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  junta militar argentina nunca teria imaginado que soldados britânicos iriam morrer pelas Falkland, arquipélago perdido no meio do Atlântico Sul, a 12 mil quilômetros de Londres. Seus integrantes não contavam com o caráter, o nacionalismo e o senso de honra de Margaret Thatcher: a Dama de Ferro.

“Aceito negociar, mas não me render.” Naquela sexta-feira, 2 de abril de 1982, Rex Masterman Hunt pensa estar com azar. O governador britânico das ilhas Falkland (Malvinas), arquipélago minúsculo do Atlântico Sul (12 mil quilômetros quadrados, menos de 2.500 habitantes para 700 mil carneiros), não tinha sido obrigado a deixar às pressas Saigon em abril de 1975? Reprise sete anos depois. Dessa vez, os atiradores de elite do exército argentino desempenham o papel do vietcongue. Deitado no assoalho de sua residência, Hunt nada tem a negociar: seus 80 Royal Marines (marinheiros britânicos) não são nada diante dos 3 mil combatentes argentinos. Ele só pode salvar as aparências, saindo de suas ilhotas em traje de gala, usando chapéu de duas pontas com plumas de avestruz. Um táxi londrino o leva ao aeroporto, onde um avião argentino o espera para conduzi-lo a Montevidéu, capital do Uruguai. Em Buenos Aires, o general Galtieri, há cerca de dois meses chefe da junta levada ao poder em 1976, saúda a multidão da sacada da Casa Rosada, na Praça de Maio. Esse cavaleiro atarracado, amante de boxe e de mulheres, exulta. Toda a Argentina está com ele, até mesmo os peronistas de esquerda (os Montoneros) e o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, oponente feroz. Ao som dos bumbos, a multidão entoa: “Ar-gen-ti-na!” e empunha bandeirolas: “Os pinguins também nos pertencem!”

Em Londres, é grande a consternação. “Shamed” , é a manchete do Daily Mail . “Renúncia!”, urra a  oposição trabalhista na Câmara dos Comuns. De fato, o ministro das Relações Exteriores, lorde Carrington, é obrigado a renunciar por não ter levado a sério as informações dos serviços secretos. Margaret Thatcher, por sua vez, jura que nada levava a crer em tal derrota. Ninguém acredita nela. Segundo documentos oficiais secretos revelados no final de 2012, a primeira-ministra britânica nunca  acreditou numa tal invasão. “Era uma coisa tão estúpida”, declarou ela diante de uma comissão de inquérito.

Não para o general Galtieri (55 anos), determinado a restabelecer a soberania argentina “usurpada” pela Grã-Bretanha antes do 150º aniversário da anexação britânica. Ou seja, antes de 1983. Pequeno resumo histórico: as ilhas Falkland são descobertas pelo português Fernão de Magalhães em 1520. Elas são ocupadas pela primeira vez em 1764 por uma colônia de pescadores de Saint-Malo – donde o nome

original, Malouines, ou Malvinas em espanhol – transportados por Bougainville. São cedidas à Espanha  três anos depois, quando ingleses já ocupam as ilhotas. Em 1770, os espanhóis desembarcam à força e expulsam esses últimos, antes de autorizá-los, finalmente, a aí residir. A Argentina independente de 1816 reivindica o território e aí instala uma colônia penitenciária em 1832. Mas os ingleses reconquistam o arquipélago no ano seguinte. Por razões estratégicas: antes da abertura do canal do Panamá em 1914, essas ilhas constituem uma escala para os navios passando do Pacífico ao Atlântico, ao sul do Cabo Horn, a mil quilômetros dali.

 Invencível Armada 

Em 1982, o interesse estratégico não é mais o mesmo. Mas revistas especializadas evocam a  existência de reservas de petróleo ao largo das Falkland. Ao sul, estende-se um continente rico de minerais, de hidrocarbonetos e de promessas: a Antártida. Enfim, há os princípios: “A democracia é a  regra da lei”, martela Margaret Thatcher. Desde 1965, resoluções da ONU  apelam inutilmente ao

diálogo bilateral, nada produz efeito. Na Argentina, o general Galtieri tem uma necessidade urgente de fazer vibrar a corda nacionalista. A situação econômica é catastrófica: inflação a 150%, desemprego a  15%, queda do produto interno bruto de 6%, dívida vertiginosa (35 bilhões de dólares), depreciação da  moeda, protestos da CGT peronista.

Mas ninguém quer realmente acreditar na guerra, nem mesmo naquele 5 de abril, quando a “maior frota de guerra que jamais havia navegado em tempo de paz” – cerca de quarenta embarcações de todos os tipos e de todos os tamanhos, porta-aviões, fragatas, submarinos, cruzadores, destróieres, navios- tênder, seguidos de navios de comércio – parte de Portsmouth. Aliás, ninguém deseja a guerra, a  começar pelos Estados Unidos, divididos entre a solidariedade interamericana com Buenos Aires e sua  aliança transatlântica com Londres. O secretário de Estado Alexander Haig inicia um fatigante trabalho de idas e vindas entre o norte e o sul para reconciliar as partes, baseando-se na Resolução 502 do Conselho de Segurança: fim das hostilidades, retirada dos argentinos, negociações. A Comunidade Econômica Europeia decreta, por sua vez, um embargo às importações argentinas. Agitação inútil. “A  fragata se aproxima, abre fogo. Eles desembarcaram atrás da colina.” Em 25 abril às 17h10, o comandante argentino da Geórgia do Sul, uma ilha a 1.300 quilômetros a leste das Falkland, transmite sua última mensagem a Buenos Aires. Em menos de 12 horas, os ingleses têm sucesso em sua primeira  prova. Comentário lacônico do comandante em chefe da Task Force   (Força Tarefa da Marinha  americana), o vice-almirante John Foster Woodward, apelidado “Sandy” em referência à cor areia de seus cabelos: “É só um aperitivo. O prato principal virá depois.” De fato, a “vitória de Grytviken”, o porto principal dessa ilhota desconhecida do mundo inteiro, é primeiramente psicológica. Em Buenos  Aires, o governo está em dificuldades. Os sindicalistas aproveitam a ocasião para sair às ruas.

Foi em 30 de abril que os ingleses iniciaram o prato principal. Um bombardeiro Vulcan, um aparelho de mais de 25 anos, vindo da Ilha da Ascensão – uma base americana a 6 mil quilômetros ao norte – bombardeia o pequeno aeroporto de Port Stanley, seguido algumas horas depois por aviões de decolagem vertical Harrier e helicópteros Sea King. O objetivo: impedir os argentinos de utilizar as Falkland como porta-aviões terrestre contra a frota britânica, mas também obrigar sua aviação – Mirage

III franceses, Dagger israelenses, Skyhawk americanos – a engajar-se. Os britânicos não esperam muito

tempo. Em 1º de maio, no fim da manhã, os radares assinalam uma formação. Quatro aviões argentinos são abatidos. “Atirei meu míssil no rastro do reator inimigo. Houve uma explosão e me senti triste”, confidencia um capitão inglês. No mesmo dia, Washington sai da ambiguidade levando seu apoio ao Reino Unido. Mais uma humilhação para Buenos Aires.

Em 2 de maio, o prato principal ganha um gosto amargo. O submarino inglês Conqueror afunda o  velho cruzador argentino General Belgrano: 323 mortos. A marinha argentina consegue, apesar das

condições perigosas – ondas de 10 metros, temperatura da água próxima de 0° C –, salvar a maior parte da tripulação. O navio, saído dos canteiros navais americanos, sobreviveu a Pearl Harbor e à guerra do Pacífico, mas não à Invencível Armada inglesa. Dois dias depois, é a vez do Sheffield, uma das embarcações mais modernas da Marinha Real Britânica, ser destruído por um míssil Exocet – de fabricação francesa – lançado por um Super-Etendard – também francês. Balanço: 30 mortos, 24 feridos. Manchete do Sunday Times : “A French ConnectionI  afundou o Sheffield?”. A diplomacia,

entretanto, não deu sua última palavra. Entre 4 e 9 de maio, uma trégua é decretada. O secretário de Estado Alexander Haig, suspeito por causa do alinhamento de Washington a Londres, teve de ceder seu lugar ao secretário-geral da ONU, o peruano Pérez de Cuéllar. Na realidade, os dois homens dividem o

trabalho: ao primeiro cabe a tarefa de flexibilizar a posição de Margaret Thatcher, ao segundo, a da   junta. Em 9 de maio, lastimavelmente, os bombardeios britânicos são retomados em Port Darwin e

Port Stanley, enquanto a Marinha Real Britânica cerca o arquipélago.

Em 20 de maio, o secretário-geral da ONU reconhece o fracasso de sua missão. “Time is running out 

(“O tempo urge”). Esse é o lema de Londres à medida que o inverno austral se aproxima. Em 21 de maio, diante dos Comuns, Maggie Thatcher adota tons churchillianos: “Estamos prevendo dias difíceis, mas a Grã-Bretanha os enfrentará, convencida de que nossa causa é justa.” Enquanto isso, o patriótico Financial Times   publica a cada manhã na primeira página um boletim meteorológico do campo de batalha: “Previsões para as Falkland. Vento de nordeste, força 7 a 8. Depressão de cinco a seis metros. Rajadas fortes. Visibilidade fraca. Temperatura em torno de 4°”.

Nesse mesmo 21 de maio, de madrugada, 2.500 soldados britânicos e seu equipamento desembarcam em apenas quatro horas. A Union Jack  (como é conhecida a bandeira do Reino Unido) é fincada no solo. Os fracos efetivos argentinos são rapidamente neutralizados. Mas, às 9 horas da manhã, a aviação de Buenos Aires aparece. Durante todo o dia, numa roda-viva impressionante partindo da  base onde se abastecem de combustível e de mísseis, Mirage, Skyhawk e Pucará – pequenos aparelhos antiguerrilha de ataque ao solo – bombardeiam os britânicos. Para escapar aos radares, os aviões voam  junto à água, os pilotos deixam o rádio em silêncio e trocam mensagens por sinais a partir dos cockpits ,

antes de mergulhar sobre os navios na altura do mastro. Dezesseis aeronaves argentinas são abatidas, mas os britânicos perdem cinco navios. Em 23 de maio, nove aviões argentinos são abatidos, no dia 24, oito, no dia 25, três… É uma hecatombe, e apesar de tudo os jovens pilotos argentinos, heroicos, recomeçam o ataque.

O ataque surpresa 

Ninguém espera por um desembarque britânico. Ainda mais porque tudo foi montado pelos setores de guerra psicológica para fazer crer nessa impossibilidade. O mundo inteiro deixou-se enganar, inclusive os consultores militares. “Sem possibilidade de desembarque num dia D, de um embate frontal. Será uma guerra de desgaste”, alardeia o general Edward Fursdon no Daily Telegraph. Os experts são categóricos: sem uma superioridade numérica da ordem de 7 contra 1 e uma cobertura aérea  sem falhas, todo assalto é vão. É não contar com a ideia de gênio de Sandy: dividir a armada em duas formações, uma para as sunlights , a imprensa, a opinião mundial, a outra para a sombra e para a eficácia. Do lado da luz, a nau capitânia Hermes – de onde ele comanda as operações –, seguida de um segundo porta-aviões, de destróieres e de fragatas, coloca-se ao longo da costa leste das Malvinas. Os Harrier decolam e atacam as posições argentinas em Port Stanley, Goose Green e Fox Bay, seguidos da  artilharia de marinha. Enquanto isso, no maior segredo, a outra parte da Marinha Real Britânica  percorre a costa norte do arquipélago, introduz-se no estreito que separa as duas ilhas Falkland – Soledad a leste, Grande Malvina, a oeste. É ali, no estuário do rio San Carlos, o local mais inóspito, que acontece o desembarque no qual ninguém acredita, preparado há várias semanas pelas forças especiais, em cooperação com os habitantes das ilhas. O porto principal tem a vantagem de ser de águas profundas, cercado de duas praias de areia e bordado por colinas onde serão instalados radares e baterias de mísseis solo-ar. Port Stanley, a capital das Falkland, está a apenas 80 quilômetros. Mas os caminhos estão num estado tão deplorável que são necessárias 14 horas para chegar lá de Land Rover.

Em 25 de maio, a aviação argentina celebra a festa nacional soltando foguetes Exocet contra dois navios britânicos, o destróier Coventry e o porta-contêineres Atlantic-Convoyer, que, por sua posição, protege a nau capitânia. Por pouco, a Inglaterra não é atingida pela catástrofe. Em Buenos Aires, Astor Piazzolla toca um tango clássico, “Cambalache”, em companhia do cantor Roberto Goyeneche: “É a  última dose, que o número acabe, que caia o pano sobre os coros.” Na Praça San Martin, as crianças agitam bandeiras azul e branco. “Um, dois, três, quem não pula é inglês. Ingleses, atrás , los chicos quieren

Stanley) está confiante: “Deus está conosco e o teatro de operações está sob a proteção da Virgem do Rosário”. O general Galtieri é ovacionado pela multidão.

No dia seguinte, os soldados britânicos atacam Port Darwin e Goose Green. Durante 15 dias, combates violentos os opõem aos argentinos trancados em seus bunkers. Em 13 de junho, eles cercam Port Stanley, defendido por 7 mil soldados. A televisão argentina interrompe a retransmissão da missa  rezada pelo papa João Paulo II em Buenos Aires para anunciar a má notícia. No dia seguinte, o general

Menéndez, especialista da luta antiguerrilha, nomeado governador militar do arquipélago em 3 de abril, dia de seus 52 anos – “Belo presente de aniversário”, ele comenta –, capitula. A Guerra das Malvinas acabou, ela durou 74 dias. Seu balanço: 649 mortos argentinos, 255 britânicos e 3 habitantes da ilha.

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Em 15 de junho, em Londres, algumas horas depois do cessar-fogo, um membro do Conselho que deve administrar de novo o arquipélago sob a direção do antigo governador Rex Hunt, declara à BBC:

“A criação de carneiro vai continuar, nós vamos desenvolver o turismo e a pesca.” Margaret Thatcher é aplaudida diante do número 10 da Downing Street como o “Churchill ressuscitado”. A rainha Elisabeth se declara “encantada e aliviada, entristecida pelas perdas em vidas humanas, mas orgulhosa pela  coragem e profissionalismo” dos soldados. Novamente, “Britannia rules the waves”   (a Grã-Bretanha  governa os mares).

Em Buenos Aires, os argentinos choram seus mortos, seus prisioneiros estropiados e suas ilusões. Eles se manifestam na Praça de Maio, onde a multidão havia aclamado a junta; dessa vez, para exigir o fim da ditadura. A manifestação torna-se uma rebelião, várias centenas de pessoas são presas. No dia 18, Galtieri pede demissão. “É preciso pôr em marcha a transição civil”, declara Raúl Alfonsín, dirigente do partido Radical, segundo partido argentino após o dos peronistas. Ele será o primeiro presidente eleito do período pós-junta militar, em dezembro de 1983.

No restante do mundo, os estrategistas tiram lições do primeiro conflito marítimo dessa  envergadura desde 1945. Lição n° 1: o domínio do mar pelo inimigo, em torno de uma ilha, mesmo que seja apenas local, faz com que esta também venha a ser dominada. Lição n° 2: uma frota não pode entrar em combate sob a ameaça de uma força aérea baseada em terra sem tê-la antes “neutralizado”. Lição n° 3: requisitar uma frota de comércio proporciona uma vantagem decisiva. Lição n° 4: os mísseis antimísseis são indispensáveis.

Os anos seguintes serão aqueles da pacificação. O governo britânico suspende as barreiras comerciais impostas aos produtos argentinos (1985), seguido pela Argentina, quatro anos depois. Em 15 de fevereiro de 1990, os dois países restabelecem relações diplomáticas, sem assinar a paz. O presidente argentino Carlos Menem viaja a Londres em 1998 e Tony Blair é recebido em Buenos Aires três anos depois. Mas esse reatamento é de fachada. A comemoração do trigésimo aniversário do conflito reaviva  as chagas. A presidente argentina Cristina Kirchner reafirma diante do Conselho de Segurança da ONU

os direitos inalienáveis de seu país sobre o arquipélago. A “determinação” de Londres em conservar as Falkland “jamais enfraquecerá”, lhe responde prontamente o primeiro-ministro David Cameron. Por outro lado, os 1.672 eleitores das Falkland confirmam em 98,8% seu pertencimento ao Reino Unido

num referendo organizado em março de 2013. Seis meses antes, o embaixador britânico no Chile tornara-se a última vítima colateral da Guerra das Malvinas. Num tweet que pensa endereçar à sua  conta particular ele escreve: “Argentinos, seus bichas, eles tomaram as Malvinas porque vocês são uns imbecis.” Ele teve de pedir desculpas. Mas daí em diante, ele soube que o Twitter é tão devastador quanto um Exocet.

Nota 

I N.T.: Trata-se de uma referência ao filme policial French Connection, em que uma dupla de investigadores americanos descobre que

Marselha, na França, é o ponto de partida do tráfico de grandes quantidades de heroína que chegam à América. No episódio da Guerra  das Malvinas, o efeito dessa referência é assemelhar o uso dos mísseis franceses à ilegalidade criminosa da “ French connection” do filme.

Bibliografia selecionada 

M AISONNEUVE, Charles; R  AZOUX , Pierre. La guerre des Malouines . Clichy: Larivière, 2002.

P AITEL, Philippe. La guerre des Malouines. Rennes: Marines, 2005.

PLANCHAR , Roger. La guerre du bout du monde . Paris: Denoël, 1988.

THATCHER , Margaret. 10, Downing Street, Mémoires, t. 1. Paris: Albin Michel, 2013.