176. Como Leonel chegou onde havia de ser o torneio, e como achou seu irmão Boorz. Depois que Leonel viu que poderia cavalgar, armou-se e cavalgou, e foi-se e andou tanto, que chegou a um castelo, que tinha nome Cidela, onde havia naquela hora muita gente fora e dentro, porque havia pela manhã um torneio, e estavam reunidos muitos bons cavaleiros da távola redonda e de muitas terras. Quando Leonel soube que haviam de ter um torneio, pensou que não poderia ser que alguns cavaleiros da távola redonda não viessem. E se seu irmão viesse, se vingaria do erro que lhe fizera. Então perguntou a um moço que lá estava:
- Cuidas que poderia achar albergue neste castelo, se lá entrasse? - Não, disse o moço, porque tantos estão lá que não cabem dentro.
Mas quando ele ouviu isto, retirou-se da frente da porta do castelo. E tanto andou buscando albergue perto do castelo onde pousasse como estranho, que não conhecia a terra, e tanto andou, que chegou a uma ermida e desceu e pensou que ficaria já ali aquela noite, que pousaria melhor do que em outro páramo. E depois que ficou desarmado, tirou a sela e o freio ao cavalo, e deitou-se sob um carvalho, que ficava diante da porta da ermida, para descansar. E assim deitado, viu vir em sua direção Boorz, seu irmão, e assim que o reconheceu, logo lhe lembrou o perigo em que o deixara, e começou a morrer de raiva e de má vontade. E ergueu-se para ele, mas não para saudá-lo, mas para fazer-lhe mal e pesar, se pudesse. Quando Boorz reconheceu que aquele era Leonel, seu irmão, teve tão grande alegria, que vos não saberia ninguém contar, e desceu depressa de seu cavalo, e disse:
- Amigo irmão, sede bem-vindo. Quanto tempo há que aqui viestes? Leonel não lhe quis a isto responder, mas disse-lhe:
- Boorz, não fez falta para vós de eu ser morto noutro dia, quando vistes que os dois cavaleiros me levavam e não me quisestes socorrer, antes socorrestes a uma donzela que não sabíeis quem era. Nunca irmão fez tão grande deslealdade como fizestes naquela hora, e por aquele feito vos desafio assim, que não há outra cousa senão morte, porque nunca estarei alegre, até que me vingue de quanto me fizestes.
177. Como Leonel fez mal a seu irmão Boorz e como matou o ermitão que rogava que não matasse seu irmão. Quando Boorz viu seu irmão tão enraivecido, teve grande pesar sobejo, e ficou logo de joelhos diante dele, e depois juntou as mãos e pediu-lhe compaixão e rogou-lhe que lhe perdoasse aquele erro, e ele respondeu:
- Já Deus não me ajude, se vos perdôo; mas guardai-vos de mim, porque certamente vos farei o que se deve fazer a cavaleiro traidor e desleal, porque certamente sois o mais traidor que alguma vez vi.
E então tomou suas armas e subiu em seu cavalo. E depois disse a Boorz:
- Guardai-vos de mim, porque assim Deus me aconselhe, eu vos matarei. E se todo o mundo por vós me dessem, eu não vos perdoaria de morte.
Quando viu Boorz que o preito era assim e que havia de combater com seu irmão ou morrer, não soube o que fizesse, porque não há nada por que ele combatesse a seu poder, porque era seu irmão mais velho, a quem devia ter humildade e submissão. E porque de nenhum modo lhe queria fazer mal, disse que tentaria outra vez se acharia nele compaixão. Então pegou seu elmo e ficou de joelhos diante das patas do cavalo de seu irmão e chorou muito sentidamente e disse:
- Amigo, bom irmão, tem de mim piedade e não me mates, mas perdoa-me este erro e lembra-te do grande amor que deve haver entre mim e ti.
Por quanto Boorz dizia, não dava Leonel uma palha, como homem que tinha diabos, que lhe davam ânimo de matar seu irmão. E Boorz ainda estava de joelhos diante dele e as mãos juntas e pedindo-lhe misericórdia. E quando Leonel viu que se não erguia, por nada que lhe dissesse, esporeou o cavalo e feriu Boorz com os peitos do cavalo tão violentamente, que o pôs em terra e Boorz ficou muito ferido da queda. E Leonel passou tantas vezes sobre ele, que o quebrou todo. E Boorz ficou tão aflito que bem cuidou morrer ali, sem confissão. E assim que ele viu que se não podia erguer, desceu como quem tinha muita vontade de lhe cortar a cabeça; e estando por cortá-la, saiu da ermida o ermitão, um homem de muita idade, que bem ouvira quanto fora dito entre os irmãos. E quando viu que Leonel estava preparado para cortar a cabeça de seu irmão, foi correndo para lá muito espantado, deitou-se sobre ele e disse:
- Ai, bom cavaleiro, tem de mim compaixão e de teu irmão, porque se o matas, tu estás morto em pecado, e nada valerás, e será grande dano a morte de tal homem.
- Assim Deus me ajude, disse Leonel, dom clérigo, se vós daí não vos ergueis, matar-vos-ei. E por isso, no entanto, não estará ele quite, que eu não faça nele o que comecei.
- Certamente, disse o homem bom, mais quero que me mates a mim, do que vê-lo diante de mim morrer. Então se deitou sobre ele de comprido e abraçou-o pelos ombros, e disse a Leonel:
- Agora podeis fazer o que quiserdes, porque eu morte quero receber por ele.
Quando Leonel isto ouviu, não quis tardar nada, como quem tinha muito grande raiva, e deu ao homem bom um tal golpe, que o abriu todo, sem falha, até os dentes.
178. Como Calogrenante chegou quando Leonel queria cortar a cabeça a Boorz e como combateu com Leonel por Boorz. Embora Leonel tenha feito isto, não lhe diminuiu nada a raiva que tinha, antes correu a seu irmão e deu-lhe do punho da espada um tal golpe
na cabeça, que lhe fez o sangue sair por sete lugares e matara-o, sem falha, se não viesse por aí Calogrenante, um cavaleiro da mesa redonda, que ia armado para o torneio. E quando ali chegou, e viu o homem bom morto, maravilhou-se. E quando viu também o cavaleiro que tinha o outro em baixo de si, e que lhe queria cortar a cabeça, então os olhou bem, reconheceu-os bem ambos e teve grande pesar, e desceu do cavalo, e tomou Leonel pelos ombros e tirou-lhe Boorz da mão, e disse:
- Que é isto Leonel? Estais louco que quereis matar vosso irmão, o melhor cavaleiro e o melhor homem que eu conheço? Certamente, isto não suportaria eu a nenhum homem bom.
- Como? disse Leonel, quereis vós mo impedir? Por boa fé, se vós nisso mais vos esforçardes, eu o deixarei e me pegarei convosco.
Quando isto ouviu Calogrenante, ficou espantado e disse-lhe: - Verdade é que o quereis matar?
- Matar o quero, disse ele, que o não deixarei para vós nem para outrem, porque muito o mereceu. Então levantou a espada para dar a Boorz pela cabeça, e Calogrenante se pôs entre ambos e disse que se o quisesse mais ferir, que ele na batalha estava.
Quando isto ouviu Leonel, tomou seu escudo e perguntou-lhe quem era e ele se nomeou. E Leonel lhe disse:
- Vós sois da mesa redonda, mas Deus não me ajude se por isso deixo de combater convosco, porque me impedis que tome vingança do homem do mundo que eu pior quero, e desafio-vos logo.
Então lhe deu logo a maior espadada que pôde por cima do elmo. E quando Calogrenante viu que se começava a peleja, foi correndo a seu escudo que deitara por terra, e pegou-o e meteu mão à espada, e ele era bom cavaleiro e muito valente e defendia-se muito vivamente. E durou tanto a batalha, até que se ergueu Boorz e estando muito ferido, que não cuidava pegar armas, se Deus não pusesse sobre ele a mão, quando viu que Calogrenante combatia com seu irmão, teve grande pesar, porque, se Calogrenante matasse seu irmão diante dele, nunca mais seria alegre, tanto o amava entranhadamente; e se seu irmão matasse Calogrenante, a desonra disso seria sua, porque bem sabia que por ele começara aquela batalha. Disto tinha ele grande pesar sobejo; e de bom grado os iria separar, se pudesse, mas não podia por nada, porque muito se doía, e esperou tanto, que Calogrenante levou o pior da batalha, porque muito era Leonel forte e ousado. E Calogrenante tinha já assim seu elmo feito em pedaços e seu escudo e sua loriga, que não esperava, senão a morte. E tanto
sangue perdera já, que não podia ficar de pé, e teve grande medo de morrer. E olhou e viu Boorz que se erguia então com muito grande dificuldade.
- Ai, dom Boorz! por que não me vindes tirar deste perigo de morte em que entrei para vos livrar, porque estáveis tão perto da morte ou mais do que agora estou? Certamente, se me deixais morrer, todos aqueles que ouvirem falar disso, porão a culpa em vós, e será a desonra vossa e o dano meu.
- De tudo isto não vos há mister, disse Leonel; morrer vos convém desta vez, e todo o mundo não vos livrará, que eu a vós ambos não mate.
Quando Boorz isto ouviu, não ficou bem seguro, porque, depois da morte de Calogrenante, seu irmão o mataria, se o desarmado achasse. E por isso foi a seu elmo e atou-o, e quando achou o ermitão morto, teve grande pesar e disse:
- Ai, Deus! que desgraça e que pecado! E Calogrenante gritou outra vez:
- Ai, dom Boorz! Assim me deixareis matar? Se vos agrada que eu morra, muito me agrada morrer, porque, certamente, por melhor homem do que vós não poderia eu, agora, nem depois, receber morte.
179. Como Leonel matou Calogrenante. Nisto, ergueu Leonel a espada, e feriu Calogrenante tão de rijo, que lhe deitou o elmo longe. E quando viu sua cabeça nua, e viu que não poderia escapar, disse:
- Ai, Senhor Pai Jesus Cristo, que suportastes que entrasse nesta demanda não tal nem tão quite de pecado como eu devia, tem misericórdia de minha alma, de tal modo que esta dor que suportarei por bem e por esmola que fazer queria, me seja alívio e penitência da minha alma.
Então deitou o elmo longe e deitou-se em cruz. E Leonel que estava com grande fúria feroz, feriu-o - dizendo ele esta palavra - tão rijamente, que o matou. Nisto aconteceu um milagre muito formoso como a estória verdadeiramente o relata, e não deixaremos de contar. O milagre foi este. Quando Leonel o feriu na cabeça, no lugar do sangue que tinha de sair pela ferida que era muito grande, saiu leite tão branco como a neve, e saía tanto como a metade de um barril, e foi verdade que lhe saiu do corpo. E daquele sangue que tão branco era, do qual a terra não pôde ser bem limpa, aconteceu que saíram flores, antes que passasse um meio ano depois de sua morte e ainda, naquela época, há cada ano flores que daquelas saíram e todo o verão as poderá alguém achar, e têm nome aquelas flores calogres, e servem ainda agora para quem perde o sangue, que o estancam, mas animal que as come, logo morre. Assim como vos conto, morreu Calogrenante, e aconteceu tão formoso milagre, como vos relato. E aquela ermida, perto da qual ele morreu, e onde foi enterrado, teve nome a ermida de Calogrenante, e nunca se lhe trocou seu nome.
180. Como Nosso Senhor enviou fogo entre Leonel e Boorz para que se não matassem e como disse a Boorz uma voz que não ficasse com seu irmão. Depois que Leonel matou Calogrenante, não o olhou mais, nem o milagre que fora feito, antes se deixou ir a seu irmão, e deu-lhe por cima do elmo um tão grande golpe, que o fez todo emborcar. E Boorz amava humildade naturalmente e rogava-lhe ainda por Deus que deixasse esta batalha.
- Porque se acontecer, irmão, que vos mate ou vós a mim, isto será a maior deslealdade e a maior maravilha que nunca aconteceu no reino de Logres, e estaremos mortos em pecado, e por isso vos rogo, por Deus, que vos deixeis disso.
- Já não me ajude Deus, disse Leonel, se eu vos tiver compaixão, se mais posso, porque não ficou por vós de eu morrer.
Então tirou Boorz a espada, e disse:
- Senhor Pai Jesus Cristo, não se me torne a pecado, se eu me defendo de meu irmão.
Então ergueu a espada, e quando quis ferir seu irmão por cima do elmo, ouviu uma voz que lhe disse: - Filho Boorz, não o firas, porque o matarás!
Então desceu entre eles uma chama de fogo, em semelhança de raio, tão acesa, que lhes queimou todos os escudos. E eles ficaram tão aflitos, que caíram por terra e ficaram muito tempo desmaiados. E depois que se ergueram, olharam-se e viram entre si a terra toda acesa de fogo que queimava. Mas quando Boorz viu que seu irmão não tinha nenhum mal, estendeu as mãos para o céu e agradeceu muito a Deus. E então lhe disse uma voz:
- Boorz, não mantenhas mais companhia de teu irmão, mas vai diretamente para o mar, e não te detenhas em lugar algum, porque Persival te espera lá.
Quando ele isto ouviu, estendeu as mãos, e disse:
- Pai dos céus, bendito sejas tu, que te agrada de me chamares a teu serviço. Então foi a Leonel e disse-lhe:
E ele disse que lhe perdoava de bom grado. E depois, de novo lhe disse Boorz:
- Irmão, mal fizestes que matastes Calogrenante, vosso companheiro da mesa redonda, e igualmente destes morte ao homem bom ermitão.
Mas ele não entendia ainda a maravilha que acontecera com Calogrenante, porque não agradava a Deus demorar mais para ir onde Persival o esperava. E Leonel respondeu:
- Muito me pesa de quanto fiz, mas meu pecado e minha desventura mo fizeram fazer. Agora me dizei o que faça.
- Irmão, disse Boorz, eu não posso mais aqui estar, mas vós ficai, e encomendo-vos a Deus, porque não sei se vos verei de novo e rogo-vos, por Deus e pela honra da vossa linhagem, que, de outra feita, não cometais tão grande braveza, nem tão grande crueldade como fizestes, porque não vos pode disso vir algum bem, mas todo o mal.
E ele disse que jamais o veria em outra igual.
181. Como Boorz foi para o mar, onde se encontraria com Persival, como a voz lhe dissera. Boorz foi então a seu cavalo e subiu tão ferido como estava. E Leonel ficou para fazer enterrar aqueles que matara. Mas Boorz cavalgou, e foi por onde entendeu que mais depressa iria ao mar, e andou tanto por suas jornadas, que chegou a uma abadia, que ficava à beira-mar e pousou lá aquela noite e foi muito servido de quanto os homens bons podiam ter. À hora de meia-noite, disse-lhe uma voz:
- Boorz, levanta-te e vai-te ao mar, que já Persival lá está que te espera na praia.
Quando ele isto ouviu, ergueu-se muito depressa e persignouse e rogou a Nosso Senhor que o guiasse e não quis despertar ninguém para não perceberem em que hora saía e foi então enfrear seu cavalo e selou-o e pegou suas armas, e armou-se e saiu da abadia pela porta que estava aberta para o mar e partiu daí de modo que ninguém o viu nem percebeu.