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2. Processos de sociabilidade e interfaces da arquitetura escolar de Guilherme Krug e

2.2. Ramos de Azevedo e as escolas populares de Campinas

Outra parte dos esforços desse mesmo grupo mandatário se deu para também incorporar a população, de modo que o grupo que participou da criação dos colégios Culto à Ciência e Internacional pode, igualmente, ser encontrado na Sociedade Corrêa de Mello. Criada oficialmente53 em 11 de fevereiro de 1881, com o objetivo de promover a instrução popular e administrar o edifício da escola de mesmo nome, a Sociedade Corrêa de Mello possuía em seu quadro de associados proprietários de terra e profissionais liberais que também estavam envolvidos com a fundação dos colégios Culto à Ciência e Internacional. A sociedade era administrada por Coronel Joaquim Quirino, Carlos Norberto de Souza Aranha e José Estanislau do Amaral.

Coronel Joaquim Quirino era o tesoureiro do Clube da Lavoura, presidente do Teatro São Carlos em 1878, membro da sociedade Culto à Ciência e um dos integrantes da diretoria provisória da mesma instituição. Era também parte da família Quirino dos Santos, irmão de Bento Quirino dos Santos e de Francisco Quirino dos Santos, sendo o primeiro membro da comissão responsável pelos exames dos relatórios e das contas da Sociedade

Culto à Ciência e o segundo, além de ter participado da reunião de fundação do Colégio Internacional, era membro da comissão da Sociedade Culto à Ciência responsável por bolar o projeto de organização administrativa e docente do colégio. Por sua vez, Carlos Norberto de Souza Aranha, membro da diretoria de 1880 do Colégio Culto à Ciência, era filho do Barão de Anhumas (Manuel Carlos Aranha), também foi membro da sociedade Culto à Ciência e era sócio de Bento Quirino dos Santos. Já seu tio, Joaquim Egydio de Souza Aranha (Barão de Três Rios), como já mencionado, era membro da diretoria provisória do Culto à Ciência e posteriormente da comissão para organização administrativa, além de docente do Colégio Culto à Ciência e de ter presidido a reunião de fundação do Colégio Internacional. Quanto a José Estanislau do Amaral não se tem certeza se trata-se de José Estanislau do Amaral, apelidado de “o milionário” (LEME, 1965, p. 208), por ser um dos maiores proprietários de terra da Província de São Paulo e falecido em 1880, ou de seu filho de mesmo nome, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, membro do Partido Republicano e pai da pintora modernista Tarsila do Amaral (AMARAL, 2001 p. 32.)

Participavam também da comissão Dr. Cândido Barata Ribeiro, médico de origem baiana que atuou na região; Antonio C. de Moraes Salles, um dos participantes da reunião de fundação do Colégio Internacional; Augusto Ribeiro de Loyolla, advogado, curador geral de órfãos, maçom que presidiu a Biblioteca da Loja Maçônica Independência em 1884; Manoel da Silva Mendes, inspetor geral de tráfego da Companhia Mogiana; e Antonio Nogueira Ferraz, que era comerciante de tecidos, tesoureiro do Club Semanal54 e Juiz de Paz durante o período entre 1881 e 1885.

Laços familiares se destacam novamente, como é o exemplo do Coronel Joaquim Quirino dos Santos que, como já mencionado, tinha irmãos envolvidos com a organização e a fundação dos Colégios Internacional e Culto à Ciência; ou Carlos Norberto de Souza Aranha, que compunha a diretoria do Colégio Culto à Ciência, além de seu pai e de outros familiares estarem envolvidos também com os dois colégios.

Não foram encontradas tantas informações a respeito de outros membros da Sociedade Corrêa de Mello, como Dr. Cândido Barata, Augusto Ribeiro de Loyolla, Manoel da Silva Mendes e Antonio Nogueira Ferraz, porém os sujeitos circulavam por ambientes em comum com os idealizadores dos colégios já citados. O Club Semanal é destacado por se

54 O Club Semanal, recreativo e dançante, foi fundado no dia 16 de julho de 1857. Local onde haviam diversos leilões beneficentes, bailes e outras festividades, o clube era um ambiente movimentado, em que se davam parte dos processos de sociabilidade dos grupos mais abastados de Campinas (LAPA, 2008, p. 142). Dentre seu corpo administrativo, destaca-se a presença dos irmãos Antonio Benedito Cerqueira Leite e Eloy Cerqueira, ambos participaram da reunião de fundação do Colégio Internacional e eram casados com irmãs de Ramos de Azevedo e Bento Quirino dos Santos, Presidente do Clube (Almanach Popular para 1878, 1877).

tratar de uma instância de sociabilidade na Campinas do século XIX. Como já mencionado (ver nota 15), havia membros do corpo burocrático da instituição que eram ligados aos colégios pesquisados, sendo Antonio Nogueira Ferraz o tesoureiro do clube.

Outra instituição que apresenta um corpo administrativo ligado aos colégios e às escolas pesquisadas é a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, sendo Manoel da Silva Mendes, inspetor geral de tráfego da instituição no ano de 1880. Fundada em 1872, com sede em Campinas, teve em sua primeira diretoria a presença de homens como José Egydio de Souza Aranha, membro da comissão responsável pelos exames dos relatórios e contas da sociedade Culto à Ciência; Joaquim Quirino dos Santos, também envolvido com o Colégio Culto à Ciência e membro da Sociedade Corrêa de Mello; e Antonio Manuel Proença, membro da diretoria da Sociedade Culto à Ciência. Assim, nota-se que os envolvidos com os colégios também traziam relações com outras instituições, sendo que muitas de suas ligações pessoais passavam por elas.

Outra iniciativa do mesmo tipo envolve a construção da Escola Ferreira Penteado. Ela foi concebida por Joaquim Ferreira Penteado, o Barão de Itatiba; por seu genro, Antonio Carlos Pacheco e Silva, devido à influência de Ferreira Penteado, que era vinculado ao Partido Conservador, tendo participado ainda da reunião de fundação do Colégio Internacional e sido sócio da Sociedade Culto à Ciência. Penteado era também primo-irmão e cunhado de Antonio Pompeo de Camargo, idealizador do Colégio Culto à Ciência. Outro genro do Barão de Itatiba era o Major Álvaro Xavier de Camargo Andrade, membro do Partido Liberal e da comissão que elegeu a diretoria provisória da Sociedade Culto à Ciência, tendo feito parte da reunião de fundação do Colégio Internacional.

A escolha por trabalhar com os casamentos dos filhos de Joaquim Ferreira Penteado se deu pelo fato de que o Barão de Itatiba era filho único, impossibilitando rastrear relações de irmãos. Entrementes, as ligações de parentesco a partir do casamento representavam laços de poder e reprodução do próprio grupo social. Dessa forma, as dimensões de intimidade e proximidade social demonstram também a circulação de Joaquim Ferreira Penteado entre os idealizadores da Escolas Corrêa de Mello e dos Colégios Internacional e Culto à Ciência.

Assim, nota-se um grupo coeso, inserido nos grupos mais abastados da sociedade campineira e organizado a partir de relações de parentesco que, partindo da criação de estratégias de diferenciação social envolvidas em um discurso que utilizava representações de modelos de ensino de países como os EUA, criou escolas para dois grupos sociais distintos: a elite e o povo. Essa estratégia englobava o desenvolvimento de arquiteturas específicas,

porém elas eram fruto daquilo que o grupo responsável pela concepção dos colégios imaginava que seria necessário. Essa estratégia era capaz de criar e manter diferenças sociais.

Assim, a construção das escolas Corrêa de Mello e Ferreira Penteado resultaram de uma mesma compreensão de realidade, que tinha na instrução as bases do progresso moral e econômico do país. Entretanto, destinadas à educação popular, cumpriam outras funções e concentravam outras representações de escola e educação.

Ambas escolas foram construídas em 1881 e suas plantas arquitetônicas foram criadas por Ramos de Azevedo. Como para Krug, Ramos de Azevedo teve a responsabilidade de construí-las de modo a atender aos ideais dos financiadores. Se por um lado, então, Krug pensou soluções espaciais para atender ao ideal de educação das elites – arquitetura monumental, isolamento, higiene, espaços especializados para administração, laboratórios, biblioteca, salas seriadas e dormitórios –, por outro, Ramos de Azevedo concebeu as escolas Corrêa de Mello e Ferreira Penteado, conforme se anunciará no próximo capítulo, em traços mais simples, dimensões menores e sem espaços específicos para laboratório, biblioteca, administração, entre outros.

Enquanto Guilherme Krug se inseriu na sociedade campineira a partir do processo de imigração de sua família55, Ramos de Azevedo gozou das relações que sua família possuía na região56. Mas, em ambos os casos, o mecenato do grupo mandatário da cidade possibilitou a construção dos edifícios. A partir da leitura de Micelli (2003), o mecenato é compreendido como o processo de patrocinar e incentivar artistas, sendo dado por diversas formas e podendo ser exercido por sujeitos economicamente abastados e/ou inseridos em ambientes burocráticos estatais que permitem direcionar apoio ao artista. Dessa forma, Micelli (2003, p. 29) ilustra que

[e]nquanto Altino Arantes e Adolfo Augusto Pinto pertenciam à elite de homens públicos especializados na gestão pública e burocrática dos postos decisórios de comando, distanciados do dia-a-dia dos lazeres proporcionados pela vida do espírito, Freitas Valle e Ramos de Azevedo representavam a fração ilustrada e estrangeira de empresários culturais dotados de um projeto criativo pessoal, intermediários estratégicos na triagem de artesãos e artistas a serem contratados pelas iniciativas públicas e privadas, bem como nas encomendas entregues aos profissionais de sua confiança. Uns e outros estiveram diretamente envolvidos na criação e no gerenciamento das mais

55 De modo inicial, seu irmão mais velho Jorge Guilherme Henrique Krug se estabelece em Campinas, sendo dono de uma farmácia na cidade. Seis anos depois, seus pais e irmãos migram da Alemanha para o Brasil. No período, Jorge Krug já havia estabelecido diversas relações na cidade e, pouco tempo depois da chegada de seus familiares, sua irmã Carolina Krug contrai matrimônio com Hercules Florence.

56 Lobo (1952) destaca que o pai de Ramos de Azevedo, Major João Martins de Azevedo, era um “homem bom” da cidade pertencente ao Partido Liberal, sendo “vereador nos periodos de 1853 a 56, de 65 a 68 e de 69 a 72”.

significativas instituições e empreendimentos culturais daquele período na capital do Estado.

Micelli (2003, p. 93) ainda aponta que os mecenas, na primeira metade do século XX, foram personagens fundamentais dentro do modernismo uma vez que cumpriam função de fortalecer um processo de profissionalização do ofício do artista. Dentro da perspectiva do fim do século XIX imperial, nota-se que os processos de mecenato em torno de Ramos de Azevedo o levará à consolidação de seu escritório durante o período republicano, enquanto Guilherme Krug constituíra um escritório com seu filho George Krug, este em muitos casos auxiliando o escritório de Ramos de Azevedo. Destaca-se ainda que com a morte de Guilherme Krug, seu filho passou a integrar o escritório de Ramos de Azevedo.

Em julho de 1879 Ramos de Azevedo realizou na residência de Antonio Nogueira Ferraz uma exposição de seus trabalhos trazidos da Bélgica. Desde seus quadros até suas plantas arquitetônicas. A exposição foi anunciada na Gazeta de Campinas de 13 de julho de 1879, que tinha orientação republicana e Jorge Miranda, cunhado de Ramos de Azevedo, como um de seus integrantes.

Já Guilherme Krug veio para o Brasil com sua família em 1852. Em Campinas, local de destino da família, já estava seu irmão mais velho, Jorge Guilherme Henrique Krug, formado em Marburgo em farmacologia, era também proprietário de uma farmácia na cidade, maçom de 33º grau, vice-cônsul da Suíça, além de possuir ações da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e diversas propriedades.

Jorge Krug também era amigo próximo do francês Antonie Hercule Romuald Florence que veio para o Brasil com o objetivo de participar da Expedição Langsdorff (1825- 1829). Após sua volta, casa-se com Maria Angélica Machado e Vasconcelos57, filha única do “cirurgião-mor, comendador do Império, parlamentar e líder liberal, Francisco Álvares Machado e Vasconcelos, natural da cidade de São Paulo, e de dona Cândida Maria de Vasconcelos Barros, natural de Itu” (RIBEIRO, M. 2016, p. 206). Hércules Florence ainda traçou relações, a partir dos sogros, com Reginaldo Antonio de Moraes Sales, com o tenente Antonio Benedito Cerqueira Leite – pai de Francisco Glicério Cerqueira Leite e Jorge Miranda58 –, assim como com além das famílias Camargo Andrade e Sousa Aranha, tendo o capitão Francisco José de Camargo Andrade, Francisco Egydio de Sousa Aranha, José Egydio

57 Maria Angélica Machado e Vasconcelos se casaria, a princípio, com o zoólogo Cristiano Hasse, um dos membros da expedição, tendo ele desistido pouco antes de seu início, para a realização do casório. Entretanto, sabe-se que o matrimônio não ocorreu, como afirma Florence (2007 p. 19): “[e]m Porto Feliz retirou-se também Hasse da expedição e sobre a sorte dele nada se sabe de certo. Dizem alguns que ele se suicidou logo depois, outros que ele viveu por muitos anos em Capivari como boticário”.

de Sousa Aranha, Pedro Egydio de Sousa Aranha e Floriano de Camargo Campos, prestado auxílio à família de Hércules Florence em determinados momentos de dificuldade (RIBEIRO, 2016, p. 216, 127).

Dos filhos de seu casamento, toma destaque a figura da Amador Bueno Machado Florence, nascido no dia 19 de março de 1834, que se tornou maçom de 12º grau, era republicano e lecionou latim, francês e desenho no Colégio Culto à Ciência, além de ter participado de sua fundação.

Ainda, após quatro anos da morte de Maria Angélica, que ocorrera em 17 de fevereiro de 1850, Hércules Florence casa-se novamente, dessa vez com Carolina Krug, irmã de seu amigo Jorge Krug. Carolina Florence era proprietária do chamado Colégio Florence59 e nele estudavam filhos de membros da sociedade campineira, muitos desses vinculados posteriormente à fundação de outras escolas, como é o exemplo de Joaquim Quirino dos Santos, Francisco Quirino dos Santos, Francisco Glicério, Manoel de Moraes Salles, Joaquim Ferreira Penteado, entre outros60 (RIBEIRO, 1993). Essa questão, dentro de uma sociedade moldada por laços pessoais, demonstra o próprio apoio desses membros a Hércules e Carolina Florence.

Dessa forma, pode-se analisar a inserção social de Guilherme Krug a partir das relações traçadas por seu cunhado Hercules Florence e seu irmão Jorge. Sendo esse um processo diferente do ocorrido com Ramos de Azevedo.

Além dos contatos com os membros da Gazeta de Campinas, Ramos de Azevedo era próximo do Barão de Parnaíba, vinculado ao Partido Conservador e do Visconde de Indaiatuba, ligado ao Partido Liberal, sendo o último responsável por entregar a finalização da construção da Igreja Matriz à Ramos de Azevedo. Obra que trouxe projeção para o arquiteto e engenheiro. Não que as atividades de Ramos de Azevedo não fossem dependentes de seus clientes em um momento inicial de sua carreira, porém, o arquiteto, além de ser possuidor de uma formação na universidade belga em um período em que o título nobiliárquico era progressivamente trocado pelo diploma universitário (FAORO, 2012), inseria-se de forma privilegiada numa formação social constituída por relações de parentesco que eram definidoras, muitas vezes, de posições sociais mais e menos prestigiadas. Essa relação podia ainda ser potencializada pelo poderio econômico do núcleo familiar principal. Assim, sua

59 Sobre o Colégio Florence e a trajetória de Carolina Krug Florence, ver Ribeiro (1993, 2006). Quanto ao edifício onde funcionava o colégio, ele havia sido cedido por Jorge Krug à sua irmã, sendo que Krug defendia a expansão escolar na região (RIBEIRO, 1993 pp. 39-40), tendo contribuído na fundação de outros colégios, como o Colégio Internacional e o Culto à Ciência.

inserção garantia contatos e relações que, mantidas e trabalhadas por ele, produziriam e reproduziriam “ligações duradouras e úteis, aptas a proporcionar ganhos materiais e simbólicos” (BOURDIEU, 2007, p. 68). Ainda, Ramos de Azevedo enquadrava-se naquilo que seria socialmente legítimo para sua época: a geração diplomada de um grupo social formado principalmente por laços de sangue, em que o casamento era visto como uma estratégia de manutenção e ampliação do poder.

Quanto aos títulos acadêmicos de Guilherme Krug, não foram encontrados documentos que demonstrassem seu grau de instrução ou detalhes de sua formação. Existem apenas menções de que tenha trabalhado com seu pai ainda na Alemanha e estudado por alguns anos na região de Fresno, nos EUA. Dentro dessas perspectivas ainda é notória a diferença de atuação entre Krug e Ramos de Azevedo. O primeiro trazia consigo o ofício do empreiteiro, tratava-se de um engenheiro que também se colocava como construtor. Já o segundo apresentava a prática do escritório, em que se desvinculava o trabalho prático de empreita com a atividade da arquitetura e engenharia, logo, aqueles que realizavam os desenhos não eram empreiteiros. Entretanto, a consolidação dos escritórios especializados de arquitetura e engenharia se dará apenas no período republicano.

Quanto às relações matrimoniais de Guilherme Krug, ele se casou com Amely Bailey, americana que conheceu em sua viagem de estudos para os EUA. Bailey não possuía relação alguma com o meio em que Guilherme Krug atuaria. Dessa forma, esse casamento não representou uma estratégia de inserção na sociedade campineira, reforçando a ideia que Guilherme Krug se inseriu a partir das relações traçadas por seu irmão Jorge Krug e por seu cunhado Hercules Florence.

O casamento e a formação de vínculos familiares são constituídos por um conjunto de práticas sociais que traçam processos de vivência e interpretação do mundo comuns com determinados grupos sociais. No contexto trabalhado, os laços familiares são fatores que apresentam questões como união, crescimento e preservação de riquezas, assim como manutenção e ampliação de poder político, prestígio e influência social, pontos muito bem apresentadas por Bacellar (1997) em seu livro Os Senhores da Terra e por Ribeiro (2016) no capítulo Famílias, propriedades e transformações na riqueza (1830-1930), inserido no volume dois do livro Sesmarias, Engenhos e Fazendas: Arraial dos Souzas, Joaquim Egydio, Jaguary (1792 – 1930).

Conforme já apresentado e demonstrado por Moraes (2006, p. 98) – ao abordar a oligarquia agrária e os laços de parentesco que compunham os quadros discentes da Faculdade de Direito de São Paulo – e por Basbaum (1986, p. 211) – quando analisa os

participantes da Convenção de Itu de 18 de Abril de 1873, o traçado das relações de parentesco e de sociabilidade é matéria importante para o alcance da compreensão dos grupos sociais aqui relacionados e que estavam envolvidos diretamente no processo de edificação das instituições de ensino abordadas pela presente pesquisa.

No caso trabalhado, a figura de Ramos de Azevedo enquadrava-se dentro das estratégias de sangue do grupo, contribuindo para os processos de mecenato já citados. Ainda deve-se considerar que o mecenato não se comprova apenas por isso, mas observa-se uma série de contratações realizadas por figuras de influência em Campinas, que possuíam ainda relações pessoais com o arquiteto, seja de parentesco ou de amizade com sua família. Destaca-se a contratação por parte do Barão de Parnaíba, membro do Partido Conservador, em 1886, para a construção do edifício do Tesouro Nacional – ato que o levou a residir em São Paulo. Essa relação é reconhecida por Ramos de Azevedo e apresentada, inclusive, na forma de depoimento do próprio arquiteto para Pelágio Lobo:

[e]m 1926, dois anos antes de falecer, depois de ter trabalhado exaustivamente para sucessivos governos republicanos, 40 anos após o início dos edifícios das secretarias de Estado a convite do conde de Parnaíba, ainda mantinha numa das paredes de seu escritório o retrato daquele titular do Império e, referindo-se a ele, disse carinhosamente a Pelágio Lobo, mostrando a tela: ‘É o Parnaíba, o ‘anjo bom’ desta casa... foi esse homem quem me deu a mão no princípio da minha vida; quem me pôs na primeira turma de construção da estrada’ [...] (LEMOS, 1993, p. 9)

Na sociedade à qual pertenceram Krug e Azevedo, o mecenato (MICELI, 2003) foi um instrumento político-burocrático de favorecimento de membros de um mesmo grupo social. De fato, na sociedade campineira da segunda metade do século XIX, as instâncias políticas eram controladas por um grupo mandatário – que valorizava mais as próprias relações pessoais do que até mesmo as políticas –, utilizadas para a reprodução do poder do