224. Verdade foi que foi das formosas mulheres do mundo e tão amiga de Deus e da santa Igreja, que todos aqueles que a conheciam falavam disso; e a bondade grande que tinha foi a razão por que a amou rei Artur e lhe pediu seu amor; mas aquela, que tão boa mulher era, que, porventura, nenhuma poderiam achar melhor, não quis de nenhum modo e por isso o desamou sobre todos os homens do mundo, de modo que nunca depois o esqueceu mais em seu coração; pelo que aconteceu que, naquele dia que morreu, apareceu naquela hora ao rei Artur que estava dormindo em sua câmara em Camalote, e vinha coroada, tão formosa pessoa e tão alegre que muito teria alguém prazer em vê-la. E quando ela estava em tão grande alegria, disse a Artur:
- Rei Artur, eu me vou para o paraíso, que tu me quiseste impedir por tua luxúria; minha castidade me pôs em alegria e tua luxúria te colocará em grande dor e em martírio, se te não castigas.
De tal modo como vos conto, soube rei Artur a morte da mulher. E isto ,foi na vigília de Pentecostes, no mesmo dia em que a demanda do santo Graal foi começada, exatamente à entrada de abril. E pela grande bondade que ele sentia na mulher, foi à floresta Gasta com grande companhia de cavaleiros, e fez arrombar a cela e tomar o corpo da mulher e levá-lo a Camalote e o fez enterrar com grande honra na igreja de Santo Estêvão, que então era a maior igreja. Mas porque bem saberemos voltar a este assunto quanto for mister, caiamo-nos por agora.
XXXVI
Persival, Galvão e o cavaleiro desconhecido
235. Assim se separou Persival da mulher que o servira muito e o tivera satisfeito em sua casa, e tanto andou por seus caminhos, como a ventura o levava, até que um dia achou Galvão sobre uma fonte, à entrada de uma floresta e tirara o seu elmo e folgava ali, porque estava tão cansado que era maravilha. E quando o viu ficou muito alegre e disse-lhe:
- Deus esteja convosco.
E desceu logo, e Galvão não o reconhecia, porque muitas vezes trocara Persival suas armas desde que entrara na demanda. Ainda assim ergueu-se contra ele, e Persival lhe disse:
- Galvão, não me reconheceis?
- Não, disse ele; assim Deus me ajude; mas não vos pese disto. E Persival desceu logo o elmo e tirou-o da cabeça, e tirou o almofre e assim que Galvão o reconheceu, deitou nele os braços estendidos, e disse-lhe: - Ai, dom Persival, sede bem-vindo; se não vos reconhecia, não devo ser por isso culpado, porque nunca vos vi trazer estas armas.
236. Grande foi a alegria e o prazer que ambos tiveram, e depois que se receberam com demonstrações de agrado, sentaram-se sobre a fonte e começaram a falar de muitas coisas, e perguntaram das aventuras que lhes aconteceram desde que entraram na demanda, e contaram, estando sentados, muitas; mas bem sabei que lhe não disse Galvão toda a verdade do que lhe acontecera na demanda, nem dos companheiros da mesa redonda dos quais já matara muitos. Enquanto assim falavam, Persival começou a pensar muito que não entendia coisa alguma de quanto lhe dizia Galvão, e ficou tão sofrido naquele pensar que as lágrimas lhe caíram pelas faces, e Galvão entendeu logo o que pensava, e calou-se e começou a olhar para ele; e depois que Persival pensou muito tempo, deu um suspiro e ergueu a cabeça. E Galvão lhe disse:
- Amigo, muito ficastes cuidando neste pensar. Deus mande que vos venha bem.
E ele começou a enegrecer e a olhar. Galvão teve grande pesar de que o viu pensar assim. E Persival disse:
- Muito me pesa que em tal pensar caí, porque a mim não acontecerá melhor nem pior do que a outrem. Ao cabo de um tempo, ele disse a Galvão:
- Dom Galvão, assim Deus vos guarde e pela fé que deveis a todos os companheiros da mesa redonda, dizei-me a verdade do que vos perguntar; e pela fé que devo a Deus e a toda a cavalaria, nunca vos advirá mal por isso.
Galvão, que era muito experiente e que passara já muitos perigos semelhantes, logo imaginou que lhe queria perguntar pela morte de seu pai e de seus irmãos, e ficou tão espantado, que não soube o que fizesse, porque se lhe a verdade dissesse, cuidou que faria seu dano, porque o tinha por melhor cavaleiro que a si; se lho encobrisse por pavor, nunca ninguém o ouviria falar, que o não tivesse por mal; mas sempre achou melhor encobrir do que dizer, porque, ainda que Persival não lhe fizesse mal agora nem depois, sempre o odiaria; e respondeu então:
- Dom Persival, perguntai o que quiserdes, porque nada que eu saiba vos ocultarei, ainda que imaginasse que algum mal me adviesse.
- Certamente, disse Persival, nunca vos sobrevirá mal por mim nem por outrem, porque tal coisa é que eu quereria mais encobrir do que vós mesmo.
237. Persival disse então:
- Dom Galvão, ouvi dizer a muitos que matastes meu pai e meus irmãos; mas porque o não posso crer, quis já mal a muitos cavaleiros; se os matastes e me não conhecíeis, vo-lo perdôo, e jamais deixeis de o falar que vos não quero nenhum mal por isso, e nenhum homem bom, depois que eu souber que os matastes, vos quererá por isso mal.
Galvão, que teve todo o pavor de que Persival dizia aquilo para provar se descobriria sua maldade e sua deslealdade, disse logo:
- Ai, dom Persival! Como poderia matar vosso pai e vossos irmãos que amei com tão grande amor que nada havia por que não metesse o corpo em aventura de morte para salvar sua vida? E jamais penseis nisso e para me crerdes muito melhor, quero vo-lo jurar sobre os santos Evangelhos, e não há no mundo tão bom cavaleiro, que mo acusasse, do qual me eu muito bem não defendesse, porque bem sei que por mim nunca tal cousa passou.
238. Quando Persival isto ouviu, disse:
- Certamente, dom Galvão, assaz tendes dito, e de tal modo o dissestes que sempre acreditarei. Por Deus, perdoai-me, porque até aqui tive por vós pior ânimo do que devia.
E Galvão lhe perdoou. Assim falando, ficaram muito tempo sobre a fonte, e depois que viram que passava de hora de noa, pegaram suas armas e subiram sobre seus cavalos e entraram em seu caminho. Disse Galvão a Persival:
- Amigo, conheceis perto daqui lugar onde fôssemos albergar?
- Não, disse Persival, mas não vos apresseis, que Deus dará nisso conselho.
E eles indo assim falando, olharam para trás e viram vir um cavaleiro armado com todas as armas brancas.
- Parece-me, disse Galvão, que aquele é Lancelote, que tais armas traz como quando foi feito cavaleiro, e chamavam-no por isso todos O Cavaleiro Branco.
E antes que ele tudo isto tivesse dito, alcançou os cavaleiros, e eles o saudaram e ele a eles. - Senhores, disse ele, de onde sois?
E eles disseram que eram cavaleiros da casa do rei Artur e companheiros da mesa redonda. E a Persival disse o cavaleiro:
- Saberíeis dizer-me novas de Persival? - O que dele queríeis? disse Persival.
- Eu lho saberia dizer bem, disse o cavaleiro, se o visse. E Persival respondeu então:
- Sou aquele que buscais; o que quereis de mim? - Sois vós? Assim Deus vos ajude, disse o cavaleiro.
- Certamente, disse Persival, nunca de outro Persival ouvi falar.
- Em nome de Deus, disse o cavaleiro, muito me agrada pois vos achei tão cedo, que de grande trabalho estou quite, porque jamais deixaria de andar até que vos achasse. Agora, guardai-vos de mim, porque jamais estarei alegre até que vos faça peleja.
- Como? disse Persival, para vos combaterdes comigo vínheis depós mim? - Sim, disse o cavaleiro.
- E que contenda há entre mim e vós, disse Persival, por que a batalha se há de fazer? Porque eu não quereria combater convosco nem com outrem, sem razão; e se eu procedesse tão errado convosco, que me quis és seis mal mortal, eu vo-lo repararia antes como dom Galvão mandasse.
E o outro respondeu:
- Não vos aproveita; não podeis de mim vos separar sem batalha. Agora, guardai-vos de mim, se quiserdes.
- Sim, farei, disse Persival, pois vejo que fazer me convém.
239. Depois disto, sem mais tardar, deixou-se correr um ao outro, e feriram-se tão violentamente, que ficaram ambos muito feridos, mas Persival caiu por terra e ficou tão quebrado daquela queda, porque o cavalo caiu sobre ele e o cavaleiro passou por cima dele, que o não viu. Quando Galvão viu este golpe, pesou-lhe muito, e
não soube o que fizesse, porque se o quisesse vingar, não cuidava que pudesse, porque bem sabia que Persival era melhor cavaleiro do que ele, mas disse que ainda se meteria à aventura, porque lho teriam por grande covardia, se não fizesse o que estivesse a seu alcance.
Então disse ao cavaleiro: - Guardai-vos de mim.
E o cavaleiro volveu a ele e feriu-o assim que lhe quebrou o escudo e a loriga e lhe meteu o ferro da lança pelo costado esquerdo, mas não foi a chaga mortal, e deitou-o em terra, e ao cair, quebrou-lhe a lança. E depois que fez este golpe, tornou-se a Persival que já se erguia com grande pesar do que lhe acontecera; e Persival foi para o cavaleiro e meteu mão à espada, e disse-lhe:
- Senhor cavaleiro,eu vos chamo à batalha, porque, posto que me derrubastes, não me vencestes; por isso vos convém que combatais até que me vençais ou eu a vós.
E ele respondeu então:
- Não combaterei, porque não me apraz; entendo que muito tenho feito pois derrubei-vos e dom Galvão. - Como? disse Persival, assim vos cuidais ir e que ganhareis mérito por nada?
- Assim, disse o cavaleiro, se quiser ir, porque nós que somos estrangeiros, e não ganhamos ainda a honra da mesa redonda, temos uma vantagem sobre vós, que não tendes sobre nós; porque vos podemos chamar a batalhas e a justas a nosso prazer, e não podeis isto fazer, que vo-lo não tenham por grande maldade, mas se nos chamais, podemos bem sem culpa excusar, se não formos chamados por aleivosia ou por traição. Disse-vos eu verdade.
- Certamente, disse Persival, mas pois que vos provei às justas, e tivestes a melhor ventura, se vos depois chamo à batalha e não a quereis aceitar, o fazeis por covardia, dizei o que quiserdes.
Disse ele:
- Por muito que digais, não combaterei convosco, e vos dou por quite. Disse Persival:
- Mas bem sabei que a desonra é mais vossa que minha. - Não vos importeis, disse o cavaleiro; a honra e a desonra minha sejam.
240. Nisto falando, subiu dom Galvão, ferido como estava, em cima de seu cavalo, e quando viu que o cavaleiro queria já partir sem mais fazer, teve muito grande raiva e disse:
- Como? dom mau cavaleiro, assim cuidais ir? Eu vos chamo à batalha; se vos quiserdes defender, defendei-vos, porque farei todo o meu poder e dever de vos matar.
- Dom Galvão, disse o cavaleiro, não fiqueis tão raivoso; e certamente se isto acontecer, eu me cuido bem defender.
- Pois defendei-vos, disse Galvão, porque muito vos faz mister. E meteu mão à espada. - Como, disse o cavaleiro, quereis que combata convosco? - Vinde, disse dom Galvão. Então disse Persival:
- Dom Galvão, não será, pois que se o cavaleiro não quer combater, deixai-o ir, que não podeis outra coisa fazer, por costume da mesa redonda.
- Maldito seja tal costume, disse Galvão, e quem agora o mantivesse, se não fôsseis vós; antes vingar-me-ia deste mau cavaleiro.
E o cavaleiro respondeu então com raiva:
- Como? dom Galvão, tendes-me por tão mau, que tão depressa imaginais me vencer?
- Sim, disse dom Galvão, que por maldade e covardia não ousais combater com dom Persival nem comigo.
- Agora vereis, disse o cavaleiro, a minha covardia.
E meteu logo mão à espada, e deu-lhe um tão grande golpe por cima do elmo, que o tornou pior do que antes estava. E Galvão o feriu com tão grandes golpes por onde alcançava, que não havia quem o visse que não dissesse que sabia bem ferir com espada, mas confiando muito, porque andava ferido; no entanto quem o então visse dar golpes e receber, não lhe pareceria covarde nem preguiçoso; mas do cavaleiro. vos posso dizer bem que era mais vivo e mais ligeiro que dom Galvão; mas Galvão era mais forte e sabia melhor se defender. E já havia tempo que tinham descido dos cavalos para os não matarem, e combatiam-se a pé. E quando o preito foi assim que ficaram tão cansados, que tiveram que deixar a batalha para descansarem; e se afastaram um do outro, Persival, que tinha muito grande receio por Galvão, porque lhe parecia que se matariam, disse: - Senhor cavaleiro, não sei quão grande sois, mas tanto vos vejo bem resistir contra tão bom cavaleiro como dom Galvão, que, assim Deus me ajude, vos prezo muito, e pela bondade que vos vejo, parece-me que seria grande dano serdes privado do movimento ou morto nesta batalha; e nisto não podeis falhar, se longamente a mantiverdes, porque se matardes dom Galvão - o que não pode acontecer tão rapidamente, porque bem cuido que é melhor cavaleiro do que vós - então conviria que combatêsseis comigo que estou tão descansado, que me não poderíeis resistir a nada, que logo vos não matasse.
241. - Como? disse o cavaleiro, se eu vencer ou matar dom Galvão, convosco me haverei de combater?
- Certamente sim, disse Persival. E dir-vos-ei por que razão. O costume da mesa redonda é tal que, se vejo meu companheiro vencer ou matar, convém que o vingue, antes que me parta, e mate por minha mão a quem com ele combateu, se ambos não forem companheiros da mesa redonda.
- Mau costume é esse, disse o cavaleiro.
- Pois guardai-vos, disse Persival, porque se vós esta batalha mantiverdes, não podereis daqui partir sem grande dano.
- Não? disse ele, deixo-a, porque vós sois melhor cavaleiro de espada do que eu. Então disse a Galvão:
- Dom Galvão, rogo-vos, para vosso proveito e para o meu, que me deis por quite desta batalha. - Fá-lo-ei, disse Galvão, se vos outorgardes por vencido por mim.
- Eu outorgar-me por vencido? disse o cavaleiro, nenhuma honra tendes nisso, porque bem sabeis que ainda me não vencestes, e que não deixo esta batalha, a não ser por amor de dom Persival.
- Pela santa cruz, disse Galvão, outra coisa vos farei dizer antes que nos separemos; já assim não me escapareis, porque não sou lá quem vós cuidais.
Então se chegou Persival e disse a dom Galvão:
- Amigo, deixai esta batalha, pois o cavaleiro vos roga, pela fé que deveis a vosso tio, o rei Artur. - Amigo, de tal modo me rogastes que a deixarei, mas deixoa a minha desonra, mas bem sabei que se me culpa puserem, sobre vós a deitarei.
Então meteu sua espada na bainha, e subiu em seu cavalo, e o outro cavaleiro também fez o mesmo. E Persival lhe disse:
- Rogo-vos que me digais por que combatestes hoje comigo; em que vos enganei, por que me quereis tão grande mal?
- Eu vo-lo direi, disse o cavaleiro.
242. - Eu sou o menino de quinze anos, por quem vos rogou a mulher que, em galardão de seu serviço, me fizésseis cavaleiro, mas não quis estes fazer, porque cuidáveis que era da linhagem de vilão. Assim me retardastes de receber a ordem de cavalaria, mas não o fez dom Tristão, o melhor e mais cortês cavaleiro, que assim que isto minha senhora pediu, logo me fez toda honra e vós, desonra. E por isto vos desamei até aqui e desamaria, se não fosse porque vos acho melhor cavaleiro do que cuidava e por isso vos perdôo o quanto procedestes mal comigo. Não há mais de doze dias que me fez dom Tristão cavaleiro, disse ele.
E Persival se admirou e depois disse-lhe:
- Tendes bom começo, e Deus queira que o fim seja tão bom. Sabei que vos deixei de fazer cavaleiro não por vosso mal, mas por honra da cavalaria. Ainda assim, dizei-me logo, se vos aprouver, como tendes nome? - Eu tenho nome, disse ele, o Cavaleiro Desconhecido. Assim me pôs nome Tristão, quando me fez cavaleiro, porque não sabia meu nome.
- E o que haveis de fazer? disse Persival.
- Certamente, disse o cavaleiro, eu quero ir à corte do rei Artur, a ver se me tomará, porque um homem sisudo me disse que ali saberia meu nome e minha linhagem; mas bem vos digo, que, quando saí de casa de minha senhora, não saí senão para vos matar, porque me não quisestes fazer cavaleiro. Mas tanto bem vi agora e tanto vos ouvi louvar de cavalaria, que vos não quero mal, antes vos ajudaria a todo meu poder, onde visse que vos fazia mister.
E por isso lho agradeceu muito Persival.
- Agora dizei-me, disse Persival, sabeis onde hoje poderíamos albergar? - Certamente, disse ele, não.
- Pois que fareis vós? Dom Galvão disse:
- Ainda hoje ireis a algum albergue?
- Certamente, disse o cavaleiro, não o farei; jamais entrarei em vila, se porventura não for, ou que o cavalo me desfaleça, até que chegue à casa do rei Artur, porque ali hei de ficar certo da coisa do mundo que mais desejo saber, e isto é de meu nome e de minha linhagem.
- Por Deus! disse Persival, muito há daqui até lá, porque bem há uns seis dias; e Deus vos leve lá a salvo. - Amém, disse o cavaleiro.