4. A DESCOBERTA DE UM UNIVERSO ESCOLAR: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS
4.1. ANÁLISE DOCUMENTAL: A DIMENSÃO ATITUDINAL PRESCRITA NO PPP DA
4.2.2. A Hora do Recreio/Intervalo
Identificamos que o momento do recreio/intervalo é outro que coloca em evidência alguns aspectos notadamente atitudinais – fomentação da autonomia, criatividade, integração e responsabilidade – por meio das relações interpessoais estabelecidas com certo grau de liberdade e que, por essa razão, também merece relevo na presente investigação.
Conforme exposto no Parecer nº 02/2003, do Conselho Nacional de Educação, a atividade denominada de “recreio” ou “intervalo” faz parte das boas e más lembranças de todos aqueles que já frequentaram a escola. Um momento de gloria ou de horror, oportunidade de conquistar fama ou de passar vergonha. Este período, mesmo quando tranquilo ou até monótono, tem uma considerável influência na formação da personalidade dos alunos (BRASIL, 2003).
Tal concepção ganha sustentação teórica na perspectiva piagetiana, a partir da qual Lima (1980) se apropria para sinalizar que o espaço escolar representa o último reduto da vida social autônoma, pelo menos no recreio dos alunos. Logo, por mais coação que a escola utilize – e, muitas vezes, precisa utilizar –, sempre ficam algumas brechas para a vivência de uma vida autônoma das crianças e dos jovens.
Ora, a partir das observações realizadas na IMS, verificamos que este momento parece funcionar basicamente sob a seguinte dinâmica: 1- Alimentação dos alunos; 2- Concessão de liberdade para que possam extravasar suas emoções, interagir com os seus pares, gastar energias e fazer suas necessidades fisiológicas; e 3- Dissipação da euforia consentida, ambos de forma orientada e/ou monitorada.
Inicialmente, o sinal toca às 9 horas e 20 minutos para que os alunos do EF I dirigirem-se ao refeitório para se alimentarem. Quando ele volta a tocar (10 minutos depois) é a vez dos alunos do EF II saírem das suas salas e se dirigirem ao mesmo local, seguindo a mesma rotina dos alunos menores, os quais, por sua vez, são redirecionados para o pátio externo da escola, sendo subsequentemente agrupados com os maiores, no momento em que estes terminarem de fazer a sua refeição.
A título de informação, anteriormente – conforme relatado pela diretora da IMS –, a escola possuía uma cantina, o que, se por um lado, constituía-se em uma importante fonte de renda para a escola, em contrapartida, também refletia e/ou reforçava as relações econômicas entre os alunos. Então, optou-se por fechá-la, fazendo com que todos tivessem acesso irrestrito à
mesma merenda. Assim, quem não quiser alimentar-se com a comida oferecida na escola, deve levar o seu próprio lanche de casa. Presenciei alguns casos como este.
Com efeito, após os alunos estarem devidamente alimentados, chegamos à segunda parte do intervalo: o momento de recreação, brincadeiras, encontros, esbarrões, agitação, entre outras coisas do gênero. São aproximadamente 350 alunos misturados durante cerca de 10 a 15 minutos, monitorados por estagiárias e, em especial, pelas coordenadoras de turno, as quais ficam atentos a tudo e a todos, repreendendo-os quando necessário. Nota-se que este momento também representa um espaço passível de intervenção pedagógica, conforme assinalado nas seguintes falas:
No recreio eles estão no grupo e, às vezes, quando machuca o amigo, tem que sair do grupo, esfriar a cabeça e depois voltar. Porque na verdade, o ser humano é um ser sociável, ele convive em sociedade. Eu tenho que saber me comportar no grupo. Se não estiver fazendo isso, tenho que sair dele. (Professora de Português)
Liberdade em excesso é prejudicial. Quando eu cheguei tinha muito menino machucado, então com o desejo de ter um momento mais tranquilo e saudável, decidimos impor um controle maior aos mesmos, mas, dando espaço para exercerem sua liberdade, com responsabilidade. No caso, uma liberdade assistida – risos. (Coordenadora de turno)
Corroborando com tal perspectiva, Michel e Silveira (2014), após observarem as interações infantis desenvolvidas no momento do recreio numa escola municipal de Pelotas/RS, constataram que as práticas de liberdade desenvolvidas ali, não implicavam que as crianças estivessem completamente livres, isto é, isentas de ações de controle, uma vez que as suas ações não são desordenadas e desprovidas de intencionalidade e de poder, mas, regidas por determinada ordem disciplinar.
Ora, quando o sino volta a tocar, desta vez, indicando o fim do intervalo, chegamos na sua terceira parte, marcado justamente pela dissipação da euforia consentida. Os alunos do EF I são orientados a se sentarem em fileiras na quadra, enquanto os alunos do EF II se acomodam na arquibancada da quadra, ambos esperando os seus respectivos professores levarem-nos para a sala de aula. As principais responsáveis por conter os ânimos aflorados e cobrá-los o cumprimento de tal organização são as coordenadoras de turno da escola. Uma delas, por exemplo, sempre utiliza um microfone (que fica situado na quadra) para realizar essa árdua
missão de controlá-los e trazê-los de volta à calma, a fim de voltarem para suas respectivas salas. Assim, como ela própria destaca:
A volta do intervalo é o momento mais crítico. Os alunos ficam mais dispersos e se perdem no caminho, alguns chegam atrasados, é preciso acompanhá-los até a sala, num trabalho orientado (Coordenadora de turno).
Nesse contexto, vale ressaltar que, embora a referida profissional precisasse, em alguns momentos, elevar a voz para contê-los, a grande maioria dos alunos pareciam estar habituados com tal rotina, talvez, por reconhecerem a importância daquela organização, conforme sintetizado na seguinte fala:
Momento crucial da escola [intervalo/recreio]. Bastante agitado. Mas, já criamos uma rotina para eles. Ir para o refeitório para merendar e depois ir para o pátio externo. Fomos trabalhando isso ao longo do tempo, desde o ano passado, e hoje, eles estão adaptados a isso. Então, eles já sabem o momento de organização das turmas e mesmo assim ainda preciso usar recursos como o microfone para chamar a atenção de alguns e organizá-los adequadamente até que cada professor pegue sua turma e leve para sua respectiva sala. (Coordenadora de turno)
De fato, quando havia um descumprimento da organização vigente, isso, normalmente, envolvia os mesmos alunos. A esse respeito, Pedro-Silva (2013, p. 73), assinala, com certo pessimismo:
Quanto à (in)disciplina nas escolas, tem-se tornado cada vez mais objeto de preocupação de professores e de demais membros ligados à instituição escolar (diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores de ensino, entre outros), a ponto de muitos manifestarem descrença no tocante à possibilidade de mudança desse quadro sombrio.
No entanto, os profissionais da IMS, com os quais estabelecemos um diálogo, parecem não figurar neste contingente, fato que pode ser evidenciado na fala (esperançosa) de uma das pedagogas da instituição:
[...] Eu sempre falo para os professores não fazerem vista grossa com esse tipo de situação [indisciplina]. Se não quiser, passa para mim que eu converso sobre isso. Enfim, eu acredito no diálogo, na reflexão e na capacidade do ser humano de mudar. O dia que eu deixar de acreditar nisso, aí não tem mais nada para fazer aqui. (Pedagoga)
Tal consideração ganha legitimidade na teoria piagetiana, a qual sustenta que a evolução da moralidade se inicia no respeito unilateral (heteronomia) em direção ao respeito mútuo (autonomia). Portanto, a liberdade experimentada em um ambiente democrático não supõe uma ausência de regras, visto que a nossa vida social – da qual a escola faz parte –, implica a existência das mesmas. A questão principal é a origem do tipo de regras que estamos nos referindo: A heteronômica – impostas pelo pai, pelo pastor, pelo sistema, etc. –; ou a autônoma – geradas livremente, mediante cooperação e respeito mútuo, pelos próprios indivíduos sujeitos a elas (LIMA, 1980).
Destarte, considerando que os educandos estão em um contexto interativo, compreendemos que esses momentos de intervalo podem se configurar, inclusive, em excelentes oportunidades tanto para intervir pedagogicamente, como para conhecer melhor as características destes alunos, potencializando as aprendizagens atitudinais. Nesse sentido, conforme destaca Libâneo (1994, p. 161):
[...] é preciso educar o olhar para a observação do aluno com a finalidade de conhecer um pouco mais dele além do que se permite intuir em sala de aula. Por exemplo, observar o comportamento no recreio, se brinca, se socializa com outras crianças, se é introspectivo, tímido ou agitado a maior parte do tempo. Esses traços de comportamento podem revelar aspectos importantes a serem considerados pelo professor.
Nesta perspectiva, a diretora da IMS, assumidamente conhecedora desse potencial educativo inerente ao referido momento, chegou a mencionar, durante o processo de entrevista, uma experiência da escola com o propósito de aproveitá-lo melhor, a saber:
Já tentou-se fazer um recreio dirigido, com corda, bola, etc. Mas, com o tempo, houve um desgaste por não conseguir atender a todos os alunos. Já se utilizou mesas de pingue-pongue, por exemplo, tentando revezar cada dia com uma turma. Mas, pelo tempo curto, os alunos começaram a ficar insatisfeitos e a reclamar, até que tivemos que suspendê-lo. (Diretora)
Não obstante, apesar dos obstáculos e das limitações que vão se manifestando, compreendemos (e insistimos) que a educação em valores não deve restringir-se a uma aula, a uma disciplina ou a algum momento específico, mas, deve ser fomentada nos diferentes momentos em que o aluno estiver presente na escola, pois é parte integrante da vida coletiva.