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2. AS DIMENSÕES DO CONTEÚDO NA PERSPECTIVA DE COLL E

3.3. ENTREVISTAS

3.3.6. Grupo Focal

A condução do grupo focal difere da simples realização de uma entrevista com um grupo, de modo que o moderador/pesquisador deve criar condições para que este se situe, explicite pontos de vista, pondere, faça críticas e exponha situações, abrindo perspectivas diante da problemática para o qual foi convidado a conversar coletivamente. Portanto, aqui, a ênfase recai sobre a interação desenvolvida dentro do grupo e não em perguntas e respostas entre o moderador e os membros desse grupo (GATTI, 2012).

Nesse sentido, a seleção dos participantes para compor o grupo focal deve alinhar-se a determinados critérios que devem ser estabelecidos de acordo com as metas da pesquisa, baseando-se em algumas características homogêneas, mas com suficiente variação entre os membros, permitindo, assim, o aparecimento de opiniões diferentes. Esta homogeneidade refere- se a alguma característica comum aos participantes que interesse ao estudo do problema,

qualificando-os para a discussão da questão que será o foco do trabalho interativo e da coleta do material discursivo/expressivo (GATTI, 2012).

A partir desta perspectiva, requisitei ao professor de Educação Física a indicação de alguns alunos da 7ª série28 que tivessem uma participação ativa nas atividades escolares e, em especial, nas aulas desta disciplina. A partir daí, fiz o convite a tais alunos para fazerem parte do grupo focal, seguido por uma breve explicação do que se tratava o estudo, sem procurar entrar em detalhes sobre o tema da discussão, evitando, assim, que eles chegassem no momento da coleta com ideias pré-formadas ou com a sua participação preparada.

Dos seis alunos indicados, apenas um não manifestou muito interesse em compor o grupo focal, enquanto os demais aceitaram de forma animada e imediata. Houve, ainda, um outro aluno que, embora não tenha sido indicado pelo professor, demonstrou interesse em fazer parte deste momento e também foi convidado a se juntar ao grupo. Como essa conversa foi orientada na parte final de uma das aulas de Educação Física, então ficou acertado que o grupo focal seria efetivado somente no momento correspondente à próxima aula da referida disciplina – na semana seguinte. Por fim, foi entregue um termo de consentimento direcionado aos pais ou responsáveis pelos voluntariados, autorizando-os a participarem do referido estudo.

Chegado o dia do grupo focal, os termos supracitados foram recolhidos e, como um dos discentes havia se esquecido de entregá-lo ao seu responsável, ele acabou ficando de fora da sessão. Os demais estudantes foram convidados a me acompanharem até a sala de ciências (única sala vaga naquele momento) para então iniciarmos o trabalho do grupo focal.

Assim, o grupo focal foi realizado com cinco estudantes da 7ª série do ensino fundamental, de ambos os sexos – 3 meninos e 2 meninas –, com idade variando entre 12 a 17 anos29, em uma sessão única, com duração de 1 hora e 30 minutos. Os participantes foram agrupados em forma de círculo, ao redor de uma mesa, encontrando-se face a face com o outro, a fim de favorecer a comunicação entre eles.

As discussões advindas desta interação intragrupal, foram registradas em áudio – por meio de um gravador devidamente centralizado –, e em anotações extras por parte do moderador, destacando alguns comentários, para que, posteriormente, servissem de base na construção de

28 A escolha desta seriação justifica-se por esta turma ser apresentada por diferentes sujeitos escolares (diretora,

pedagoga e professores) como referência e modelo para as demais.

29 Apesar da diferença de idade ente eles, não foi percebido um predomínio na condução da conversa por conta da

novas questões, capazes de permitir a abertura de outros horizontes, outras perspectivas. Além disso, os devidos apontamentos serviram para ressaltar algumas expressões corporais que a gravação de áudio, por motivos óbvios, não conseguiu dar conta.

Conforme aponta Gatti (2012, p. 31):

Os primeiros momentos do grupo focal podem ser a chave do sucesso do trabalho. Assinale-se que, se o moderador for muito informal e cheio de brincadeiras, isso pode levar o grupo a não tomar muito a sério a discussão. Se for excessivamente formal e rígido, distante, pode impedir que o grupo se sinta à vontade para desenvolver as discussões e reprimir a interação entre os participantes.

Assim, logo na abertura do grupo, procurei criar uma atmosfera leve e permissiva, explicitando que aquele momento não representava qualquer tipo de avaliação, na qual eles teriam que oferecer as respostas certas, mas uma oportunidade de exporem suas ideias, opiniões e experiências, as quais teriam o mesmo valor para a pesquisa, não importando se haveria, ou não, uma concordância entre elas.

Após o esclarecimento de determinadas informações preliminares, informando-os do que deles se esperava e da iminente contribuição que este momento poderia trazer não apenas para a referida investigação, como também, para eles próprios, o moderador fez uma breve autoapresentação e, em seguida, solicitou aos demais participantes que fizessem o mesmo, para que, por conseguinte, começassem a ser introduzidas as temáticas de debate pelo grupo.

As discussões foram orientadas a partir de um roteiro semiestruturado, composto pelos seguintes tópicos: Gostos e dissabores (o que gostam e o que não gostam de fazer na escola e nas aulas de Educação Física); Aprendizagens (“o que” e “como” se aprende na escola e, em especial, nas aulas de Educação Física?); Relacionamentos interpessoais (como é o convívio com os colegas, professores e demais profissionais da escola?).

Apesar de apresentar tópicos previamente estabelecidos, o roteiro deste trabalho manteve a flexibilidade necessária para a elaboração de ajustes no decorrer das interações, desde que se mostrassem pertinentes à discussão da questão em foco, criando espaço para a exploração de aspectos não previstos a priori, com vista à concretização do processo interativo do grupo. Aqui, emergiram os seguintes tópicos: Particularidades da Educação Física (o que ela tem que a diferencia das outras disciplinas?); Competências do professor (como deve proceder diante dos

conflitos e situações-problema surgidos nas aulas?); Hora do intervalo (o que pensam sobre este momento? Como poderia ser melhor?).

Em suma, o comportamento do grupo foi muito positivo para os propósitos do trabalho, pois, tal como esperado, houve um rápido engajamento e uma boa contribuição por parte de todos os participantes, ainda que em determinados momentos eles tenham alternado uma maior ou menor participação, minimizando, portanto, a necessidade de intervir na condução dos temas tratados e/ou democratizar a ocorrência das falas.

Um dos poucos momentos que precisei intervir ocorreu 40 minutos após o início da sessão, onde comecei a perceber um certo ar de apreensão surgir no rosto de dois alunos, os quais, até então, aparentavam estar compenetrados no diálogo estabelecido. Logo me dei conta do que se tratava e adiantei em tom amistoso: “Olha, se vocês ainda estão pensando em voltar para a aula de Educação Física hoje, podem desistir. Não vai dar tempo!” (risos). Depois de esgotar as suas remotas esperanças, eles novamente voltaram a investir na interação.

Por fim, é preciso ter presente que a constituição do grupo focal como instrumento de coleta de informações desta pesquisa visou obter compreensões mais aprofundadas sobre a temática da dimensão atitudinal/educação em valores, no contexto escolar em geral, e, mais especificamente, no contexto das aulas de Educação Física, mediante as interações desenvolvidas por um grupo de estudantes que demonstram ter uma participação ativa nesse ambiente educativo, fomentando a manifestação de aspectos referentes aos referidos objetos de estudo.

4. A DESCOBERTA DE UM UNIVERSO ESCOLAR: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS

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