Plano da Dissertação
TABELA 1.2.1 BRASIL, POPULAÇÃO RURAL E URBANA, 1940
1950 1960 1970
População % População % População % POPULAÇÃO RURAL 33.161.506 63,8% 38.767.423 55,3% 41.054.053 44,1% POPULAÇÃO URBANA 18.782.891 36,2% 31.303.034 44,7% 52.084.984 55,9% TOTAL 51.944.397 100,0% 70.070.457 100,0% 93.139.037 100,0% Fonte: IBGE, Estatísticas Históricas, pp. 34-6
Os efeitos demográficos, físicos e econômicos no espaço geográfico brasileiro são, em grande parte, objeto de consenso entre os estudiosos. As migrações, deflagradas pela crise do meio rural, e pelo crescimento econômico das zonas urbanas, causaram a concentração urbana, gerando bolsões de precariedade, os quais somente parecem ter representado um problema do âmbito do Estado à medida que geravam deseconomias de escala para o interesse do capital.
Desde o último quartel do século XIX, o processo de urbanização tem sido rápido e intenso, mas foi a partir do segundo quartel do século XX que a escala da urbanização começou a suscitar iniciativas da parte do Estado e modificações na administração pública. Um dos resultados nesse sentido foi o surgimento de novas atividades governamentais que tinham como função tratar das novas entidades que estavam surgindo, as aglomerações urbanas. Incorporava se, então, a necessidade de ação direcionada e sistemática do poder público, o que resultaria em um, posteriormente, nas primeiras tentativas de planejamento. O surgimento deste, e particularmente dos primórdios de iniciativas de planejamento urbano, deu-se no Estado Novo (1937-1945), fase da história política brasileira que marca a consolidação da preeminência da "cidade sobre o campo78".
Duas décadas mais tarde, os planos urbanísticos e atividade de planejamento no Brasil parecia um caminhar para seu auge. Entre o final da década de 1950 e o início do decênio seguinte, as iniciativas de planejamento urbano receberam, segundo Deak e Schiffer, um duplo estímulo, que se dava:
"(...) no plano das idéias, a produção efervescente da reconstrução pós-guerra, principalmente na Europa; e, no plano material, o reconhecimento governamental de que o processo de rápida urbanização em curso, era definitivamente
uma das transformações fundamentais da sociedade brasileira e requeria intervenção estatal, consagrando plenamente o que se denominou planejamento urbano.79"
As primeiras iniciativas de planejamento urbano deram-se nos principais centros econômicos e industriais do país, entre meados das décadas de 1950 e 1960. A expansão industrial de São Paulo, observada particularmente a partir de 1955, mas já indicada dez anos antes pelo crescimento de atividades industriais e cidades vizinhas à capital, justificava a extensão das iniciativas de planejamento urbano, fosse no estreito limite das cidades, fosse adotando uma perspectiva regional. A cultura de planejamento, já introduzida em órgãos federais, era estendida a Estados e Municípios. Órgãos como o DASP80 cumpriam a função de capacitar recursos humanos nas administrações públicas
locais, e entidades constituídas pelo Governo para a promoção do desenvolvimento urbano, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), condicionavam a liberação de recursos à elaboração e apresentação de projetos.
O regime instaurado a partir do golpe militar de 1964 estendeu as iniciativas de planejamento urbano à responsabilidade dos Estados e Municípios. Ainda incipientes para a execução e mesmo formulação de políticas de planejamento, Estados e Municípios eram colocados frente a exigência de apresentação de planejamentos dados em certos moldes. Assim, Municípios eram submetidos à obrigatoriedade da apresentação de planos de desenvolvimento integrado, os chamados PDIs. Expunha-se, então, a seguinte escolha às administrações municipais: elaborar planos fazendo uso da criatividade orçamentária e estatística, posta a incipiência da estrutura de planejamento destas; ou não apresentar os planos, abrindo assim mão das verbas federais e estaduais. Poucos eram então os Municípios capazes de mapear e sistematizar dados com consistência empírica; de fato, tais localidades já se encontravam em avançado momento de desenvolvimento urbano. Apresentava-se, por conseqüência, a opção concentradora e excludente do regime militar para a solução do problema urbano no Brasil.
79 C. Deak e S.R. Schiffer, O processo de urbanização no Brasil, página 13. 80 Citado em parte anterior deste capítulo.
1.2.3. Comentário sobre o foco de análise urbano-regional, sob a óptica do processo de urbanização.
Conforme mencionado na introdução deste trabalho, este se baseia na análise das políticas públicas de um município, em dado contexto histórico.
A utilização do município como ponto de referência para análises que pretendam obter conclusões com generalidade apresenta certas desvantagens. Uma delas parece residir no fato de os municípios serem unidades legalmente definidas, cuja demarcação não leva em conta critérios de independência funcional. Em outras palavras, o grau de interdependência pode ser bastante elevado entre determinados municípios, não se justificando sua separação para determinados fins analíticos. Como exemplo deste suposto problema, tem-se as áreas metropolitanas, caracterizadas pela polarização em um município central. No caso deste trabalho, a pergunta consiste em até que ponto se pode descolar a análise de São Bernardo do Campo dos demais municípios da região do ABC paulista. Agregar os municípios em área metropolitana e distanciar o foco da análise não resolveria o problema, posto que o conceito de “área metropolitana” apenas sintetiza o elevado grau de interdependência observado entre municípios próximos. Embora tal idéia indique corretamente a interligação funcional entre partes que são distintos municípios, e nesse sentido o ABC paulista representa bom exemplo, quando se trata da análise das políticas públicas, elas só apresentam expressividade dentro dos limites do município. Isso não desmerece, nem pré-qualifica, qualquer trabalho futuro que venha a comparar políticas públicas municipais, respeitada essa primeira unidade de análise. Em suma, o que importa é o fenômeno consistente no estudo da política tipificada pela decisão política municipal.
Portanto, uma análise de urbanização e industrialização regional não pode fixar- se em limites de unidade política, abordando áreas comuns e contíguas em que tais processos se dão; mas, por outro lado, a análise de políticas públicas locais, ainda que fortemente influenciadas pelas esferas maiores do poder público, e mesmo por municípios vizinhos, mantêm uma identidade muito próxima da identidade básica político-territorial.