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1.1 A sala de pedra

1.1.1 Sinestesicamente Falando

Fonte: Sinestesia, por Yasmin Bacchi.

“Sérgio Basbaum (1999) tece uma extensa e detalhada trajetória histórica do fenômeno

sinestésico em sua Dissertação de Mestrado, realizada na Pontifícia Universidade Católica de

São Paulo, intitulada Fundamentos da Cromossonia – Sinestesia, Arte e Tecnologia. Lerei um trecho resumido”, prosseguiu o Menino Sujo, lendo:

(…) diferentes autores apontam o surgimento de reflexões relacionadas ao tema – sobretudo à associação ou correspondência de cores e sons – através de inúmeros pensadores, cientistas ou artistas ao longo dos últimos 2.600 anos. Uma lista compacta desses nomes poderia incluir, ainda na Grécia Antiga, Aristóteles (séc. IV AC.), que formulou pela primeira vez a ideia de uma correspondência entre as cores e as notas da escala musical (…). (…) É somente, porém, em 1710, que o oftalmologista inglês T. Woolhouse expõe pela primeira vez um caso médico de

sinestesia som-cor do ponto de vista médico-neurológico (…). Trata-se de uma experiência de caráter pessoal, subjetivo, onde o indivíduo tem uma sensação vinculada a determinado sentido (e.g. visão) provocada por um estímulo dirigido a um sentido diverso (e.g. som). (…) A partir do século XIX, a questão da sinestesia

começa a surgir com um volume mais expressivo nos campos da arte e da ciência. Segundo Cytowix (1996), (…) „o século XIX assistiu a um entusiasmo alquímico na busca por correspondências universais e um possível algoritmo para a tradução de uma determinada sensação em outra.‟ (…) Segundo Cytowic, no período entre 1860 e 1930, a sinestesia „atraiu a atenção na arte, na música, na literatura, na linguística, na filosofia natural e na teosofia‟. É como se a questão tivesse sido definitivamente descoberta. Na área da psicologia, ao menos dois livros buscando resumir os conhecimentos (então) correntes sobre a „audição-colorida‟ foram publicados dentro do período, e o número de referências bibliográficas apresentados é sintomático (…). O tópico adquiriu tal relevo no período que até mesmo uma comissão foi destacada no Congresso Internacional de Psicologia Fisiológica em 1890, com o objetivo de estabelecer uma terminologia padrão para dirigir os estudos no campo. (…) muito embora seja compreensível o grande ceticismo havido em relação à Figura 4 - Sinestesicamente Falando

realidade ou não do fenômeno sinestesia, dado seu caráter subjetivo, é curioso notar que (…), outros fenômenos psiquiátricos „legítimos‟ – como alucinações e ilusões – foram trabalhados sobre dados obtidos em relatos subjetivos. (…) O estudo do fenômeno sinestesia tem chamado a atenção novamente de cientistas de diversas áreas por aquilo que pode revelar em termos da relação entre conhecimento objetivo / conhecimento subjetivo, sobre os mecanismos perceptivos e cognitivos do ser humano e sobre modelos de funcionamento do cérebro (…) (BASBAUM, 1999, p. 4-9).

“Então o fenômeno da sinestesia está registrada no histórico da humanidade ao longo dos últimos dois mil e seiscentos anos, havendo percorrido diversas áreas do conhecimento, como a Psicologia, Música, Literatura, Linguística e Filosofia, no entanto, a disseminação de suas teorizações é extremamente limitada, afinal, ouvimos muitas pessoas atribuindo o teor

sinestésico a determinadas coisas, mas raramente as ouvimos explicando a que este teor diz

respeito”, refletiu a Menina. “Por essa razão, Basbaum elaborou esse trabalho, buscando esclarecer essas dúvidas. Segundo ele, a sinestesia é um estado de percepção singular no qual uma modalidade sensorial dispara outra – ou outras – (visão ou olfato, por exemplo) através de um estímulo externo: uma experiência, uma relação, uma lembrança, uma obra artística, entre outros”, prosseguiu o Menino Sujo, lendo:

A percepção pode ser tipicamente descrita em termos de modalidades sensoriais. Dependendo do autor, as modalidades perceptivas podem incluir desde os populares sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) às sensações cognitivas menos citadas fora da literatura especializada, como a percepção de espaço, temperatura (Day, 1996), ou propriocepção (Cytowic). O conceito clássico de modalidade

sensorial é uma tripla relação entre algum objeto físico, um órgão receptor e uma fenomenologia consciente (Grossenbacher, 1997). O cruzamento e comparação entre

as dimensões das diferentes modalidades perceptivas é o que permite construir uma representação consistente, eficiente, da realidade. Assim, por exemplo, se ouvimosum ruído brilhante e agudo, com um forte ataque (e outras características), logo deduzimos que se trata de um copo de vidro ou de um talher (…). (…) A ideia de sinestesia nos leva a refletir de maneira particular sobre a percepção. As diferentes modalidades perceptivas do ser humano estão inter-relacionadas por uma série de fatores, e, do diálogo entre estas modalidades, depende, por exemplo, a construção de uma representação consciente da realidade, indispensável à sobrevivência. As diversas modalidades perceptivas parecem partilhar de algumas dimensões comuns, permitindo que os perceptos de uma modalidade possam ser descritos nos termos de outra. (BASBAUM, 1999, p. 32-36)

“Ora, então somos todos sinestetas”, concluiu a Menina. “De acordo com estes apontamentos feitos por Basbaum, de fato, somos. Realizamos intercruzamentos entre nossas modalidades sensoriais a todo instante de modo inconsciente e involuntário para compreendermos determinadas situações que acontecem ao nosso redor, ou simplesmente como reações naturais, por exemplo, sons específicos que ocasionam arrepios em todo o nosso corpo, levando-nos a contorcê-lo, os chamados sons que dão aflição, gastura ou

agonia. No meu caso, seria o som de unhas arranhando quadros-negros. Lembro de uma

amiga que gritava, literalmente, ao ouvir o som de panos sendo rasgados. O intercruzamento entre as modalidades sensoriais da audição e tato é visivelmente claro, interessantemente involuntário e, de acordo com as definições trazidas por Basbaum, conforme lemos, atestadamente sinestésico”, concluiu o Menino Sujo.

“O que torna a sinestesia fascinante, complexa e controversa, no entanto, são dois fatores que vão na direção oposta do seu teor natural e involuntário: a voluntariedade

consciente de realizar os intercruzamentos entre as modalidades sensoriais e o sucesso desta tentativa e a literalidade de suas manifestações”, concluiu o Menino Sujo, prosseguindo na

leitura: „(…) a) um ponto de vista neurológico (…); b) um ponto de vista artístico; c)

depoimentos subjetivos da experiência sinestésica (…)‟” (BASBAUM, 1999, p. 9-10).

“Estes são os três pontos de vista principais delimitados por Basbaum (1999) para delinear as ocorrências da sinestesia que a definem enquanto um fenômeno singular de percepção: sob o ponto de vista neurológico, Basbaum (1999) situa-a como uma condição patológica encontrada na região cerebral de determinadas pessoas, denominadas sinestetas, levando-as a naturalmente experimentarem estados sinestésicos de percepção de modo literal, nos quais seria possível enxergar literalmente uma cor ou uma imagem ao ouvir determinado som ou sentir determinado cheiro. Na ótica artística, a sinestesia é compreendida como a

tentativa voluntária e consciente de um artista de intercruzar as modalidades sensoriais dos

espectadores, realizada por intermédio da própria obra: por exemplo, nas artes plásticas, o fenômeno sinestésico poderia ser explorado pelo artista através de uma exposição de suas pinturas, na qual cada obra teria uma caixa de som posicionada ao seu lado, ressoando canções ou efeitos sonoros relacionados à sensação almejada a ser disparada no espectador, buscando, assim, intercruzar as modalidades sensoriais da visão e audição. No entanto, Basbaum enfatiza que”, explicou e prosseguiu o Menino Sujo:

(…) podemos afirmar com certeza que nenhum destes espetáculos foi deliberadamente sinestésico no sentido de um equilíbrio e uma interação distribuída dos estímulos aos sentidos. Em cada um deles, o que ocorre é o uso de música, ou da cor, ou mesmo da luz, para enfatizar as características de um modo de expressão

dominante (BASBAUM, 1999, p. 41).

“Ou seja, ele exclui a possibilidade de uma obra artística vir a disparar a sinestesia, situando-a sempre como uma tentativa e afirmando que nenhuma destas tentativas foi bem- sucedida, com certeza, o que me é bastante curioso, afinal, ele somente poderia fazer tal

afirmação caso houvesse habitado o interno e pessoal de todos os espectadores que presenciaram todas as obras artísticas realizadas na história da humanidade. Como ele poderia saber se nenhuma obra artística foi jamais bem-sucedida em configurar-se enquanto sinestésica de modo contrário?”, questionou a Menina.

“Independentemente da exclusão, tentamos ocasionar o fenômeno sinestésico por meio das obras de arte constantemente, especialmente no teatro, seja consciente e voluntária ou inconsciente e involuntariamente: trilhas sonoras compostas por arranjos de cordas ou pianos melancólicos ao fundo de cenas dramáticas, no intuito de levar os espectadores às lágrimas, intercruzando as modalidades sensoriais da audição e tato, ou momentos de escuridão total nos quais os atores aproximam-se do público, tocando-os ou sussurrando em seus ouvidos, intercruzando a visão, audição e tato, entre outros”, elaborou o Menino Elegante.

“Basbaum salienta este ponto em seu texto”, continuou o Menino Sujo:

O caráter sinestésico dos espetáculos data de tempos imemoriais. Abraham et al (1996) considera, por exemplo, que a chamada música visual já era parte dos ritos religiosos dos homens das cavernas na Europa epipaleolítica. No século XVII, Leonardo da Vinci realizou verdadeiros espetáculos multimídia para as cortes italianas (…). Na Europa moderna, o apelo aos vários sentidos é parte integrante de toda uma produção artística, seja no uso de cenários nas óperas, seja no uso de música no melodrama europeu, seja nos espetáculos de circo ou variedade (BASBAUM, 1999, p. 40-41).

“Basbaum não se atém ao teatro, abordando a obra artística em seu contexto geral, exemplificando as tentativas das diferentes linguagens de desencadearem a sinestesia através de suas obras, datando desde nossos tempos como homens das cavernas. No entanto, a afirmação permanece: nenhuma delas foi bem-sucedida, jamais, inclusive a dos homens das cavernas”, ironizou o Menino Sujo. “Por fim, o terceiro ponto de vista é atrelado ao primeiro, no qual as elaborações acerca da sinestesia são registradas diretamente a partir de depoimentos das pessoas que, supostamente, a vivenciaram, incluindo aquelas que fizeram uso de drogas psicoativas para tal”, finalizou ele.

“Contudo, proponho que encaremos a sinestesia de modo diferente às proposições que Basbaum (1999) nos lança, especialmente à afirmação de que obras de arte são incapazes de serem deliberadamente sinestésicas: pensando de modo menos restrito, menos literal, menos

científico, proponho a compreensão da sinestesia como um estado subjetivo e interno de multiplicidade sensorial passível de ser disparado em qualquer pessoa. Desse modo,

neurológico das modalidades sensoriais, a uma concepção mais abrangente, tendo em vista a profusão dos aspectos sensíveis, subjetivos, imagéticos, memoriais e, também, possivelmente, das modalidades sensoriais. Portanto, além da visão, audição, olfato, tato e paladar, teríamos o desencadeamento simultâneo de lembranças, imagens, vivências, receios, arrepios, traumas, sonhos, alegrias, lágrimas, sons, cheiros, entre outras variadas sensações, situando o estado de percepção sinestésico em um local mais acessível, interno, pessoal, subjetivo e inerentemente humano. O próprio Basbaum afirma que: „(…) quanto à natureza da percepção sinestésica. Num primeiro nível, a sinestesia é um modo cognitivo de sensação, não-racional, largamente

subjetivo (1999, p. 147)‟”, concluiu o Menino Sujo.

“Dessa maneira, não há necessidade de enxergar literalmente uma cor ao ouvir um som para que uma pessoa venha a vivenciar o estado sinestésico de percepção, basta que quaisquer latências sensoriais, tanto da ordem neurológica, quanto da ordem subjetiva e pessoal, entrem em profusão e sejam entrecruzadas”, compreendeu a Menina. “E, assim, toda e qualquer obra de arte é passível de disparar a sinestesia em seus espectadores e também em seus próprios artistas, uma vez que esse desencadeamento de subjetividades, memórias e sensações corpóreas é uma de suas possíveis reverberações, quando trabalhadas aprofundada, complexa e sensivelmente”, concluiu ela.

“Ao pensar na voz e na palavra falada em específico, a sinestesia seria um estado que transforma a sonoridade cotidiana das palavras em sonoridades corpóreas, imagéticas, lacrimosas, risonhas, enfurecedoras e derivadoras de diversas outras emoções e sensações, mediante a sua profusão múltipla”, elaborou o Menino Elegante, engajando-se na proposta lançada pelo jovem ator e apanhando um livro rapidamente. “Constantin Stanislavski26

também menciona a sinestesia”, afirmou o jovem ator, lendo o seguinte trecho:

Em cena, a função da palavra é a de despertar toda sorte de sentimentos, desejos, pensamentos, imagens interiores, sensações visuais, auditivas e outras, no ator, em seus comparsas e – por intermédio deles, conjuntamente – no público (STANISLAVSKI, 1994, p. 119).

“Além de mencionar o fenômeno sinestésico, ao discorrer sobre o afloramento simultâneo de sentimentos, pensamentos, imagens, desejos, imagens, sons, entre outros, ele afirma que a palavra na cena deveria ser a responsável por seu desencadeamento, tanto nos atores quanto no público”, disse ele. “Se encararmos a sinestesia de modo interno, sutil,

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subjetivo e pessoal, na contramão de suas definições neurológicas e excludentes, podemos compreendê-la como a qualidade poética da voz e suas palavras faladas, bem como do corpo, da qual temos falado desde o início!”, concluiu o jovem ator. Assim sendo, os três jovens passaram a encarar a qualidade sinestésica da voz, da palavra falada, e agora, do corpo, como o principal objeto de seus desejos.

“O pensamento acerca do espaço também é extremamente pertinente. Como poderíamos pensar o espaço em um estado de profusão sinestésica?”, indagou o Menino Sujo. A Menina apanhou um dos textos encadernados espalhados pelo gramado e leu em voz alta: “„O espaço cênico (…) é literalmente um campo de criação, o espaço neutro para ser preenchido com respirações, estados, imagens internas, sensações, gestos e vocalidades (…) (CASTRO, 2012, p. 41)‟”.

Ao ouvir isso, o Menino Elegante visivelmente lembrou-se de algo, apanhou um livro e compartilhou com os outros dois:

e gestos são lançados, gastos, materiais, entregues, espetaculares, frontais. O ator fala numa luta de cores. (…) As palavras se derramam como matéria, fazem manchas vermelhas, amarelas, azuis. Uma frase se inventa invertendo-se, como o pintor vira seu quadro e continua no outro sentido. O espaço vai pra dentro da linguagem (NOVARINA, 2003, p. 38).

“Ambos os autores apresentam um denominador em comum: a ideia do preenchimento do espaço pelo ator. Enquanto Castro (2012) aborda este preenchimento de modo objetivo, refletindo acerca a propagação dos aspectos do corpo, compreendido enquanto memória e matéria, Novarina (2003) reflete metaforicamente, discorrendo sobre o derramamento de palavras faladas de um ator como cores derramadas sobre a tela de um pintor”, esclareceu o Menino Elegante.

“Poderíamos pensar em uma possível junção de ambas as perspectivas dos autores: a

inundação do espaço pelas sensações, imagens e sensibilidades evocadas da memória do ator,

materializadas pela emissão vocal, respiração, energia e gestualidade, através das sonoridades e sentidos de suas palavras faladas, de modo a preencher e inundar o espaço com diferentes tonalidades, emoções, cores, vibrações e energias, possivelmente desencadeando estados sinestésicos de percepção em todos os presentes por intermédio da contaminação por este fluido sensível que paira transbordando por todo o espaço”, propôs o Menino Sujo.

“Gil (2004) também discorre sobre a contaminação entre espaço e artista”, disse a Menina, com um livro em mãos:

Embora invisíveis, o espaço, o ar adquirem texturas diversas. Tornam-se densos ou tênues, tonificantes ou irrespiráveis. Como se recobrissem as coisas com um invólucro semelhante à pele: o espaço do corpo é a pele que se prolonga no espaço, a pele tornada espaço (GIL, 2004, p. 45).

“Portanto, poderíamos pensar neste prolongamento trazido por Gil (2004) como o

prolongamento do corpo do ator, compreendido enquanto matéria e memória, pelo espaço,

em vista da qualidade poética que se deseja atribuir a ele, oriunda das memórias provenientes das experiências vividas pelo ator, materializadas por sua voz”, concluiu a Menina.

Em um suspiro de alívio, os três jovens atores chegaram à conclusão de que haviam discorrido sobre o que julgavam necessário para proceder na busca pela qualidade sinestésica sonora da voz e suas palavras faladas: a palavra enquanto unidade, o texto, o corpo e o espaço. No entanto, eles não haviam chegado a nenhum tipo de proposição prática que pudesse aproximar de modo objetivo a noção da sinestesia ao trabalho corpóreo-vocal sobre a palavra falada em consonância ao corpo, texto e espaço. Foi então que a imagem da matrioska presentificou-se na mente do Menino Elegante.