3. PARADOXO DE ZENÃO: DIFERENTES INTERPRETAÇÕES
3.6. Gilbert Ryle e o quebra cabeça filosófico
Ryle (1993), na sua obra Dilemas, aponta necessárias diferenças a serem consideradas, quando esse raciocínio recursivo é aplicado em diferentes situações, como por exemplo, em um computador, subordinado a um programa que leve a um padrão de repetição, numa corrida como a de Aquiles e a Tartaruga, ou na subdivisão de um bolo com seu volume conhecido.
Ryle argumenta que existem linhas de pensamento que não são soluções antagônicas do mesmo problema. No entanto, a primeira questão que nos ocorre é que precisamos adotar uma delas e isso pode nos comprometer a rejeitar a outra.
62 As questões que pertencem a diferentes domínios do pensamento frequentemente diferem não só quanto aos tipos de assunto a que se referem, mas, também, quanto aos tipos de pensamento que requerem. (ibid, p.15)
Quando tomamos a referência teórica Aristotélica, atribuímos que cada conceito deve ser de certa Categoria. Nos dias de hoje, encontramos pensadores que consideram esse referencial teórico escasso e outros, um referencial pródigo.
Esses últimos afirmam, diante de qualquer conceito, estes serem uma qualidade, e se não for uma qualidade, então, deverá ser uma Relação. (ibid, p.17)
Ele faz uma declaração a respeito da existência de diferenças entre tipos de pensamentos e esclarece que:
O tipo de pensamento que promove a biologia não é o tipo de pensamento que resolve as argumentações e contra-argumentações entre a biologia e a física. Essas questões inter-teóricas não são questões internas a essas teorias. Não são questões biológicas ou físicas. São questões filosóficas.
(RYLE, 1993, p.22)
Para Ryle, o paradoxo de Zenão merece ser apontado como o paradigma de um quebra-cabeça filosófico e não um problema aritmético.
[...] não se deve procurar nenhuma solução recorrendo, com o maior cuidado, a cálculos pelos quais se estabeleça que Aquiles alcançará a tartaruga em, digamos, exatamente seis minutos. Tampouco se encontrará uma solução reconsiderando o argumento que prova que o avanço 1 mais o avanço 2, mais o avanço 3, etc, nunca somará a distância total a ser coberta por Aquiles a fim de alcançar a tartaruga”. (ibid, p.61)
De acordo com o tratamento de Zenão da corrida, o primeiro avanço que Aquiles realiza mais o segundo, mais o terceiro, etc., nunca somam a distância que permitiria alcançar a tartaruga. Teremos tantas partes quantas quisermos, mas, em nenhuma etapa, podemos dizer que reunimos o total delas. Pois em cada etapa há uma parte que fica pendente.
[...] a corrida de Aquiles não é a soma da metade, mais o quarto, mais o oitavo dela, etc, que resolvemos nesta ou naquela etapa deixar de um lado, mas é a soma de todas essas frações mais o remanescente.
Tampouco esse remanescente é uma das dimensões misteriosas ou indefiníveis. Ele tem exatamente as mesmas dimensões que a última fração que separamos antes de decidir parar de cortar fatias. (ibid, p.75)
63 Que essa divisão pode prosseguir ad infinitum é uma frase alarmante, mas significa, apenas, que, após cada corte, é deixado um resto para ser dividido por um corte subsequente. (ibid)
Esse argumento no problema de Zenão torna-se paradigmático, inclusive porque é de aplicação muito geral. Uma corrida envolve a cobertura de uma distância num certo tempo. Parte da confusão foi se deveríamos focar metros ou segundos. Mas a argumentação aplica-se a casos em que não entra em questão a passagem de tempo, como por exemplo, no caso da bissecção de um bolo.
Também se aplica em casos em que não entra em questão o espaço percorrido, como, por exemplo, no caso de um termômetro, inicialmente frio, ultrapassar a temperatura ascendente do conteúdo de uma frigideira. (ibid, p.78-79)
“Em todas as aplicações estamos pensando em termos de, ou operando com as mesmas noções abrangentes de parte, todo, fração, total, mais, menos e multiplicado por. [...]” (RYLE, 1993, p.81). Para Ryle, ao atingirmos certo estágio para lidar com aritmética simples e abstrata, não só com frações e sua soma e subtração, mas também com a multiplicação, nos apropriamos de algo como uma regra de um jogo, assim, “quando quantificamos e pensamos em números tendemos a usar as ferramentas que possuímos, que são as regras ou teorias, que regem o pensamento com números [...]” (ibid)
[...] Os dilemas que nos levam a pensar em considerar que um atlético corredor não alcança nem uma tartaruga a sua frente, são as amarras teóricas de permanecer nas regras do primeiro jogo. Quando nos colocamos num nível mais elevado, em que tentamos concluir se e quando Aquiles alcançará a tartaruga por procedimentos de cálculo que são de aplicação muito geral. [...] por exemplo, a argumentação de Zenão parece provar que Aquiles nunca alcança a tartaruga – nunca, no sentido de que anos, séculos, milênios após o início da corrida Aquiles ainda estará numa desesperada perseguição; de que a corrida é uma corrida eterna. [...] Mas esse sentido de – nunca - no qual toda a eternidade está ocupada em vã perseguição, é muito diferente do sentido de “nunca” quando dizemos, ao falar em termos aritméticos, que a soma de ½, ¼, 1/8, 1/16, etc, nunca equivale a unidade. (ibid)
Ryle explicita seu raciocínio dizendo que [...] uma ambiguidade semelhante pertence à palavra – todo. Quando dividimos um bolo da maneira mais comum, em seis ou sessenta porções, podemos falar de todas essas porções e enumerá-las.
Elas são ao todo seis ou sessenta. Temos um total contável e que corresponde ao bolo inteiro. Quando o bolo é dividido de acordo com o princípio menos comum, em
64 que cada pedaço retirado será apenas uma fração do que ficou após o corte anterior, então podemos, mais uma vez, usar a palavra “todo” ou total da mesma maneira.
Para Ryle, quando tentamos sujeitar as afirmações verdadeiras do senso comum às afirmações verdadeiras do lógico, podemos perder o controle e, assim, atribuirmos propriedades a ações e acontecimentos que só podem pertencer ao repertório de recursos característicos dos lógicos, no caso, enunciados ou proposições, e afirma: “[...] é um problema de descrição, podemos descrever uma corrida em termos de numeradores e denominadores, e relações entre frações em termos de esforços e desespero” (ibid, p. 86).
Ryle esclarece seu pensamento dizendo que ao nos depararmos com um aparente antagonismo entre diferentes modos de descrever alguma coisa, muitas vezes não se trata de coisas antagônicas, nem de descrições antagônicas da mesma coisa, mas de dois modos diferentes, mas complementares, de dar informações de tipos diferentes, a respeito da mesma coisa.
Ele exemplifica seu ponto de vista exemplificando que é “interessante observarmos que as tantas afirmações sobre mesas e cadeiras são descrições, sob diferentes perspectivas, e que o fato de ser verdadeira sob uma determinada perspectiva não a torna falsa nas outras” (RYLE, 1993, p.126).