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ABNT NBR 8418:

3.2.5 Gestão Integrada de Resíduos

O regime geral da gestão dos resíduos consagra o princípio da responsabilidade pela gestão, atribuída ao produtor, seja este pessoa singular ou colectiva, agindo em nome próprio ou prestando serviço a terceiro, cuja atividade produza resíduos ou que efetue operações de tratamento, de mistura ou outras que alterem a natureza ou a composição de resíduos.

A gestão adequada dos resíduos tem sido, ao longo das últimas décadas, um desa- fio constante das políticas de ambiente, considerando a complexidade e a gravidade dos

respetivos problemas ambientais e de saúde pública. A evolução da política de resíduos conduziu à alteração do regime jurídico de gestão de resíduos, tendo sido desde sempre notória a especial preocupação com os resíduos industriais, dada a sua especificidade e os riscos potenciais associados.

O regime geral de gestão de resíduos é definido pelo Decreto-Lei n.o 178/2006, de 5 de

setembro, que transpôs para o ordenamento jurídico nacional a Diretiva 2006/12/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 5 de abril, e a Diretiva 91/6897CEE, do Conselho, de 12 de dezembro.

O Decreto-Lei n.o 73/2011, de 17 de junho, procedeu à sua terceira alteração e respe-

tiva republicação, estabelecendo o regime geral aplicável à prevenção, produção e gestão de resíduos, e transpondo para a ordem jurídica interna a Diretiva 2008/98/CE, do Par- lamento Europeu e do Conselho, de 19 de novembro (Diretiva-Quadro dos Resíduos), relativa aos resíduos.

Este diploma é aplicável às operações de gestão de resíduos destinadas a prevenir ou reduzir a produção de resíduos, o seu caráter nocivo e os impactos adversos decorrentes da sua produção e gestão, bem como a diminuição dos impactos associados à utilização dos recursos, de forma a melhorar a eficiência da sua utilização e a proteção do ambiente e da saúde humana, definindo também as exclusões do seu âmbito.

O Decreto-Lei n.o 73/2011 prevê, no seu enquadramento legislativo, aspectos novos ou substancialmente reformulados, nomeadamente (MAOT, 2011):

∙ Reforçar a prevenção da produção de resíduos e fomentar a sua reutilização e recicla- gem com vista a prolongar o seu uso na economia antes de devolvê-los em condições adequadas ao meio natural; promover o pleno aproveitamento do novo mercado organizado de resíduos, como forma de consolidar a valorização dos resíduos, com vantagens para os agentes econômicos, bem como estimular o aproveitamento de resíduos específicos com elevado potencial de valorização;

∙ Clarificar conceitos-chave como as definições de resíduo, prevenção, reutilização, preparação para a reutilização, tratamento e reciclagem, e a distinção entre os con- ceitos de valorização e eliminação de resíduos, com base numa diferença efetiva em termos de impacto ambiental. Prevê-se a aprovação de programas de prevenção e estabelecem-se metas de preparação para reutilização, reciclagem e outras formas de valorização material de resíduos, a cumprir até 2020;

∙ Incentivar a reciclagem que permita o cumprimento destas metas, e de preservação dos recursos naturais, sendo prevista a utilização de pelo menos 5% de materiais reciclados em empreitadas de obras públicas;

∙ Definir requisitos para que substâncias ou objetos resultantes de um processo pro- dutivo possam ser considerados subprodutos e não resíduos;

∙ O âmbito do mercado organizado de resíduos é alargado aos subprodutos, materiais reciclados e resíduos perigosos;

∙ Definir critérios para que determinados resíduos deixem de ter o estatuto de resíduo; ∙ Introduzir o mecanismo da responsabilidade alargada do produtor, tendo em conta o ciclo de vida dos produtos e materiais, e não apenas a fase de fim de vida, com as inerentes vantagens do ponto de vista da utilização eficiente dos recursos e do impacto ambiental;

∙ A obrigatoriedade do licenciamento do tratamento de resíduos e o registro obriga- tório dos operadores de gestão de resíduos;

∙ Reformulação dos regimes de licenciamento das atividades de tratamento de resí- duos;

∙ Reformulação do sistema integrado de registro eletrônico de resíduos;

∙ Reformulação do sistema de taxas de licenciamento e de gestão de resíduos, dentro dos princípios do utilizador-pagador e do poluidor-pagador;

∙ Enquadramento do mercado de resíduos;

∙ Atualização do regime contra-ordenacional (infrações).

Na sua atual redação, o Decreto-Lei n.o 73/2011, identifica os seguintes princípios

gerais da gestão dos resíduos:

∙ Princípio da autossuficiência e da proximidade (Art. 4.o): as operações de tra-

tamento devem decorrer em instalações adequadas com recurso às tecnologias e métodos apropriados para assegurar um nível elevado de proteção do ambiente e da saúde pública, preferencialmente em território nacional e obedecendo a critérios de proximidade;

∙ Princípio da responsabilidade pela gestão (Art. 5.o): a responsabilidade pela gestão

dos resíduos, incluindo os respetivos custos, cabe ao produtor inicial dos resíduos, sem prejuízo de poder ser imputada, na totalidade ou em parte, ao produtor do pro- duto que deu origem aos resíduos, e é partilhada pelos distribuidores desse produto se tal decorrer de legislação específica aplicável (exceto os resíduos urbanos, quando a produção diária não exceda os 1100 L por produtor, caso em que a respetiva gestão é assegurada pelos municípios). Em caso de imposssibilidade de determinação do produtor do resíduo, a responsabilidade pela respetiva gestão recai sobre o seu de- tentor. O produtor inicial dos resíduos ou o detentor devem, em conformidade com os princípios da hierarquia de gestão de resíduos e da proteção da saúde humana e

do ambiente, assegurar o tratamento dos resíduos, podendo recorrer: a um comer- ciante, a uma entidade licenciada que execute operações de recolha ou tratamento de resíduos ou a uma entidade licenciada responsável por sistemas de gestão de fluxos específicos de resíduos. A responsabilidade pela gestão dos resíduos extingue- se pela transferência para uma das entidades licenciadas referidas anteriormente. As pessoas singulares ou coletivas que procedem, a título profissional, à recolha ou transporte de resíduos devem entregar os resíduos recolhidos e transportados em operadores licenciados para o tratamento de resíduos;

∙ Princípio da proteção da saúde humana e do ambiente (Art. 6.o): constitui objetivo

prioritário da política de gestão de resíduos evitar e reduzir os riscos para a saúde humana e para o ambiente, garantindo que a produção, a recolha e o transporte, o armazenamento preliminar e o tratamento de resíduos sejam realizados recorrendo a processos ou métodos que não sejam suscetíveis de gerar efeitos adversos sobre o ambiente, nomeadamente poluição da água, do ar, do solo, afetação da fauna ou da flora, ruído ou odores ou danos em quaisquer locais de interesse e na paisagem; ∙ Princípio da hierarquia dos resíduos (Art. 7.o): a política e a legislação em matéria

de resíduos devem respeitar a seguinte ordem de prioridade no que se refere às opções de prevenção e gestão de resíduos:

a) Prevenção e redução;

b) Preparação para a reutilização; c) Reciclagem;

d) Outros tipos de valorização (e.g., valorização energética); e) Eliminação (e.g., aterro sanitário).

No caso de fluxos específicos de resíduos, a ordem de prioridades estabelecida pode não ser observada desde que as opções adoptadas se justifiquem pela aplicação do conceito de ciclo de vida aos impactos globais da produção e gestão dos resíduos em causa.

Na Figura 15 apresenta-se esquematicamente a hierarquia de gestão de resíduos por ordem de prioridades que deverá ser aplicada enquanto princípio geral da legislação e da política de prevenção e gestão de resíduos;

∙ Princípio da responsabilidade do cidadão (Art. 8.o): contribuição dos cidadãos

através da adoção de comportamentos de caráter preventivo em matéria de práticas de produção de resíduos, bem como de práticas que facilitem a respetiva reutilização e valorização;

PREVENÇÃO E REDUÇÃO

PREPARAÇÃO PARA A REUTILIZAÇÃO

RECICLAGEM OUTROS TIPOS DE

VALORIZAÇÃO

ELIMINAÇÃO

Figura 15 – Hierarquia de gestão de resíduos por ordem de prioridade Fonte: elaboração própria

∙ Princípio da regulação da gestão de resíduos (Art. 9.o): a gestão de resíduos é

realizada de acordo com a legislação aplicável, com os critérios fixados nos instru- mentos regulamentares e de planejamento, sendo proibida a realização de operações de armazenagem, tratamento, valorização e eliminação de resíduos não licenciadas; são também proibidos o abandono de resíduos, a incineração de resíduos no mar e a sua injecção no solo, a queima a céu aberto, bem como a descarga em locais não licenciados para realização de tratamento de resíduos;

∙ Princípio da equivalência (Art. 10.o): o regime econômico e financeiro das atividades

de gestão de resíduos visa a compensação tendencial dos custos sociais e ambientais que o produtor gera à comunidade ou dos benefícios que a comunidade lhe faculta; ∙ Princípio da responsabilidade alargada do produtor (Art. 10.o-A): a responsabili-

dade alargada do produtor consiste em atribuir, total ou parcialmente, física e/ou financeiramente ao produtor do produto a responsabilidade pelos impactos ambien- tais, e pela produção de resíduos decorrentes do processo produtivo e da posterior utilização dos respetivos produtos, bem como da sua gestão quando atingem o fi- nal de vida (fases de produção, comércio, consumo e pós-consumo). Adoção de medidas nos processos produtivos (melhores técnicas disponíveis, utilização eficaz da matéria-prima) adoção de medidas ao nível do produto (eco-design, substituição de substâncias perigosas, design para a reutilização). A responsabilidade do pro-

dutor do produto pela gestão dos resíduos provenientes dos seus próprios produtos pode ser assumida a título individual ou transferida para um sistema integrado, ou ainda através da celebração de acordos voluntários entre o produtor do produto e a ANR. Atualmente existem os seguintes fluxos específicos, para os quais existe legislação específica e aos quais se aplica o princípio da responsabilidade alargada do produtor: embalagens, pilhas e acumuladores, pneus, equipamentos elétricos e eletrônicos, óleos lubrificantes e veículos. A legislação estabelece, para além da co- responsabilização dos vários intervenientes no sistema, um modelo econômico (que pressupõe que os produtores procedam ao pagamento de prestações financeiras pelos produtos colocados no mercado) baseado na responsabilidade do produtor através da implementação de sistemas integrados ou individuais de gestão. A responsabili- dade alargada do produtor pode tomar a forma de um programa de reúso, compra de retornáveis ou reciclagem, ou na produção de energia a partir dos materiais dos resíduos;

∙ O princípio da prevenção e da redução (constitui objetivo prioritário da política de gestão de resíduos evitar e reduzir a sua produção, bem como reduzir o risco para a saúde humana e para o ambiente) formulado na versão inicial do Decreto-Lei foi substituído pelo princípio da proteção da saúde humana e do ambiente, na atual redação.

Na Figura 16, é apresentado o esquema fundamental da metodologia seguida ao longo do PESGRI.

A Figura 17 mostra10o fluxograma genérico da gestão integrada de resíduos industriais, a aplicar a diversas escalas, desde uma simples empresa até um conglomerado industrial. Antes de se entrar na análise da gestão de resíduos propriamente dita, há que conhecer algumas definições (Art. 3.o do Decreto-Lei n.o 73/2011), que são bastante úteis para se

poder compreender o seu significado e, ao mesmo tempo, muito distintas das usadas na legislação brasileira:

∙ “Armazenagem”: a deposição controlada de resíduos, antes do seu tratamento e por prazo determinado, designadamente as operações R13 e D15 identificadas nos Anexos I e II do Decreto-Lei;

∙ “Detentor”: a pessoa singular ou coletiva que tenha resíduos, pelo menos, na sua simples detenção, nos termos da legislação civil;

∙ “Eliminação”: qualquer operação que não seja de valorização, nomeadamente as incluídas no Anexo I do Decreto-Lei, ainda que se verifique como consequência secundária a recuperação de substâncias ou de energia.

10Nota: A operação “Transporte”, que se pode localizar em múltiplas posições dependendo do esquema

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