34.2 Conex˜ oes Afins
34.2.4 Gradiente, Divergente e Laplaciano
Vamos agora introduzir as no¸c˜oes muito ´uteis de gradiente, divergente eLaplaciano (ouoperador de Laplace-Beltrami) no contexto de variedades Riemannianas ou Lorentzianas dotadas de uma conex˜ao afim.
Fazemos notar que, para o caso de conex˜oes de Levi-Civita, essas no¸c˜oes podem ser introduzidas com mais elegˆancia e generalidade na teoria das formas diferenciais fazendo uso do chamado mapa dual de Hodge25. Esse ´e o assunto da Se¸c˜ao 35.2.3.1, p´agina 1777. L´a indicaremos inclusive como definir o operador rotacional em variedades, o que n˜ao faremos aqui.
Em contraste, no presente contexto de conex˜oes, podemos definir os operadores divergente e Laplaciano mesmo em variedades com tor¸c˜ao, o que n˜ao ocorre no contexto de formas diferenciais.
O estudante deve notar que as defini¸c˜oes de gradiente, divergente e Laplaciano que apresentaremos adiante s˜ao defini¸c˜oes intr´ınsecas, isto ´e, independentes de cartas locais de coordenadas, ainda que nosso principal objetivo seja obter express˜oes para esses operadores em cartas locais de coordenadas.
• Gradiente
Seja (M, g) uma variedade Riemanniana ou Lorentziana ef :M →R uma fun¸c˜ao diferenci´avel emM assumindo valores nos reais. Recordando, a diferencial def, denotada pordf´e o elemento de X∗(M) definido por26
hdf, Ai = A(f),
para todoA∈X(M), ondeA(f) foi definido em (34.52), p´agina 1684. Assim,df´e um campo de covetores tais que para todo A∈X(M) valehdf, Ai ≡df(A) =Ai ∂f∂xi em uma carta local (e, portanto, em todas, devido `a invariˆancia do lado direito), sendoA=Ai ∂∂xi.
Definimos o gradientedef, denotado por grad (f)∈X(M), por grad (f) := g♯ df
, (34.130)
ou seja, grad (f) ´e definido como o campo vetorial definido emM tal que para todop∈M e todov∈TpM valha g grad (f), v
p = (df)p(v). (34.131)
Em um sistema de coordenadasx1, . . . , xndefinido por uma carta local empem quev=vk ∂x∂k
p(usando a conven¸c˜ao de soma de Einstein) e grad (f)p= grad (f)p
k ∂
∂xk
p, teremos (df)p(v) = ∂x∂fk(p)vkeg(grad (f), v)p= grad (f)p
i
vjgij(p).
Assim, (34.131) se escreve na forma
g grad (f), v
p = grad (f)pi
vjgij(p) = ∂f
∂xj(p)vj , (34.132)
implicando que grad (f)p
i
gij(p) = ∂x∂fj
ppara todo j e, portanto, que grad (f)pi
= gij(p) ∂f
∂xj
p
(34.133) para todo i. Assim,
grad (f)p =
gkj ∂f
∂xj
p
∂
∂xk
p
. (34.134)
25William Vallance Douglas Hodge (1903–1975).
26A aplica¸c˜aodf foi tamb´em definida em (33.53), p´agina 1635, como opushforwardde fun¸c˜oes reais definidas emM, mais precisamente, como a aplica¸c˜ao diferencial associada a uma fun¸c˜aof:M→Rde classeC∞.
Observe-se que, para um campo vetorialA∈X(M), (34.132) afirma que g grad (f), A
= A(f). (34.135)
Por raz˜oes facilmente compreens´ıveis, o gradiente def ´e frequentemente denotado por∇if ou por∂if.
• Divergente
Seja ∇uma conex˜ao afim eA∈X(M) e considere-se o tensorKA:X(M)→X(M) definido por
KA(B) := ∇BA , (34.136)
paraB∈X(M). Definimos odivergente deA(segundo∇) como sendo o tra¸co da aplica¸c˜ao definida porKA: div (A) := Tr KA
. (34.137)
(A no¸c˜ao de tra¸co encontra-se definida `a p´agina 1628). Pela considera¸c˜oes que fizemos quando da defini¸c˜ao da no¸c˜ao de tra¸co, conclu´ımos que div (A) ´e invariante por mudan¸ca de coordenadas.
E interessante e ´´ util expressarmosKAe div (A) em coordenadas locais. Escrevendo KA
∂
∂xi
= KAk i
∂
∂xk teremos,
KAb i
∂
∂xb = KA ∂
∂xi
= ∇ ∂
∂xiA = ∂Ak
∂xi + ΓkijAj ∂
∂xk KAk
i = ∂Ak
∂xi + ΓkijAj e, por (33.33), teremos div (A) = Tr KA(33.33)
= KAi
i=∂A∂xii+ΓiijAj=Ai;i= (∇iA)i. Em particular, em coordenadas locais e para uma conex˜ao afim geral, vemos que
div (A) = ∂Ai
∂xi + ΓiijAj. (34.138)
O estudante facilmente apercebe-se que no caso da variedadeRncom a conex˜ao plana usual tem-se para coordenadas Cartesianas div (A) =∂A∂xii, que ´e a defini¸c˜ao usual de divergente de um campo vetorial.
Por raz˜oes facilmente compreens´ıveis, o divergente deA´e frequentemente denotado por∇jAj ou porAj;j.
Se ∇ for uma conex˜ao m´etrica e sim´etrica (ou seja, uma conex˜ao de Levi-Civita), ent˜ao podemos usar (34.114) e escrever
div (A) = ∂Ai
∂xi + ΓiijAj = ∂Ai
∂xi + 1
2g
∂g
∂xj
Aj e, portanto,
div (A) = 1 p|g|
∂
∂xj Ajp
|g|
. (34.139)
• Laplaciano (ou operador de Laplace-Beltrami)
Seja f :M →Ruma fun¸c˜ao duas vezes diferenci´avel emM assumindo valores nos reais. Definimos oLaplaciano de f, denotado por ∆(f), por
∆(f) := div grad (f) .
O Laplaciano mapeia fun¸c˜oes infinitamente diferenci´aveis deM em fun¸c˜oes infinitamente diferenci´aveis deM e, por isso, podemos falar de um operador Laplaciano. No contexto de Geometrias Riemannianas ou Lorentzianas e na Geometria de superf´ıcies, o operador Laplaciano ´e frequentemente denominadooperador de Laplace27-Beltrami28.
27Pierre-Simon Laplace (1749–1827).
28Eugenio Beltrami (1835–1899).
Em coordenadas locais e para uma conex˜ao afim geral, teremos por (34.138) e (34.133),
O estudante facilmente apercebe-se que no caso da variedade Rn com o tensor m´etrico Riemanniano usual e a conex˜ao plana usual tem-se para coordenadas Cartesianas ∆(f) = Pn
i=1
∂2f
∂xi2, que ´e a defini¸c˜ao usual de Laplaciano de uma fun¸c˜ao escalar.
Por raz˜oes facilmente compreens´ıveis, o Laplaciano def ´e frequentemente denotado por ∇i∇if.
Se ∇ for uma conex˜ao m´etrica e sim´etrica (ou seja, uma conex˜ao de Levi-Civita), ent˜ao podemos usar (34.139), e escrever
Essa rela¸c˜ao pode ser usada mesmo no caso plano deRn para expressar o Laplaciano em coordenadas gerais. Vide Se¸c˜ao 4.3, p´agina 266.
E. 34.22 Exerc´ıcio. Usando (34.115), mostre que, no caso de uma conex˜ao de Levi-Civita, (34.140) pode ser reescrita como
∆(f) = gij
E. 34.23 Exerc´ıcio. Mostre que para uma conex˜ao m´etrica geral tem-se
div (A) = 1
Ksendo o tensor de contor¸c˜ao, e
∆(f) = 1
Sugest˜ao: Basta usar (34.111) e os resultados (34.139) e (34.141). 6
* *** *
As rela¸c˜oes (34.133), (34.139) e (34.141) s˜ao muito ´uteis, podendo mesmo ser usadas nas variedades planasRn, com o tensor m´etrico Riemanniano usual, para expressar o gradiente, o divergente e o Laplaciano em coordenadas outras que n˜ao as Cartesianas, tal como fizemos em diversos problemas do Cap´ıtulo 42, p´agina 2259, e alhures. Para tal, emprega-se as express˜oes de (34.28), que apresentam as componentes do tensor m´etrico Riemanniano (covariante e contravariante) em sistemas de coordenadas gerais em Rn. Nesse caso, como comentamos no Exerc´ıcio E. 34.2, p´agina 1679, podemos usar o fato queg= det(J)2
, ondeJ ´e a matriz dada em (34.29). Vide tamb´em a Se¸c˜ao 4.3, p´agina 266, para a forma expl´ıcita do operador Laplaciano em alguns sistemas de coordenadas de interesse emR2eR3.
Em certos livros-texto de F´ısica-Matem´atica, como [283] e [15], o estudante pode encontrar tais express˜oes para os operadores gradiente, divergente e Laplaciano em diversos sistemas de coordenadas de interesse f´ısico em R2 e em R3. Essas referˆencias [283] e [15] obt´em (34.133), (34.139) e (34.141) por meios mais pedestres e com menos generalidade.
Como j´a dissemos acima, as diversas express˜oes que encontramos podem ser obtidas com mais elegˆancia e generalidade atrav´es do uso de formas diferenciais. Vide Se¸c˜ao 35.2.3.1, p´agina 1777.
• A conex˜ao de Levi-Civita, o gradiente e um operador sim´etrico
A proposi¸c˜ao a seguir ´e relevante em diversos contextos. Iremos us´a-la na an´alise da identidade de Raychaudhuri, na Se¸c˜ao 34.6.1, p´agina 1742.
Proposi¸c˜ao 34.5 Seja∇uma conex˜ao de Levi-Civita e sejaf :M →R´e uma fun¸c˜ao ao menos duas vezes diferenci´avel.
Seja Lf :X(M)→X(M)o tensor de tipo (1, 1)definido por
Lf(B) := Kgradf(B) = ∇Bgrad (f),
comB ∈X(M). Ent˜ao,Lf ´e um tensor g-sim´etrico (vide defini¸c˜ao `a p´agina 1681), ou seja, Lf†
=Lf e, pois vale g B, Lf(C)
= g Lf(B), C
(34.146) para todos B, C∈X(M), ou seja,
g
B, ∇Cgrad (f)
= g
C, ∇Bgrad (f) . As componentes de Lf em um sistema local de coordenadas, s˜ao dadas por
(Lf)li = ∂
∂xi
gla ∂f
∂xa
+ Γlijgja ∂f
∂xa . (34.147)
e (34.146) significa que (Lf)ij= (Lf)ji, ou ainda que(Lf)ij = (Lf)ji. 2
Prova. De (34.117) segue facilmente que g
C, ∇BA
−g
B, ∇CA
= B
g C, A
−C
g B, A
−g [B, C], A para todos A, B, C∈X(M) (verifique!). TomandoA= grad (f), teremos por (34.135)
g
C, ∇Bgrad (f)
−g
B, ∇Cgrad (f)
= B
g C, grad (f)
−C
g B, grad (f)
−g [B, C], grad (f)
(34.135)
= B C(f)
−C B(f)
−[B, C](f) = 0. Isso provou (34.146). Em um sistema local de coordenadas, escrevemos
Lf(B) = (Lf)(B)l ∂
∂xl = (Lf)liBi ∂
∂xl = Bi∇igrad (f) = Bi ∂
∂xigrad (f)l+ Γlijgrad (f)j ∂
∂xl , de modo que
(Lf)li = ∂
∂xigrad (f)l+ Γlijgrad (f)j = ∂
∂xi
gla ∂f
∂xa
+ Γlijgja ∂f
∂xa .
A rela¸c˜ao de simetria (34.146) significagikBi(Lf)kjCj = glj(Lf)liBiCj, ou seja, gik(Lf)kj = glj(Lf)li, que significa (Lf)ij = (Lf)ji, ou ainda, (Lf)ij = (Lf)ji.
Observe-se que Tr(Lf) = (Lf)i
i= (Lf)ii(34.140)= ∆(f).