Georgius Agricola é o nome latinizado de Georg Bauer (“bauer”
significa camponês ou fazendeiro). Nascido numa época em que a Renascença já se consolidara na Europa e a invenção dos tipos móveis por Gutenberg provocara um crescimento do número de pessoas alfabetizadas e com sede de conhecimento, parece evidente que as novas formas de pensar foram uma inspiração para Agricola.
Na escola, foi um aluno excepcional e estudou medicina na Universidade de Leipzig, onde obteve o diploma em 1517 — o ano em que Martinho Lutero deu início à Reforma Protestante, movimento contra os abusos da Igreja Católica Romana, em Wittenberg.
Agricola iniciou a carreira de médico em Joachimsthal, o centro de uma das mais importantes indústrias de mineração e fundição da Europa, o que lhe permitiu observar técnicas de mineração e tratamento de minérios enquanto praticava medicina. Três anos depois, deixou a cidade para viajar pela Alemanha e estudar as minas em operação no país, acabando por estabelecer-se em Chemnitz, na Saxônia, um importante centro de mineração. Na época em que havia publicado vários trabalhos sobre mineração e
mineralogia, boa parte da Alemanha tinha abraçado a causa protestante. Agricola manteve-se fiel ao catolicismo até o fim da vida, mas teve que abandonar o cargo de médico da cidade por causa de protestos contra sua profissão de fé. Segundo consta, ele morreu durante uma acalorada discussão com um protestante.
C R C : N S
No século XVII, as crenças cristãs exerceram grande influência nas ideias ocidentais sobre a origem da Terra. O padre e matemático inglês William Whiston (1667-1752), por exemplo, despendeu um tempo enorme tentando achar explicações científicas para as histórias bíblicas. Propôs que um cometa havia atingido a Terra e provocado o Dilúvio enfrentado por Noé, cujas águas, por sua vez, moldaram a geografia do planeta. Ele previu também que o fim do mundo aconteceria em 1736, após uma colisão com outro cometa.
Um dos que acabaram parando no meio do conflito entre ciência e religião foi o pioneiro dinamarquês Nicolaus Steno (1638-86).
Como havia se tornado um anatomista famoso, enviaram-lhe a cabeça de um tubarão enorme, capturado perto de uma cidade costeira do norte da Itália, para que fosse dissecada e analisada.
Steno notou que seus dentes se pareciam com objetos petrificados incrustados em camadas rochosas, o que o levou a propor que fósseis eram restos mortais de organismos vivos de muitos anos atrás, preservados em rochas estratificadas. Outros cientistas, incluindo Robert Hooke (pág. 124), haviam chegado à mesma conclusão, mas Steno foi além. Propôs que muitas estratificações rochosas resultavam de sedimentações (um acúmulo de partículas que acabam se compactando e formando rochas) e que o estudo de fósseis presentes em diferentes estratificações poderia revelar uma história cronológica dos fenômenos geológicos da Terra. Foi uma proposição revolucionária, já que ele também descobrira que as
montanhas são formadas por modificações na crosta terrestre — e não simplesmente formações que se elevam da superfície terráquea como se fossem árvores, conforme se pensava anteriormente.
Steno tinha dado um grande salto nessa área do conhecimento, mas subestimara a extensão da história geológica da Terra, optando por aceitar a visão então predominante de que o planeta tinha apenas 6 mil anos de idade, conforme “ensinado” pela Bíblia.
Ele acabou abandonando seus estudos científicos e se tornou padre.
F G M : J H
O maior feito do geólogo do século XVIII James Hutton foi provar que a Terra tinha muito mais do que os 6 mil anos de existência proposto pelos estudiosos da Bíblia. Sua visão teria grande influência na teoria da evolução formulada por Charles Darwin (pág.
129). Contudo, Hutton não conseguiu informar a idade exata da Terra, pois, para isso, precisaria conhecer a taxa de decomposição de elementos radioativos existentes na natureza, mas o fenômeno da radioatividade era desconhecido naquela época.
Hutton divulgou suas ideias na década de 1780, quando as apresentou pela primeira vez à Royal Society de Edimburgo, e por fim publicou sua grande obra, intitulada Theory of the Earth, em 1795, vindo a morrer dois anos depois. Antes disso, já havia um certo interesse pelas geociências, mas a geologia, como ramo científico independente, era muito pouco reconhecida.
Afirmou que o planeta passava por um processo de restauração constante e uniforme, e propôs a existência de um ciclo geológico no qual a erosão das massas de terra era seguida pela deposição de matérias erodidas no fundo dos oceanos. Argumentou que essas partículas materiais depositadas no leito marinho se conglomeravam em rocha sedimentar, que depois aflorava, formando novas massas
de terras emersas, que voltavam a sofrer erosão, num processo que se repetia indefinidamente.
Em 1787, ele notou evidências desse processo em uma massa de rocha sedimentar em Inchbonny, Jedburgo, cidade do sudoeste da Escócia. Tal processo é conhecido agora como
“desconformidade de Hutton”. No ano seguinte, observou a existência de evidências semelhantes, também no fronteiriço condado de Scottish Borders, mais exatamente em Siccar Point, Berwickshire.
Com base em extensas pesquisas de campo sobre várias formações rochosas, ele concluiu que o ciclo geológico era um processo extremamente lento, já que devia ter se repetido um número indeterminado de vezes no passado. Assim também, como ele não conseguiu achar nenhuma evidência que indicasse que esse processo cíclico cessaria um dia, inferiu que só podia continuar mesmo indefinidamente.
A ideia de Hutton — de que processos geológicos uniformes, ocorrendo ao longo de vastíssimos períodos de tempo, e que hoje são responsáveis pelas características da crosta terrestre — continuará válida no futuro e servirá para explicar todas as modificações geológicas que ficaram conhecidas como uniformitarismo, um conceito geológico fundamental.