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HEGEL E A DIALÉTICA DO SENHOR E DO ESCRAVO

Prelúdio histórico O Absolutismo

3. HEGEL E A DIALÉTICA DO SENHOR E DO ESCRAVO

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odemos iniciar nossa disquisição quanto aos aspectos filosóficos do problema do poder político no Estado moderno, quando ameaçado por uma Revolução, com uma curta abordagem do pensamento de He- gel. Mas, em relembrança antropológica inicial, mencionemos que o ho­ mem primitivo, no momento da transição de sua herança símia para a forma proto-humana e humana dos “hominídeos”, vivia presumivelmente em pequenos grupos familiares, semelhantes aos de seus outros primos primatas. Os antropólogos e zoólogos, entre os quais duas americanas que estudaram esses macacos antropóides, chimpanzés e gorilas, espanta­ ram-se com o fato de que eles costumam, ainda que raramente, se empe­ nhar em luta entre os grupos e dentro dos grupos, chegando à morte e ao canibalismo. A guerra já existia portanto, segundo se pòde crer, no mo­ mento em que surgiu a espécie Honto sapiens.

O escritor inglês William Golding, assim como o antropólogo austrí­ aco Konrad Lorenz, ganharam seu Prêmio Nobel por haverem, entre outros, acentuado a herança agressiva de nossa linhagem. A sensação que a teoria da agressividade humana causou, resultante talvez do trauma provocado pela inédita brutalidade da IIa Guerra Mundial, teve o efeito de contribuir para desmanchar as teses românticas de Rousseau sobre a bondade natural do homem, que ainda dominavam a sociologia e a filo­

17 Parte do texto deste capítulo foi publicado na Carta Mensal da Confederação Nacional do Comércio, v d . 3 6 , n*425, agosto de 1990, reproduzindo conferência pronunciada no Conselho Técnico daquela entidade cm julho do mesmo ano.

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sofia política. A afirmação mitológica da maldade inata na natureza hu­ mana encontra-se, como se sabe, na Bíblia. Ela está explicitada no episó­ dio de Caim e Abel, como corolário da tese do Pecado Original; e foi filosoficamente elaborada por Santo Agostinho. Ao se aplicarem à luta violenta com seus semelhantes, os grupos humanos primitivos costuma­ vam matar e comer os inimigos, raptando suas mulheres. Já teria sido instituído o costume da exogamia, que tanto impressionou Freud. E de crer que, só numa etapa muito posterior e relativamente recente da evolu­ ção de nossa espécie, tenhamos considerado a vantagem de escravizar, em vez de eliminar o adversário. A sociedade de clãs e tribos se formava nes­ sas condições de violência e estruturação hierárquica, com indivíduos

alpha e indivíduos inferiores. Ainda hoje, ao nível das tribos selvagens das

florestas ou das savanas africanas, descobrimos esse tipo de comporta­ mento. Quando principia a história com as primeiras civilizações urbanas, já estão plenamente estabelecidos a ordem monárquica, a estratificação hierárquica e o vezo opressor e guerreiro da sociedade humana. O papel que Hegel desempenhou na história da filosofia se deve sem dúvida, entre outras coisas, ao fato de haver sido o primeiro pensador a sustentar, na linhagem aliás de Hobbes, todo o prodigioso edifício filosófico que construía num sólido alicerce de dialética do poder e da violência, da luta c da procura da liberdade como justificação do Estado.

O pensamento original de Hegel não era propriamente revolucioná­ rio ou revolucionarista. Para o jovem Georg Wilhelm Friedrich a natureza sempre se repete. “Nada há de novo sob o sol”. A idéia de revolução reverte à concepção copernicana original de cicias eternamente repetidos. A filosofia hegeliana posterior tanto se traduziu no Eterno Retomo dos historicistas da linha de Spengler, Toynbee e outras, quanto no Apocalip­ se revolucionário dos ativistas totalitários da esquerda e da direita. Como salienta Eliadc em O Mito do Eterno Retomo, a postura de Hegel não se distingue claramente da visão do mundo do primitivo ou do homem antigo, que viam a realidade terrena sob a forma de um eterno fluir do padrão arquetípico representado pelo acontecimento cosmogònico exemplar. Hegel é absolutista. Ele pretende alcançar a síntese final no processo dialético das contradições — e nisso jaz, precisamente, o efeito perverso que teve seu “sistema”. Retomando a linha das concepções pré-

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cristãs do eterno'retorno, do movimento cíclico, rotativo, o historicismo revolucionário adotou a casmovisão, retirada das ciências naturais, de um movimento inevitável e presidido por Leis independentes da vontade humana. Mais de dois mil anus de história e de progresso no pensamento humano se viram atiradas levianamente no caixão de lixo da filosofia.

E a história que introduz a liberdade do sempre novo, do algo de inédito e original. Sc a história, ao contrário da natureza, não se repete, acontece que cia possui, segundo Hcgel, um mecanismo uniforme de tese, antítese e síntese — o que constitui a própria essência dialética da Mente ou Espírito humano — G eistIH. É na sua Fenomenolojjia do Fspiritv que Hegel submete os planas da Providência a esse padrão exemplar que dirige a História. E é também, nesse sentido profundamente contraditó­ rio, que a Filasofia da História de Hegel determinou o surgimento do Historicismo moderno, de tão perniciosas conseqüências sobre a liberda­ de. Na lógica paradoxal do filósofo, a que soberanamente concedeu o título geral de “dialética” — muito embora haja sido Sócrates quem, pela primeira vez c através dos diálogos de Platão, a aplicou no sentido da verdadeira filasofia, após ter sido “inventada” por Zcnão de Eléia c mani­ pulada pelas sofistas — há uma tendência empírica c realista. “Onde quer que haja movimento, onde quer que haja vida... a dialética estará traba­ lhando". A dialética ocorre assim tanto no domínio da natureza ou da história natural, quanto no domínio do pensamento e da história da cul­ tura. (Considerava Hcgel necessária a observação da história tal como ela ocorre, no momento. E por isso se interessava ardentemente pelos acon- tecimentas contemporâneas. Gmhecemas o impacto que lhe causou a Revolução francesa, o imperialismo napoleònico e, posteriormente, a restauração do poder prussiano. E afirmava coerentemente que a leitura diária dos jornais representava uma espécie de “bênção realística da ma­ nhã”. Essa leitura deveria orientá-lo cm suas relações com o mundo c com Deus. Ela constituía a própria expressão do Geist no dia a dia univer­ sal.

Mas a contaminação gnóstico-profética arruinou seu empirismo rea­ lista. G>loca-sc Hcgel na vertente absolutamente aposta à dos grandes

** Uma possível influência da »cita Zervanista do antigo Iran nobre o Arqudripo do Terceiro Kst<%io será mencionada no volume posterior desta obra de filosofia, I.úciftr-Sabaoth.

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empiristas, pragmáticos c radicais anglo-saxõnicos. Foi o Idealismo ro­ mântico dc lima intuição desarvorada c]uc levou o filósofo prussiano a propor a doutrina da Necessidade histórica, doutrina que, na mão dos hegelianos de Hsquerda, se ia transformar na dialética da Necessidade revolucionária, a Diamat comunista. Hm todo momento histórico, arvo­ rado às alturas de um acontecimento na intimidade do Ser divino, Hegel contemplava admirativamente o trabalho do Kspírito Universal que se manifestava dialcticamente. Ora, era só ele, Cíeorg Wilhelm Friedrich, que sabia o que era necessário na história. Só ele, intelecto privilegiado, comungava secretamente com os desejos profundos do(»Yúf. Seu gnosti- cismo arrogante e supremamente temerário abolia aquilo mesmo que antes postulara, a saber, a liberdade humana agindo na história. Bssa liberdade era substituída por sua própria afirmação subjetiva daquilo que a história necessariamente traria. Desse modo, a teologia histórica dos profetas hebraicos, para os quais todo acontecimento histórico c irrever­ sível e fatal porque determinado pela vontade de Deus, se transformou na imanência do Historicismo, presidido pelo (.leist de que c Hegel o profe­ ta.

O aspecto dos ensinamentos de Hegel que Hannah Arendt — em sua obra Ori Rcvolution — aponta como o mais terrível e, do ponto de vista humano, como o paradoxo mais insuportável no corpo do pensamento moderno, c! essa famosa dialética da Liberdade e da Necessidade — Li­ berdade e Necessidade que só coincidem na mente doentia das revolucio­ nários. Diríamos também, essa coincidência insustentável entre o Real e o Racional. Kssc aspecto de marchas e contramarchas, ações e reações, revo­ luções e contra-revoluções que Hegel e seu maior discípulo, Marx, desco­ briram nos acontecimentos, exerceu profunda influência sobre os revolu­ cionários dos séculos XIX c XX, mesmo quando nunca hajam lido Marx ou chegado, sequer, a entender as teses primárias dc Hegel. Knquanto vivendo ainda sob a influência do “signo das contradições" do pensamen­ to clássico c cristão, as homens consideraram a história, com suas terríveis antinomias e irracionalidades, como produto incompreensível tios desíg­ nios inescrutáveis da Providência; ou, nas termas de Kant, como o resul­ tado dc “acasos melancólicos"; ou, ainda, no» termas de Cioethe, como “uma mistura dc violência c falta dc sentido”. Mas a partir dc Hegel,

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passou a História a ser o resultado da Necessidade absoluta, por ele ade­ quadamente interpretada e racionalizada. Com seu gosto pelas declara­ ções apocalípticas espalhafatosas, o próprio Hegel descreveu o ano de 1789 como o momento em que o Céu e a Terra se tornaram reconcilia­ dos. O paradoxo orwelliano que faz da Liberdade o fruto da Necessidade é um corolário dessa reconciliação dialética do divino e do terreno. “O direito, a ordem ética, o Estado”, acentuava Hegel em sua Filosofia da

História, “constituem a única realidade positiva e a única satisfação da

liberdade”. Podemos acrescentar que essa proposição não é mais arbitrá­ ria do que o fato de o mais sombrio despotismo jamais registrado na história da humanidade ter sido considerado, durante 70 anos, em muitos países subdesenvolvidos e para uma grande parte dos intelectuais dos mais avançados, como o grande promotor da Justiça e da Liberdade.

Em Hegel, a dialética da Necessidade e da Liberdade, correlaciona-se ou é a tradução intelectual direta da dialética da Revolução e da contra- revolução. Marx vulgarizou a idéia de uma Necessidade revolucionária que se inscreve na “marcha inexorável da História”. Ardentemente criti­ cada entre outros por Popper, a pobreza dessa concepção historicista teve as mais deploráveis conseqüências. A proclamação e a crença fanática na necessidade revolucionária tiveram, paradoxalmente, o efeito de lhe esti­ mular o ímpeto. Quando as chamadas “condições objetivas”, na sociedade moderna, não parecem comprovar a iminência do movimento, os mais exaltados, privados como estão das escapatórias do duelo, da aventura exploratória e outras saídas para a energia juvenil, descambam para a guerra e o terrorismo. Ionesco escreveu com ironia que se a história hou­ vesse marchado — em Stalingrado, por exemplo, ou no desembarque da Normandia — no sentido de Hitler, todos os povos e os ideólogos repe­ tiriam a metafísica racista, que se transformaria em dogma sobre os quais se fundaria uma nova ciência do homem. Foram os exércitos de Zhukov, Eisenhower e MacArthur que mudaram a metafísica e a antropologia de nosso tempo. Se Hitler houvesse vencido, os grandes Profetas de nossa época seriam Hegel, Gobineau e H. S. Chamberlain, ao invés de serem Marx e Freud.

Essa concepção da Revolução como implícita e necessária na História — a concepção fundamentalmente historicista — já se encontra na fórmu-

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la arrogante de Hegel quando afirma: “quanto à prova, não sou eu mas a história, no seu término, que a administrará”... A crença na fatalidade da Revolução, combinada com a necessidade imediata, imposta pela praxis segundo Lênin, conduz a aproveitar a ocasião quando as “condições ob­ jetivas” ainda não estão maduras. O resultado foi o que se viu na Rússia: a tirania leninista e estaliniana, e o Estado burocrático de Brejhnev. Apa­ rece então o que Ellul chama o conceito da “revolução traída”. Os intelec­ tuais começam a procurar álibis para o fracasso. E desenterram explica­ ções para o crescimento monstruoso do Leviatã dinossáurico quando a

Vulgata prometia seu definhamento. Surge a “doutrina das explicações”,

tão favorecida pelos professores universitários. Nós mesmos no Brasil chegamos a assistir, por exemplo, o venerável Dr. Amoroso Lima sair de seus confortos burgueses e católicos para explicar, ora que stalinismo não e socialismo, ora que a Rússia soviética era muito mais tzarista do que marxista. O fato é que a teoria da “condição objetiva” foi desmentida em 1989, pela situação de fato — em Berlim. E uma pena, mas é isso mes­ mo!

A ambigüidade da dialética da concepção cíclica pagã c da concepção linear judeo-cristã se resolve nesse caráter tremendo, inédito e apocalípti­ co que tomou a Revolução no século XX. O uso moderno do termo im­ plica que a Revolução possui agora um caráter final e definitivo. Os pró­ prios teólogos ditos “progressistas” ou “da Libertação” não negam seu desejo de inaugurar, agora mesmo, o Reino absoluto de Deus na terra. Mesmo na América Latina, onde as revoluções sempre foram fenômenos cíclicos, meros golpes de estado ou pronunciamentos eternamente recor­ rentes, espécie de badernas de punks adolescentes cm madrugada de be­ bedeira, cada uma delas se proclama a si mesma final e definitiva. Hannah Arcndt comentou, com certa melancolia, que a triste verdade é que a Revolução americana, de resultados tão positivas e duradouras, permane­ ceu como um acontecimento de importância local, ao passo que, havendo terminado em desastre, a Revolução francesa tornou-se na história mun­ dial o arquétipo de toda revolução. Isso a tal ponto que as próprias ame­ ricanas são inclinadas hoje a interpretar a sua Revolução à luz de 1789 c a criticar o fato de que ela não se teria conformado às lições da Revolução francesa, por não haver abordado a questão social. Toda a obra de Arcndt

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constitui uma tentativa hercúJea de provar que o Governo republicano na América constitui um dos maiores, senão o mais audacioso empreendi­ mento da humanidade européia. É verdade que talvez tenha ela sido de­ masiadamente pessimista. Afinai de contas, a Revolução americana, mais do que a francesa, serviu de modelo para os movimentos de libertação nacional anticolonialistas do século XIX, na América Latina, e século XX, na África, Ásia e na própria Europa. Mas talvez correta seja sua formula­ ção no sentido que a Revolução americana não se submeteu, nem criou o mito da Revolução. Permaneceu pragmática, moderada, reformista, quase pacífica. Sobretudo institucionalizou-se. E essa, essencialmente, a grande tese da pensadora política teuto-judaico-americana. Na linha aliás de Burke, que insistia: “Adake the Revolution a parent o f settlement, not a nur-

sery offuture revolutions”.

O fascínio mágico do Mito historicista da Revolução, gerado por Hegel, ganhou prestígio universal com a Revolução bolchevista. Arendt comenta, ainda mais melancolicamente, que só a dupla compulsão da ideologia, vinda de dentro, e do terror, vindo de fora, explica a passivida­ de masoquista com que os revolucionários de todos os países que sofre­ ram a influencia das Revoluções francesa e russa se encaminharam para seu destino trágico e se reconciliaram com a sorte desastrosa. Isso se tor­ nou parte integrante da compulsão que se impõem a si mesmos pelo peasamento ideológico de nossos dias. Há algo de tragicamente burlesco na maneira como as intelectuais da Esquerda aceitaram o papel que lhes era determinado pela “história” c se entredevoraram de acordo com o princípio de que a Revolução necessariamente canibaliza seus filhos. Eles se tornaram inimigos uns dos outros. E os que sobraram, em inimigos desconhecidos, em “suspeitos”, instrumentos de “forças ocultas” que resistiam ao ímpeto revolucionário. De um lado, os indulgentes, do outro os enragés, de linha dura. De um lado os Danton, do outro os Hébert; de um lado os Schleicher e os junkers prussianos, do outro Rohm, os SA proletários, Himmler e os SS robotizados; de um lado, os mencheviques e Piekhanov, do outro os leninistas e trotskistas, todos trabalhando “objetivamente” para deturpar em massacre mútuo o sentido supremo da Revolução. A Revolução foi sempre salva pelo homem do meio que, muito Jonge de ser um moderado, devia atuar com a maior violência

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contra a esquerda e contra a direita, liquidando a oposição de um lado e do outro. Pelo Terror em suma. Stálin foi o protótipo. “Eles tinham ad­ quirido a capacidade de desempenhar qualquer papel que o grande drama da história lhes pudesse impor”, escreve Arendt, “e, se nenhum papel sobrasse senão o de vilão, sentiam-se mais do que dispostos a aceitar esse papel, contanto que não permanecessem fora da peça”. Esses homens, conclui, “foram burlados pela história como tolos e se tornaram os bufôes da história” I9.

A importância de Hegel para nosso século não me parece, contudo, resultar dessa simples descoberta. E o fato que ele, Georg Wilhelm Frie- drich, entre todos os pensadores modernos, foi o que mais claramente proclamou a hegemonia do político como expressão — como dizia ele — do Espírito Absoluto. Hegel é essencialmente o filósofo da política. Se ele vislumbra o Espírito do Mundo montado num cavalo branco, vencendo a batalha de Iena e destruindo o exército prussiano — aquela famosa má­ quina de guerra tão cuidadosamente fabricada por Frederico IIo — no momento mesmo em que Hegel, naquela cidade, concluía a Fenomotolo-

£ia\ se esse Espírito do Mundo se manifesta, cm toda sua glória, sob a

espécie de Napoleão Bonaparte, Imperador dos Franceses e filho da Re­ volução — ia agora o mesmo Weltyeist triunfar na.política, graças à filo­ sofia dialética e histórica de Hegel. Política e História: é a Vontade de Poder que ambas determina — este o horizonte do pensamento hegeliano — e cabe prioridade a Nietzsche por essa compreensão! Se levarmos em conta, além disso, que a essência do Cristianismo é a negação dialética da política, a política como reino específico do Anticristo, ao arvorar o con­ flito entre amor e poder como centro dinâmico da Consciência humana — podemos avaliar o grau de contaminação da obra de Hegel pelo espíri­ to luciferiano que domina a modernidade.

Retomando nisso o conceito clássico dos sofistas gregas, é o homem, para Hegel, estruturado coletivamente numa sociedade política, isto é, no Estado. Torna-se este a unidade singular de significado histórico. A polis integra totalmente as cidadãas. É uma Ganzheit, um holismo. Hegel levou às suas últimas conseqüências a definição de Aristóteles do homem como animai político. O homem seria, realmente, um ser por essência

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político, um ser que maneja o poder, um ser luciferiano. Explica-se como tal seja a filosofia que emergiu de Hegel um historicismo. “A experiência do que é Espírito (Geist) é o Ego que é o nós, uma pluralidade...”. A mente coletiva toma-se uma realidade concreta no momento em que a Razão ( Vemunft) alcança a intersubjetividade e se torna Espírito. Nesse sentido, se a filosofia do maitre à penser de Iena é polêmica e se presta às mais variadas e contraditórias interpretações num debate que até hoje não cessou, é porque nosso sécuio brutal é o século da polêmica político- ideológica. O hegelianismo não pode ser examinado fria e objetivamente. Sê-lo-á sempre emocionalmente. Está sujeito ao tumulto das preconceitos político-ideológicas de quem o aborda. Por essa razão é o hegelianismo descrito como o Velho Testamento do totalitarismo o que levou Popper a colocar Hegel, juntamente com seu discípulo Marx, como o principal inimigo moderno da Sociedade Aberta. Através do Socialismo, do Fas­ cismo, Marxismo, Racismo, Nacionalismo, do Totalitarismo em suma, o Espírito Absoluto de Hegel gera um Holismo, uma imersão do indivíduo na totalidade do coletivo que, cruelmente, se encarnou em nossa época, de tal modo que a luta contra o Hegelianismo configura a própria essên­ cia do Kultwrkcmpf em que se devem empenhar, com ardor, aqueles que postulam a preeminência, sobre as massas, do indivíduo livre e singular.

O cerne do complexo e passavelmente ininteligível filosofar de Hegel encontra-se no célebre episódio da dialética do Senhor e do Escravo — “Dominação e Servidão” — na IVa Parte da Fmomcnologia, do Espírito. Publicada cm 1807, é esta a primeira das grandes obras do filósofo ale­ mão, servindo de introdução a todo o resto. Detenhamo-nos na análise