6.2 O que dizem os leitores?
6.2.14 Uma leitora e seu olhar particular sobre um tema universal
Uanda tem 14 anos e lê regularmente poesia. O pai e/ou a mãe frequentou a escola até a segunda etapa do ensino fundamental.
EXCERTO 33
(255) P.: U., apresente pra nós o livro que você leu.
(256) U.: É Afinal, é a felicidade... É a história de um menino, ele morava em Santa Catarina, aí ele e a família dele se mudaram pra Paraná. Lá ele começou a estudar, começou a trabalhar com o pai dele. Só que ele era um menino xxx. O sonho dele era xxx escola e ia pra casa trabalhar com o pai. Só que... teve um tempo... ele ficou doente e mudou a rotina dele. Na doença dele ele tinha que ficar só deitado na cama, não podia ir pra escola e não podia ajudar o pai dele. Aí ele não desistiu de ser feliz. Ele continuou sendo feliz só que, de outra maneira. Foi isso. Eu inda não terminei de ler...
(257) P.: Vai querer seguir? (258) U.: Unrum.
(259) P.: Gostei do enredo, chamou atenção. O título do livro que ela tá lendo também é um título bonito: Afinal, é a felicidade. Quer dizer, é um livro que vai tratar de um tema muito pertinente, né, quem não quer ser feliz? Mas, e aí, o que é a felicidade? Eis a questão.
A estudante escolheu para ler uma novela de Lucília Prado cuja temática faz referência a um dos temas mais caros e complexos da filosofia e da literatura, a felicidade e suas implicações. Convidada pelo professor a partilhar sua experiência com o grande grupo, a aluna, no turno (256), resume a narrativa até a parte em que parou, citando as principais personagens, pai e filho, ambos residentes no Paraná. Segundo sugere U. (apesar de alguns trechos incompreensíveis na gravação), um desejo do menino era estudar, frequentar a escola, algo dificultado por precisar ajudar o pai no trabalho deste, realizado em casa. Pelo que a aluna faz parecer, o enredo da história é convidativo em sua visão, pois, em resposta à pergunta do professor, ela diz, com uma interjeição afirmativa (“unrum”), que seguirá na leitura. Abaixo, vejamos a percepção de U., a partir do desenrolar dos fatos e seu desfecho.
EXCERTO 34
(260) U.: Eu tinha parado onde ele foi pra Santa Catarina. Aí lá em Santa Catarina, ele conheceu uma moça muito bonita. E essa moça, ele começou muito a gostar dela, e ela dele também. Mas eles eram muito vergonhoso. Aí eles começaram... Ele pediu ela em namoro, aí foi, pediu ela em casamento... Aí depois, o pai dele ligou pra ele e disse que ele tinha que voltar, porque o irmão dele, Gabriel, ia se casar. Aí ele pegou e voltou, pra lá, pro casamento. E lá, ele foi pro casamento. E depois do casamento, ele se encontrou com uma mulher, que levava ele pro hospital. E ele tava andando ainda de moletas. Aí, depois, essa mulher pegou e perguntou “Oxe, Rafael, você ainda tá andando de moleta?”. Ele disse “Sim”. Ela disse “Não, mas vamo resolver isso”. Ele disse “Não, eu vou ficar assim pro resto da minha vida”. Aí ela disse “Não, isso vai mudar. Chegou um médico muito bom, aqui, no Paraná”. Aí ela levou ele
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no médico. E lá no médico, o médico mandou ele pegar a moleta, “Solte”, pegar a moleta e sair andando. Ele ficou com muito medo, disse que não ia conseguir, ia cair. Aí começou a chorar. Ele pegou, o médico começou a ajudar ele, e ele conseguiu andar. E realmente o médico disse que há muito tempo ele tava curado, só tinha medo de colocar o pé no chão. Aí ele voltou pra lá. E se casou com ela, teve quatro filhos, e não desistiu de ser feliz, por causa de uma doença que mudou a rotina dele.
(261) P.: Ótimo. O livro passa uma mensagem positiva pro leitor?
(262) U.: Ele passa, porque, há muitas pessoa que por causa de uma coisa desiste de ser feliz. E ele não desistiu. Ele continuou, só que de outra maneira, né. E ele encontrou a felicidade noutro canto, porque nem... imaginaria que ia encontrar.
No turno (260), a leitora organiza sua fala permeando-a de retomadas ao enredo da narrativa: parece preocupada em recuperar os fatos mais importantes. Como vimos no excerto anterior, ela dissera que o menino “continuou sendo feliz só que, de outra maneira”: diante disso, perguntamos: de que maneira? Os acontecimentos expostos no turno (260) apontam- nos que maneira é essa: o garoto, apesar de doente, conhece uma menina e ambos se atraem mutuamente, a ponto de ele pedi-la em casamento. Em seguida, de volta para o lugar onde vivia sua família, o rapaz encontrou uma mulher capaz de ajudá-lo decisivamente em seu processo de recuperação. O clímax da novela acontece quando, em consulta ao médico, por intermédio de uma mulher, Rafael, o protagonista, vence o medo e o bloqueio psicológico (empecilhos de sua saúde física), só então conseguindo andar sem a limitação anterior.
De posse dessa sucessão de fatos da novela, a leitora nos acena como alguém que se envolveu com a narrativa e compreendeu o sentido reflexivo de superação das dificuldades que a trama pretende despertar no leitor. Outro aspecto a nos indicar objetividade na maneira como U. alude à história é o discurso direto utilizado por ela cinco vezes, trazendo as vozes da mulher que ajudou Rafael, deste mesmo e de seu médico. Além disso, a aluna repete alguns termos, talvez com a intenção de ser clara ao ouvinte, como, por exemplo, em: “Aí ela levou ele no médico. E lá no médico, o médico mandou ele pegar a moleta”. Há situações em que emite o plural de algumas palavras: “Mas eles eram muito vergonhoso” (pronome e verbo concordam; adjetivo, não); “há muitas pessoa” (emprega corretamente o verbo haver, no presente do indicativo, mas omite a concordância entre pronome e substantivo). Todavia, a totalidade do discurso de U. é bem encadeada, inclusive gramaticalmente.
EXCERTO 35
(263) U.: A experiência [com a leitura] é bom porque, lá na frente, a gente vai precisar da leitura. Ninguém consegue alguma coisa sem saber ler. E ler é bom, porque você vai conhecer, que nem os meninos falaram, coisas novas... Muda. Melhor que tá direto enfiado no celular. O celular num vai lhe dar nada, não vai lhe dar futuro. E a leitura, sim. E eu mudei muito, porque antes eu era direto no celular.
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A pergunta realizada à estudante antes de sua fala nesse excerto pretendia alcançar uma avaliação dela sobre seu contato com a leitura de um texto literário (ficcional) como o que acabara de ler e comentar. Como vemos, ela discorre ligeiramente sobre a leitura referindo-se a esta numa perspectiva utilitária, verificada quando explica: “porque, lá na frente, a gente vai precisar da leitura”. Imediatamente após isso, entretanto, a leitora anuncia: “E ler é bom, porque você vai conhecer, que nem os meninos falaram, coisas novas...”. Ou seja, uma noção funcional da leitura parece estar para ela num plano antecedente ao que qualifica o ato de ler como algo que seja “bom” e ofereça “coisas novas”, conhecimento.
De qualquer forma, o fato de a discente, quando compara o uso do celular à leitura, definir esta última como mais importante (“O celular num vai lhe dar nada, não vai lhe dar futuro. E a leitura, sim”), é um fator positivo, e a circunscreve como uma jovem que tem despertado sua consciência para os ganhos que a atividade leitora proporciona.