ATORES DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS E CENÁRIO GLOBAL
3.1.1. Globalização como Marco Analítico Diferencial
Neste primeiro momento, buscar-se-á enfocar a importância do fenômeno da globalização como marco analítico diferencial para a abordagem adotada até este ponto, justificando as suas implicações na problemática dos atores internacionais e das próprias relações internacionais 586. Para essa análise, importante o cotejo entre as concepções estatocêntricas tradicionais e a concepção contemporânea da sociedade internacional.
A sociedade internacional, como examinada no capítulo inicial, estrutura-se com base em idéia de complexo relacional, envolvendo fluxos ou relações de variados conteúdos entre atores diversos, cuja projeção ultrapassa os parâmetros de nacionalidade estatocêntricos. Essa
586 Para análise mais aprofundada do paralelo com a disciplina das Relações Internacionais, ver: GILPIN, Robert. The political economy of international relations. Princeton: Princeton University Press, 1987. 449 p.
aproximação conceituai contemporânea, entretanto, e como já exposto, surge em resposta às insuficiências analíticas das concepções tradicionais. Além disso, é importante a retomada breve dessa perspectiva tradicional para permitir o contraponto com o diferencial investigativo introduzido pela globalização, contrastando com a perspectiva contemporânea da sociedade internacional.
A abordagem tradicional da sociedade internacional, como uma sociedade apenas justaposta de Estados, tem seus fundamentos na própria emergência do modelo de Estado moderno de base nacional. A estrutura político-jurídica dessa forma de organização do Estado, ao mesmo tempo em que permite o exercício de poder soberano sobre espaço terrritorial e sobre pessoas delimitadas, também permite sua combinação e convivência com outras organizações similares no mundo afora, o que explica sua difusão e expansão como modelo padronizado de organização sócio-política do homem na Terra. Essa abordagem clássica implica ainda outros desdobramentos, porque o modelo estatocêntrico é responsável diretamente por características importantes da vida contemporânea.
O globo terrestre, uno e contínuo nos seus recursos naturais e feições geofísicas, é visto como uma justaposição de colagens do recorte político dos limites nacionais das unidades estatais soberanas, circunstancial e historicamente fixados. Entretanto, e já de início, por conta da desigual distribuição de recursos naturais em cotejo com os variados interesses e necessidades nacionais, os limites nem sempre são claros e incontroversos, gerando relações intensamente conflitivas.
Se, de um lado, a idéia de Estado constitui instrumento hobbesiano de solução da guerra dos homens individualmente entre si, a sua implementação como realidade político-jurídica em recortes territoriais, de outro lado, transforma ele próprio em fator da instabilidade no contexto global. Na medida em que, no plano interno, as relações formam-se e realizam-se sob o manto da ordem jurídico-política do Estado, ou, como diz WEBER, do monopólio da violência legítima 587, no plano internacional ou supranacional, o contexto é mais complexo. Como já examinado, a sociedade internacional, historicamente, não apresenta instância ordenadora que detenha o monopólio da violência legítima nesse plano. Além disso, e também como já exposto, a idéia inicial de relações internacionais está vinculada com a idéia de Estado nacional histórica e etimologicamente. Ao ser composto o globo terrestre por recortes nacionais soberanos, a análise das relações que se travavam para além desses limites,
independentemente de sua natureza ou intensidade, estava vinculada a pressupostos de estatalidade.
Assim, e se o referencial analítico é o Estado, qualquer pesquisa nesse campo tende a desenvolver o raciocínio com base na visão de um mundo formado pela composição de diversos Estados e, pois, é com base nessas unidades que serão analisadas as inúmeras relações mantidas pelo globo, tendo como ponto de partida, de trânsito ou de destino algum Estado nacional. Além disso, e se os limites do recorte territorial formam-se com base na soberania, a emergência de uma instância supranacional plena pressupõe necessariamente a renúncia ou cessão, pelo menos parcial, da soberania das unidades estatais sobre seus territórios ou pessoas nacionais; do contrário, não seria possível o exercício da violência legítima de forma monopolística dentro de cada Estado nacional e mesmo a despeito ou contra a vontade deste, como poderia demandar uma ordem jurídico-política supranacional.
É evidente que esse modelo analítico tradicional privilegia o Estado como figura central da ordem político-jurídica e, mais além, já no âmbito das relações internacionais, como ator central e preponderante. Por decorrência dessa perspectiva, o cenário ou meio de atuação e o próprio papel desempenhado são peculiares, como será desenvolvido adiante.
O panorama tradicional, contudo, abala-se profundamente com a emergência do fenômeno da globalização, nos termos desenvolvidos no capítulo anterior. A combinação de avanços técnicos expressivos e rápidos na áreas de comunicações e informática, com a tendência expansiva do modelo econômico capitalista, projetaram uma nova realidade no mundo, para além e a despeito dos limites soberanos nacionais. No seu bojo, o processo acarretou inúmeras alterações nas dimensões da vida contemporânea, como econômicas, políticas, jurídicas e culturais, redesenhando uma série de relações de forma dinâmica inédita.
A extensão e a profundidade das mudanças experimentadas nas últimas décadas nos mais variados campos do conhecimento humano são a demonstração da importância epistemológica do fenômeno, como realidade presente e como processo em marcha.
O globo terrestre, entendido até então com base na perspectiva da colagem dos recortes territoriais nacionais soberanos, passa a ser visto na sua unidade ou integralidade epistemológica, se bem que na perspectiva limitada de um mercado único ou de um ecossistema único, por exemplo, o que traz diversas implicações. A idéia de que o mundo e seus problemas mais amplos possam ser compreendidos acima e a despeito dos marcos nacionais é importante porque desloca o eixo analítico para fora do Estado, mesmo que seu papel ainda seja destacado. Esse deslocamento pode relacionar-se com uma incapacidade gerencial do Estado involuntária em algumas questões, seja porque está diretamente
envolvido como interessado (como a problemática da resolução dos conflitos entre os próprios Estados) ou seja porque os efeitos ultrapassam seus limites soberanos (como as problemáticas dos riscos e danos ecológicos, do capital financeiro volatilizado ou do terrorismo e das organizações criminosas internacionais).
O primeiro problema (Estado diretamente envolvido como interessado) não é exatamente novo porque os conflitos entre Estados existem desde o surgimento da própria idéia de Estado, na medida em que o limite da soberania de um é o precípuo limite da soberania do outro, e já se desdobraram de várias formas. No século XX, por exemplo, e sob influxo dessa questão, houve criação de instituições supranacionais pelos Estados. Sua essência, direta ou indiretamente, é a consolidação de uma ordem internacional, o que nada mais representa do que elaboração de mecanismos voltados à prevenção e solução de conflitos entre os próprios Estados — seja no aspecto político, seja no aspecto econômico — de duração, alcance e poderes muito variados, como a Liga das Nações ou mesmo a Organização das Nações Unidas.
O segundo problema (efeitos de fatos ultrapassam os limites soberanos do Estado) relaciona-se diretamente com o fenômeno da globalização. O aumento do volume e da intensidade das inúmeras espécies de fluxos ou relações (econômicas, políticas, culturais, jurídicas) entre os Estados e — de forma cada vez mais intensa — por outros protagonistas emergentes, proporcionado pelas tecnologias de comunicações e informática em constante evolução, trouxe consigo não apenas a relativização das fronteiras nacionais (como no caso do capital financeiro) mas também a consciência da problemática do mundo de forma integral (como no caso dos problemas ambientais).
Nesse sentido, a própria compreensão do fenômeno da globalização pressupõe a interdisciplinariedade, de forma a examinar não apenas seus efeitos econômicos, políticos, sociais e jurídicos isoladamente, mas a permitir a análise do conjunto de todas essas dimensões como processo integral e complexo em marcha na perspectiva global, e não mais apenas nacional. Por isso, é um fenômeno inédito e diferencial na análise das relações
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internacionais
Assim, o fenômeno da globalização é entendido como um marco analítico diferencial para a compreensão do mundo contemporâneo e, em especial, da sociedade internacional, com seus atores, cenários e papéis, diretamente influenciados por seus efeitos.
588 Sobre as diversas implicações entre globalização e as teorias das relações internacionais, na busca de uma perspectiva contemporânea integradora, ver: CLARK, Ian. Op. cit., p. 2-8.