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84 In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich O manifesto comunista, p 14 A importância dessa citada abordagem histórica de MARX e ENGELS é enfatizada por MELLO, dizendo que a obra “chega a ser um verdadeiro

1.3. PARADIGMAS COMO MODELOS DE APREENSÃO FACTUAL

A análise das relações internacionais, após identificados seus elementos e características, complementa-se com a necessária abordagem dos modelos teóricos ou paradigmas para compreensão da realidade empírica dos fenômenos internacionais, estabelecendo a ponte ou nexo entre essa realidade e sua superestrutura teórico-científica.

Nesse mister, impõem-se duas linhas de desenvolvimento sucessivas. De um lado, deve- se resgatar o conceito histórico de paradigma e destacar sua importância para as relações internacionais. De outro, devem-se identificar os modelos teóricos adotados pelos internacionalistas na análise desses fenômenos e objeto da disciplina.

1.3.1. Interpretação da Realidade e Papel dos Paradigmas

A caracterização e os elementos das relações internacionais revelam uma realidade complexa, na qual interagem inúmeros atores movidos por interesses diversos, e também dinâmica, em que há constantes mudanças de interesses e de direção nos fluxos entre eles.

153 In: OLIVEIRA, Odete Maria de. Relações internacionais: breves apontamentos e contextualização. Op. cit., p. 25.

Essa aproximação analítica é o ponto de partida para o exame das relações internacionais contemporâneas como realidade empírica.

Entretanto, a apreensão e a ordenação científicas dessa realidade desafiam os teóricos, desde que se despertou a consciência dessa problemática, na emergência das guerras mundiais, como demarca KRIPPENDORFF 155. Esse desafio, acima de tudo, indicia não apenas a confirmação da idéia de GUERRERO, sobre a abordagem “anticientífica” usual nessa aproximação 156, mas também a idéia de PINEL, sobre um tendencial e variado descompasso entre os aspectos ontológicos e gnoseológicos nas relações internacionais 157.

Esse descompasso ou falta de nexo entre realidade e teoria pode ser atribuído, em boa medida, também à ausência de modelos gnoseológicos capazes de abarcar a complexidade e a dinâmica fenomênicas das relações internacionais em tempo real. O caminho da construção de sua cientificidade, de fato, encontrou muitas dificuldades na elaboração e aplicação desses modelos teóricos em cada momento histórico.

Os modelos, neste aspecto, antes de consistirem em simples referenciais teóricos,

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constituem autênticos paradigmas, na acepção introduzida por KUHN . Esse autor, ao analisar a história da ciência e construir os caminhos teóricos de sua estrutura e suas mudanças, introduziu o conceito-chave de paradigma na epistemologia.

Para esse autor, a ciência apresenta uma tendencial cumulação progressiva no tocante a seus fatos e teorias, a qual se realiza pelo desenvolvimento científico, entendido como “o processo gradativo através do qual esses itens foram adicionados, isoladamente ou em combinação, ao estoque sempre crescente que constitui o conhecimento e a técnica científicos” 159. Em outra linha, esse autor conceitua “ciência normal” como “a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas [...] reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior” 160. Por outro lado, as “realizações passadas” que conjugam as características de (a) serem “suficientemente sem precedentes para atrair um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras formas de atividade científicas dissimilares” 161 e de (b) serem “suficientemente abertas para deixar toda a espécie de

155 In: KRIPPENDORFF, Ekkehart. Op. cit., p. 23, como já se analisou no item 1.1.1, retro. 156 In: GUERRERO, Roberto Pena. Op. cit., p. 131-2.

157 In: PINEL, Fernando Flores. Op. cit., p. 105-6. Ver para o assunto: item 1.1.1 deste capítulo.

158 In: KUHN,Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. 257 p.

159 Idem, p. 20. 160 Idem, p. 24. 161 Idem, p. 30.

problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência” 162 são entendidas como paradigmas. Assim, os paradigmas científicos são “modelos dos quais brotam as tradições coerentes e específicas da pesquisa científica” , envolvendo leis, teorias, aplicação e instrumentação.

O paradigma, pois, está direta e intimamente vinculado com a ciência (ou “ciência normal”, como refere), cabendo destacar três peculiaridades ou características dessa relação e suas implicações na presente área de estudo. Em primeiro lugar, o paradigma emerge no momento em que a tendência cumulativa da ciência defronta-se de forma incontornável com eventos que conflitam com as práticas vigentes, desencadeando as “revoluções científicas” 164, que implicam essa alteração de seus modelos teóricos sedimentados. Em segundo lugar, a imbricação do paradigma com a ciência revela-se na aquisição daquele e sua relação com a maturidade científica do campo do conhecimento em investigação: “a aquisição de um paradigma e do tipo de pesquisa mais esotérico que ele permite é um sinal de maturidade no desenvolvimento de qualquer campo científico que se queira considerar” . Em terceiro lugar, e por último, o paradigma acarreta a redelimitação dos contornos da própria ciência a ele, porque “o novo paradigma implica uma definição nova e mais rígida do campo de estudos” 166.

Essas considerações sobre o papel do paradigma ou modelo teórico na epistemologia podem ser transpostas para as relações internacionais. Para RODRIGUES, um paradigma das relações internacionais é “uma visão, uma interpretação, uma perspectiva dos fenômenos internacionais ou mundiais, amparada em algum método, cuja pretensão é explicar e dar sentido para os fatos que estão se desenrolando no cenário internacional” 167. O essencial reside na afirmação da sua indispensabilidade para resolver os problemas e desafios apresentados pela vida internacional complexa e dinâmica e para solver ou ao menos reduzir o défice gnoseológico da disciplina apontado por alguns autores. Nesse sentido, GUERRERO diz: “a necessidade gnoseológica da construção científica das relações internacionais deve-se resolver pela única forma possível: por meio da criação de modelos ou paradigmas teóricos que se adeqúem e reflitam o aspecto ontológico da realidade internacional”

162 Idem, ibidem. 163 Idem, ibidem. 164 Idem, p. 25. 165 Idem, p. 31. 166 Idem, p. 39.

167 In: RODRIGUES, Gilberto Marcos Antonio. Op. cit., p. 18. 168 In: GUERRERO, Roberto Pena. Op. cit., p. 151.

Resgatado esse conceito de paradigma na sua origem epistemológica, e revelada sua importância na presente abordagem, impõe-se a análise dos modelos teóricos utilizados historicamente para a apreensão da realidade empírica das relações internacionais 169.

1.3.2. Paradigmas das Relações Internacionais

Desde a consciência da problemática das relações internacionais, emergiram diversos modelos teóricos para sua compreensão fenomênica. Sua caracterização e seus limites, contudo, não são unívocos nas manifestações dos internacionalistas.

Na sua abordagem peculiar, MOREIRA dissocia “períodos” idealista e realista, assim como uma posterior “revolução behaviorista” 170. A seu turno, FERNANDES sustenta a existência de três paradigmas: da comunidade interestadual, da comunidade universal e da comunidade internacional estratificada 171. Após discorrer sobre os paradigmas, RODRIGUES assim diferencia: “A maioria dos internacionalistas reconhece a existência de três paradigmas: o realista (clássico), o da dependência (estruturalista) e o da interdependência (transnacional ou da sociedade global). Incluímos um quarto, o paradigma da paz, que parece estar se firmando” 172. Em linha similar, OLIVEIRA diferencia quatro paradigmas, correspondendo aos modelos idealista, realista, dependente e interdependente 173. Essa mesma distinção de quatro paradigmas sucessivos e distintos, sob essas denominações, também é adotada em outra obra referencial muito recente sobre a temática 174, revelando preponderância teórica no aspecto em tela.

Assim, e seguindo essa linha analítica preponderante, e na tentativa de erigir um marco histórico-cronológico mais ou menos linear na sua análise, dispõe-se a abordagem em quatro momentos distintos, com base em quatro modelos teóricos razoavelmente abrangentes: idealismo, realismo, dependentismo e interdependentismo, partindo da estruturação inicial referida por OLIVEIRA. Essa estrutura adotada, em análise mais aprofundada, também apresenta inúmeros pontos de convergência, inclusive com a exposição de outros autores, como o citado FERNANDES, como se retomará oportunamente.

169 Sobre o conceito de paradigmas no direito internacional em abordagem contemporânea, ver: ALMEIDA- DINIZ, Arthur J. Novos paradigmas em direito internacional público. Porto Alegre: SAF, 1995. 216 p. 170 In: MOREIRA, Adriano. Op. cit., p. 39-46.

171 In: FERNANDES, Antonio José. Op. cit., p. 119.

172 In: RODRIGUES, Gilberto Marcos Antonio. Op. cit., p. 18.

173 In: OLIVEIRA, Odete Maria de. Relações internacionais: estudos de introdução, p. 75-134.

Por cautela, devem ser formuladas duas observações preliminares. A primeira é no sentido de não ter essa seqüência temporal a pretensão de ser estanque, uma vez que a dinâmica do fenômeno permite, por vezes, a coexistência de modelos antagônicos. A segunda corresponde à advertência de que as ressalvas e divergências nessa abordagem, por razões didáticas, serão analisadas com os contrapontos sobre sua caracterização.