3 AS FACES DA PSICOPATIA
3.18 Guerra declarada
31 de agosto de 1942
Santa Rita do Passa Quatro
Desde o dia 22 de agosto, o Brasil finalmente assumiu o seu lado na guerra e no
front de batalhas. Diferente do que alguns dali podiam esperar147, Getúlio Vargas tomou
partido dos Aliados, apesar de sua relação com os integralistas e de seus flertes com o fascismo. Vimos o primeiro sinal disso já no início do ano, quando o presidente rompeu as relações diplomáticas com os países do Eixo. Como represália, os alemães reforçaram seus ataques às embarcações brasileiras; o que já tinha acontecido desde 1940, mas em proporções muito menores. Depois de afundarem 14 navios no intervalo de maio a julho, em apenas 4 dias o submarino alemão U-507 matou mais de 600 pessoas ao atingir 5 navios e um barco. A necessidade de uma resposta à altura não poderia ser adiada, portanto. Com os pedidos das ruas e a insistência dos americanos, que há muito esperavam por isso, a declaração de guerra se tornou inevitável. Vargas não era exatamente o maior defensor da democracia, como tenta sugerir em seu anúncio… Era justamente mais um ditador, assim como os que serão combatidos pelos soldados brasileiros. Mas, na opinião de Humberto, ele tomou uma decisão acertada.
145 É a protusão do globo ocular, que faz com que um ou os dois pareçam “esbugalhados”. 146 Continua na crônica 3.25.
147Como aponta Dietrich em seu estudo sobre o Nazismo tropical? O partido nazista no Brasil, "Muito já se discutiu sobre os possíveis alinhamentos ideológicos do presidente Getúlio Vargas com o nazismo. No entanto, o que fica explícito é que durante a década de 1930 houve interesses por trás desta relação amigável entre os dois países. Qualquer ruído da ordem de “reprimir” o partido nazista estrangeiro poderia prejudicar tal relação" (2007, p. 120)
Figura 37 - Manifestação de estudantes pedindo o posicionamento de Getúlio Vargas na Guerra. Fonte: Exame
Por muito tempo ele tentou convencer a todos de que a violência dos nazifascistas levaria a uma nova guerra mundial, ouvindo como resposta apenas os risos e o descrédito de seus conterrâneos. Quando finalmente viram o despontar dos conflitos em 1939, o tom das conversas começou a mudar pouco a pouco: parecia que, conforme a violência se intensificava, os ânimos também se exasperavam. Alguns, como Paolo Rizzo, pensavam que a Alemanha alcançaria a vitória de forma breve. Depois de dominar tão rapidamente a Polônia e avançar sobre pequenas nações como a Bélgica, Luxemburgo e Dinamarca, ele acreditava que logo Paris estaria tomada, o que marcaria a vitória de Hitler:
— Agora sim. Daqui quinze ou vinte dias termina a guerra, porque a Inglaterra é obrigada a capitular, senão vai ser invadida pela Alemanha.
— Doutor, eu lhe disse, a guerra vai começar daqui adiante, terrível e desoladora — dizia Vincenzo, fazendo um prenúncio do que viria pela frente.
De fato, a guerra estava apenas começando. A entrada da Itália ocorreu apenas depois, deixando o médico na expectativa sobre as suas futuras alianças. Em uma das conversas com Humberto, disse que desistiria de ser fascista caso os italianos se aliassem com alguma democracia. Tomaria de volta a terra e o dinheiro com que
contribuía, devolvendo até mesmo seu certificado de membro do partido. Era comum que, ao encontrá-lo na rua, Paolo fizesse a saudação fascista para provocá-lo, para o que Vincenzo tentava não dar importância… Uma indiferença que não conseguia ter com as ofensas do cunhado dele. Mesmo de longe, o parente do médico sempre gritava "adeus às democracias!" quando o via, ao que ele respondia dizendo "adeus Hitler e Mussolini, que não têm lugar para se esconder no mundo inteiro".
O centro das discussões sobre esse assunto internacional era a farmácia de propriedade de João Peixoto — o mesmo que, há alguns anos, discursava ao lado do médico em celebração às vitórias da Itália contra os etíopes. Apesar de suas possíveis discordâncias, ele e Vincenzo Faggion sempre se encontravam para conversar e jogar baralho. Em um certo dia, o barbeiro estava na sapataria lendo uma edição do Correio
da Manhã que tinham lhe emprestado. Lá havia um artigo sobre uma pequena derrota
da esquadra italiana para a Inglaterra, que Faggion pediu para recortar e guardar pra si, pois havia achado muito bem escrito. Pouco depois, mostrou o artigo a Peixoto, que entrou por acaso no recinto. Concordando com os elogios feitos à matéria, pediu a ele que o emprestasse para mostrá-lo a Paolo Rizzo, dizendo que ele poderia concordar com o ponto de vista do autor. "Não vale a pena", disse Humberto, mas com a insistência de João Peixoto, disse que poderia levá-lo. Ele o buscaria na farmácia na mesma noite ou no dia seguinte, mas pediu para que tomasse o cuidado de não rasgá-lo, pois queria guardar o recorte.
Foi ao encontro dele apenas alguns dias depois, quando o dono da farmácia disse que ainda não teve a oportunidade de mostrar o artigo. Vincenzo pediu que o devolvesse, pois ele mesmo poderia levar ao médico em alguma ocasião… Ainda que não achasse isso necessário. Nessa mesma hora, passam pela porta justamente o Dr. Paolo, seu cunhado e dois de seus sobrinhos, ainda crianças. Lá também estavam cinco ou seis clientes, todos apoiadores do integralismo e nazifascismo. Aproveitando a sua presença, Peixoto o chamou:
— Aqui, doutor. Um artigo que o senhor, creio, em alguns pontos de vista concorde.
O médico começou a ler. Quando chegou ao ponto em que a derrota da esquadra italiana era mencionada, ficou furioso, rasgando o artigo em pedacinhos. Incomodado
com a situação, Humberto lhe disse algumas "verdades" que estavam há tanto entaladas:
— Doutor, isto não é delicadeza, rasgar o artigo. Se por acaso a Itália não progride e não consegue obter muita vitória é porque a maioria do povo é contra o regime fascista e também contra a aliança com a Alemanha; e Mussolini foi no poder com a barbaridade, com a violência, brutalidade, óleo de rícino e manganello, isto é a pura verdade.
Ainda mais furioso, Paolo tentou atacar o barbeiro, mas foi impedido pelos homens que estavam na farmácia. Isso não evitou que o insultasse e ameaçasse. Enquanto o seguravam, gritava: "sai daqui, velhaco, senão te mando prender!". Humberto permaneceu ali, firme, até que ele saísse com o seu cunhado e os sobrinhos. A partir daí, a relação entre eles ficou cada vez mais estremecida: o médico deixou de chamá-lo para conversar e passou a encará-lo com ódio, como se o quisesse fuzilar. Da mesma forma, seu cunhado olhava para Vincenzo como se ele fosse uma preda de caça. Mas as importunações que sofria mesmo antes do rebentar da guerra ainda estavam longe de ter fim. Bastava pôr os pés para fora de sua casa que encontrava uns e outros para perturbá-lo, fazendo o possível para que entrasse em discussões que tentava ao máximo evitar. Para o barbeiro, isso acontecia porque ele era o único antifascista inconcusso daquela cidade. E enquanto alguns se contentavam com a zombaria, outros tentavam desmoralizá-lo ou até convencê-lo a mudar seu posicionamento à força, na base de brutalidade e ameaças. Quando o via de longe, uma dessas pessoas gritava: "você não odeia ainda ao fascismo? Olha o óleo de rícino e manganello". Em um dia à noite, quando estava em um bar, Humberto foi surpreendido com o mesmo homem gritando em seu ouvido: "ainda não aderiu ao fascismo?". Como resposta, o barbeiro disse "um ou outro ficaria liquidado" se ele não parasse com as provocações — o que fez com que finalmente parasse de persegui-lo. Em inúmeras discussões, Vincenzo dizia que a Alemanha estava condenada ao suplício de Fantolo148,
que o nazifascismo ora ou outra iria desaparecer, e que, se pudesse, ele mesmo estaria pronto para combater e abreviar essa derrota. Ao ouvi-lo, muitos riam e zombavam dele, perguntando como raios ele conseguiria fazer isso:
148 É possível que ele tenha referenciado à expressão “suplício de Tântalo”, a qual fala do sofrimento de
— Com o sacrifício da minha vida a favor da liberdade, da justiça e do direito do povo. Por esta causa, não me importaria de morrer queimado vivo — respondia Vincenzo Faggion.
Na mesma proporção em que a Alemanha progredia na guerra, conquistando vitórias estrondosas, aumentava o vexame dos nazifascistas contra o barbeiro. Além das já habituais saudações fascistas, gritavam "adeus democracia"; "a Inglaterra não ganha a guerra"; "adeus, Stalin, a Rússia vai desaparecer"; "adeus, República"; "adeus, judeu"; "adeus, liberdade"...
Quando leu as notícias sobre a declaração de guerra contra a Itália e a Alemanha, Vincenzo finalmente se sentiu compreendido. A autoridade máxima do país mostrava que, apesar de toda a perseguição sofrida nos últimos anos, ele estava do lado certo. Parecia ter chegado o momento de mostrar isso aos habitantes de Santa Rita.149
3.19 O canivete
1 de setembro de 1942
Santa Rita do Passa Quatro
Vincenzo Faggion saiu de casa resoluto. Levando no bolso as cartas que escrevera na noite anterior, ele percorreu por volta de 600 metros seguindo da Rua Victor Meirelles até a Severino Meirelles, onde morava Paolo Rizzo. Em sua cabeça ecoava a lembrança das ameaças do médico, que há muitos meses disse que bateria nele ou mandaria prendê-lo só porque tinha falado a verdade contra Mussolini. Já próximo de seu destino, ele o avistou de longe, vindo no sentido oposto; Vincenzo caminhava na calçada de cá e ele de lá. Quando Paolo o viu, atravessou a rua vindo direto na sua direção, mas não se sabe o que exatamente ele queria. Antes que pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, o barbeiro abriu o canivete, e gritando “morra Mussolini e Hitler!”, o atingiu em sua barriga150. Sua intenção era que essa canivetada ajudasse a bater o moral
dos nazifascistas para abreviar a derrota de todos eles.
149 Continua na crônica 3.19.
150O momento em que ele desfere o golpe é suprimido do relato de Vincenzo, como se vê em seu testemunho: “precisamente, eu estava seguindo a avenida Severino Meireles quando o avisto que vem em sentido oposto, eu estava caminhando na calçada de cá e ele de lá. Quando me viu, atravessou a rua vindo direitinho em minha direção (não sei se vinha conversar comigo). Abri o canivete, gritando: ‘Morra Mussolini e Hitler!’ e em seguida fui ao correio depositar as cartas na caixa endereçadas aos jornais, caso eles quisessem publicá-las e divulgá-las”.
De imediato, Vincenzo seguiu até o correio para depositar 4 das cartas que trazia no bolso, que já estavam encerradas em envelopes e seladas com o endereço de redatores e diretores de diferentes jornais. As outras 3 ou 4 ele distribuiu pela cidade, enquanto andava e gritava continuamente “morra Mussolini e Hitler! Abaixo o fascismo!”. E, assim, ele seguiu o caminho até a cadeia pública, onde se entregou aos soldados que estavam de piquete. Ao contar o que tinha feito, ambos exclamaram admirados, dizendo “ah!... O doutor Paolo! Foi denunciado como chefe da quinta coluna!”, e em seguida lhe deram um aperto de mão. Vincenzo esperou por um tempo enquanto eles pareciam confirmar por telefone se ele de fato teria cometido esse ato e, com a confirmação, ele foi fechado no xadrez. Assim como os soldados, o cabo comandante do destacamento veio lhe dar a mão alegre, demonstrando-se expansivo. A abertura do inquérito ficou sob responsabilidade do delegado Pietro — a quem Vincenzo insistiu que não queria atenuantes, mas exigia que as testemunhas depusessem a verdade sobre o que passou nos últimos tempos.
Enquanto isso, Paolo Rizzo já estava no hospital para cuidar de seu ferimento. Para a sorte do médico, a farmácia de João Peixoto ficava logo ao lado de onde sofreu o atentado, o que permitiu que ele recebesse os primeiros socorros quase de imediato.151