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garantias constitucionais como fundamento do processo penal

1.4. Acerca das garantias constitucionais do processo penal

1.4.4. garantias constitucionais como fundamento do processo penal

O que fora estudado até o presente momento, permite, como fechamento do estudo das garantias constitucionais do processo penal, ainda de um ponto

de vista deontológico, evidentemente, apontar a finalidade desse ramo do Direito.

O processo penal é um ramo do Direito Público, pelos aspectos já apontados, que o tomam inquisitivo (não, inquisitório), indisponível e instrumental, no sentido de que, através da jurisdição, visa-se a ampla possibilidade da busca da verdade real como elemento de segurança e pacificação social, tudo sem declinar da integridade e dignidade humanas.

Por isso, a finalidade do processo penal (extensão do direito constitucional) está voltada justamente para os direitos e garantias fundamentais plasmados no art. 5o, da Constituição da República. Erra, portanto, quem coloca o processo penal como mero instrumento de aplicação do direito material124, e, conseqüentemente, como forma de legalização da imposição da pena ao eventual autor de ato tido como ilícito penal. A aplicação da pena é finalidade do direito penal, que visa coibir a atitude delituosa. Entretanto, carece o direito material de um “processo”, pelo qual, uma vez devidamente instruído e procedimentalizado, o permita atingir o seu fim (do direito material) (nulla poena sine judicio).

Por isso, ainda, e com todo respeito, há que se discordar, em parte, da opinião do professor PIERANGELLI quando o mesmo afirma que: o processo

penal tem por fim conseguir a realização da pretensão punitiva derivada do fato punível, que se realiza através das garantias jurisdicionais}25

Em primeiro lugar, a realização da pretensão punitiva não ocorre através das garantias jurisdicionais, expressão, aliás, que considera-se aqui, imprópria, já que dá a entender serem tais garantias do juízo, e não do processo mesmo, voltadas ao indivíduo imputado.

124 - Sobre isso, já discorremos no tópico 1.1. deste trabalho.

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Ademais, as garantias não estão catalogadas no Ordenamento pátrio com o fito de possibilitar a realização da pretensão punitiva. Elas existem para que, visando a realização dessa pretensão, o Estado não ultrapasse os limites inquisitivos e instrumentais do processo, que lhe foram impostos pela Constituição.

Por outro lado, como já foi mencionado, a realização da pretensão punitiva não é fím do processo, mas conseqüência do regular andamento deste, juntamente (e tão somente) com a comprovação pelo autor, dos fatos

imputados ao acusado.

Poder-se-ia colocar que o fím do processo é, juntamente com a realização da pretensão punitiva, também, a busca da verdade real. Mas, a verdade real nem sempre implica em aplicação da pena ou medida de segurança, portanto, nem sempre implica em realização da pretensão punitiva. Basta imaginar um processo que termina com sentença absolutória: aqui, o processo andou regularmente, chegou ao seu fím e nem por isso houve a realização da pretensão punitiva. Devemos dizer que neste caso o processo penal não atingiu a sua finalidade? É óbvio que não.

E no caso de absolvição por insuficiência de provas (v. art. 386, VI, do CPP), atingiu-se a verdade real? Não, apenas ocorreu que (como no mais das vezes) as pretensas provas coligidas pela acusação não estão aptas a dar lastro a uma sentença condenatória, são insuficientes, como diz o próprio texto da lei. E então? Houve realização da pretensão punitiva? Não. Mas, mesmo assim, o processo pode ter atingido o seu fim, se andou estritamente nos parâmetros das garantias constitucionais. No que tange à finalidade do processo, aqui, há que se repetir: não se fala em verdade real, mas na ampla possibilidade e efetividade da “busca” da verdade real.

O fato é que, se num processo penal, houve o devido respeito procedimental na produção das provas, o respeito à dignidade da pessoa humana, a atenção devida à busca da verdade real e, principalmente (pode-se dizer, conjuntamente) o caminhar pela bússola da Justiça, qualquer que tenha sido o resultado final, absolvição ou condenação, tem-se que esse processo atingiu a sua finalidade.

Conforme fora mencionado no início, discorda-se aqui, apenas em parte, ou se poderia dizer, apenas com relação a esse aspecto da “finalidade” apontada pelo professor Pierangelli quanto ao processo penal. Sim, porque, no decorrer de seu estudo, o citado mestre muito bem coloca a importância das garantias constitucionais no âmbito do processo. E traz, ainda, elementos que corroboram a nossa tese a respeito da finalidade do processo e da importância das garantias constitucionais. Veja-se, pois, esta passagem: Portanto, constitui

dever do Estado garantir a justiça, constituindo essa garantia o fundamento do direito processual, tanto civil como penal}26

Mas continua o conceituado autor, agora referindo-se às garantias como um todo: Para assegurar as garantias constitucionais, o Estado se obriga a

estabelecer a justiça penal, onde aparece o fim precípuo do processo penal que é a obtenção de uma declaração judicial, positiva ou negativa, acerca da pretensão punitiva por ele manifestada por meio do seu órgão para esse fim

criado, o Ministério Público, ou excepcionalmente, através dos

particulares}27 Mais uma vez, é preciso discordar. A declaração judicial não é

o fim do processo penal, mas sim, uma conseqüência do mesmo, conseqüência de que necessita o mesmo Estado para a aplicação, ou não, da pena (até porque, é preciso que o Estado dê a resposta pedida).

126 - Idem, p. 252. O autor, cita, ainda, Eberhard Schmidt, no mesmo sentido. 127 - Idem, p. 253.

Repita-se, portanto: o fim precípuo e ao mesmo tempo, fundamento, do processo penal é “garantir”, no sentido estrito da palavra, um intermezzo constitucional entre a eventual imputação a alguém, de prática de ilícito penal e a eventual aplicação da pena ou reconhecimento de seu descabimento, ou ainda, a declaração da improcedência da ação.

O fim do processo penal é permitir que o imputado possa usar de todos os meios inerentes à mais ampla possibilidade de defesa; é impossibilitar um apenamento calcado no aproveitamento de provas obtidas por meios ilícitos ou ilegítimos; é permitir que se observe os “dois lados da moeda”, garantindo a refutação e contradita de eventuais provas obtidas pelos atores da causa penal, respeitando, sempre, a pessoa do acusado; é garantir a justiça e a busca da verdade real. Na verdade, pouco importa para o processo, como finalidade última, a direção do veredicto. A finalidade do processo, é possibilitar um caminho legítimo para a obtenção desse resultado — e insistimos — seja ele qual for. Se o resultado final (absolvição/condenação) não importa na verificação da legitimidade (justeza) do processo, aquele resultado jamais poderá ser considerado finalidade deste processo. O resultado é indiferente. Importante é a maneira como se percorreu o caminho.

Mas mesmo que se diga que a finalidade é obter uma resposta, seja positiva ou negativa à pretensão, ainda assim é preciso discordar, por insuficiência da resposta. A finalidade, a despeito do nome, não está na conclusão, está na garantia do bom andamento, ou ainda melhor, está na garantia de que a conclusão fora obtida de forma legítima.

Por essa ótica, e, partindo de uma visão inicialmente liberal (que é da qual surgiram as garantias constitucionais do processo) pode-se dizer que o processo serve (ou deve servir) mais ao acusado do que ao acusador. Não é preciso ir muito longe para chegar a essa conclusão: veja-se, p. ex., o in dubio

pro reo, princípio basilar do processo penal. Não obstante, para que não se

caia na armadilha do discurso da benevolência do processo penal, é preciso lembrar de um aspecto complementar do inicialmente apontado, o aspecto mediato: em conseqüência de servir o processo mais ao acusado do que ao acusador, serve aquele, também, mais à sociedade do que ao Estado, e esta, é uma garantia que, indiretamente, qualquer e toda pessoa tem em função da existência das garantias constitucionais, contra uma “ditadura penal” ou o abuso do poder estatal na administração das causas penais.128

Talvez seja este um ponto que distinga o processo penal do processo civil, este sim, que, embora também amparado pelas garantias constitucionais, tem por finalidade a obtenção mesma de uma resposta para a situação jurídica colocada sob questão.

Portanto, a realização da pretensão punitiva é a finalidade do direito material, personificado pelo Estado-autor (Ministério Público) na sua tarefa institucional, quando diante da prática de um ato considerado ilícito-penal, e, para atingir tal finalidade, esse Estado-autor deve submeter sua pretensão ao Estado-juiz, que, através de um processo regular e legítimo, visando este garantir os direitos individuais da pessoa humana imputada, apontará, como conseqüência da busca da verdade real, a decisão mais justa e coerente.

128

- Um exemplo, a contrariu sensu, é o processo inquisitório nos moldes medievais. Lá, o processo servia mais ao acusador do que ao acusado, o que gerava, no mais das vezes, processos sumários, ou seja, pseudo-processos, em detrimento, também, da sociedade que se via à mercê da vontade manifestada casuísticamente pela autoridade eclesiástica. Lá sim, o fim do “processo”, era a realização da pretensão punitiva. Aliás, o processo lá, era, na prática, um acessório da pretensão punitiva, apenas um meio de legitimá-la. Como exemplo podemos citar características daquele sistema, tais como: a confissão como elemento suficiente a dar lastro a uma condenação; a figura do acusador e do julgador reunidas na mesma pessoa; a tortura como meio de obtenção de prova, etc.. Um raro caso de exceção à apontada finalidade do processo inquisitório medievo, é o de Galileu Galilei, que, muito provavelmente por sua posição social, teve oportunidade, diz a lenda, de, negando difiindir as idéias “subversivas”, ou seja, assumindo que deixara de acreditar que a Terra seria redonda, conseguiu absolvição.

Tira-se a mesma conclusão acima, em texto da lavra de EUGENIO FLORIAN, também apontado por Pierangelli: el fin de la acción penal no es

de hacer que se llegue a una condena, sino el de hacer que se determine la verdad a propósito de un delito que se dice cometido y que se inculpa a una determinada persona, determinación que no es raro que lleve a la conclusión de que el hecho no ha existido, o que no se trata de delito, o que el acusado no lo ha cometido o que no ha tomado parte en él}29

Portanto, não há como fugir, na nossa opinião, de que a finalidade do processo penal encontra-se na efetivação dos direitos fundamentais da pessoa humana imputada, efetivação esta através das garantias constitucionais.