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General-de-Divisão Carlos de Meira Mattos*

* Oficial-de-Ligação e Comandante da 2a Companhia do I / 11o RI da Força Expedicionária Brasileira, entre-vistado em 22 de fevereiro de 2000.

Por ser um país pacífico, não havia no Brasil, uma consciência de guerra, no final da década de 1930. Quando as figuras de Hitler e Mussolini e seus projetos políticos expansionistas ganharam força, na Europa, surgiram, no Brasil, os grupos pró-nazistas, inimigos ferrenhos dos pró-comunistas. Esses grupos provocaram o despertar de uma consciência democrática, natural no povo brasileiro, e que estava, vamos dizer, semimorta.

Caracteriza esse período, por exemplo, a expansão dos alemães com espírito nazista, em Santa Catarina, que obrigou uma série de providências, inclusive a orga-nização de associações civis, para contê-la. No Rio de Janeiro, foram organizados grupos ligados a uma tal Aliança Nacional Libertadora, com o objetivo de introduzir, de maneira branda, sub-reptícia, as idéias marxistas e recrutar adeptos. O chefe da Aliança, no Rio, era o Prefeito Pedro Ernesto, e quem pesquisar vai encontrar suas ramificações perigosas. Eles não se diziam PC – Partido Comunista; declaravam-se democratas, reformistas, mas, atrás disso, estava, inclusive, o financiamento da In-ternacional Comunista. Começaram a surgir, depois, os grupos integralistas.

Em 1935, irrompia em Natal o movimento armado chamado de Intentona Comunista, secundado pelo de Recife e cujo epílogo se registrou no Rio de Janeiro, com as revoltas no 3o Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos.

Começava a se formar, no País, um ambiente de bipolaridade: de um lado, as idéias de uma elite democrática que se formou, ativa, e do outro lado, a propaganda de direita nazista e de esquerda comunista. Mais tarde, depois de 1935, essa dualidade de posições se manifestou nas campanhas eleitorais do Clube Militar. Havia a chapa azul, dos militares democráticos, e a chapa amarela, dos que acreditavam – havia os crentes em vários graus – nas promessas do socialismo, do marxismo.

O fato principal desse período anterior à eclosão da guerra foi o pan-americanismo. Os Estados Unidos, pensando na guerra com muito mais acuidade estra-tégica para os problemas mundiais, foram preparando as nações do continente ameri-cano para um futuro conflito. Realizaram-se diversas conferências com o objetivo de formular uma estratégia de defesa conjunta, como a de Lima, no Peru, em 1939, e a realizada em Havana, Cuba, em 1940, ambas muito importantes. Até que, em dezem-bro de 1941, houve o ataque japonês em Pearl Harbor.1 Os Estados Unidos estavam vacilando em entrar na guerra. O Presidente Roosevelt, que era favorável, pessoalmen-te, aos ingleses, que estavam sofrendo todas as agruras da guerra, mas tendo, no seu país, uma reação contrária à entrada no conflito ou à sua participação direta, recebeu

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de “presente” o ataque japonês. Essa agressão mudou, completamente, a consciência do povo americano e, já no dia seguinte, toda a opinião pública queria a guerra e Roosevelt passou a ser o comandante da preparação do país. Ele foi o grande estimulador do pan-americanismo visando a uma resistência ao nazi-fascismo.

No Brasil, pouco antes de Pearl Harbor,já tinham sido tomadas algumas pro-vidências. Uma delas, por exemplo, visava a fortalecer a capacidade defensiva do Nordeste brasileiro. Mas, a partir da agressão japonesa aos Estados Unidos, as medi-das se aceleraram. O efetivo militar dessa região, que era de cerca de 12 mil homens, passou para cinqüenta mil em um ano. O General Mascarenhas de Moraes, na época General-de-Divisão, Comandante da 7a Região Militar, com sede em Recife, foi encar-regado da mobilização, tendo realizado um trabalho extraordinário. As três Forças reforçaram seu dispositivo e seus efetivos no Nordeste. Com base em Acordos Milita-res assinados, os Estados Unidos instalaram bases militaMilita-res aéreas, em Natal e Belém, e naval, em Recife. Não foi efetivado o Comando Conjunto para a região, e os Coman-dos Militares das três Forças ficaram localizaComan-dos em Recife, onde estava a base naval americana comandada pelo Almirante Jonas Ingram. Houve um perfeito entendi-mento e harmonia de procedientendi-mentos entre os altos chefes militares que exerceram comando na área – eram, além do General Mascarenhas e do Almirante Ingram, o Brigadeiro Eduardo Gomes, no comando da Zona Aérea, e o Almirante Soares Dutra e, em seguida, o Almirante Dodsworth Martins, no comando da Força Naval do Nor-deste. Foi uma fase de grande aproximação militar entre os dois países. Foram plane-jadas e realizadas várias operações conjuntas de segurança do Atlântico Sul – mis-sões de defesa do litoral brasileiro, de patrulhamento aeronaval, de escolta e prote-ção de comboios e de vigilância. Havia uma expectativa de que os alemães realizas-sem ações de comando no Nordeste do Brasil, que só desapareceu quando os aliados invadiram a França, em junho de 1944. Até essa data, nada impedia que os alemães pudessem utilizar uma base da Marinha francesa situada no Senegal, então colônia da França, defronte ao litoral brasileiro. Não se imaginava que o alemão pudesse montar uma operação de vulto aqui, mas desembarques isolados, em Natal ou Reci-fe, em operações tipo comando, eram perfeitamente previsíveis, na época. Essas foram as razões essenciais para o fortalecimento do Nordeste. Sua importância foi tão grande que recebemos a visita do General Marshall, Chefe do Estado-Maior do Exército americano, para estimular a colaboração e a participação do Brasil e do Presidente Roosevelt, que esteve em Natal e referiu-se à importância da ponte estra-tégica Natal-Dacar.

O problema da adesão à causa democrata, defendida pelos países ocidentais, contra o nazi-fascismo, encontrou dificuldades, principalmente na classe militar.

Havia militares de alta patente que eram simpatizantes da Alemanha; eles admira-vam o militarismo alemão. Talvez, não admirassem o sistema político mas, por admi-rarem o Exército alemão, eles achavam que ele ia ganhar a guerra. Esses oficiais relutaram muito em favorecer a adesão do Brasil à Segunda Grande Guerra. Quem lê o livro A Serviço do Brasil na Segunda Guerra Mundial, do General Estevão Leitão de Carvalho, que participou, diretamente, dos entendimentos com os americanos e sen-tiu as reações internas, poderá se assenhorear de que essa situação não foi fácil.

A grande figura do Brasil, que fez com que o país pendesse, definitiva e formalmente, para o lado do Ocidente, que tomasse uma atitude clara, que saindo da obscuridade e das evasivas, foi o Ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha. Enfrentou, com muita coragem, o grupo que, dentro do Governo Getúlio Vargas, era contra o engajamento do País na guerra. Foi a favor de uma participação direta, concreta, militar e inquestionável. No final, os entendimentos previam que o Brasil iria organizar um grupamento de forças de valor Corpo de Exército, composto de três Divisões, mas as providências se retardaram e a guerra foi chegando ao seu final. Acabamos enviando uma Divisão. A segunda, chegou a ser preparada em Recife, pelo General Nilton Cavalcante, mas não embarcou.

Meu ingresso na Força Expedicionária Brasileira foi através da relação de co-nhecimento que tive com o General Mascarenhas, iniciada na 9a Região Militar, que compreendia o território de Mato Grosso, onde eu servia, como 2o Tenente, e o Mascarenhas foi comandá-la. Mais tarde, voltamos a nos encontrar no 4o Regimento de Infantaria, em São Paulo, onde eu estava servindo – no posto de Capitão – e ele, como Comandante da 2a Região, foi inspecionar a Unidade. Passou por mim e disse: “Olha! Você aqui! Aguarde que eu vou lhe chamar.” Pouco tempo depois, fui coman-dar a Companhia do Quartel-General (QG) – na organização francesa, corresponde, hoje, a Companhia de Comando.

Eu estava nessa função, quando chegou o rádio cifrado do Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, consultando-o se aceitaria o comando da Força Expedicionária Brasileira. O rádio foi decifrado por mim e pelo, também Capitão, Edson Figueiredo, e levamos ao seu conhecimento. Ele respondeu no mesmo momento, na mesma hora: “Estou à disposição; aceito o comando.” Essa mesma mensagem foi enviada a quatro generais, sendo que o único que respondeu, prontamente, foi ele. Os demais pediram tempo para responder; um disse que tinha que fazer uma cirurgia... ninguém res-pondeu negativamente, mas a resposta positiva, aceitando de imediato, ninguém deu. Então, ele foi escolhido e convidou um grupo pequeno para acompanhá-lo para o Rio de Janeiro. Viemos eu, o Celso Daltro Santos e o Edson Figueiredo, todos capitães servindo na 2a Região; o Major Aguinaldo José Senna Campos, que tinha o

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curso de Estado-Maior e era muito amigo dele, também veio. Eram cerca de oito a dez pessoas e nos instalamos no Quartel-General – atual Palácio Duque de Caxias – numa sala onde hoje tem o retrato do Mascarenhas.

Quando o designaram, não se tinha idéia de como iria ser organizada a Divi-são. Existia muito pouca coisa sobre a Força e ele veio para criar, quase que do nada. Estabelecemos ligação com o Estado-Maior do Exército e começamos a trabalhar. Disseram ao Mascarenhas que seus oficiais de estado-maior estavam realizando curso em Ft. Leavenworth, nos Estados Unidos, preparando-se para atuar segundo a orga-nização e doutrina americanas. Era a primeira turma saída daquele curso. Assim, ele não escolheu seus oficiais de estado-maior a não ser o Senna Campos, que já o acompanhava. Foram expedidos os atos do governo organizando a 1a Divisão de Infantaria Expedicionária, com as Unidades sendo dotadas de material americano e motorizadas. Em cada organização foram entregues determinadas quantidades: dez jipes... dez caminhões de uma e meia tonelada... fuzis... metralhadoras... obuseiros de Artilharia... tudo modelo americano, para que o pessoal fosse se habituando com o material que iria receber, mais tarde, no Teatro de Operações. Na época, nossas Unidades eram hipomóveis. A preparação foi, inicialmente, na área de cada Unidade, onde eram inspecionadas, até que se decidiu pela concentração numa região entre a Vila Militar e o Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. A seguir, foram programadas as viagens para a Itália, e, em tempo recorde, a FEB – 1o Escalão – se transferiu para o acampamento de Tarquínia, onde recebeu o material e, em 15 de setembro de 1944, já estava ocupando posição na linha de frente.

É interessante esclarecer o porquê de o 6o RI ter sido o primeiro a embarcar para a Itália. Foi realizado um teste dos grupamentos, veladamente, devido ao sigilo que era necessário sobre qualquer notícia relativa à presença do Brasil na guerra, tipo embarque de tropa, por exemplo, que poderia provocar a ação de submarinos para impedir nossa chegada na Itália. Nesse teste, o Mascarenhas achou que o 6o RI estava em melhores condições, e o General Zenóbio, o 1o RI, tendo, inclusive, adian-tado para o Coronel Caiado, comandante da Unidade. No dia do embarque, os três grupamentos vieram até a região portuária, mas apenas o 6o RI embarcou. Isso deve ter contrariado o General Zenóbio, mas é coisa de menor importância; o pessoal ligado ao general considera o fato mais grave que ele próprio.

A viagem para a Itália foi penosa, pelo desconforto, em primeiro lugar, e perigo. Os navios de transporte tinham o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto

deck e você ficava em um deles, isto é, no de cima, ou um abaixo, ou outro mais abaixo, até o último. As camas eram macas e nós tínhamos que permanecer o dia inteiro com o salva-vidas – dormir... comer... – que era uma das prescrições que o

comandante do navio exigia, com rigor. Durante o trajeto para a Itália, houve vários exercícios de alarme de ataque de submarino e que nos obrigava ao cumprimento de uma série de prescrições de salvamento. As regras eram as seguintes: as balsas eram arriadas no mar e a turma do primeiro deck embarcava, enquanto a turma do segun-do passava para o primeiro, a segun-do terceiro para o segunsegun-do, e a segun-do quarto para o terceiro. A seguir, eram arriadas as balsas do segundo deck para o embarque de sua turma e, sucessivamente, até todos terem embarcado. Você pode imaginar a realida-de, debaixo de tiros com o navio querendo afundar. Nessa viagem, a Marinha brasi-leira nos escoltou até Gibraltar, quando a missão passou para a dos Estados Unidos e a da Inglaterra. Alguns não agüentaram aquela pressão permanente, durante 15 dias, até Nápoles, e aconteceram as primeiras perdas, por neurose de guerra. Outro desconforto desses grandes navios de transporte é o problema da alimentação. No refeitório, não cabiam todos os cinco mil e quinhentos homens e, por isso, o pessoal era dividido em turmas: o primeiro café da manhã era às 7 horas; a segunda turma às 8 horas; a terceira às 9 horas; e a quarta às 10 horas. Aí, acaba o café da manhã e começa, às 12 horas, a primeira turma do almoço. Havia gente que ficava desespera-da, com fome, vendo os outros já alimentados.

Quando nós chegamos – eu me lembro – uma coisa que aborreceu os america-nos foi a imprudência dos america-nossos motoristas. Começaram a surgir muitos acidentes de automóveis e anotações por excesso de velocidade. São problemas de adaptação que somente com o tempo seriam corrigidos. É preciso não esquecer que nós chega-mos num Teatro de Operações em que a tropa que ali estava vinha lutando desde a Campanha da África, pelo menos, a partir de 1942. Havia o V Exército americano, do General Mark Clark, e o VIII Exército inglês, de Montgomery, enquadrados pelo XV Grupo de Exércitos, comandado pelo famoso Marechal inglês Sir Harold Alexander. Eram veteranos de três anos de guerra e nós chegamos, completamente, recrutas. Nosso último conflito, vamos dizer, guerra mesmo, foi a Guerra do Paraguai, que terminara em 1869. Não se pode exigir de uma tropa recém-chegada em um Teatro de Operações que faça tudo certo. Aprende-se muito durante a campanha na guerra. No Estado-Maior da Divisão eu era o Oficial-de-Ligação com o IV Corpo de Exército, isto é, com o comando superior. Havia, ainda, oficiais responsáveis pelas ligações com as duas Unidades vizinhas – da direita e da esquerda. Nós três éramos, diretamente, ligados à 3a Seção do Estado-Maior – Seção de Operações – e moráva-mos na unidade onde estávamoráva-mos destacados; eu, por exemplo, morei no IV Corpo de Exército durante quase toda a guerra. Cada Oficial-de-Ligação possuía uma gaveta – a minha era Brazilian Liaison – onde as pessoas colocavam as informações que tinham e que poderiam nos interessar. Minha função era ouvir o “meeting” diário do

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IV Corpo, às sete horas da manhã, que começava com o E22, dizendo o que tinha acontecido nas outras frentes e na nossa, o E32 sobre as operações realizadas, o E42

sobre o apoio logístico, o E12 com os problemas de pessoal: mortos; feridos; recom-pletamentos etc, o pessoal dos Serviços que tinha alguma observação e, por último, o General fazia um comentário e encerrava. Depois, eu apanhava os documentos na gaveta e levava para a nossa Divisão. O Capitão Celso de Azevedo Daltro Santos fazia ligação da Divisão com o flanco, ora com a Divisão indiana, ora com a sul-africana. Precisei deixar essa função no Quartel-General porque houve uma crise no 11o

RI. O General Octávio Costa, que era Tenente do Regimento, na época, fez uma conferência na Escola de Estado-Maior contando, muito bem, essa crise. O que acon-teceu foi o seguinte: um Batalhão do 11o RI foi tomado de pânico e abandonou sua posição, à noite. É um clima de alucinação, gritaria, em que as pessoas vêem fantas-mas, se propaga e é difícil conter, principalmente à noite. Existem vários livros sobre esse tema e pode acontecer com as melhores tropas do mundo. Bem, em virtude desse pânico, três capitães de infantaria foram destituídos do comando e submeti-dos a Corte Marcial, havendo necessidade de substituí-los. Mas, o Depósito de Pesso-al, órgão encarregado do recompletamento, ainda não tinha chegado na Itália. A solução lógica foi deslocar oficiais que estavam lá e eu fui indicado. O Mascarenhas disse: “Eu dou um Capitão e o Zenóbio dá o outro.” Então, eu fui da “cota do Mascarenhas” e o Capitão João Tarcísio Bueno foi escolhido na “cota do Zenóbio”.

Logo após a Companhia ter deixado a posição, assumi o comando. Os homens estavam dispersos, perdidos e as armas abandonadas, o que exigiu um esforço para recuperá-las. O Capitão que eu substituí era muito benquisto pelos seus subordina-dos e eles não se conformavam em vê-lo submetido a Conselho de Guerra. Não tinha sido ele quem provocou o pânico e sim outro Capitão que se acovardou, começou a ver fantasmas e aí se propagou. Sobre os duzentos homens que eu comandei posso dizer que apenas um chegou para mim e disse que tinha medo. Logo que assumi o comando ele me procurou e falou: “Capitão, pelo amor de Deus, eu tenho medo, mas o senhor me deixa aqui, porque vim com a minha gente de São João Del Rei e quero voltar com eles; se o senhor me mandar embora, vou para o Depósito e, depois, não sei para onde vão me mandar.” Deixei-o como meu auxiliar. Era a única pessoa que tinha um medo nervoso, neurótico e perdia a cabeça.

Um sentimento do soldado brasileiro e que o estimula a cumprir as missões mais perigosas é a hombridade. Quando o espírito de corpo é alto, a Unidade conse-gue sucesso porque o soldado raciocina da seguinte maneira: “Se o João faz, porque

eu não faço.” Explorei muito esse sentimento de hombridade que possui uma força extraordinária. Eu dizia: “O pelotão tal faz; será que o seu não faz?”, “Os americanos são capazes de cumprir essa missão; será que vocês não são?”

Sobre o batismo de fogo, eu tenho uma teoria – não sei se está certa – que é a seguinte: a pessoa que está no comando e sente a responsabilidade da função, não tem tempo de passar por isso. É tanto problema para resolver, ao mesmo tempo, tantas dificuldades, que o seu pensamento fica concentrado na solução dessas ques-tões e não dá tempo para ter essa crise psicológica que é o batismo de fogo. O soldado sente o problema porque ele só é responsável por si próprio; o cabo é res-ponsável por uma “meia-dúzia”; mas, no comando de uma Companhia, você tem duzentas pessoas sob sua responsabilidade.

Antes do embarque da FEB, na fase da sua organização, quando eu estava no Estado-Maior do General Mascarenhas e, ainda, não tinham chegado os oficiais que foram fazer o curso em Ft. Leavenworth, eu recebi uma missão especial. Examinando a estrutura organizacional americana, apareceram alguns tipos de elementos que nós não tínhamos, no Exército, como a Companhia de Polícia, enfermeiras e a capelania. O General Mascarenhas me deu a missão de orientar a formação dos dois primeiros. Para a polícia, foram recrutados quarenta voluntários da Guarda Civil de São Paulo, famosa, sempre bem-fardada. Houve um contato com o governador que me pôs em ligação com o comandante da corporação e eu trouxe esse primeiro grupo. Quanto às enfermeiras, orientei muita coisa pelo bom senso e acho que acer-tei, porque todas elas ficaram muito gratas a mim.

Com relação ao desempenho em Campanha dos nossos oficiais e sargentos, ouvi alguns veteranos da FEB dizerem que nós chegamos na Itália sem saber nada, comple-tamente ignorantes, o que não é verdade. Os nossos quadros, com a instrução recebida no Brasil, só tiveram que se adaptar ao material e mais nada. Todos sabiam quais eram suas atribuições. Você pode perguntar ao Pitaluga – Comandante do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado da FEB – se alguma vez ele precisou de conhecimento militar para comandar. Agora, nós tivemos que nos adaptar a uma organização e equipamentos diferentes. Quanto ao treinamento, ele foi atropelado, porque a forma-ção normal para a guerra, começando com a instruforma-ção individual, depois a das peque-nas unidades, a seguir exercícios em que essas frações operam juntas, mais adiante, instruções e exercícios de batalhão e regimento, não foi seguida.

Costumo dizer que a FEB está consagrada pelos resultados obtidos na campa-nha. Não adianta discutir, mas comparar com as tropas das nove ou dez nacionalidades