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GRÁFICO 2.1.4 BRASIL: PRODUTO INTERNO BRUTO, 1956 1962

Plano da Dissertação

GRÁFICO 2.1.4 BRASIL: PRODUTO INTERNO BRUTO, 1956 1962

0 20 40 60 80 100 120 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1962=100

Fonte: Conjuntura Econômica, março de 1967.

Assim como a expansão não é explicada em simples termos de substituição de importações, também a crise dos anos 60 (ou a desaceleração que marca parte dessa década) não pode ser entendida em termos de esgotamento da substituição de exportações.

A década de 1960 iniciara-se em forte flutuação econômica. Neste período, houve uma queda importante dos investimentos, e a taxa de crescimento da renda brasileira também caiu fortemente90: sobrepondo-se ao elevado índice de 1961, de 7,7%,

1962 e 1963 apresentaram taxas de crescimento de 3,7% e 2,1%. A inflação atingira a taxa de 50% em 1962 e ultrapassara os 80% no ano seguinte.

Em meio a questões políticas, embebidas nos múltiplos interesses externos e internos que se digladiavam então na cena brasileira, apresentaram-se, no pensamento econômico brasileiro da época, duas visões: (a) a visão estagnacionista e (b) a da crise cíclica endógena.

2.1.2. Visões Interpretativas da Economia Brasileira

Segundo a visão estagnacionista, a redução nas taxas de crescimento do produto deveu-se ao esgotamento do dinamismo do processo de substituição de importações, que tende a enfrentar dificuldades ao longo do tempo, devido à (1) diminuição do coeficiente de importações, que diminui a amplitude da substituição; e (2) o enrijecimento progressivo da pauta de importações, em que a substituição exige cada vez mais recursos financeiros e tecnológicos com retorno cada vez menor91 . Pelo lado

da demanda, os novos setores a serem substituídos possuiriam ganhos de escala cada vez maiores, exigindo uma procura também cada vez maior. O mercado comprador crescera mais do que o ofertador. Refreara-se, assim, o dinamismo do processo, até o colapso, no início da década de 1960. Segundo Mário Henrique Simonsen:

“Os primeiros anos do decênio de 1960, com o meteórico Governo Jânio Quadros e com a desordenada administração do Governo João Goulart representaram completo retrocesso do modelo brasileiro de desenvolvimento. As taxas de crescimento do produto real caíram de 10,3% em 1961 para 6,3% em 1962 e 1,5% em 1963. A desordem fiscal, monetária e salarial elevou a taxa de inflação para 80% em 1963, ameaçando ultrapassar a casa dos 100% em 1964, a julgar pelas tendências do primeiro semestre. O balanço de pagamentos entrou em colapso, com o acúmulo de dívidas a curto prazo, atrasados comerciais, e com o desestímulo às exportações e ingressos de capitais estrangeiros. Os investimentos nacionais e alienígenas se retraíam apavorados diante das sucessivas ameaças de estatização e de confisco92.”

Esse tipo de interpretação parece negar a própria objetividade das crises, e mesmo dos processos históricos, assumindo a existência de uma “economia perfeita”, livre de crises, as quais não seriam mais do que “desvios” de um “caminho perfeito”.

91 Setores com elevada relação capital/produto

92 Mario Henrique Simonsen e Roberto de Oliveira Campos, A Nova Economia Brasileira, páginas 06 – 07.

Tal visão adotava as diretrizes sugeridas pelo F.M.I. (Fundo Monetário Internacional) ao Brasil, desde a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956. Tais diretrizes sugeriam: (a) que o governo brasileiro equilibrasse as contas de seu balanço de pagamentos; (b) retirasse as restrições cambiais e aduaneiras às importações, e (c) exercesse controle sobre a oferta monetária, a fim de refrear o processo inflacionário. Tais medidas significariam a inviabilização do processo de substituição de importações.

Celso Furtado confere perspectiva histórica à análise estática elaborada pelo pensamento estagnacionista:

“Criando novos empregos, este processo ampliou o mercado para bens de consumo popular, mas, dadas as pequenas proporções do mercado para bens de consumo durável, a produção local destes foi acompanhada de tendência ao aumento de seus preços relativos, com efeitos negativos sobre a procura. Este efeito negativo foi combatido até meados dos anos 50 por ações do governo visando a reduzir os preços dos equipamentos importados, por meio de taxas diferenciais de câmbio, e objetivando também subsidiar investimentos industriais (particularmente em indústrias que produziam sucedâneos de bens importados), principalmente através de empréstimos com taxas de juros negativas. Parte dos recursos utilizados para executar esta política originava-se de uma melhoria nos termos de intercâmbio que ocorreu nesse período. A redução pela metade do custo real do capital fixo ajudou as indústrias produtoras de bens de consumo a conseguir lucros, mesmo tendo de operar com uma larga margem de capacidade ociosa93.”

A explicação de Furtado para a situação econômica do Brasil no início dos anos 60 notadamente envolve mais do que o alinhamento das políticas fiscal, cambial e

monetária do Estado a um modelo de ajuste de equilíbrio geral, como o proposto anteriormente. Mais adiante, o autor desenvolve os fatores que, na sua visão, causaram mais estreitamente a crise dos anos 60:

Na segunda metade dos anos 50, quando os termos do intercâmbio se deterioraram, o governo se lançou numa política de endividamento externo que tornou possível o prosseguimento dos subsídios. Ao mesmo tempo, o governo engajou-se numa política de grandes obras públicas (...). Mais recentemente, (...), tomaram-se medidas com efeitos diretos sobre a distribuição de renda, a fim de produzir a qualidade ou perfil de demanda que melhor se ajusta aos planos de expansão das grandes empresas de atuação internacional e às expectativas da minoria modernizada94.”

O argumento de Furtado ilustra parcialmente o ponto de vista que vislumbra no impasse presente no início daquela década uma crise cíclica endógena própria à economia capitalista. Após a década de 1950, a economia brasileira já haveria superado os tempos de industrialização restrita, e entrara, para aquele autor, em fase na qual a dinâmica capitalista se dava por elementos endógenos. Tais elementos teriam suas raízes em elementos bem mais intrínsecos ao papel do Brasil na ordem capitalista para Caio Prado Júnior:

“De fato, o lucro auferido pelos empreendimentos imperialistas no Brasil somente se pode liquidar (e somente então constituirão para eles verdadeiros lucros) com os saldos do nosso comércio exterior, uma vez que é da exportação que provém nossos recursos normais em moeda internacional. Descontada a parte desses recursos que se destina a pagar as importações, é o saldo restante e somente dele que poderá sair o lucro dos empresários aqui instalados pelos trustes. Na base

do previsível para esse saldo, portanto, fixarão os trustes o limite de suas atividades e, portanto, em conseqüência, o do desenvolvimento brasileiro que no sistema vigente é por eles enquadrado. A esse propósito, notemos que são sem dúvida as desfavoráveis perspectivas de nossas contas externas que contaram muito no declínio (...) das inversões estrangeiras no Brasil depois de 1961 (...) 95”.

Então, tem-se: (a) a pressão crescente dos salários sobre os lucros dos capitalistas, o que eleva os preços e, por conseguinte, o custo de vida; e (b) a pressão exercida pela influência dos interesses externos, tanto no comércio exterior, como na presença física do capital externo. Aqui cabe a ponderação coetânea de Nelson Werneck Sodré, colocando o próprio conjunto de iniciativas governamentais em perspectiva, como forma de promover contingencialmente um processo de acumulação, de duração predispostamente precária:

“Desde pouco mais de dois lustros, realmente, a economia brasileira articula mecanismos de defesa – controle de câmbio, restrições a importação, quotas, bonificações, etc – cuja finalidade tem sido, entretanto, circunstancial. Tais mecanismos foram sempre montados no sentido de enfrentar situações de emergência, quando os desequilíbrios assumiam proporções alarmantes. Havia sempre a idéia, e idéia franca, de retorno a uma pretensa normalidade e, conseqüentemente, ao abandono daqueles mecanismos. Ora, sem a idéia de que tais mecanismos, ou outros, preservadores da acumulação nacional, devessem assumir o aspecto de parte de toda uma política econômica, destinada a durar por isso mesmo, os seus efeitos teriam de ser reduzidos. Sem essa política, fundada em adequado planejamento, que atenda à concentração dos esforços no aproveitamento dos recursos nacionais, que faça do

monopólio do comércio exterior ação do Estado, que utilize os recursos disponíveis em beneficio da população, o processo de debilitamento econômico prosseguirá, inexoravelmente.96 (...)”

O que une todas as perspectivas, independentemente da posição política defendida à época, é a consciência do fato de que urgia um conjunto de reformas institucionais que formassem um quadro favorável à retomada dos investimentos. A situação política do país era de crise, e o equilíbrio de forças opostas inviabilizou o encaminhamento de qualquer projeto de reformas. O governo Jânio Quadros, a fase do parlamentarismo e o governo João Goulart, presos a tal circunstância, pouco poderiam fazer de efetivo quanto à política econômica no período. O golpe militar de 1964 resolveria, de maneira unilateral, o impasse.

2.1.3. A Economia Brasileira no período 1930 – 1964: uma visão cíclica.

As economias capitalistas, em geral, desenvolvem-se dentro de um padrão cíclico97; ou seja, elas se expandem com flutuações periódicas. São incapazes de manter

um ritmo constante de atividades ao longo do tempo, não possuindo, aparentemente, nenhum mecanismo endógeno que permita um grau uniforme de utilização dos recursos disponíveis. Ainda que as economias capitalistas apresentem períodos com intenso ritmo de atividades, nas quais a escassez dos recursos produtivos se acentua, também apresentam períodos que mostram quedas substanciais na utilização da capacidade instalada e do emprego.

Assim, a produção ao longo do tempo pode ser representada como um movimento ondulatório, como a curva S, na figura I. O movimento ondulatório se dá em torno de uma tendência crescente, o que significa a continuidade do crescimento da produção, mesmo com oscilações, como se vê pela tendência representada pela reta F.

96 Nelson Werneck Sodré, Formação Histórica do Brasil, página 396.

Explicar o comportamento da produção no decorrer do tempo implicaria observar: (a) a pontualidade do dado nível de renda Y0 no ano t0; (b) o próprio

comportamento oscilatório da curva S, que representa a evolução da renda, e (c) a tendência crescente da renda, representada em F.

A variável estratégica na explicação do nível de atividade econômica, seja no período de um ano ou em uma série histórica, é o investimento. Aliado ao estoque existente de capital, o investimento amplia a capacidade econômica produtiva e permite o crescimento econômico de longo prazo, gerando, com suas oscilações, os ciclos econômicos. O investimento considerado como despesa é a fonte de prosperidade, e cada aumento dele melhora a os negócios e estimula uma posterior elevação do investimento; por outro lado, cada investimento consiste uma adição de capital, e desde logo compete com a geração mais velha desse equipamento, num paradoxo apontado por Michal Kalecki98 como inerente à própria economia capitalista.

Historicamente, até o período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), o conceito de ciclo baseava-se na observação do nível de alguma variável que procurasse retratar o ritmo dos negócios. Como aponta Cláudio Contador:

“O conceito clássico do ciclo identifica as fases de expansão e contração e respectiva cronologia de acordo com os

98 Michal Kalecki, Teoria da Dinâmica Econômica, página 149.

Y t F S Y0 t0

pontos de mínimo (antipico) e máximo (pico) locais observados nos níveis de uma série econômica agregada (...).99

Dado que tal conceito, para a caracterização de um ciclo completo, demanda os movimentos de expansão e contração, que implica a queda em algum momento no valor absoluto das variáveis, sua utilização no Pós-Guerra comprometeu-se, no tocante à observação dos grandes agregados econômicos, os quais raramente apresentaram tal decréscimo. Desta feita, o conceito “clássico” incorporou a identificação das fases e da cronologia dos mesmos segundo os desvios em torno de uma tendência histórica, elaborando-se o conceito de ciclo revisado. Ainda assim, a retirada da tendência pode afetar a própria identificação das flutuações cíclicas. Nesse sentido, o ciclo de crescimento, que incorpora as variações das taxas de crescimento das variáveis, apresenta as indicações de evolução dos investimentos em setores dinâmicos da economia, como, por exemplo, a indústria.

O período 1940-1964 na economia brasileira observou um crescimento absoluto perene em seu produto. Os elementos considerados como importantes para a compreensão do crescimento econômico e industrial observado no Brasil entre 1930 e 1964 são: (a) a crise de 1929-33, que deslocou o centro dinâmico da economia do campo para a indústria; (b) a ruptura da hegemonia São Paulo - Minas Gerais no governo; e (c) a ascensão de um novo grupo político ao poder, com diretrizes doutrinárias de ação mais amplas e pró-ativas do que as do grupo anterior.

Nesse contexto, a industrialização deu-se por meio da combinação de: (a) ganhos das exportações e das importações; e (b) substituição das importações, de acordo com um sistema cambial de tarifas múltiplas e restrições aduaneiras. O resultado foi o fortalecimento do setor industrial no país, que cresceria a taxas definíveis em ciclos, como pode-se ver no Gráfico 2.1.5:

GRÁFICO 2.1.5.BRASIL: PRODUTO INDUSTRIAL