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Capítulo 1 – Antonio Gramsci e os grupos subalternos

1.5 Grupos subalternos

Os termos subalterno e subalternidade indicam uma situação de desvantagem, de assimetria em relação a uma outra, a qual atribui-se uma posição de relevância, de preponderância social, econômica, de raça, gênero, orientação sexual, instrução e outras formas sociais e historicamente determinadas de inferioridade, dependência e de subordinação. Aos sujeitos nesta situação podem ser acrescentados outros qualificativos, como detentores de uma posição secundária, de invisibilidade, conforme GONZAGA (2011). Em Gramsci tal conceituação considera fundamentalmente as formas históricas de constituição dos grupos subalternos, as formas sob as quais o domínio e a direção são exercidos sobre as classes subalternas e como estas podem emancipar-se, saindo desta condição, tornando visíveis “as operações político-culturais da hegemonia que escondem, suprimem, cancelam ou marginalizam a história dos subalternos” (BUTTIEG, 1999, p. 30).

Profundamente comprometido com as condições nas quais a emancipação humana pode se tornar possível, Gramsci dedica especial importância à história e ao papel dos grupos subalternos. Na verdade pode-se compreender também todo o seu o esforço intelectual como uma compreensão deste papel e das formas como tais grupos podem superar a condição de subalternização. No Caderno 25 há um esforço de síntese de suas elaborações feitas em anotações anteriores, no sentido de estabelecer o caráter ‘episódico’ e ‘desagregado’ desta história, mas que, em sua atividade laboral, tendem à ‘unificação’, ainda que provisória. Tendem, além disso, nesta condição, à superação da subalternidade, à disputa da hegemonia, ganhando organicidade e visão de totalidade (DEL ROIO, 2007, p. 64). Neste processo, o papel dos intelectuais orgânicos é fundamental, decisivo.

Neste esforço intelectual, Gramsci (1999, v. 6, p. 180) vai apontar os aspectos que são necessários considerar para a compreensão do processo de formação/constituição dos grupos subalternos, mediante a proposição de seis fases:

a) A formação objetiva dos grupos sociais subalternos através do desenvolvimento e das transformações que tem lugar no mundo da produção econômica, sua distribuição quantitativa e sua origem em grupos sociais pré-existentes, dos quais conservam durante certo tempo a mentalidade, a ideologia e os fins;

b) Sua adesão passiva ou ativa às formações políticas dominantes, as tentativas de influir nos programas destas formações para impor reivindicações próprias e as consequências que tais tentativas tiveram na determinação de processos de decomposição, de renovação ou de neoformação;

c) O nascimento de partidos novos dos grupos dominantes para manter o consenso e o controle dos grupos subalternos;

d) As formações próprias dos grupos subalternos para reivindicações de caráter restrito e parcial;

e) As novas formações que afirmam a autonomia dos grupos subalternos, mas nos velhos quadros;

f) As formações que afirmam a autonomia integral, etc. ´

Estas fases implicam em uma evolução, desde a formação inicial dos grupos subalternos até a sua autonomia em relação aos grupos dominantes. MONAL (2003, p. 197) destaca que a substituição no Caderno 25 da expressão classe subalterna por grupo subalterno impõe uma ampliação do conceito (de resto presente na noção de Estado e de intelectuais), no sentido de que os subalternos abrangem tanto classes - conceito que não é abandonado - como grupos, incluindo camadas sociais que ainda não se constituíram ou que não podem ser definidas enquanto classe. Gramsci enfatiza que o conjunto das relações sociais é contraditório e que a consciência histórica dos homens é igualmente contraditória, e que esta (contradição) se manifesta em todo o corpo social. Contudo, a desagregação é mais aguda nos grupos subalternos, por falta de iniciativa histórica, pela própria luta por livrar-se de princípios impostos de fora, pela tentativa de formação de uma consciência autônoma, que sofrem sempre a iniciativa do grupo dominante para mantê-los em uma situação de subalternidade.

Assim é que no processo de construção de um projeto hegemônico – de direção moral, cultural e ideológica - das classes secundarizadas presentes na sociedade que Gramsci (1982) vai destacar três etapas ou momentos desta construção: a) inicialmente, constata-se a existência

objetiva de uma classe, mas sem que isto signifique existência política; b) um segundo momento de cunho econômico e corporativo, direcionado para interesses específicos de classe mas que incorpora reflexões no sentido de uma “consciência política coletiva” (p. 49) e superação de uma situação de isolamento; c) o terceiro, em que “se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente econômico, e podem e devem tornar-se os interesses de outros grupos subordinados”. (p. 51). Desta forma, trata-se de determinar como a cultura e vontade coletiva auto-organizada de uma classe subalterna pode surgir e se transformar em antagonista das classes dominantes, superando a condição de subalternidade, partindo das condições existentes, das contradições impostas pela realidade. Ou seja, a análise das condições concretas que possibilita a coesão interna de segmentos de uma classe ou mesmo a adesão de outra(s) classe(s), de maneira a que um projeto cuja base e origem é particular, se generaliza ou até se universaliza, tornando hegemônico. Nestas bases, segundo NASCIMENTO (1984) a hegemonia então se realiza em um “locus” específico, com um conteúdo preciso, em formas singulares e através de instrumentos e instituições que lhe são próprias.

Gramsci observa que

“A unidade histórica das classes dirigentes ocorre no Estado e sua história é essencialmente a história dos Estados e dos grupos de Estado. Mas não se deve acreditar que tal unidade seja puramente jurídica e política, mas também esta forma de unidade tem sua importância e não somente formal: a unidade histórica fundamental, por ser concreta, é resultado das relações orgânicas entre Estado, ou sociedade política e sociedade civil. As classes subalternas, por definição, não estão unificadas e não podem se unificar enquanto não puderem se converter em ‘Estado’: sua história, portanto, está entrelaçada com a da sociedade civil, é uma função ‘desagregada’ e descontinua da história da sociedade civil e, através dela, da história dos Estados ou grupos de Estado” (GRAMSCI, 1999, v. 6, p. 180).

Isto tem implicações importantes. Primeiro, reconhecendo na noção de Estado ampliado o ‘locus’ para a disputa de projetos hegemônicos; segundo, realçando a importância da sociedade civil como o espaço por excelência de ação dos grupos subalternos (posto que ainda não se tornaram Estado) e, terceiro, pela necessária unificação e identificação entre grupos subalternos e sociedade civil para ao constituição de um outro Estado, distinto do capitalista. Gramsci reconheceu também no Estado burguês a capacidade de anular a autonomia de ação das classes

subalternas pela incorporação à vida estatal de determinadas demandas que são colocadas pelas mesmas, além da busca do consenso através dos aparelhos privados de hegemonia.

A construção de um novo modo de pensar e agir, mediada por uma concepção das relações sociais concretas que sejam coerentes e críticas, capaz de superar o senso comum é condição essencial para a superação da subalternidade. Mesmo o senso comum já é o embrião de uma nova formulação, pois carrega potencialmente “uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar” (GRAMSCI, 1982, p. 8). É nesta conotação que deve ser buscado o sentido de afirmação de Gramsci de que todos os homens são filósofos. SIMIONATTO (2004) compreende que uma classe social, ainda que seja portadora de uma concepção das relações sociais fragmentada, aceita como verdadeira uma concepção que lhe é estranha, não por uma crença nestas posições, mas por que tem uma conduta que não chegou ainda a ser independente e autônoma. Mas tais assimilações acríticas de uma determinada concepção que não guardam uma correspondência na prática das classes subalternas, sendo por isto mesmo contraditória, conduzem a descontentamento e insatisfação. Alterar esta assimilação acrítica significa formular (criticamente) posições antagônicas à concepção dominante, “através de uma luta de hegemonias políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real” (GRAMSCI, 1999, v. 5, p. 251).

A questão de como se unificam as classes subalternas é complexa, ainda mais se a compreendermos como o ponto central da filosofia da práxis, isto é, de que maneira a forma e o conteúdo da cultura das classes subalternas podem vir a se tornar cultura e vontade coletiva antagônica à das classes dominantes, superando o seu papel subalterno. Gramsci insiste no potencial do que ele denomina de ‘espírito popular criativo’, na capacidade dos grupos subalternos de formulações próprias, ainda que desagregadas e episódicas, mas tendentes à unificação. Como já dissemos, para Gramsci é inegável que a capacidade de tais grupos de gerarem os seus intelectuais orgânicos é essencial nesta disputa de posições e de projetos de hegemonias contrastantes. DEL ROIO (2007, p. 72) assume que isto envolve a necessidade de a classe operária assumir uma perspectiva de totalidade, implicando um programa, projeto, um momento de construção e uma perspectiva cultural a eles adequada, com a compreensão de que

economia, política, sociedade civil, Estado compõem uma mesma realidade e de que tal totalidade, na ótica dos grupos subalternizados é a oferecida pela filosofia da práxis.

Gramsci indaga profundamente sobre a divisão do gênero humano que é portadora de uma ‘naturalidade’ hegemonizada pela sociedade capitalista ao questionar se

“O que se quer é que sempre existam governantes e governados ou, ao contrário, desejam-se criar as condições nas quais a necessidade da existência desta divisão desapareça? Ou seja, parte-se da premissa da perpétua divisão do gênero humano ou se crê que essa divisão é somente um fato histórico que corresponde a determinadas condições” (GRAMSCI, 1999, v. 5, p. 172-173).

A análise de Gramsci procura demonstrar que os grupos subalternos podem se tornar protagonistas de suas próprias histórias, referenciadas por uma concepção de mundo que seja coerente e coincidente com a sua prática.

A intenção da nossa pesquisa é verificar se os conceitos gramscianos, suas implicações e conexões nos permitirão uma compreensão da forma particular de constituição do corpo de servidores técnico-administrativos em educação da UFMG e suas consequências para os desdobramentos posteriores, tanto na compreensão de seu papel, na construção de sua identidade, na disputa de projetos, como na (possível) superação de sua subalternidade.

Capítulo 2 A constituição do corpo técnico-administrativo da UFMG e sua inserção