• Nenhum resultado encontrado

3.4.1.2 – Havah e Sitis:uma aparente igualdade de fatos com Gn 2-

No documento Download/Open (páginas 122-124)

Conforme analisado, há tempo que a exegese feminista tem trabalhado sobre a situação da mulher em Gn 2-3. A grande atenção que esses textos merecem deve-se à sua importância central na história da interpretação no judaísmo primitivo e principalmente no cristianismo e sua antropologia misógina. Schroer345 afirma que em lugar nenhum da narrativa javista da criação ou do primeiro pecado, a Biblia Hebraica refere-se à relação

acompanha a retidão e integridade de quem teme a Deus e se aparta do mal. Dos sete filhos e três filhas de Jó, só se lembram dos numerosos banquetes e dias de festa. Eles de nada necessitam, já que o pai Jó têm escravos em grande número”.

343

LÈVÉQUE, J. Job el libro y el mensaje. Editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), 1987, pp. 9. O autor em sua obra diz: “Na Bíblia, esse tema está esboçado em Gn 3,19, e ressurge em paralelo no Sl 139,13-15, onde se identifica a terra e a mãe, e mais claramente surge em Eclo 40,1”.

344PATTE, D. & J. F. Parker. “A Structural Exegesis of Gen. 2-3”, Semeia 18: 141-159, 1980; KEIL, C. F.

Genesis und Exodus (Giessen/Basel), 1983.; KRAUSS, Henrich; KUCHLER, Max. As origens: um estudo de Gênesis 1-11. Tradução de Paulo Ferreira Valerio. São Paulo: Paulinas, 2007. 248 p., il.;HÖLSCHER, G. HAT I/7, 1952; GERSTENBERGER, Erhard S. The Paternal Face and the Maternal Mind of Yahweh . Copyright ©

1997 by Word & World, Luther Seminary, St. Paul, MN, p. 365-375; DERRETT, J. D. M. “Speak ing of

Believing in Genesis 2-3”, Semeia 41: 135-139, 1988; DESROUSSEAUX, L. (ed.). La creation dans l’Orient ancient: congrès de l’ACFEB, Lille (1985) (LeDiv 127), Paris, 1987; DHORME, E. EtB, 1926; BAL, M. Femmes imaginaires: L’Ancien Testament au risqué d’une narratologie critique (Utrecht: HES; Montreal:

HMH; Paris: Nizet), 1986b; BAL, M. “Sexuality, Sin and Sorrow: The Emergency of Female Character (A Reading of Genesis 2-3)”, Poetics Today 6:21-42, 1985b; BAUMGARTEN, N.C. Die Umk ehr des

Schöpfergottes. Zu Komposition und religiongeschichtlichen Hintergrund von Gen 5-9 (HBS 22), Friburgo i.

Br., 1999; CASTEL, F. Commencements.Les onze premiers chapitres de la Genèse, Paris, 1987; MOREIRA, Gilvander L. Gênesis 1-3: Recriação. CEBI-MG, 2007, p. 7-32; MÜLLER, H-P.Das Hiobproblem: seine

Stellung und Entstehung im Alten Welt Orient und im Alten Testament (EdF 84) , Darmstadt, 1995; MÜLLER,

H-P. Der Welt- und Kulturentstehungsmythos des Philon Byblios und die biblische Urgeschichte, ZAW 112 (2000), pp. 161-179; REIMER, Haroldo. “Criação: complexo espaço-planetário – Uma leitura de Jó em

perspectiva ecológica”, en Fragmentos de Cultura, Goiania, Instituto de filosofia e teologia de Goiás/IFITEG,

Vol. 12, n.4, 2002, p. 643-657; PURY, A. Le chant de la creation. L’homme et l’univers selon le récit de

Genèse I (Cahiers bibique 1), Aubonne, 1986.

345

“mulher-queda”. A exegese feminista – mas ela não foi a primeira e nem a única – refutou algumas interpretações tradicionais e errôneas a partir de uma leitura mais atenta do texto.

A data exata do surgimento de Gn 2-3 não pode ser definida, uma vez que vários motivos narrativos entrelaçados apontam para um processo mais longo. Provavelmente, a parte principal da narrativa foi fixada por escrito na época da monarquia. Algumas relações temáticas não foram esclarecidas até hoje. Desde a Idade do Bronze Tardio, a serpente tem na iconografia uma relação estreita com a Deusa (Qudshu, que segura duas serpentes), porém o simbolismo da serpente no Antigo Oriente é tão polivalente que o pano de fundo da relação mulher-serpente não fica claro. Na Palestina, foi atribuída desde sempre à Deusa uma àrvore sagrada que, aqui, porém, é submetida a um tabu.

Na narrativa bíblica, porém, mulher e homem abrem mão da ordem estabelecida. A tentação da àrvore está – aqui há um acúmulo de motivos – em suas frutas desejáveis e no fato de ela prometer vida sem morte, conhecimento do bem e mal, ser como Deus e ter sabedoria (cf. ainda em Eclesiástico 24 o enraizamento da hokmah em diversas àrvores).

A mulher não é uma criação secundária, porque um ish - “homem”- recebe sua identidade sexual apenas pela criação de uma ishah, enquanto se fala antes apenas do Adam,

“terrestre”, sem qualquer definição sexual. A mulher é levada ao homem como seu

semelhante e auxiliar e como o ser mais intimamente aparentado. Gn 2,24 explica esse parentesco dizendo que todo homem negligenciará (não abandonará) seus pais algum dia para ficar com sua mulher. O texto não apresenta indícios para antigas organizações matrilineares, nas quais o homem passou a morar com a família da mulher.

Havah (”mãe de tudo o que é vivo”/ fertilidade) está com certeza na tradição de uma antiga Deusa-mãe, mas agora é substituída pela mulher israelita. A posição destacada de Gn 2-3 na história javista das origens e no Pentateuco insinua que Adão e Eva significam personagens corporativos, homem e mulher em Israel como tais. Schroer346 ainda diz que os personagens corporativos aparecem várias vezes nas tradições bíblicas (Moisés como representante do Supremo Tribunal de Jerusalém, Aarão como representante da classe sacerdotal, Miriã talvez como representante da mulher israelita que depois do segundo êxodo de Israel questiona autoridades, Sifrá e Puá como representantes da categoria das parteiras, etc.). Adão representa o camponês israelita que, com sofrimento, tira o fruto da terra. Eva (Havah) representa a mulher israelita cuja vida é marcada e também ameaçada por gravidezes. O texto silencia que Eva, na sociedade aldeã agrícola, também deve ter trabalhado na roça como camponesa. Assim, torna invisível o trabalho de mulheres.

346

Homem e mulher não são atingidos com a mesma dureza na luta pela existência fora do paraíso. A mulher é atingida duplamente. A relação entre homem e mulher em Israel é cacacterizada , por um lado, por vínculo e afeto, mas, por outro, pela dominação do homem. Nessa narrativa, mítica, a mulher assume o papel de conselheira. Ela é ativa; o homem reage a seus estímulos. Ela se interessa por aquilo que é proibido, por coisas que vão além da mera sobrevivência: vida sem morte e sabedoria. Ela toma suas decisões. De fato, o papel da conselheira do marido é a tarefa provavelmente mais importante da esposa israelita, mais importante do que seu papel de dona de casa importante da esposa israelita, mais importante do que seu papel de dona de casa. É uma regra fixa que o homem segue o conselho da mulher e aceita seu ensinamento e a única exceção é Jó com Sitis.

Essa posição poderosa da mulher na casa e também o papel de conselheira desempenhado pelas rainhas-mães foram com certeza também hostilizados pelos homens israelitas. Em Gn 3, Havah é apresentada claramente no papel tradicional, mas como má conselheira, cujo conselho não leva à salvação, mas à desgraça para todos, assim como Sitis estava sendo julgada pela teologia do templo.

O contexto faz supor que se trata aqui da influencia das mulheres em questões religiosas, de sua preferência por àrvores e serpentes, sua busca de sabedoria (Hokmah) autônoma, capacidade de inteligência e vitalidade (vida sem morte). Com isso elas se tornam concorrentes do Deus de Israel e entram numa tensão com o culto do templo a Iahweh.

Conclusivamente, há uma distinção importante (uma novidade) que move todo o prólogo de Jó e que o separa de Gn 1-2. Este segundo Adam nãosucumbiu à tentação. De acordo com o prólogo de Jó a sentença que fora pronunciada no Éden é reversível. E apesar de Jó não ter sido um ‘homem eterno’, mesmo assim, há uma afirmação de que a queda não é a palavra final sobre a condição humana. Na verdade, o prólogo de Jó implica que embora Jó não seja um ‘homem eterno’, cada homem pode ser um Jó e cada mulher uma Sitis.

No documento Download/Open (páginas 122-124)