Deus, o grande vingador, nos dê disso tal vingança qual desejamos.
Então começaram fazer seu grande lamento que não há no mundo ninguém tão duro de coração que o visse, que não chorasse. E ao cabo de um tempo, disseram:
- Ai, Lamorante, bom cavaleiro e de grande coração, filho de rei e de rainha e de avós de alta posição, como nos matou mal aquele que te matou!
E depois que isto disseram, ficaram de joelhos diante do túmulo e beijavam-no e diziam: - Senhor, que ventura te matou e escarneceu, que te levou tão cedo?
Depois que fizeram sua grande lamentação, pegaram Ivã e amarram-lhe as mãos atrás e jogaram-no na cova e pegaram lenha seca e jogaram sobre ele e puseram-lhe fogo e ardeu que virou cinza.
134. Como rei Artur, depois da morte de Persival, veio a destruir o castelo.Assim foi Ivã de Cenel queimado pela morte de Lamorante. E esta morte poderia ele evitar, se quisesse, mas o grande ânimo de não fazer covardia não lho permitiu. E quando rei Artur isto soube, teve grande pesar, tanto que destruiu por isso o castelo, mas não enquanto Persival foi vivo. E sabei que disto ficou muito desonrado Galvão e tido por covarde, porque se separara assim de Ivã e o deixara em tão grande feito como o deixou, porque por nenhum pavor não o deveria deixar em tal circunstância como aquela.
135. Mas ora deixa o conto a falar de Ivã e torna a Galvão. Nesta parte diz o conto que, depois que partiu Galvão do castelo, onde viu os letreiros da pedra, não se afastou muito que achou outro caminho que ia para uma montanha e tomou aquela carreira e foi pensando muito e com grande pesar, porque lhe pareceu que era mal, por medo de morte. E ele assim indo, aconteceu-lhe que achou uma donzela. Assim que o viu, parou, porque bem viu que era cavaleiro andante, mas não reconheceu que era Galvão e disse:
- Senhor cavaleiro, sede bem-vindo!
- Donzela, disse ele, Deus vos dê alegria. Quem sois ou quem buscais?
- Eu sou, disse ela, uma donzela estranha, que vim a esta terra pouco há e ando buscando um dos