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GESTÃO ACADÊMICA

No documento Memorial Bernardo (páginas 48-51)

São muitas as demandas de gestão nas universidades públicas brasileiras e representam um enorme desafio. Muitas vezes tornam-se uma grande aprendizagem, sobretudo quando temos que assumí-las sem a devida experiência e preparação. Algumas delas são as representações em órgãos colegiados.

Representações

Na UFOP, o departamento no qual eu estava lotado era, à época, bem pequeno, e sobravam encargos de representação e administrativos. Fui representante do Departamento de Educação nos Colegiados dos cursos de História e Nutrição. Assumi, sem experiência alguma, a coordenação do Laboratório de Ensino e o projeto de extensão Curso Supletivo, em parceria com a Prefeitura Municipal de Mariana.

Quando ingressei como efetivo na UFMG, fiquei impressionado não somente com a estrutura bem consolidada, mas também com a dedicação de muitos colegas já bastante experientes. Fui membro do Colegiado de Pedagogia em um momento de reforma curricular. Ali percebi que muitas melhorias possíveis encontram barreiras e resistências de várias ordens, algumas totalmente inesperadas. Tenho a impressão de que levou tanto tempo para a reforma curricular ser aprovada e implementada, que, quando isso ocorreu, já estava na hora de se reiniciar outra.

48 A maioria dos meus colegas professores da FaE tinha estudado nesta instituição, seja na graduação ou na pós-graduação. Com esta alta endogenia, me senti sempre meio forasteiro. Somente de uns anos para cá, com a entrada de tantos novatos vindos de outros locais, me percebo como um nativo veterano. Talvez pela sensação inicial de estrangeiro, tive maior disposição para assumir as representações externas do que as internas da FAE.

Fui membro suplente no Conselho de Ensino e Pesquisa (CEPE) da UFMG. Em muitos dos órgãos de representação, o trabalho do suplente é muito esporádico. No CEPE, pelo menos para as representações que estavam designadas para compor a câmara de graduação, não era assim. Os suplentes tinham de participar da maior parte das reuniões da câmara, sempre atolada de discussões sobre propostas de reformulações curriculares e programas de graduação, seleção de alunos e relatórios. Creio que hoje há um sistema bem estruturado que não havia naquela época.

Os órgãos centrais possibilitam maior troca de experiências de diferentes áreas e institutos. É muito comum que haja pessoas com a maior parte de sua experiência acadêmica numa única área do conhecimento, no mesmo departamento ou faculdade, sem que precisem se familiarizar com outros campos do conhecimento ou com vida institucional de outras faculdades. Não era o meu caso. Quando ingressei no CEPE, eu já tinha lecionado em cursos FAFICH (disciplina básica obrigatória com alunos de todos os cursos de Humanas), na Escola de Educação Física, na Escola de Arquitetura (especialização). Eu tinha tido uma passagem pela Faculdade de Economia (iniciei em 1990 uma pós graduação, de que desisti no mesmo ano), participado em vários seminários na pós-gradução da Medicina, lecionado nos cursos de Nutrição e Letras na Universidade Federal de Ouro Preto, além de ter iniciado minha na graduação na Física e me formado em Geografia. Uma experiência que pode ser considerada dispersa, mas me ajudava muito a ter uma visão multilateral nas discussões da câmara de graduação.

No Conselho Universitário, fui membro suplente por dois anos e, posteriormente, o representante interino da FAE por alguns meses. Participei de algumas sessões bastante tensas e duas que considero históricas. Entretanto, confesso que a ambiência não me agradava nem um pouco. Sei que é uma instância fundamental e reconheço que sua morosidade é importante para que as

49 decisões sejam sempre muito bem assentadas e pactuadas, mas eu não tinha a menor paciência para o tom e exercícios de retórica que ali predominavam.

Participei por muitos anos do Conselho Consultivo da Biblioteca Central e do Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais. De 2012 a 2014, fui representante da UFMG no recém criado Conselho de Cultura do Estado de Minas Gerais. Eu era o suplente, mas o titular não ia nunca. Como achava a função importante (e o regulamento previa o desligamento da representação após duas faltas consecutivas às reuniões) me desdobrava para estar presente. Metade do assentos do conselho era de representantes da sociedade civil, subdividida em 8 setores da cultura, algumas das quais com pouquíssima representatividade. A outra metade era de representantes de instituições governamentais, quase todas estaduais e subordinadas à política do governo do estado. Nesta metade estava representação da UFMG e da UEMG, que gozavam de total independência e puderam apoiar iniciativas interessantes da sociedade civil organizada, que inicialmente eram vistas como ameaçadoras pela Secretaria Estadual de Cultura. Creio que desempenhei razoavelmente o papel de conselheiro, mas não consegui convencer a reitoria da UFMG a mudar a forma de indicação de seus representantes, e fazer, em vez de indicações diretas, consulta ampla de forma a envolver a comunidade universitária e incorporar professores pesquisadores de políticas culturais.

No meu departamento fui subchefe - tarefa que foi facilitada pelo fato do chefe, João Waldir, ser um colega admirável por sua dedicação e organização-, membro da câmara, com várias representações, e coordenador do setor de Filosofia da Educação: um setor pequeno, mas bastante problemático.

Nos anos 2003 e 2004, participei da equipe pedagógica, coordenada pela colega Maria Emília Caixeta, da Comissão Permanente do Vestibular da UFMG, que supervisionava a elaboração das provas de várias áreas do conhecimento. Esta experiência foi muito rica, pois possibilitou debater diferentes objetivos e pressupostos (objetivos, critérios) de equipes de diferentes áreas do conhecimento. Lembro-me de um exaustivo debate com uma equipe da matemática, que acreditava que quanto mais difíceis fossem as questões, melhor seria a seleção. As discussões sobre os objetivos da seleção, envolviam questões técnicas, como a baixa

50 seletividade dessas s questões dificílimas, mas também questões políticas, como o papel da universidade na sociedade brasileira.

Na Copeve vivenciei alguns problemas estruturais da universidade, como a departamentalização e hiper-especialização do conhecimento. Isso aparecia, por exemplo, na dificuldade de se inter-relacionar questões de áreas diferentes. A equipe de professores da história, por exemplo, não se dispunha a reexaminar as obras literárias indicadas pela equipe de literatura e vice-versa, impossibilitando questões bem articuladas.

Considerando que geralmente leciono para os alunos do primeiro período, a experiência na equipe de elaboração das provas me ajudava a conhecer melhor o universo dos alunos que ingressavam. Sabia as obras literárias que os alunos haviam lido para o vestibular alguns meses antes e sobre qual temática haviam feito suas redações. Além disso, soube aproveitar de questões bem elaboradas das provas de filosofia, para atividades em meus cursos. Assim, mesmo quando sai da equipe da Copeve, e depois quando o vestibular UFMG foi substituído pelo ENEN, procurei acompanhar os exames de entrada dos calouros.

No documento Memorial Bernardo (páginas 48-51)