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General-de-Divisão Médico Geraldo Augusto D’Abreu*

* Comandante do 1o Pelotão de Triagem do Batalhão de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, entrevista-do em 23 de maio de 2000.

Em 1939 e no início de 1940, tínhamos a impressão de que o Brasil estava muito longe do Teatro de Operações, no outro lado do Atlântico, e de que aqui não chegariam as conseqüências dessa Segunda Guerra, que tanto custou à humanidade. No entanto, nos antecedentes da Segunda Guerra Mundial, vale a pena relembrar que, aqui no Brasil, havia muito interesse, por parte dos órgãos de comunicação, sobre o que acontecia na Europa e no mundo. Exemplificando, a ascensão do nazi-fascismo foi algo que deixou muita gente deslumbrada. Mesmo em nosso Exército, vários companheiros passaram a admirar esta doutrina política, tendo concorrido para isso a guerra da Espanha, que serviu, também, como uma espécie de treina-mento para a Segunda Guerra Mundial, entre as forças do nazi-fascismo e as demo-cráticas, vamos assim dizer, embora não fossem exatamente democráticas.

Houve, ainda, aquela campanha na Abissínia, conduzida pela Itália. Numa Sexta-feira Santa, vimos este país tomar a Albânia. Tudo isso era divulgado pela imprensa e cada um apreciava e julgava a seu critério, do que decorreu a formação de várias correntes de opinião.

Nossa posição era de neutralidade, não tínhamos tomado partido. No início de 1941, realizou-se no Brasil uma conferência de chanceleres dos países sul-ameri-canos. Quase por unanimidade, porque houve uma exceção, ficou resolvido que todos os países de nosso continente dariam apoio às forças democráticas que esta-vam em guerra. A exceção, não estou bem lembrado, foi a Argentina, cujo chanceler hesitou em dar esse apoio e declarou, posteriormente, ser possível o seu governo aderir à expressiva maioria, quase totalidade, dos países sul-americanos.

Isso deve ter provocado o ódio das nações nazi-fascistas que, como represália, começaram a torpedear navios mercantes brasileiros, dentre os quais alguns poucos que faziam transporte de tropas, o que provocou indignação da população. Os brasi-leiros ficaram revoltados e participaram de repetidas manifestações à frente do Palá-cio do Catete, pedindo ao Presidente Vargas que o Brasil entrasse na guerra. Há até fotografias bem interessantes da época, que mostram a quantidade de pessoas de todas as camadas sociais que exigiam que o Brasil declarasse guerra ao Eixo. De característico, também, nas fotos publicadas, a expressão de espanto da senhora Darci Vargas, diante daquela multidão.

A declaração oficial de guerra deu-se em agosto de 1942. Como os Estados Unidos da América eram aliados, o Governo brasileiro concordou com a utilização do saliente nordestino por aquele país. Foram instaladas bases aéreas americanas, no Nordeste, estrategicamente próximas da África.

Após essa primeira fase de neutralidade, em que o Brasil procurava manter uma distância prudente, não acreditando que a guerra chegasse ao nosso

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te, ocorreu, como disse, o torpedeamento dos nossos navios. Seguindo-se à declara-ção de guerra, no governo Vargas, passamos a viver uma outra fase, a da organizadeclara-ção da Força Expedicionária Brasileira.

Neste particular, há um aspecto que considero muito interessante; o Exército Brasileiro tinha sido, durante muitos anos, orientado por uma missão militar francesa. Essa assessoria foi muito útil, ajudou bastante todo o tempo em que aqui permaneceu. Mas veio a derrota para a Alemanha e a ocupação do território continental da França. O modelo militar deste país passou a ser questionado e todos se voltaram para um outro paradigma, agora oferecido pelo modelo militar dos Estados Unidos, um novo conceito. Da concepção basicamente defensiva para a ofensiva. E, mais do que isso, é preciso considerar outros fatores e aspectos diferenciados, como os referentes ao ma-terial. Lembro-me de um filme que retrata a guerra de posição, de trincheiras – Sem novidades no front – se não estou enganado. Reproduz o campo de batalha da Primeira Guerra Mundial. Um ambiente diverso do que passaríamos a conhecer no último conflito mundial. Os nossos pracinhas e os nossos chefes procuraram, imediatamente, adaptar-se à nova doutrina e inovações técnicas, por assim dizer. Nesadaptar-se filme, que cito como exemplo, no que se refere ao serviço de saúde, vemos a ambulância hipomóvel, isto é, tracionada a cavalo, com os inconvenientes facilmente previsíveis. Ou então, um gru-po de padioleiros divisionários, modelo do Exército francês, com um carrinho gru- porta-padiola empurrado à mão. Tudo isso mudou, foi deixado de lado e o ferido passou a ser apanhado no Posto de Socorro do Batalhão por uma ambulância motorizada e trazido para os órgãos de evacuação e triagem. Foi o que mudou completamente.

O Batalhão de Saúde teve origem na Formação Sanitária Regional, com sede em Marquês de Valença, no Estado do Rio de Janeiro. Essa Formação Sanitária seguia os moldes do Exército francês. Foi transformada em Batalhão de Saúde, segundo modelo norte-americano, na própria cidade de Marquês de Valença. Transferiu-se depois para a cidade do Rio de Janeiro, já mais ou menos organizado, embora sem os efetivos completados. Permaneceu acantonado no antigo Jardim Zoológico, em Vila Isabel, e, posteriormente, foi deslocado para a Vila Militar.

Quando ocorreram os embarques dos escalões da Força Expedicionária Brasi-leira, o Batalhão não seguiu como um todo. Foi fracionado. Realizaram um sorteio, de forma que, no 1o escalão, com o 6o RI e outras Unidades combatentes, embarca-ram a 2a Companhia de Evacuação e o 2o Pelotão de Triagem. No 2o escalão foi o restante do Batalhão.

Deixando a modéstia à parte, fui voluntário. Servia no 12o Regimento de Infantaria (RI), em Juiz de Fora, e trabalhei com um chefe que me ensinou muito. Na ocasião, ele era Tenente-Coronel. Mais tarde, chegou a General, Chefe do Serviço

de Saúde, General Generoso de Oliveira Ponce. Servindo na Diretoria de Saúde, pedi que se interessasse por minha designação para integrar a Força Expedicionária. Des-sa maneira fui classificado na FEB.

Inicialmente, fui incluído no 1o escalão do Depósito do Pessoal. Depois, trans-feriram-me para o Batalhão de Saúde.

O transporte da tropa foi realizado nos navios General Meighs e General Mann, embarcações de grande porte, que comportavam cinco mil pessoas, aproximadamen-te. No entanto, as condições de transporte de cinco mil pessoas não eram simples. Os americanos resolveram o problema de alimentação nos navios de maneira muito prática, seja pelas rotinas seja pelas instalações. Por exemplo, os frigoríficos do navio eram perfeitos.

A adaptação da tropa àquele transporte não foi fácil. Estranhamos as condi-ções dos porões, os beliches e a alimentação duas vezes por dia, a não ser para aqueles que estivessem de serviço. Neste caso, faziam jus a três refeições.

Para atendimento ao pessoal, durante a travessia, montaram dois postos de saúde no navio, um a vante e outro a ré. Eu fazia parte do posto a vante. Passava-se a visita médica e a afluência era grande, por causa de enjôo, perturbação digestiva; alguns tinham gripe, naso-faringite, mas caso grave não houve, somente rotina.

No Brasil, participamos de exercícios com outras Unidades da FEB. O General Gustavo Cordeiro de Faria era Comandante do Centro de Instrução Especializada, localizado em Deodoro, na Vila Militar. Mais tarde, transformou-se na Escola de Instrução Especializada (EsIE), em Realengo, mas, naqueles tempos, era na Vila. Ele estabeleceu um programa de treinamento para todas as Unidades. No que diz respei-to ao Serviço de Saúde, tive o prazer de ser um dos oirespei-to escolhidos para estudar o material norte-americano, completamente diferente do que nós conhecíamos, pois só manuseávamos o equipamento francês. Passamos a instruir os enfermeiros e padi-oleiros das Unidades, pois não só o Batalhão de Saúde, mas todas as outras Unidades possuíam pessoal de saúde. Lamento dizer que, desses oito, só eu estou vivo. Todos os demais “já foram”, é uma pena. Estes fatos eles contariam melhor do que eu, inclusive o Chefe que era, ainda na época, Capitão já antigo, Humberto de Albuquer-que Martins Pereira, líder do grupo, também já falecido.

Na Itália também houve preparação, antes do efetivo desempenho do Bata-lhão. O material de saúde, que recebemos no Brasil, não estava completo. Lá, foram distribuídas as famosas canastras, números um, dois, quatro, sessenta. Esta última era a de odontologia. O material possuía excelente qualidade, inclusive as barracas de enfermaria para montagem dos postos. Todo esse equipamento foi distribuído em território italiano.

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Os americanos pensaram em tudo. Nessa etapa, houve um complemento de instrução, porque, digamos, do material da canastra – você sendo dentista, tinha que montar tudo – o motor era acionado pelo pé, o que bem atesta tratar-se de coisa muito delicada. As canastras um e dois, de material cirúrgico, tinham medicamento e tudo mais, bem como a de número quatro com instrumental que nós não conhecíamos. Lá, pela primeira vez, vimos a penicilina, muito utilizada. Com a penicilina, o plasma e outros medicamentos, aquelas complicações dos ferimentos de guerra, que acontece-ram durante a Primeira Guerra Mundial, praticamente deixaacontece-ram de existir. Feridas supuradas, tétano não nos preocupavam, porque a vacinação produzira excelente re-sultado. O Instituto Militar de Biologia, hoje Instituto de Biologia do Exército, fabrica-va uma fabrica-vacina, a TETAB, fabrica-vacina para tétano, tifo A e B, para ser aplicada em três doses, no contingente. Também não houve gangrena – pode até ter havido algum caso de que nós não tivéssemos tido conhecimento. Outra complicação de ferimento de guerra, que se dava quando a mosca pousava e deixava a larva de um parasito, também não ocorreu. Então, essas complicações de ferida de guerra, comuns na Primeira Guerra Mundial, não existiram na Segunda Guerra, graças às medidas preventivas.

O batismo de fogo foi uma decorrência do apoio dado pelo Batalhão ao 6o RI e aos combatentes de artilharia e engenharia, integrantes das Unidades que compu-nham o 1o escalão da FEB, no Vale do Serchio. Iniciado ali, veio depois a mudança para os Apeninos, no Vale do Rio Reno. O Batalhão já estava integrado à Divisão, como um todo.

Há fatos interessantes, até jocosos, que devem ser lembrados: O Batalhão se encontrava em Porreta Terme, que estava em um ângulo morto, logo as granadas de artilharia não iriam atingir a área em que nos posicionamos. Passariam por cima. Eventualmente ouvíamos o barulho, coisa assim como um pássaro esquisito, baten-do asas, era o ruíbaten-do da granada de artilharia em sua trajetória. Havia a casa de um italiano, com três andares. A 1a Companhia de Evacuação, que era comandada pelo Capitão Mário Victor de Assis Pacheco, estava acantonada naquele lugar e eu me encontrava em reserva. Um dia, o Pacheco disse não estar gostando daquele pessoal lá de cima, no terceiro e segundo andares. Então mandou todo mundo descer, sair de lá. Embora soubéssemos que as granadas alemãs devessem passar por cima. Nessa noite, eu não sei, não sou de artilharia, parece que a granada perdeu a força e arrebentou, acabando com dois andares. Foi considerado, vamos dizer, um milagre, pois não pegou ninguém. Outro fato curioso, a que me referi, diz respeito a um oficial psiquiatra, convocado, muito bom, “muito amigo e tal”, mas bastante pito-resco, como quase todo psiquiatra. Ele conseguiu convencer a “chefia” de que o pessoal portador de neurose, problemas psíquicos, adquiridos por causa da guerra,

ficassem ali próximos da frente, ouvindo o barulho das granadas que caíam, e, por isso, ocupou um pequeno castelo do outro lado da praça de Porreta. Um dia, “acer-taram lá” o castelo e deu-se até a morte de um sargento. Durante a noite, o Newton Gabriel de Souza, que era o comandante do 2o Pelotão de Triagem, recebeu ordem do Capitão Vaz, Comandante da Companhia, para tirar o pessoal daquele local. Bem, esse oficial psiquiatra, capitão, chamava-se Mirandolino José Caldas. Antes desse fato, costumava levar o pessoal baixado para as termas de Porreta, para tomar ba-nho. Botava todos em forma, coluna por três, não sei se por altura, “aquela histó-ria”; e ele, na frente, marchando. Acontece que, naquela praça, um dia, caíram várias granadas. Quando o médico olhou para trás, estava todo mundo rastejando e ele era o único em pé. Esse episódio virou piada. Coisa de psiquiatra, todo mundo rastejando e ele era o único em pé...

O clima foi um fator determinante para salientar a capacidade de adaptação, testada no desempenho da tropa. Tínhamos gente do Nordeste, da região Centro-Oeste, zonas de clima quente... e esse pessoal chega lá e pega neve. O que aconteceu então? É o início da improvisação: começaram a adquirir pele de coelho para forrar o

combat boot. Aqueles que ficavam nos fox hole, soldados de infantaria, adotavam um procedimento de “fortuna” para se protegerem ainda melhor das conseqüências do clima frio, das “geladuras e tal”, o chamado “pé-de-trincheira”. Sabe como? Envol-vendo os pés com jornal, colocando, em vez do coturno, o “galochão” que era maior e permitia envolver os pés com jornal ou palha. Não chegaram a acabar com o pé-de-trincheira, mas reduziram muito a incidência. Parece que os americanos estudaram essa solução, intrigados com o fato: “Como é que a coisa estava acontecendo? Como é que os brasileiros não apresentavam tantos casos de pé-de-trincheira?”

Eu acho que o desempenho de nossos quadros não poderia ter sido melhor, mesmo que o treinamento fosse intensivo, de maior duração e o período de adapta-ção muito maior. Com tudo isso, ainda creio que o sucesso alcançado foi exemplar. Eles se superaram, essa é a verdade. Nosso soldado demonstrou criatividade, senso de humor, vamos dizer, levava, às vezes, as coisas na brincadeira, embora com noção de responsabilidade. Um fato ocorrido, que é importante lembrar: o alemão utilizou vários processos para tentar desmoralizar a nossa tropa, inclusive jogavam folhetos com imagens provocativas do tipo: “Enquanto você está aí sofrendo, sua mulher está lá no Rio, nessas condições...” e colocava um desenho imoral. Sabe o que acontecia? Os soldados achavam graça da propaganda. O próprio soldado dizia que eles faziam aquilo “para ver se a gente ficava desmoralizado”. Mas a propaganda era intensa. O próprio rádio era utilizado: “Olha, enquanto o fuzil de vocês dá um tiro assim – pá!; o nosso faz boom!” Felizmente, ninguém caiu nessa.

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O apoio de saúde começou na fase de preparação, com a vacinação da tropa, aliás muito bem feita. Quem chefiou a vacinação foi um oficial médico, Capitão Saulo Theodoro Pereira de Mello, que não pertencia à FEB, mas levou muito a sério a incumbência que lhe deram. Na verdade, a vacinação foi completada durante a via-gem e alguma coisa no Teatro de Operações, porque houve trocas de última hora. Diversos militares que já estavam vacinados se acidentaram e não embarcaram; ou-tros embarcaram sem terem sido vacinados. A preparação do pessoal, a instrução na EsIE serviu para mostrar grande parte do material que deveria ser usado. Houve até elogios por sua utilização: eu me lembro de um, no 7o Hospital de Livorno. Uma fratura de fêmur, com a colocação de um sprinter americano, tudo como foi aprendi-do nas instruções preliminares – botar a padiola, “não sei o quê”, pôr o estribo, fazer a tração, colocar a goteira, depois a bandagem... Tudo bem feito. Então, quan-do chegou o americano, que estava na recepção quan-do hospital, ficou admiraquan-do pois o atendimento fora primoroso. Fez até uma referência por escrito.

O alemão era treinado para a guerra, não é novidade. Muito bem treinado para a guerra. Ninguém pode contestar a capacidade deles como profissionais da guerra. Lembro de um amigo meu, o Sylvio Christo Miscow. O Miscow talvez se lembre o que confidenciou a mim e a um grupo. Disse ele: “Esses alemães desgra-çados sabem fazer a guerra.”

Os trabalhos de enfermagem são um capítulo à parte. Tínhamos os padioleiros e enfermeiros – soldados e graduados – que pertenciam à tropa. Um aspecto de destaque foram as enfermeiras. Muitas vezes caluniadas, injustiçadas, posso afirmar, pois vi nos hospitais, no 32o Hospital Cirúrgico Móvel, no 7o, em Livorno, afinal, em todos os hospitais, que a atuação das enfermeiras foi simplesmente impressionante, pela eficiência, carinho com que cuidavam dos soldados, do nosso pessoal ferido. O trabalho delas foi exemplar sob todos os aspectos.

A estrutura do apoio de saúde diz respeito ao apoio à Divisão, como um todo. A Divisão possuía suas Unidades, seus Regimentos de Infantaria, Grupos de Artilha-ria, Batalhão de Engenharia e outras. Cada uma tinha o seu Posto de Socorro. Na Infantaria, por exemplo, o de Batalhão. Não havia no Regimento. Do Posto de Socor-ro do Batalhão para a frente, atuavam os padioleiSocor-ros, que iam buscar os feridos e traziam para o Posto de Socorro. As Companhias de Evacuação do Batalhão de Saúde, com as suas ambulâncias, iam buscar os feridos no Posto de Socorro do Batalhão, trazendo-os para o posto de evacuação divisionário que apoiava o Regimento. Aí era feita a segunda triagem, porque a primeira acontecia no Posto de Socorro do Bata-lhão. Deste último, então, havia dois caminhos a seguir: os feridos, vamos dizer, transportáveis eram levados para o posto de triagem; os “intransportáveis”, com

ferimentos graves, eram levados para o hospital. Mas, do posto de evacuação ao posto de triagem divisionário, funcionavam, também, as ambulâncias do Batalhão de Saúde. Agora, do posto de triagem divisionário para a retaguarda, já entrava em ação uma Companhia de Ambulâncias do V Exército. O Hospital Cirúrgico Móvel ficava muito próximo do posto de triagem divisionário. Aqueles casos mais graves eram levados para lá.

Gostaria de citar um fato relacionado com o apoio de saúde em Montese. Nas operações que redundaram na conquista desse maciço houve muitas baixas. As infor-mações que nos chegaram eram em torno de quinhentas baixas. As trinta ambulâncias da Companhia do V Exército não foram suficientes para o trabalho de evacuação do posto de triagem para os hospitais – o 16o Hospital, de Pistóia, e o Hospital Cirúrgico Móvel. Era preciso improvisar. E, aí, veio a improvisação do brasileiro, o “quebra-galho”, como se diz. O Capitão Elpídio Praxedes de Oliveira, que era o Comandante da Companhia de Triagem, mandou colocar padiolas nos caminhões de 2,5 tonela-das. Foram dezoito padiolas em cada viatura. Esses caminhões desceram a serra de Pistóia com seus feridos, até a cidade de mesmo nome, e assim foi evitado o engar-rafamento, ou melhor, o posto de triagem não ficou superlotado, na madrugada de 14 para 15 de abril de 1945.

Pode-se afirmar que a nossa ligação com a população foi excelente. Havia uma integração total. Basta lembrar que, após o término da guerra, os escalões superiores concederam, em rodízio, uns dias para passar na França. Emprestavam uma viatura com motorista e nós íamos passear, não me lembro mais quantos dias, em grupos organizados. Enquanto a viatura circulava na Itália, todo mundo satisfei-to; ao ultrapassar a fronteira, entrando pelo Sul da França, ficava todo mundo cala-do. Explica-se pelo seguinte comentário de um sargento, quando saiu da França e entrou na Itália: “Ah!, agora nós estamos em casa.”

Até na questão de alimentação, a gente, como diziam, “se virava”. Arranja-va-se, na cozinha da Unidade, aquele ovo em pó do americano, a farinha de trigo e levava para a “madame” italiana que fazia um macarrão, para mudar um pouco a rotina. E eles participavam da refeição. Isso aconteceu bastante, além de outros fatos semelhantes. Realmente houve uma integração grande entre nossa gente e o povo italiano, que permanece até hoje; quem volta lá é recebido com muito cari-nho. Em todas as regiões, em Monte Castelo, Lizzano, Montese, os brasileiros dei-xaram sua marca.

No dia da tomada de Monte Castelo, quem olhava dizia que aquilo era um vulcão, tantas foram as granadas de artilharia, tantas as bombas de avião que caíram