6.2 O que dizem os leitores?
6.2.12 Habilidade leitora para realizar apreciações críticas
Joel tem 13 anos e costuma ler mangás. O pai ou a mãe concluiu o ensino superior. O adolescente também acessa a internet para ler o gênero citado (mangá), e considera “prazerosa” essa forma de leitura.
EXCERTO 29
(228) J.: Eu gostei muito do livro, porque ele é dividido em várias histórias, contos. E nenhum conto é real, porque eu não gosto muito da:: realidade. Então eu gostei muito dos contos. (229) P.: Então você gostou da maneira como o livro foi organizado, né isso? Tem algum conto que você destacaria pra gente?
(230) L.: O primeiro.
(231) P.: Como é o primeiro conto?
(232) J.: É sobre um peixe que foi tirado da água e foi salvo por um pescador. Daí esse peixe começou a acompanhar o pescador. Mas aí o pescador sentiu que o peixe tava triste, por tá fora, longe da família dele, daí quando ele entregou o peixe de novo à água, o peixinho morreu, afogado.
(233) P.: Que relação você... destacaria nisso, por que, assim, o peixe morreu, na tua opinião? (234) J.: Eu acho que quando você é tirado dum lugar e posto em outro, quando você volta, você sente indiferente, como se você não fosse mais daquele lugar.
(235) P.: Então o peixinho, no caso, aí, pode ter morrido porque não se adaptou mais à nova realidade... Qual foi o título, J., do livro que você leu?
(236) J.: Não lembro...
O estudante registra oralmente a sua experiência com o livro Faz de conto, uma antologia de pequenas narrativas de autores da literatura brasileira reconhecidos por se dirigirem principalmente ao público infantil e juvenil. J. afirma ter “gostado muito do livro” e destaca em sua fala aspectos consideráveis. Primeiro, a estrutura da obra, organizada em contos (geralmente lidos em breves intervalos de tempo). Depois, o discente menciona seu ponto de vista sobre uma das narrativas, a qual pode ser trazida à nossa realidade, como ele mesmo observou.
Assim, articulando comentários acerca da forma do livro e do conteúdo de um dos textos, o aluno direciona muito bem sua resposta, no turno (234), a uma pergunta do
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professor: o peixe morreu porque se “sentiu indiferente” ao seu lugar de origem; isto é, a natureza adulterada do animal, pela ação do homem, foi a grande responsável para que isso acontecesse, pois, ao retornar, o bicho já não era mais o mesmo, havia perdido a sua condição primeira.
EXCERTO 30
(237) P.: J., eu sei que você tem algo a nos dizer...
(238) J.: Eu li outro livro de conto, que é meu gênero preferido de... Eu gostei. Eu achei ele legal, mas lento cada conto, a maneira que se passava. Eu acho que algumas parte podia ser retirada.
(239) P.: Excelente observação! [...] Você achou que a narrativa poderia ser um pouco mais bem ritmada. Algumas partes são lentas, descritivas. Você tinha lido um livro de contos antes e pegou outro depois. Faz um comparativo.
(240) J.: Eu achei esse segundo melhor porque, o outro, ele era mais lento que esse. Daí deixava a história muito tediosa. Você não sentia muita vontade de ler. Mas o outro, os contos eram melhores. Eu terminei ele em uma hora. Esse outro eu demorei mais.
(241) P.: Como é sua relação com a literatura, tanto na escola como fora dela? Quando eu digo literatura, eu não tô falando só em textos consagrados. Porque você também tinha dito pra gente que gosta de ler história em quadrinhos. Isso também pode entrar pra literatura. Eu queria que você comentasse pra gente da sua vivência.
(242) J.: Eu parei mais, mas antes eu lia o dia inteiro. Chegava em casa, abria o computador, que eu leio pela internet. Passava até a noite, lendo, todo dia. Agora eu parei mais, porque eu tô estudando. Mas nas férias vou fazer isso.
(243) P.: E sua relação com o livro impresso, ela é muito frequente, ou começou a partir desse momento?
(244) J.: Eu tinha outros livros mas eu nunca me interessei a ler. Eu comecei a ler agora. (245) P.: E no caso você elege o conto como um de seus gêneros prediletos. Tem algum conto que tu queria falar pra gente?
(246) J.: É um conto que ele conta a história dos contos. Como surgiu o conto, como os primeiros povos usavam o conto. A história do conto mas de uma maneira sem ser como História, só os fatos...
Envolvido nas atividades, o leitor continua escolhendo livros e realizando leituras: dessa vez, ele indica o conto como seu gênero preferido, e confirma: a antologia Era uma vez um conto..., com vários autores da nossa literatura, é outro livro lido por ele. Novamente o aluno afirma ter gostado do que leu, mas faz uma ressalva: em sua opinião, os contos são “lentos”, e “algumas partes podiam ser retiradas”. Ao ser estimulado pelo professor a que fizesse um comparativo entre os dois livros, ele diz que, embora sejam bons, o segundo é melhor, pois o primeiro era ainda mais lento, e algumas histórias, a seu ver, “tediosas”.
Uma relevante observação a ser feita sobre a fala desse estudante é, sem dúvida, a habilidade com que ele lê e retira conclusões críticas, inclusive da linguagem dos textos. Esse dado nos leva a considerar J. como um leitor potencialmente sagaz e consciente do que lhe
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agrada, em contato com uma produção ficcional. Se lembrarmos que no excerto anterior ele justificara sua aproximação com o conto dizendo “não gostar muito da realidade”, enxergaremos nele um apreciador das produções ficcionais por encontrar nelas a fantasia e a fruição necessárias.
No turno (241), o professor pergunta ao aluno como é a sua relação com a literatura também fora da escola, ampliando o conceito da palavra para outras produções nem sempre consagradas institucionalmente. A resposta do leitor é a de quem, de fato, lia bastante, mas não tanto no presente momento, já que, segundo ele, seu tempo tem sido preenchido com outros compromissos escolares (tal como depreendemos da frase “Agora eu parei mais porque eu tô estudando”). E a resposta de J. ainda revela que ele costuma ler em ambiente virtual, no computador. No turno (246), ele explana rapidamente o conto destacado do segundo livro, o qual, em sua síntese, tematiza a origem dos contos pelos primeiros povos.
EXCERTO 31
(247) J.: Eu li esse livro [Papai não é perfeito]. Eu achei meio fraco. Não é igual um conto. Porque o garoto, ele mudava muito de opinião. No começo ele não gostava do pai dele. Ele contou uma história de como ele começou a gostar. Mas eu achei que nessa história num diz porque ele não gostava do pai dele. Eu achei que ficou fraco nisso.
[...]
(248) P.: Vale a pena ainda investir na leitura de um livro impresso, mesmo com o celular e o computador podendo oferecer leitura?
(249) J.: Eu acho que, em parte, porque o celular, o computador, ele oferece as mesmas coisas que um livro, mas você pega, há uma sensação diferente. Você tá lá, você pode mexer outras coisas. Já o livro não. Você tá em casa, em qualquer ambiente aconchegante, lendo um livro. Então, celular, você vai tá no ônibus, sentado numa cadeira desconfortável. Acho bem prazeroso ler o livro.
Em outro livro de sua escolha, agora uma novela, o leitor não se desvencilha da criticidade que lhe caracteriza, e enfatiza: o livro é “meio fraco. Não é igual um conto”. Fraco, em suas palavras, pelo fato de “o garoto”, uma das principais personagens, não ter esclarecido, durante a história, o porquê de uma determinada atitude: não gostar do pai, “no começo”.
Em seguida, questionado sobre o impacto das novas tecnologias na relação entre leitor e livro impresso, J. não exclui a forma de leitura virtual nem a tradicional, mas denota compreender os benefícios em cada uma. Para ele, objetos como “celular e computador” oferecem as “mesmas coisas” que um impresso, mas a pessoa ainda pode ter acesso a outros itens; contudo, por outro lado, é ao ler um livro convencional que o leitor encontra algum “aconchego”, o que seria “prazeroso”.
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Por isso, é correto afirmar que, da relação dinâmica entre o educando e os textos lidos por ele, resulta um aprendizado que consolida o seu senso crítico, numa clara confirmação de que ler, como destacam Lopes & Carvalho (2012, p. 115, grifos das autoras), é um “ato de construir significados, é um processo mediante o qual se compreende a lingua escrita, sendo o leitor um sujeito em interação com o texto”.