2. Processos de sociabilidade e interfaces da arquitetura escolar de Guilherme Krug e
2.1. Grupo mandatário e sociabilidade política
Parte da responsabilidade de Guilherme Krug na construção dos colégios Culto à Ciência e Internacional foi atender as expectativas daqueles que estavam promovendo a fundação de ambas as escolas44. Uma das principais exigências era a apresentação de um projeto espacial que correspondesse aos ideais de higiene do período, além de se aproximar
44 O edifício escolar é visto como forma de ligação entre o construtor e a realidade, trata-se de um tipo de linguagem e também de uma obra de arte, que ela por si é “‘o meio que torna possível a comunicação’, que ela ‘não é jamais o substituto de outra coisa; é em si mesma a coisa, simultaneamente significante e significada’” (FABRIS, 2003 p. 20). Entretanto, nesse modelo de análise as fontes do processo de construção tornam-se indispensáveis, desde os primeiros documentos que apresentam as ideias iniciais, os contratos de construção, os modelos apresentados, até croquis, relatórios de edificação e modificações realizadas durante a confecção do artefato. Entretanto, por não terem sido encontradas essas fontes, nem relacionadas aos edifícios nem às fotografias, optou-se pela análise dos espaços e do edifício em relação ao urbanismo da cidade a partir das evidências encontradas.
das imagens que os investidores carregavam a respeito dos edifícios escolares europeus e norte-americanos como já demonstrado45. Além disso, o discurso educacional era também trabalhado como uma forma de trazer desenvolvimento ao país. Nesse sentido, Campos Salles em texto publicado no Almanak de Campinas (1872, p. 75) destaca que
[p]rocurar o desenvolvimento de um povo na agitação mais ou menos activa de sua vida industrial ou comercial exclusivamente, é de certo commetter o grave erro de deixar em esquecimento imperdoável este sábio conceito: “O povo que tem as melhores escholas é o primeiro povo ; se elle não é hoje, sel-o-ha ámanhã.”
Nem outro progresso é realmente possível sem a cooperação do ensino, esse elemento primordial da civilisação, tal como a entende a sociedade destes tempos.
Campos Salles (Almanak de Campinas, 1872) apontava a educação como uma das bases para o progresso e o desenvolvimento de ideais civilizatórios. Em seu texto ainda cita os EUA, a Suíça, a Holanda, a Bélgica e a Inglaterra como países exemplares em termos de ensino. Entretanto, o edifício escolar também fazia parte das configurações ideais de ensino. Francisco Quirino dos Santos em editorial publicado na Gazeta de Campinas de 21 de Novembro de 1869, intitulado Instrucção Publica, destaca a importância da localização e de determinadas características do edifício escola, mais especificamente do Culto à Ciência:
[e]stá como que ás portas da cidade, de que não a separa uma verdadeira distancia: é, por outra, parte integrante de um dos mais aprazíveis subúrbios de Campinas.
Assenta em uma fraca subida que vae gradualmente se estendendo para N.O. do sitio que está colocada a povoação, reclinando os contornos em bastos relvedos que se entremeiam de boas arvores, entre as quaes, nas adjacencias da casa existente, muitas de fructos estimados.
Tem ainda a principal qualidade para tornal-a recomendável : agua abundante não só para os exercicios de recreio e educação corporea, mas ainda para os arranjos indispensaveis de uma casa de natureza da de que se tracta.
Não pense alguem que estas minucias na descripção dos commodos materiaes pouco se amoldam aos resultados que se esperam de um logar todo talhado para a instrucção. E’ preciso não possuir a mínima noção depedagogia para menosprezar os cuidados que reclama a direção physica indispensavel a que se deve sugeitar a mocidade.
O trecho denota a importância do terreno, de sua posição e da organização do ambiente para a prática da educação física. Quirino dos Santos (1869) ainda evoca Garrett, Rousseau, Kant e Aimé Martin para justificar a importância da educação para o corpo, defendendo o argumento de que “o duplo exercicio do espirito e do corpo é uma lei natural”
(Quirino dos Santos, 1869, p. 1), tendo o edifício escolar e o terreno correspondido ao que o grupo esperava.
Ademais, as expectativas de Morton e Lane não se distanciavam dos idealizadores do Culto à Ciência, pois em relatório apresentado no jornal The Missionary (jan. 1874, p. 98) destaca-se a apresentação do terreno como ambiente com disponibilidade de água, além de espaço próprio para diversas funções.
O colégio é um edifício de tijolos vermelhos e dois andares com uma varanda e uma escada até a entrada frontal, situado em uma suave subida no subúrbio da cidade e tem cerca de quarenta acres de boa terra em seu entorno. É um bom internato para garotos que podem pagar e uma escola de trabalho manual para alguns que não podem pagar. Uma matrona e alguns professores vivem no edifício e há quarto de hospedes no andar térreo. O terreno é amplamente suprido com água, mesmo na extensão de um tanque de natação. Uma escola para jovens senhoritas, algumas jardas distante, é mantida na residência do Sr. Lane sob direção da Sra. Lane. [...] as terras do colégio, que ele selecionou, com o tempo, na medida em que a cidade cresce, provam uma dotação muito valiosa (The Missionary, jan. 1874, p. 98. Tradução minha)46.
Tem-se o destaque para a área do colégio, com 40 acres cercando-o, e grande disponibilidade de água, em uma região seleta, onde previa-se que a cidade iria expandir-se, valorizando, então, as terras. O ambiente ainda proporcionava boas qualidades para formar, no modelo de internato, alunos que teriam condições financeiras e uma boa escola de trabalhos manuais para quem não pudesse pagar.
Ao analisar a lista dos membros da diretoria provisória do Colégio Culto à Ciência – composta por Joaquim Bonifácio do Amaral, Joaquim Egydio de Sousa Aranha, Joaquim Quirino dos Santos, Jorge Krug e Antônio Pompeo de Camargo –, percebe-se que apenas Joaquim Quirino dos Santos não participou da reunião de fundação do Colégio Internacional. Seu irmão, porém, Francisco Quirino dos Santos, estava presente em ambas e fazia parte da comissão para organização administrativa e docente do Colégio Culto à Ciência. Quanto à diretoria definitiva – composta por Joaquim Bonifácio do Amaral, Antônio Pompêo de Camargo, Dr. Jorge Krug, Dr. Américo Brasiliense de Almeida Mello e Dr.
46 The college is a two-story, red-brick building, with porch and steps at the front entrance, situated on gently rising ground at the outskirts of the town, and has about forty acres of good land belonging to and surrounding it. It is a good boarding school for boys who wish to pay, and a manual labor school for some who do not pay. A matron and some of the teachers live in the building, and there are gest-rooms in the lower story. The grounds are amply supplied with water, even to the extent of a swimming-tank. A young ladies school is kept at the residence of Mr. Lane, some hundred yards distant, under the direction of Mrs. Lane. […] the college grounds, which he selected will, in time, as the city grows, prove a very valuable endowment (The Missionary, jan. 1874, p. 98).
Joaquim Vieira de Carvalho – apenas Américo Brasiliense não estava presente na reunião de fundação do Colégio Internacional. O nome de Joaquim Bonifácio do Amaral salta aos olhos, tendo em vista que se tratava do presidente da Associação Culto à Ciência. Por sua vez, Antônio Pompêo de Camargo era o idealizador do colégio e ambos participaram da reunião de fundação do Colégio Internacional. Já Joaquim Egydio de Souza Aranha, que fazia parte da diretoria provisória do Culto à Ciência e, posteriormente, da comissão para organização administrativa e docente do Colégio Culto à Ciência, havia presidido a reunião de fundação do Colégio Internacional.
Dessa forma, não é estranho que tanto nas reportagens a respeito do Colégio Internacional quanto sobre o Colégio Culto à Ciência a presença de citações a respeito do sistema escolar norte-americano seja comum. Pode-se pensar que o fenômeno é ocasionado pela proximidade entre os Reverendos dos EUA e o grupo local supracitado, mas as menções já ocorriam antes mesmo da chegada de Morton e Lane47. Assim, desde 1835 são encontradas menções a respeito dos EUA como exemplo para o Brasil. Warde (2000 p. 39) aponta que o jornal O Novo Farol Paulista trazia, em seu editorial a ideia de que os EUA passaram por uma formação histórica diferenciada, sendo um território povoado por Filósofos sob a constituição inglesa. Já o Brasil era povoado por Criminosos com as “bárbaras” instituições portuguesas.
Em 1870 brasileiros já iam para a Universidade de Cornell, nos EUA, estudar. Dois nomes de destaque são João Alberto de Salles e Joaquim Augusto de Campos Salles, respectivamente irmão e primo de Manoel Ferraz de Campos Salles. Ambos escreveram artigos no periódico Aurora Brasileira, jornal que vigorou entre os anos 1873 e 1875 e foi fundado por um grupo de estudantes brasileiros pertencentes à instituição. O jornal apresenta o ideário modernizante desses estudantes, tendo “clara identificação do ideário paulista com a industrialização, com a vanguarda da modernidade nacional e com o espírito do capitalismo liberal” (FREITAS, 2011, pp. 34-35). Em sua constituição, apresenta-se também uma série de artigos a respeito da educação brasileira em comparação com a norte-americana, sendo “o tema educação [...] o mais destacado do jornal” (FREITAS, 2011, p. 51).
Antônio Francisco de Paula Souza é outro exemplo, filho de Antonio de Paula Souza (Ministro da Agricultura – 1864), partiu em viagem para os EUA em 1869 com o objetivo de aperfeiçoar seus conhecimentos em engenharia. Em cartas enviadas ao Brasil, Paula Souza exalta o sistema educacional norte-americano, apontando que a “educação é para
o americano do norte como a carne e o pão de que necessitam todos os dias. Por isso é também o povo o mais instruído, o mais activo, o mais livre e o mais poderoso do mundo” (WARDE, 2000, p. 39). Mas não são apenas menções que podem ser encontradas. Discussões a respeito do modelo educacional norte-americano permearam até mesmo na Assembleia Provincial de São Paulo. Warde (2000, p.37) ao problematizar as discussões de Inglês de Souza a respeito de modelos educacionais na Assembleia Provincial de São Paulo em 1880, quando ele era deputado da casa e Paula Souza era presidente, analisa a relação entre intelectuais brasileiros e a ideia do americanismo durante o século XIX, apresentando que
[s]ão deslocamentos ora flagrantes ora sutis, ora conflituosos ora pacíficos em que nunca se deixou de fazer referência ao Velho Mundo como fonte de uma cultura na qual os brasileiros deveriam incessantemente se banhar caso quisessem conquistar o status de civilizados, mas os Estados Unidos vão se afigurando nos ensaios utópicos das elites intelectuais e no imaginário social como a terra prometida, sem as mazelas da Europa envelhecida e conflituosa Schneider e Toledo (2008, p.19) ainda exemplificam as questões apontadas por Warde (2000):
[v]er, por exemplo, a grande admiração que um intelectual liberal, como Tavares Bastos (1870), nutria pelos Estados Unidos da América. Sobre a instrução pública, assevera Bastos (1870, p. 247): “Dispam-se dos prejuizos europeus os reformadores brazileiros: imitemos a América. A escola moderna, a escola sem espirito de seita, a escola commum, a escola mixta, a escola livre, é a obra original da democracia do Novo-Mundo”
O processo de apropriação do modelo escolar norte-americano por parte dos grupos locais que encabeçaram a construção do Culto à Ciência se apoia em apresentar práticas educacionais que se tenta colocar em ação, quando se pensa a formação do espaço das escolas. Ademais, além das referências à educação anglo-saxã, o pertencimento à maçonaria é outro fator comum aos financiadores dos colégios Culto à Ciência e Internacional. Moraes (2006), ao estudar os integrantes da Sociedade Culto à Ciência, observa que
[o] que não consta nas crônicas da época e se omite em estudos posteriores é que, além de fazendeiros dedicados ao plantio e à comercialização de café, além de industriais, comerciantes ou bacharéis, além de republicanos – e, talvez, por causa disso mesmo – eram, os idealizadores, organizadores e diretores da Sociedade Culto à Ciência, bem como todo o seu corpo docente, membros da Maçonaria (MORAES, 2006, p. 124).
De fato, tanto o Internacional quanto o Culto à Ciência tiveram a participação de maçons em suas respectivas fundações. Eram colégios que tinham como base a liberdade de consciência, ideal maçônico, como aponta Galdino (2006, p.213),
[a] liberdade de consciência integrava o ideário maçônico não apenas como um valor abstrato, mas como um princípio condutor de suas práticas sociais. Um exemplo em Campinas é questão do ensino: a maçonaria em todo o país esteve envolvida, senão patrocinou abertamente a criação de escolas laicas. Em Campinas, a Loja Independência abriu em suas dependências uma escola noturna para crianças pobres, assim como os maçons campineiros estiveram à frente da iniciativa mais importante: a fundação, em 1874, do Colégio Culto à Ciência. Lembremos também o apoio decisivo à implantação do Colégio Internacional
Assim, de acordo com o autor, (GALDINO, 2006, p. 210), a maçonaria não desempenhou papel relevante para a política na segunda metade do século XIX; tratava-se de uma instância de sociabilização que, quando analisada pela História, pode fornecer elementos importantes a respeito das organizações locais, em especial urbanas, durante o novecentos. Bausbaum (2008, p.201) demonstra que “nos últimos anos do Império, a maçonaria já havia perdido grande parte do seu papel político. [...] [D]eixara de intervir na política. Sua participação na campanha abolicionista era uma determinação do seu ‘espírito filantrópico’, mais do que uma posição de classe”.
As lojas maçônicas campineiras, mesmo as que possuíam números expressivos de republicanos48, tinham em sua composição uma diversidade considerável de pessoas. Nesse quesito, os imigrantes tomam destaque. Eram significativamente presentes no ciclo maçônico, principalmente os protestantes. Assim, a luta pela laicização do Estado não vinha apenas dos ideais maçônicos, nem do descontentamento com a encíclica Quanta Cura e o Syllabus Errorum49, ou ainda com o banimento de maçons de instituições católicas realizado pelos
Bispos de Olinda e Belém, mas estava também ligada à origem de muitos de seus membros. Tratava-se da “solidariedade para com os maçons de outras nacionalidades, pela igualdade civil desses maçons que no círculo da sociabilidade maçônica eram iguais aos brasileiros em seus direitos e deveres” (GALDINO, 2006, p. 199).
48 Galdino (2006), demonstra que os republicanos campineiros não fizeram utilização política da maçonaria e que o grupo poderia, no máximo, ser beneficiado pela instituição da mesma forma que os conservadores e os liberais.
49 Assim, “lançados no pontificado do Papa Pio IX (1864-1878) marcaram o aprofundamento das posições da Santa Sé contra a modernização e pela concentração do poder espiritual nas mãos do papado. Nesses documentos da Igreja, eram atacados o racionalismo, o liberalismo, o protestantismo e a maçonaria entre outras expressões da modernização da sociedade” (GALDINO, 2006, p. 172).
Os três principais grupos de imigrantes dentro da maçonaria de Campinas eram os Portugueses, seguidos pelos Ingleses e, por fim, os Alemães. O último grupo – ao qual Guilherme Krug e seus irmãos pertenciam – era mais integrado até mesmo que o segundo, carregando importância significativa, principalmente no perímetro urbano de Campinas. Sua inserção e relevância são percebidas pela própria trajetória de Guilherme Krug e de sua família.
Por outro lado, e apesar de constatar a participação da Maçonaria na fundação dos colégios, a presença exclusiva, ou ao menos majoritária, de republicanos, como Moraes (2006) e Cantuaria (2000) apontam, não é algo que possa ser endossado sem um reparo. Realizando o levantamento dos partidos daqueles que participaram da criação das escolas, encontra-se a presença equilibrada de republicanos, liberais e conservadores. Exemplo disso é a própria diretoria da Sociedade Culto à Ciência: o Comendador Joaquim Bonifácio do Amaral, presidente da Sociedade, pertencia ao Partido Liberal; Dr. Joaquim Vieira de Carvalho, ao Partido Conservador; Dr. Jorge Krug não possuía vínculo formal com nenhum partido; Dr. Américo Brasiliense e Antônio Pompeo de Camargo eram republicanos. Cantuaria (2000, p.30) ainda apresenta que a participação de membros de outros grupos que não o republicano se deu “por pessoas que provavelmente aderiram à idéia em função de outros projetos pessoais e familiares”.
A diversidade do cenário político de Campinas apresenta laços de parentesco como ponto de união de integrantes dos distintos partidos e também dos imigrantes. Pode-se tomar como exemplo alguns membros da Sociedade Culto à Ciência, traçando os seguintes vínculos: Antônio Pompêo de Camargo era sobrinho e cunhado de Joaquim Bonifácio do Amaral; primo-irmão e também cunhado de Antônio Carlos Pacheco e Silva. Francisco Quirino dos Santos era irmão de Bento Quirino dos Santos e de Joaquim Quirino dos Santos, sendo o último filiado ao Partido Conservador50. Dessa forma, era mantida a proximidade e um maior grau de intimidade entre todos, como pode ser exemplificado por Leopoldo do Amaral (1927, p.520) ao descrever as reuniões na residência de Eloy Cerqueira Leite:
[f]requentavam aquella casa chefes proeminentes dos tres partidos políticos, sem que jamais tivessem ocorrido alli, entre elles, motivos desagradaves que trouxessem quaesquer resentimentos. Quasi quotidianamente lá estavam o Visconde de Indaiatuba, dr. Moraes Salles, ás vezes o dr Luiz Alvibino (liberaes); Barão depois conde do Parnahyba, dr. Delphino P. de Ulhôa Cintra, José Bento dos Santos (Conservadores) e os republicanos Antonio
50 Dados a respeito da genealogia das famílias do período podem ser obtidos nos livros Genealogia Paulistana; Apontamentos Historico-Genealógicos Sobre a Família Pacheco e Silva e A Família Jordão.
Pompêo de Camargo, dr. Francisco Quirino dos Santos, João Tibyruçá Pitanga, Francisco Glycerio (irmão do dono da casa), Bento Quirino, Antonio C. Silva Telles, Antonio Alvaro, dr. Thomaz Alves, José Paulino Nogueira, Domingos Netto, dr. Sampaio Ferraz, Carlos Ferreira [...], estrangeiros como o commendador William Lidgerwood, Francisco Krug, Prospero Bellinfanti e tantos outros.
Outro ponto em que, a despeito das diferenças partidárias, reuniam-se os mesmos interesses era o da economia. Conforme lembra Galdino (2006, p.210),
[o]s exemplos de empreendimentos privados nos quais participam liberais, conservadores e republicanos em São Paulo são inúmeros. Fazendeiros de Campinas, líderes políticos monarquistas do Partido Liberal ou do Conservador figuram como acionistas e diretores das empresas ferroviárias, empresas de serviços urbanos e bancos. Ao lado deles, não apenas como acionistas, mas como propagandistas dessas iniciativas colaborando na mobilização de capitais e divulgando-as por meio da sua imprensa ou diretamente estão diversos republicanos.
O grupo envolvido nas iniciativas de criação dos colégios também participava dos mais diversos empreendimentos na cidade, como exemplo: a Companhia Campineira de Iluminação a Gaz; o Club da Lavoura; a Companhia do Matadouro; a Companhia Campineira Carris de Ferro; o Theatro S. Carlos; a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Nomes com os de Antonio Pompeo de Camargo, Joaquim Ferreira Penteado, Antonio Manoel Proença, Barão de Três Rios, José Egydio de Souza Aranha, Joaquim Quirino dos Santos e Francisco Glycério51, que estavam envolvidos na construção das quatro escolas, se repetem se não nas diretorias, nas listas de acionistas dos empreendimentos citados52.
Apesar da ligação entre os três partidos por conta das questões a respeito da imigração, havia vertentes dentro dos conservadores, ainda que pequenas, que eram simpatizantes ao ultramontanismo, ou mesmo que não fossem, defendiam que o atrelamento entre Igreja Católica e Estado não era um empecilho para a imigração. É o caso do jornal O Constitucional, que apontava o seguinte:
as leis de 11 de setembro de 1861 e 17 de abril de 1863, explicado nos visos de 20 e 21 de julho de 1865, tomadas do Conselho de Estado, Secção de Negócios do Império, respaldou-os no pretexto que, apesar da Igreja Católica ser a oficial do Império, a liberdade de consciência religiosa e uma completa tolerância religiosa existiam no Brasil. Por estas leis, o Império reconhecia os casamentos mistos, com certas cláusulas como a
51 A respeito de empreendimentos urbanos, circulação e composição de riquezas no século XIX em Campinas, ver as pesquisas de Ribeiro (2014, 2015a, 2015b). Destaca-se ainda Camillo (1998) e o volume 2 de Ribeiro (2016).
reponsabilidade dos pais na educação dos filhos nos preceitos morais do catolicismo, mesmo que estes fossem acatólicos [...].
O motivo alegado para justificar a existência de uma liberdade de culto no Brasil baseava-se nas informações de que os acatólicos não estariam cumprindo a Constituição do Império em seu artigo 5, que permitia o culto doméstico ou particular somento em locais que não possuíssem formas exteriores de templos. Por esse artigo não estar sendo cumprido é que se achavam espalhados pelo Império templos e sinagogas com as formas exteriores de templos, não tendo sido molestados pela polícia, sendo as manifestações contra os protestantes reprovadas pelo Estado (BENCOSTTA, 1993, p. 83).
O jornal afirmava que, por conta da língua, da cultura, do clima e do risco de não