Fonte: Objetos, por Yasmin Bacchi.
“Janaína Trasel Martins34
possui um trecho que embasa essa ideia”, disse a Menina, abrindo um texto encadernado e lendo em voz alta:
A fim de ampliar os sentidos sinestésicos (…) sobre o tema das águas, trabalhamos sobre a execução das ações corpóreas com objetos cênicos, tais como bacias, guarda-chuvas, vasos/moringas de barro, chocalhos, pau-de-chuva. Com os objetos cênicos o foco de atenção estava na execução dos movimentos em relação com a materialidade física do objeto, as texturas, o peso, as sonoridades e as relações destas potências gestuais e sonoras com as sensações e o imaginário corporal que
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Doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, fonoaudióloga e professora brasileira. Figura 15 - Gramado de Parafernalhas
dali surgia. Assim, os sentidos dos movimentos corpóreos iam surgindo em suas dimensões físicas, afetivas, intuitivas, perceptivas e criativas durante as execuções das ações (MARTINS, 2014, p. 3-4).
“Ao discorrer sobre o processo de criação do espetáculo Flor das Águas, Martins compartilha a prática de investigação corpóreo-vocal que propôs ao elenco para que
expandissem o aspecto sinestésico do trabalho: os atores exploraram a interação com diversos
objetos relacionados ao tema do espetáculo, investigando suas movimentações, gestualidades e sonoridades em relação à textura, peso, materialidade e outros aspectos dos objetos”, concluiu a Menina.
“A autora compreende a sinestesia como um estado possível de ser alcançado, objetivamente buscado pelos atores a partir da interação de seus corpos-matéria e corpos- memória, e, consequentemente, suas vozes e palavras faladas, com objetos diversos. Embasando-nos nela, retiramos a busca da sinestesia mediante a interação com os elementos do espaço do âmbito imagético e subjetivo e a situamos no âmbito concreto, literal, objetivo:
as sensações geradas pelo contato físico entre atores e objetos podem vir a desencadear estados de percepção sinestésicos em cada um deles, de modo que seja possível exprimi-los em suas palavras faladas, reverberando-as pelo espaço e preenchendo-o com sensações sonoras sinestésicas”, concluiu o Menino Elegante.
“Em suma, o objetivo dessa proposição é a intervenção sonora no espaço de modo a
transformar sua atmosfera a partir das qualidades poéticas e sinestésicas da voz e suas palavras faladas”, elaborou o Menino Sujo, lendo em voz alta: “„A preparação vocal do ator
se faz levando em conta que sua voz é capaz de modificar o ambiente (…)‟ (AGUILAR, 2008, p. 48)”.
Após alguns instantes de reflexão, os três jovens atores levantaram-se e passaram a percorrer as montanhas de objetos que se erguiam ao redor deles, observando atentamente cada um deles no intuito de encontrar algum que lhes chamasse a atenção. Após alguns minutos de procura, o Menino Elegante apropriou-se de um balde, a Menina apanhou um saco de lixo, e o Menino Sujo afeiçoou-se por um rolo de papel-alumínio.
Em seguida, impulsionados pelo relato de Martins (2014), passaram a interagir com seus objetos, investigando: a manipulação de cada um deles em diferentes velocidades e intensidades; as sensações e estados corpóreo-vocais que o contato entre a pele e suas texturas geravam em seus corpos-matéria (arrepios, calafrios, rigidez, suavidade, agressividade, leveza, entre outros) e corpos-memória (imagens, lembranças, afetos, estados emocionais,
entre outros); as possibilidades de entrecruzamentos entre diferentes qualidades de movimento e energia e o peso e o manusear de cada um (tanto pelas mãos quanto por diferentes partes do corpo), entre outras vivências e experimentações que surgiram a partir da junção das anteriores.
Por fim, cada um dos jovens atores escolheu uma palavra de preferência e passou a investigar a sonoridade de cada sílaba, situando o objeto como ressonador, ou seja, posicionando-o frente ao rosto, em contato com os lábios, em diferentes pontos do espaço (longe, perto, no plano alto, no plano baixo, no plano médio) e de outras maneiras que brotaram em suas mentes no momento da investigação. Após experimentarem a sonoridade de cada sílaba separadamente, uniram-nas e passaram a investigar a palavra enquanto unidade, ressoando-a na busca de desvencilhar possíveis sentidos que ramificassem o seu sentido comum. Após esta investigação, escolheram uma frase, encaixando nela a palavra que estavam trabalhando, e realizaram a mesma investigação com a frase completa, experimentando, assim, a palavra enquanto coletivo – sempre a partir do que os seus corpos- matéria e corpos-memória estavam a impulsionar.
A última etapa da investigação foi observar como a frase ressoava pelo espaço após a junção de todos os procedimentos anteriores, buscando ouvir com atenção a maneira como ela reverberava ao longo do espaço impulsionada e contaminada pelo objeto e suas características, o modo como elas soavam em questões de sonoridades e sentidos em comparação a como soavam no início e se havia diferença e, caso houvesse, se estava audível, entre outros procedimentos.
Após dezenas de minutos em experimentação corpóreo-vocal, os três jovens atores concluíram, apanharam seus cadernos e canetas e anotaram tudo o que havia sido descoberto na investigação da intervenção sonora no espaço de modo a transformar sua atmosfera a
partir das qualidades poéticas e sinestésicas da voz e suas palavras faladas, possivelmente desencadeadas pelas sensações e estados gerados nos corpos-matéria e corpos-memória através do contato físico com objetos diversos, tornando possível exprimi-los em suas palavras faladas, reverberando-as pelo espaço e inundando-o com sensações sonoras sinestésicas.
“A imagem que veio em minha mente após esta prática, pensando em meios de torná- la mais clara, foi esta”, compartilhou o Menino Sujo:
Figura 16 - Objetos, Palavra Falada e o Espaço I, por Menino Sujo (Kevin Balieiro
A Menina e o Menino Elegante elogiaram o desenho do amigo e seguiram em frente. “Acredito que agora devemos pensar nos meios de propagação e reverberação da voz e suas
palavras faladas pelo espaço visando sua inundação e preenchimento. Acredito que temos
dois pontos principais a serem considerados no que diz respeito à inundação e preenchimento do espaço: o alcance do público e a certeza da reverberação da voz e suas palavras pelo
espaço de modo a preenchê-lo”, refletiu a Menina.